{"id":13729,"date":"2025-05-02T15:45:59","date_gmt":"2025-05-02T18:45:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?page_id=13729"},"modified":"2025-05-02T15:51:13","modified_gmt":"2025-05-02T18:51:13","slug":"o-que-dizer-das-parcerias-nas-psicoses-e-no-autismo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/vi-jornadas-ebp-secao-lo-encontros-e-desencontros-parcerias-sintomaticas-eixos-tematicos\/o-que-dizer-das-parcerias-nas-psicoses-e-no-autismo\/","title":{"rendered":"O que dizer das parcerias nas psicoses e no autismo?"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column]<div class=\"vcex-spacing wpex-w-100 wpex-clear\"><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]<span style=\"font-size: 13px;\">Bartyra Ribeiro de Castro (EBP\/AMP) e Ros\u00e2ngela Ribeiro (EBP\/AMP)<\/span><\/p>\n<p>Testemunhamos uma \u00e9poca marcada pela inconsist\u00eancia do Outro, pelo Outro que n\u00e3o existe e, mais que nunca, uma \u00e9poca da evapora\u00e7\u00e3o do pai e de fragilidade do la\u00e7o social, por uma falha simb\u00f3lica imprescind\u00edvel para sustentar a realidade subjetiva na qual h\u00e1, cada vez mais, uma satura\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p>Miller, em <em>El partenaire-s\u00edntoma<\/em>, apresenta que, no que tange ao significante, \u00e9 imposs\u00edvel que se compreendam um sexo e outro. Assim, \u201cque n\u00e3o haja rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o impede que haja uma rela\u00e7\u00e3o de gozo com o parceiro-sintoma e que se formem casais em que um para o outro \u00e9 meio de gozo\u201d (2008, p. 411). Assim, o <em>falasser<\/em>, salvo exce\u00e7\u00e3o, se serve do Outro para gozar o gozo no corpo do Um e para gozar passa-se por meio do corpo do Outro.<\/p>\n<p>O aforisma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, na psicose, implica que o fantasma perten\u00e7a ao Outro e se apresente sob a forma de um del\u00edrio invasor. As inven\u00e7\u00f5es encontradas em parcerias, na psicose, podem vir a regular o gozo mort\u00edfero fazendo a supl\u00eancia ao la\u00e7o social. O psic\u00f3tico se apresenta enquanto objeto de gozo do Outro. \u00c9 o que se v\u00ea, por exemplo, na parceria de Joyce com Nora, de forma que a fun\u00e7\u00e3o desta escrita \u00e9 respons\u00e1vel pelo ego do escritor, uma inven\u00e7\u00e3o <em>sinthom\u00e1tica<\/em> que corrige uma falha no n\u00f3 estruturante. Essa inven\u00e7\u00e3o garante um envelopamento do corpo do escritor e uma localiza\u00e7\u00e3o de seu gozo.<\/p>\n<p>Embora tenha vivido outras experi\u00eancias, Nora era-lhe algo singular. Pode-se pensar em uma rela\u00e7\u00e3o sexual? Sim, \u201ccoisa singular, que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sexual, ainda que eu diga que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual. Mas \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o sexual bem esquisita\u201d (LACAN, 2007, p. 81). Assim, compreendemos a conhecida met\u00e1fora lacaniana de que Nora veste Joyce como uma luva.<\/p>\n<p>Em <em>Cartas a Nora<\/em> veem-se demandas de Joyce a torturas, como em Ulysses no masoquismo de Bloom. Lacan enfatiza: \u201cPara Joyce, s\u00f3 h\u00e1 uma mulher [&#8230;] e ele s\u00f3 a enluva com a maior das repugn\u00e2ncias\u201d (<em>Ibidem<\/em>., p. 81). Paradoxalmente, as deprecia\u00e7\u00f5es que Joyce faz a Nora, tornam-lhe a mulher escolhida. \u00c9 aparentemente controverso, pois pode-se dizer que ela \u00e9 o parceiro-sintoma de Joyce, uma vez que a fun\u00e7\u00e3o do amor para ele tem um \u00fanico nome, Nora, localizado em um lugar <em>\u00eaxtimo<\/em>. Lacan ainda comenta que \u201cn\u00e3o \u00e9 apenas preciso que ela lhe caia bem como uma luva, mas que ela o cerre como uma luva. Ela n\u00e3o serve absolutamente para nada\u201d (<em>Ibidem<\/em>, p. 82).<\/p>\n<p>V\u00ea-se, em Joyce com Nora, um encontro contingente, que coloca em jogo tudo o que marca cada <em>falasser<\/em>, o tra\u00e7o de seu ex\u00edlio da rela\u00e7\u00e3o sexual, a solid\u00e3o, o real da rela\u00e7\u00e3o sexual que n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Quanto ao autismo, no entanto, as caracter\u00edsticas apontadas como pr\u00f3prias a esta estrutura, dizem da n\u00e3o-parceria, ou somente do que Miller considera como parceria \u2013 entre o falasser e seu gozo. Faz a exce\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o se servir do Outro para gozar o gozo no corpo do Um. \u00c9 uma estrutura fundada sob o gozo do Um, formada por S1s congelados que iteram numa metamorfose multiplicativa (2021, p.13), marcada pelo autoerotismo, pela defesa radical frente ao desejo do Outro, seus afetos e invas\u00f5es, com uma forma de estar no mundo em que predomina a reten\u00e7\u00e3o dos objetos da puls\u00e3o, que faz obst\u00e1culo a uma subtra\u00e7\u00e3o de gozo \u2013 que seria caracterizada pela aliena\u00e7\u00e3o, que comparece minimamente, mas n\u00e3o pela separa\u00e7\u00e3o \u2013 e, portanto, pela n\u00e3o queda do objeto a.<\/p>\n<p>Mesmo o sintoma precisa ser questionado quanto ao seu estatuto. No autismo, o gozo do falasser, que faz retorno sobre a borda, diz de um sintoma que \u201c[&#8230;] a borda que ele define separa o sujeito do Outro, estabelecendo condi\u00e7\u00f5es para afast\u00e1-lo.\u201d (2011, p.21) \u00c9 uma forma sintom\u00e1tica singular marcada pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 enuncia\u00e7\u00e3o do Outro e por uma impossibilidade para com a sua. Como n\u00e3o h\u00e1, claramente, investimento no vivo, o gozo localizado na borda permite que invente formas de acessar o Outro via objetos aut\u00edsticos, duplos e interesses espec\u00edficos, n\u00e3o, necessariamente, tomando a palavra.<\/p>\n<p>Segundo Maleval, \u201co autista est\u00e1 mais perto de uma rea\u00e7\u00e3o sexual que de uma rela\u00e7\u00e3o de engajamento\u201d, \u201cn\u00e3o \u00e9 da presen\u00e7a do Outro que o autista se protege, mas do vivo, disso que lhe faz sentir os afetos, uma vez que \u00e9 preciso n\u00e3o entrar nos circuitos do engajamento, em que se confrontaria com o desejo do Outro.\u201d (2021, p. 81) O amor e a delicadeza manifestados nas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o sentidas como \u201cinsuport\u00e1veis tentativas de imobiliza-los.\u201d (<em>Idem<\/em>. P.81).<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\"><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas <\/strong><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">JOYCE, J. <em>Cartas a Nora<\/em>. Rel\u00f3gio D\u2019\u00c1gua: Lisboa, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">LACAN, Jacques. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 23: o sinthoma. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">______. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: mais, ainda&#8230; Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">______. <em>O semin\u00e1rio<\/em>, livro 19: ou&#8230; pior. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, J-A. et al.\u00a0<em>La psicosis ordinaria<\/em>:\u00a0<em>la convenci\u00f3n de Antibes<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2009.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MILLER, Jacques-Alain. As duas formas do parceiro-sintoma. In: ______. <em>O osso de uma an\u00e1lise<\/em>: mais o inconsciente e o corpo falante. Rio de Janeiro: Zahar, 2015. p. 77-102.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">______. Efeito do retorno \u00e0 psicose ordin\u00e1ria. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>. S\u00e3o Paulo, ano 1, n. 3, nov. 2010. ISSN. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br Acesso em: dezembro de 2016.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">______. Uma conversa sobre o amor. Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie, Buenos Aires, ano 1, n. 2, 2010. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_2\/Uma_conversa_sobre_o_amor.pdf. Acesso em: 5 set. 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">______. Os seis paradigmas do gozo. <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online nova s\u00e9rie<\/em>. Paris, ano 3, n. 7, p. 1-49, 2012. Dispon\u00edvel em: http:\/\/opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_7\/Os_seis_paradigmas_do_gozo.pdf. Acesso em: agosto de 2020.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">\u2014\u2014\u2014. Pref\u00e1cio. <em>In <\/em>MALEVAL Jean-Claude. <em>La Difference autistique, <\/em>Arguments analytiques, Paris, 2021.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">Berenger E., e Roizner M., <em>Acheminements vers la parole dans l\u2019autisme<\/em>, La Cause Freudienne, 78, Navarin, Paris, 2011.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px;\">MALEVAL Jean-Claude. <em>La Difference autistique, <\/em>Arguments analytiques, Paris, 2021.<\/span>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;13513&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]Bartyra Ribeiro de Castro (EBP\/AMP) e Ros\u00e2ngela Ribeiro (EBP\/AMP) Testemunhamos uma \u00e9poca marcada pela inconsist\u00eancia do Outro, pelo Outro que n\u00e3o existe e, mais que nunca, uma \u00e9poca da evapora\u00e7\u00e3o do pai e de fragilidade do la\u00e7o social, por uma falha simb\u00f3lica imprescind\u00edvel para sustentar a realidade subjetiva na qual h\u00e1, cada vez mais,&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":13522,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-13729","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13729","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13729"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13729\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13735,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13729\/revisions\/13735"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/13522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13729"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}