{"id":13814,"date":"2025-06-29T08:53:26","date_gmt":"2025-06-29T11:53:26","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?page_id=13814"},"modified":"2025-06-29T08:53:26","modified_gmt":"2025-06-29T11:53:26","slug":"a-solidao-do-psicotico","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/vi-jornadas-ebp-secao-lo-encontros-e-desencontros-parcerias-sintomaticas-textos-de-orientacao\/a-solidao-do-psicotico\/","title":{"rendered":"\u201cA solid\u00e3o do psic\u00f3tico\u201d"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column]<div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\"><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<em><strong>IORDAN GURGEL &#8211; (AME-EBP\/AMP)<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma refer\u00eancia presente no argumento do Eixo I (O que dizer das parcerias nas psicoses e no autismo?)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> \u2013 <em>\u201cV\u00ea-se, em Joyce com Nora, um encontro contingente, que coloca em jogo tudo o que marca cada falasser: o tra\u00e7o de seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual, a solid\u00e3o, o real da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe\u201d<\/em> \u2013 deu-me o mote para trazer esta contribui\u00e7\u00e3o ao Boletim <em>Desequil\u00edbrio<\/em>.<\/p>\n<p>Como sabemos, a solid\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de todo sujeito que fala. Isso significa que, ao se dirigir ao Outro, h\u00e1 sempre algo que n\u00e3o se transmite, algo que n\u00e3o se compartilha completamente. Trata-se da solid\u00e3o pr\u00f3pria do sujeito falante: a linguagem \u2013 enquanto campo do Outro \u2013 nunca consegue dar conta da experi\u00eancia de gozo, daquilo que escapa \u00e0 significa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, para Lacan, o sujeito se constitui a partir da linguagem, na rela\u00e7\u00e3o com o Outro. Mas essa rela\u00e7\u00e3o jamais \u00e9 de completude: h\u00e1 sempre um furo, uma falta estrutural. E \u00e9 nessa condi\u00e7\u00e3o que a solid\u00e3o surge \u2013 n\u00e3o como um isolamento contingente, mas como efeito estrutural do fato de sermos sujeitos do inconsciente. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do sujeito neur\u00f3tico.<\/p>\n<p>Na psicose, por\u00e9m, a solid\u00e3o adquire outra ordem, pois h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o alterada com o Outro: verifica-se a foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai, o que implica a aus\u00eancia do significante que permitiria regular a cadeia significante a partir do Outro \u2013 n\u00e3o se estabelece a met\u00e1fora paterna capaz de operar uma normatiza\u00e7\u00e3o do gozo. Como consequ\u00eancia, sem a prote\u00e7\u00e3o do significante Nome-do-Pai, o sujeito fica exposto a uma rela\u00e7\u00e3o mais direta e intrusiva com o gozo e com a linguagem.<\/p>\n<p>Nos casos em que o Outro n\u00e3o se estabiliza, a solid\u00e3o ganha outro estatuto: n\u00e3o deve ser tomada apenas como efeito da estrutura simb\u00f3lica, mas como condi\u00e7\u00e3o de ex\u00edlio radical do la\u00e7o social, que pode se manifestar tanto pelo retraimento quanto pela erotomania, mas tamb\u00e9m pelos fen\u00f4menos elementares \u2013 enquanto tentativas de adapta\u00e7\u00e3o. Como dizia Cl\u00e9rambault, o del\u00edrio e a alucina\u00e7\u00e3o s\u00e3o companhias para o psic\u00f3tico<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>; \u00e9 o Outro que fala e o faz falado. Podemos lembrar do in\u00edcio da doen\u00e7a de Schreber, quando ele inicia seu afastamento social, se isola, delira e alucina, como uma forma de tratamento frente \u00e0 solid\u00e3o, consequente ao imposs\u00edvel de significantizar, decorrente da foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai \u2013 era um modo singular de reordenar sua realidade.<\/p>\n<p>Na cl\u00ednica das psicoses, a solid\u00e3o pode assumir aspectos radicais. Pela foraclus\u00e3o do Nome-do-Pai e, em consequ\u00eancia, justamente porque o Outro nunca \u00e9 inteiramente acess\u00edvel, a solid\u00e3o no amor e no gozo se manifesta, e ocorre uma disrup\u00e7\u00e3o no sentimento de vida do sujeito. O psic\u00f3tico, em raz\u00e3o de sua dificuldade estrutural de se relacionar com o Outro, experimenta a solid\u00e3o por excel\u00eancia: est\u00e1 essencialmente s\u00f3, como se observa na cl\u00ednica da loucura. O melanc\u00f3lico se exila em seu excesso de culpa e autorreprova\u00e7\u00e3o; o paranoico, em sua certeza persecut\u00f3ria; e o esquizofr\u00eanico, na indiferen\u00e7a absoluta<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que essa solid\u00e3o essencial n\u00e3o basta para tratar o insuport\u00e1vel foraclusivo que motivou tal retirada. No entanto, \u00e9 justamente esse desconforto que abre a via para um pedido de socorro e, a partir de um encontro com o analista, essa solid\u00e3o estrutural pode encontrar algum abrandamento.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o que nos orienta na dire\u00e7\u00e3o do tratamento: o encontro do psic\u00f3tico com um analista constitui-se como um recurso frente \u00e0 solid\u00e3o devastadora que imp\u00f5e a certeza, o mutismo e o bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1 interior que o levam a se perder em si mesmo. \u00c9 justamente esse ponto que precisa ser escutado e acolhido<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. A\u00ed reside o essencial do encontro: que a loucura possa se manifestar e ser escutada. Cabe ao analista possibilitar esses encontros e permitir ao sujeito encontrar um lugar no Outro que acolha sua certeza \u2013 sem a questionar \u2013 e esteja disposto a, sucessivamente, reencontr\u00e1-lo e suportar sua desordem. Por isso, a rela\u00e7\u00e3o do psic\u00f3tico com o Outro \u00e9 sempre problem\u00e1tica e exige, para regular o gozo invasivo, uma supl\u00eancia, uma inven\u00e7\u00e3o particular para lidar com esse Outro, que n\u00e3o se apresenta de entrada como consistente.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Por Rosangela Ribeiro (EBP\/AMP) e Bartyra Ribeiro de Castro (EBP\/AMP).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Citado por Jos\u00e9 Mar\u00eda \u00c1lvarez em \u2018Princ\u00edpios de uma psicoterapia de la psicoses\u2019, Xoroi Edicions, 2020, p.94.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Idem, p.79.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Ibidem, p. 16<\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]IORDAN GURGEL &#8211; (AME-EBP\/AMP) Uma refer\u00eancia presente no argumento do Eixo I (O que dizer das parcerias nas psicoses e no autismo?)[1] \u2013 \u201cV\u00ea-se, em Joyce com Nora, um encontro contingente, que coloca em jogo tudo o que marca cada falasser: o tra\u00e7o de seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual, a solid\u00e3o, o real da&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":13810,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-13814","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13814"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13814\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13815,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13814\/revisions\/13815"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13810"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}