{"id":13738,"date":"2025-05-02T15:53:27","date_gmt":"2025-05-02T18:53:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?page_id=13738"},"modified":"2025-05-02T15:53:27","modified_gmt":"2025-05-02T18:53:27","slug":"parceiro-fantasma-e-parceiro-devastacao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/vi-jornadas-ebp-secao-lo-encontros-e-desencontros-parcerias-sintomaticas-eixos-tematicos\/parceiro-fantasma-e-parceiro-devastacao\/","title":{"rendered":"Parceiro fantasma e parceiro devasta\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column]<div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\"><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<span style=\"font-size: 13px;\">Jaqueline Coelho e T\u00e2nia Regina Anchite Martins<\/span><\/p>\n<p><strong>Parceria sinthom\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p>Entre 1910 e 1918, Freud elaborou alguns textos que ele mesmo reuniu sob uma s\u00e9rie intitulada \u201cContribui\u00e7\u00f5es para a psicologia da vida amorosa\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. S\u00e3o eles: \u201cSobre um tipo particular da escolha de objeto nos homens\u201d (1910), \u201cSobre a mais geral degrada\u00e7\u00e3o da vida amorosa\u201d (1912), e \u201cO tabu da virgindade\u201d (1918). De maneira geral, poder\u00edamos dizer que a sexualidade masculina \u00e9 que ganha destaque nessa investiga\u00e7\u00e3o. Ainda que haja dedicado nomeadamente dois textos ao tema da vida sexual da mulher, Freud n\u00e3o logrou desembara\u00e7ar-se das supostas solu\u00e7\u00f5es pela via f\u00e1lica e vislumbrou suas limita\u00e7\u00f5es ao considerar a sexualidade feminina como um continente negro para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 20, Lacan nos apresentou o quadro das f\u00f3rmulas qu\u00e2nticas da sexua\u00e7\u00e3o, com dois lados, afirmando que: \u201cquem quer que seja ser falante se inscreve de um lado ou de outro\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><em><strong>[2]<\/strong><\/em><\/a><em>. <\/em>Mas, ele diz: lado homem e lado mulher. Ent\u00e3o, define o lado homem como o que se localiza pela fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica e o lado mulher como o ilimitado. Aqui n\u00e3o h\u00e1 universalidade. \u201cOs homens e as mulheres [&#8230;] s\u00e3o uma quest\u00e3o de escolha, e isso n\u00e3o segue, necessariamente, o sexo biol\u00f3gico<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u201d, o que faz com que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, seja no um a um que a posi\u00e7\u00e3o de gozo deva se verificar.<\/p>\n<p>Estamos falando do falasser, que tem um corpo sexuado. \u201cO gozo do corpo de que se trata \u00e9 um gozo habitado por um sujeito do significante, quer dizer, n\u00e3o um gozo bruto, n\u00e3o um gozo anterior ao significante; no falasser, o gozo do corpo \u00e9 ligado ao significante como sua consequ\u00eancia.\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Na medida em que se tem um corpo, h\u00e1 o gozo de lal\u00edngua.<\/p>\n<p>Tendo isso em vista, Miller introduziu a no\u00e7\u00e3o de parceiro-sintoma, que ele definiu como: em primeiro lugar, \u201cum modo de gozar [&#8230;] do inconsciente, do saber inconsciente, da articula\u00e7\u00e3o significante e do investimento libidinal do significante e do significado;\u201d e, em segundo lugar, \u201cum modo de gozar do corpo do Outro. Mas [&#8230;], o corpo do Outro \u00e9 tanto o corpo pr\u00f3prio como o corpo de outrem\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>No n\u00edvel do sexuado, falamos de gozo do corpo, do corpo que se goza. Portanto, a parceria sintom\u00e1tica feita pelos seres sexuados ocorre no n\u00edvel do gozo pr\u00f3prio. Nessa via, Lacan lan\u00e7ou seu t\u00e3o famoso aforismo: \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d.<\/p>\n<p>Sob que condi\u00e7\u00f5es o Outro se torna um meio de gozo, um instrumento de gozo para cada um? Como se constitui a parceria sintom\u00e1tica em que o Outro se torna o sintoma do falasser, seu meio de gozo? Como o falasser pode se servir do Outro como corpo para gozar? Como o gozo autista que se produz no corpo de Um pode se servir do corpo Outro como alteridade, do fora do corpo, como instrumento? O que as an\u00e1lises nos ensinam?<\/p>\n<p>Do Outro lado, o gozo do corpo pr\u00f3prio, tamb\u00e9m \u00e9 Outro para o falasser, no sentido da estranheza e da falta de localiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Parceiro-fantasma<\/strong><\/p>\n<p>O ser falante, ao se colocar do lado homem, tem como parceiro o objeto <em>a<\/em>. \u201cS\u00f3 lhe \u00e9 dado atingir seu parceiro sexual, que \u00e9 Outro, por interm\u00e9dio disto, de ele ser a causa de seu desejo\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, o fantasma.<\/p>\n<p>A estrutura do Todo x, que encontramos no lado homem do quadro de Lacan, determina, necessariamente, o parceiro-sintoma de quem se coloca neste lado como pequeno <em>a<\/em>. \u201cO pequeno <em>a<\/em> \u00e9 uma unidade de gozo, \u00e9 uma unidade discreta de gozo, separ\u00e1vel, contabiliz\u00e1vel.\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> \u00a0Pode se localizar, enumerar, pode se revelar em uma an\u00e1lise, atrav\u00e9s das fantasias, como uma forma de fetiche que se imp\u00f5e ao parceiro.<\/p>\n<p>Na parceria fantasm\u00e1tica, o modo de gozar do falasser exige que seu parceiro responda a um modelo, \u00e0s vezes um pequeno detalhe \u00e9 o determinante. Falamos de um gozo limitado, localizado, contabiliz\u00e1vel, o que permite ao falasser que se posiciona deste lado um certo saber sobre o que condiciona seu gozo.<\/p>\n<p><strong>Parceiro-Devasta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>\u201cSe uma mulher \u00e9 um sinthoma para todo homem, fica absolutamente claro que h\u00e1 necessidade de encontrar um outro nome para o que um homem \u00e9 para uma mulher [&#8230;]. Pode-se dizer que o homem \u00e9 para uma mulher tudo o que voc\u00eas quiserem, a saber, uma afli\u00e7\u00e3o pior que um sinthoma. [&#8230;] Trata-se mesmo de uma devasta\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o \u00e9 a \u201coutra face do amor\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, j\u00e1 que ambos comungam o mesmo princ\u00edpio, a saber \u201co grande A barrado, o n\u00e3o-todo, no sentido do sem-limite\u201d<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> . Em an\u00e1lise, uma mulher precisa se haver com as quest\u00f5es do amor, ou seja, com sua erotomania. Na rela\u00e7\u00e3o com o parceiro como Outro barrado, ela necessita que o homem lhe fale. Assim, a demanda de amor desempenha fun\u00e7\u00e3o princeps na sexualidade feminina e, \u201ccomporta, em si mesma, um car\u00e1ter absoluto e uma visada ao infinito, que \u00e9 manifestada no fato de que o Todo n\u00e3o est\u00e1 formado, o Todo n\u00e3o faz Um, e isso abre para o infinito, al\u00e9m de tudo o que se pode trocar de material, tudo o que se pode oferecer como prova\u201d.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p>\u201c\u00c0 falta de uma rela\u00e7\u00e3o sexual que existisse, algumas mulheres estabelecem uma rela\u00e7\u00e3o de amor real onde se disputam a devasta\u00e7\u00e3o e o \u00eaxtase\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Esses dois termos indicam as duas faces do gozo feminino para uma mulher. \u00c9 nesse sentido que Lacan nos ensina que n\u00e3o h\u00e1 limites no que uma mulher poder\u00e1 oferecer de si a um homem, podendo sacrificar sua reputa\u00e7\u00e3o, seus filhos, seus bens materiais etc. Aqui, predomina, portanto, a forma erotoman\u00edaca de amar, caracterizada pela exig\u00eancia a um amor ilimitado e insaci\u00e1vel.<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> FREUD. S. (2023) Contribui\u00e7\u00f5es para a psicologia da vida amorosa (1910-1918). Em: Amor, sexualidade, feminilidade. Obras incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte:\u00a0 Aut\u00eantica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. (1982) O Semin\u00e1rio, livro 20, Rio de Janeiro: Zahar p.107.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> MILLER, J.-A. (2015) O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, p. 93.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> MILLER, J.-A. (2015) O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, p. 86.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> MILLER, J.-A. (2015) O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, pp. 89-90<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> \u00a0LACAN, J. (1982) O Semin\u00e1rio, livro 20, Rio de Janeiro: Zahar p.108<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0 MILLER, J.-A. (2015) O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, p.93.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. (2007). O Semin\u00e1rio, livro 23. Joyce, o sinthoma. Rio de Janeiro: Zahar, p. 98.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> MILLER, J.-A. Uma partilha sexual.\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>, ano 7, n. 20, 2016. Dispon\u00edvel em:\u00a0 &lt;\u00a0<a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_20\/Uma_partilha_sexual.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_20\/Uma_partilha_sexual.pdf<\/a>\u00a0<u>&gt;\u00a0<\/u>Acesso em 08 de abril de 2025.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Ibidem.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> MILLER, J.-A. (2015) O osso de uma an\u00e1lise + O inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, (p. 95-6)<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> \u00a0MILLER, D. As duas margens da feminilidade.\u00a0<em>Boletim Infamiliar<\/em>, julho de 2020. Dispon\u00edvel em: &lt;<a href=\"http:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/as-duas-margens-da-feminilidade-2\/\">http:\/\/www.encontrobrasileiro2020.com.br\/as-duas-margens-da-feminilidade-2\/<\/a><u>&gt;<\/u>. Acesso em: 08 de abril de 2025.<\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]Jaqueline Coelho e T\u00e2nia Regina Anchite Martins Parceria sinthom\u00e1tica Entre 1910 e 1918, Freud elaborou alguns textos que ele mesmo reuniu sob uma s\u00e9rie intitulada \u201cContribui\u00e7\u00f5es para a psicologia da vida amorosa\u201d[1]. 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