{"id":13741,"date":"2025-05-05T08:40:53","date_gmt":"2025-05-05T11:40:53","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?page_id=13741"},"modified":"2025-05-05T08:41:23","modified_gmt":"2025-05-05T11:41:23","slug":"toxicomania-a-dorga-como-parceiro-de-gozo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/vi-jornadas-ebp-secao-lo-encontros-e-desencontros-parcerias-sintomaticas-eixos-tematicos\/toxicomania-a-dorga-como-parceiro-de-gozo\/","title":{"rendered":"Toxicomania: a droga como parceiro de gozo"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column]<div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\"><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<span style=\"font-size: 13px;\">Cristiano Alves Pimenta EBP\/AMP<\/span><\/p>\n<p>O uso da droga constitui, para o sujeito toxic\u00f4mano, uma aut\u00eantica experi\u00eancia de gozo. Na origem, na primeira vez, como \u00e9 relatado em alguns casos, essa experi\u00eancia produziu, de algum modo, uma perturba\u00e7\u00e3o da ordem de um verdadeiro e inesquec\u00edvel acontecimento de corpo. Esse acontecimento <em>\u00fanico<\/em> tem para o sujeito o valor de traumatismo. O uso da droga pode ser, nesses casos, a repeti\u00e7\u00e3o dessa <em>primeira vez<\/em> com a mesma intensidade vivida. Miller<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> afirma que \u201co que Lacan chama de sinthoma est\u00e1 no n\u00edvel da adi\u00e7\u00e3o \u2013 o gozo repetitivo da adi\u00e7\u00e3o s\u00f3 tem rela\u00e7\u00e3o com o significante Um sozinho, com o S1\u201d. O gozo repetitivo da adi\u00e7\u00e3o fornece o modelo do gozo do sinthome. Trata-se aqui das repeti\u00e7\u00f5es que nada acrescentam de novo, e tamb\u00e9m n\u00e3o produzem nenhum saber a ser aprendido. O sujeito apenas revive o mesmo deslumbramento desse primeiro e inesquec\u00edvel encontro traum\u00e1tico. Na adi\u00e7\u00e3o estamos no regime do gozo que itera.<\/p>\n<p>No tratamento de sujeitos toxic\u00f4manos encontramos os casos em que o uso da droga produz na vida do sujeito um gozo mort\u00edfero que pode impedi-lo de toda e qualquer forma de la\u00e7o social. A droga, nesses casos, tornou-se <em>o \u00fanico<\/em> parceiro. A quest\u00e3o aqui \u00e9 saber se o psicanalista \u2013 seja numa institui\u00e7\u00e3o, seja no consult\u00f3rio \u2013 teria condi\u00e7\u00f5es de se imiscuir nessa parceria fomentando nela a parceria com a palavra. Em outros termos, \u00e9 poss\u00edvel fazer surgir os efeitos de verdade no tratamento do toxic\u00f4mano? \u00c9 poss\u00edvel que o sujeito consinta com uma certa perda de gozo? N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que fomentar a parceria com a palavra \u00e9 um desafio que se estende para al\u00e9m das toxicomanias. O gozo com a droga, eventualmente silencioso, poderia ceder ao gozo <em>com<\/em> a palavra, ainda que fosse l\u00e1 onde o sujeito fala sozinho?<\/p>\n<p>Caber\u00e1 ao psicanalista, seja no consult\u00f3rio ou na institui\u00e7\u00e3o, saber avaliar. Aqui vale mencionar um caso cl\u00ednico apresentado por Pablo Sauce no N\u00facleo de Toxicomania do IPLO. Neste caso, Pablo julgou que o sujeito internado em uma institui\u00e7\u00e3o de tratamento n\u00e3o poderia ser privado do uso de certa subst\u00e2ncia na medida em que essa lhe era necess\u00e1ria para manter um v\u00ednculo com a vida. Esse \u00e9 o ponto em que as toxicomanias nos advertem para o fato de que retirar o gozo que sustenta o sujeito pode ser, pelo menos em alguns casos, catastr\u00f3fico. E que o gozo, ainda que tenha sempre uma face ligada \u00e0 puls\u00e3o de morte, \u00a0tamb\u00e9m conserva a outra face ligada \u00e0 puls\u00e3o de vida.<\/p>\n<p>O que se conclui disso \u00e9 que \u00e9 fundamental que o psicanalista se interrogue a <em>fun\u00e7\u00e3o<\/em> que do gozo da droga tem para cada sujeito. \u00c9 poss\u00edvel substituir esse gozo, desloca-lo, diminu\u00ed-lo, de modo a permitir que ele seja menos danoso e mort\u00edfero ao sujeito? \u00c9 poss\u00edvel transform\u00e1-lo em um sintoma no sentido freudiano, quer dizer, \u00e9 poss\u00edvel enigmatizar esse gozo? N\u00e3o faltam casos em que a enigmatiza\u00e7\u00e3o se mostra imposs\u00edvel. \u00c9 nesse sentido que Miller nos diz que o tratamento do toxic\u00f4mano obriga os analistas a uma li\u00e7\u00e3o de mod\u00e9stia.<\/p>\n<p>Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o faltam, na cl\u00ednica, pacientes que possuem parcerias amorosas relativamente bem sucedidas e mant\u00e9m os la\u00e7os sociais, ainda que fa\u00e7am uso constante de alguma subst\u00e2ncia. Qual a fun\u00e7\u00e3o a droga tem nestes casos? Certamente, esses n\u00e3o s\u00e3o casos em que podemos encontrar o toxic\u00f4mano no sentido indicado por Lacan, quando formula que o toxic\u00f4mano \u00e9 aquele sujeito que efetuou \u201cuma ruptura no casamento com o faz pipi\u201d. Que Lacan tenha usado nessa breve f\u00f3rmula a palavra \u201ccasamento\u201d n\u00e3o \u00e9 sem resson\u00e2ncias, na medida em que s\u00e3o incont\u00e1veis os casos de sujeitos que veem seus casamentos irem por \u00e1gua abaixo na medida em que as doses aumentam. No filme sueco <em>Drunk, mais uma rodada<\/em> (2020) \u2013 j\u00e1 discutido no N\u00facleo de Toxicomania (Tya) do IPLO \u2013 vemos um grupo de amigos homens testar a teoria de que ser\u00e3o mais felizes e bem sucedidos se mantiverem diariamente um certo percentual de \u00e1lcool no corpo. Depois de perder o controle e se entregar ao excesso, vemos Martin, o personagem principal, lutar desesperadamente para recuperar seu casamento.<\/p>\n<p>A complexidade dessas rela\u00e7\u00f5es com a droga nos levam a perguntar tamb\u00e9m pelo modo como a droga se coloca em cada estrutura. A f\u00f3rmula de Lacan (a droga \u00e9 o que permite romper o casamento com o faz pipi) se refere aos sujeitos que possuem um faz pipi, <em>o<\/em> <em>falo<\/em>, pois, \u00e9 preciso t\u00ea-lo para que seja poss\u00edvel romper com ele. Ou seja, trata-se de sujeitos que possuem em sua estrutura a fun\u00e7\u00e3o do nome do Pai, mas que rompem com o gozo f\u00e1lico. De modo mais estrutural, essa ruptura com o gozo f\u00e1lico deve ser entendida como uma ruptura com o gozo sustentado pela fantasia. Portanto, o gozo do toxic\u00f4mano \u00e9 aquele que, como sublinha \u00c9ric Laurent em \u201cTr\u00eas observa\u00e7\u00f5es sobre a toxicomania\u201d, torna poss\u00edvel \u201cgozar sem a fantasia\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, a f\u00f3rmula lacaniana da toxicomania n\u00e3o se aplica aos sujeitos psic\u00f3ticos, j\u00e1 que estes, em decorr\u00eancia da foraclus\u00e3o paterna (P0), n\u00e3o possuem nenhum falo (\u03c60). Cito um caso que Laurent utiliza para falar do uso da droga na psicose:<\/p>\n<p>\u201c&#8230;me ocorreu encontrar toxic\u00f4manos psic\u00f3ticos. Pessoas que n\u00e3o se apresenta sob o modo \u201ceu sou toxic\u00f4mano\u201d. Eles s\u00e3o outra coisa, mesmo se entre outros, tomam um certo n\u00famero de t\u00f3xicos, seguramente, eles n\u00e3o s\u00e3o toxic\u00f4manos. Encontrei um no hospital, ele estava ali por um assunto de fam\u00edlia. Ele faz notar que a quest\u00e3o em sua fam\u00edlia era a heran\u00e7a. Como era uma fam\u00edlia camponesa, ele repetia todo o tempo \u201ca quest\u00e3o s\u00e3o as terras\u201d (les question c\u2019est les terres\u201d). Este homem era viciado em \u00e9ter (l\u2019\u00e9ther). A\u00ed estava claro que o gozo da subst\u00e2ncia, o \u00e9ter que ele inalava, vinha no lugar, era o retorno no real deste gozo extra\u00eddo do Nomem-do-Pai, que era para ele a heran\u00e7a das terras\u201d.<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o poder\u00edamos perguntar se a desmedida do gozo que a droga produz n\u00e3o teria, de modo mais geral, afinidades com o gozo desmedido que encontramos nas psicoses? Pois, se \u201co que Lacan chama de sinthoma est\u00e1 no n\u00edvel da adi\u00e7\u00e3o\u201d, ent\u00e3o o gozo do toxic\u00f4mano tem afinidade com \u201co gozo enquanto tal\u201d. Esperamos que os trabalhos escritos para esse eixo nos permitam avan\u00e7ar nessa discuss\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 17, o avesso de uma an\u00e1lise<\/em>. Zahar. Rio de Janeiro.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 23, o sinthoma<\/em>. Zahar. Rio de Janeiro.<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">LAURENT, E. Tr\u00eas observa\u00e7\u00f5es sobre a toxicomania; in Pharmakondigital.com<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, J.-A. <em>A droga da palavra<\/em>, <em>in<\/em> pharmakongital.com<br \/>\n<\/span><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, J.-A. <em>O ser e o Um<\/em>; In\u00e9dito; 2011.<\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> J.-A. MILLER; <em>O ser e o Um<\/em>; In\u00e9dito, 2011.<\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]Cristiano Alves Pimenta EBP\/AMP O uso da droga constitui, para o sujeito toxic\u00f4mano, uma aut\u00eantica experi\u00eancia de gozo. Na origem, na primeira vez, como \u00e9 relatado em alguns casos, essa experi\u00eancia produziu, de algum modo, uma perturba\u00e7\u00e3o da ordem de um verdadeiro e inesquec\u00edvel acontecimento de corpo. 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