{"id":12872,"date":"2024-03-28T10:46:22","date_gmt":"2024-03-28T13:46:22","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/?page_id=12872"},"modified":"2024-09-02T06:41:51","modified_gmt":"2024-09-02T09:41:51","slug":"v-jornadas-ebp-secao-lo-corpo-m-e-m-o-r-i-a-argumento","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/v-jornadas-ebp-secao-lo-corpo-m-e-m-o-r-i-a\/v-jornadas-ebp-secao-lo-corpo-m-e-m-o-r-i-a-argumento\/","title":{"rendered":"V Jornadas EBP Se\u00e7\u00e3o-LO \u2013 corpo-m-e-m-o-r-i-a  |  Argumento"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;12868&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h6>Claudia Murta<br \/>\nCoordenadora Geral das V Jornadas da SLO<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-12900 size-medium alignleft\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem003-300x153.png\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"153\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem003-300x153.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/imagem003.png 682w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<p>A proposta do tema, CORPO, M-E-M-\u00d3-R-I-A, a ser trabalhado nas V Jornadas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise Leste-Oeste, inclui em sua apresenta\u00e7\u00e3o os conceitos CORPO, TRA\u00c7O, MEM\u00d3RIA. Do que estamos falando quando pensamos o corpo, o tra\u00e7o, a mem\u00f3ria? Como esses tr\u00eas conceitos se relacionam entre si? O que \u00e9 um tra\u00e7o para a mem\u00f3ria? O que \u00e9 um tra\u00e7o para o corpo? Como a mem\u00f3ria influencia o corpo?<\/p>\n<p>Dos tr\u00eas conceitos a serem operacionalizados, o tra\u00e7o \u00e9 o que faz la\u00e7o entre corpo e mem\u00f3ria. Como esse enla\u00e7amento se d\u00e1? Ainda em escritos iniciais, Freud estabelece as premissas do aparelho ps\u00edquico. Em uma extremidade de seu esquema est\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o e na outra extremidade est\u00e1 a consci\u00eancia; entre as duas tem uma s\u00e9rie de tra\u00e7os de mem\u00f3ria sucessivos, tal como apresenta o desenho freudiano e que constituem os sistemas, inconsciente e pr\u00e9-consciente, considerados sistemas de mem\u00f3ria. Segundo Freud, o aparelho ps\u00edquico se relaciona com o mundo externo via percep\u00e7\u00e3o. Inicialmente existe a experi\u00eancia e o tra\u00e7o da percep\u00e7\u00e3o. Desse modo, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a porta de contato entre a mente e o mundo. O que se percebe? Est\u00edmulos externos que afetam o corpo. Uma vez que o corpo foi afetado pelos est\u00edmulos externos, como interage com o tra\u00e7o e a mem\u00f3ria? O que foi um est\u00edmulo externo, via percep\u00e7\u00e3o, internamente no aparelho ps\u00edquico, se transforma em tra\u00e7o de mem\u00f3ria. Entre percep\u00e7\u00e3o e consci\u00eancia, encontram-se os tra\u00e7os de mem\u00f3ria. Em outras palavras, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave de leitura do mundo.\u00a0 O circuito entre percep\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e consci\u00eancia \u00e9 realimentado, seja por percep\u00e7\u00f5es, seja por transcri\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os de mem\u00f3ria. Aos primeiros tra\u00e7os se associam novos tra\u00e7os que n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o imediata com os primeiros tra\u00e7os inscritos no aparelho ps\u00edquico pela percep\u00e7\u00e3o. Os primeiros tra\u00e7os se situam na linha do consciente, j\u00e1 os tra\u00e7os seguintes s\u00e3o inconscientes. O tra\u00e7o e as associa\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os formam a realidade interna do inconsciente que se constitui por meio de associa\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os formando novos tra\u00e7os inconscientes. Seguindo a constru\u00e7\u00e3o freudiana, corpo e mem\u00f3ria se enla\u00e7am por interm\u00e9dio dos tra\u00e7os de mem\u00f3ria que, via percep\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos origin\u00e1rios da realidade externa, marcam o corpo e formam redes com novos tra\u00e7os inconscientes.<\/p>\n<p>Sendo o sistema inconsciente freudiano formado pelos tra\u00e7os de mem\u00f3ria inscritos no corpo, a pergunta decorrente \u00e9: como se d\u00e1 o entrela\u00e7amento de corpo, tra\u00e7o e mem\u00f3ria para Lacan? \u00c9 sempre bom lembrar que Lacan sempre insiste que \u00e9 freudiano, mesmo que Freud n\u00e3o seja lacaniano. Assim, apoiando-se na lingu\u00edstica estrutural, Lacan prop\u00f5e que o tra\u00e7o de percep\u00e7\u00e3o, base da forma\u00e7\u00e3o do inconsciente, seja um significante, pois \u00e9 o tra\u00e7o que oferece ao significante seu poder. Em sua proposta, o inconsciente \u00e9 estruturado como uma linguagem e, em termos lingu\u00edsticos, um significante \u00e9 uma sequ\u00eancia de letras em rela\u00e7\u00e3o a um significado. O significante se origina da pr\u00f3pria experi\u00eancia percebida, inscrita, transformada e deformada por conex\u00f5es e associa\u00e7\u00f5es que criam uma realidade interna inconsciente em paralelo \u00e0 consci\u00eancia. Entender como as percep\u00e7\u00f5es se inscrevem no aparelho ps\u00edquico em forma de tra\u00e7os de mem\u00f3ria \u00e9 mais acess\u00edvel, contudo, assimilar a ideia de que o tra\u00e7o de mem\u00f3ria seja uma letra inscrita no corpo, precisa de um pouco mais de reflex\u00e3o. Como o significante se inscreve no corpo? Como as palavras penetram os corpos? O corpo \u00e9 afetado por tra\u00e7os significantes; trata-se de um corpo falado pelas conting\u00eancias de um dizer que produz o que Lacan nomeia como acontecimentos de corpo. O primeiro encontro do corpo com o real da l\u00edngua produz um acontecimento traum\u00e1tico. Um acontecimento de um discurso sem palavras que deixa efeitos permanentes no corpo nomeados por Lacan como efeitos de gozo. Por isso, o corpo fala por meio do dizer silencioso da puls\u00e3o. Na an\u00e1lise trata-se de saber ler os acontecimentos que tra\u00e7am os sintomas e as letras de gozo com as quais o ser falante se identifica.<\/p>\n<p>Como se pode acontecer na pr\u00e1tica anal\u00edtica, a leitura dessas letras de gozo? A fantasia que, desde Freud, \u00e9 a realidade do inconsciente, resultado das associa\u00e7\u00f5es de tra\u00e7os de percep\u00e7\u00e3o e mem\u00f3ria \u00e9, tamb\u00e9m em Lacan, o \u00fanico caminho a seguir. Se, como vimos, a percep\u00e7\u00e3o \u00e9 a porta de entrada para os tra\u00e7os, a fantasia \u00e9 a porta de acesso ao inconsciente. Como a fantasia pode abrir as portas do inconsciente?\u00a0 A associa\u00e7\u00e3o entre os significantes participa da organiza\u00e7\u00e3o da fantasia inconsciente que se ativa por uma rede de associa\u00e7\u00f5es entre tra\u00e7os de mem\u00f3ria sem conex\u00e3o direta com a experi\u00eancia inicial do mundo externo. A cena inconsciente constitui-se em descontinuidade com a realidade. O trabalho anal\u00edtico pode restabelecer essa continuidade desmascarando a cena fantasm\u00e1tica, capturando os significantes e produzindo um novo tra\u00e7o inconsciente; o encontro de um significante novo que se articula com o sil\u00eancio da puls\u00e3o, identificando corpo e sintoma.<\/p>\n<p>Para acompanhar os conceitos em foco, fez-se necess\u00e1rio iniciar o debate com o entrela\u00e7amento entre tra\u00e7o, corpo e mem\u00f3ria. Desse entrela\u00e7amento inicial, apareceram novos conceitos como, percep\u00e7\u00e3o, consciente e inconsciente. Em seguida, novos conceitos foram enredados:\u00a0 significante, letra e fantasia. Os tra\u00e7os iniciais se complexificam em redes, tais como os conceitos que tamb\u00e9m se enredam caminhando em v\u00e1rias poss\u00edveis articula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse p\u00e9riplo conceitual, o sintoma se inclui na problem\u00e1tica do corpo na experi\u00eancia anal\u00edtica articulando significante, corpo e puls\u00e3o.\u00a0 A pr\u00e1tica anal\u00edtica procura verificar a palavra do sintoma que n\u00e3o \u00e9 dita, mas se apresenta no corpo como gozo ou satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Assim, o sintoma segue a puls\u00e3o em seu caminho silencioso quando se mostra como a palavra que n\u00e3o foi dita. Com a forma\u00e7\u00e3o de sintomas, o corpo inscreve a palavra que n\u00e3o foi dita quando a puls\u00e3o n\u00e3o se uniu a uma representa\u00e7\u00e3o. Desse modo, no lugar de uma ideia recalcada, o sintoma se manifesta no corpo como uma palavra silenciosa e sem sentido, uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, um gozo, um sofrimento que revela uma satisfa\u00e7\u00e3o. Manifestando-se como palavra silenciosa, inclui-se na problem\u00e1tica do gozo distinto do prazer. Desde a obra de Freud, a puls\u00e3o sempre foi surda e muda, mas seu sil\u00eancio n\u00e3o impede o gozo silencioso. A puls\u00e3o \u00e9 uma demanda que se manifesta como uma exig\u00eancia que n\u00e3o cessa, uma esp\u00e9cie de demanda pura de satisfa\u00e7\u00e3o. O sintoma oferece \u00e0 puls\u00e3o uma satisfa\u00e7\u00e3o que se apresenta como um desprazer. Um paradoxo de uma satisfa\u00e7\u00e3o que se apresenta como desprazer, quando o sintoma se articula \u00e0 puls\u00e3o como desvio do curso pulsional que, ao mesmo tempo, satisfaz sua exig\u00eancia de alguma forma. Lacan, nesse contexto, prop\u00f5e o termo gozo incorporado pelo significante que, como tra\u00e7o, se inscreve no corpo, enla\u00e7ando-se \u00e0 puls\u00e3o. Desse modo, o corpo se sustenta no real do gozo, enquanto manifesta\u00e7\u00e3o de um corpo pulsional referido ao sintoma como algo que acontece no corpo, tal como enuncia Lacan.<\/p>\n<p>Como a express\u00e3o acontecimento de corpo se inclui nesse processo? O sintoma como acontecimento de corpo, proposto por Lacan e destacado por Miller, coloca em evid\u00eancia o corpo na experi\u00eancia anal\u00edtica. Nessa concep\u00e7\u00e3o de sintoma, a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional se produz na dimens\u00e3o do corpo e n\u00e3o no plano das representa\u00e7\u00f5es. O sintoma impede o movimento pulsional ao gastar-se no pr\u00f3prio corpo do indiv\u00edduo e funciona como conten\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, evitando o movimento, ao lan\u00e7ar a puls\u00e3o sobre o pr\u00f3prio corpo. Assim, no caso da forma\u00e7\u00e3o de sintomas, o corpo faz a conten\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o e \u00e9 a defesa contra a pr\u00f3pria puls\u00e3o, um processo substitutivo da satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o. Em vez de proceder a uma a\u00e7\u00e3o que transforme o mundo, produz-se uma modifica\u00e7\u00e3o sintom\u00e1tica no corpo. Ao inv\u00e9s de uma satisfa\u00e7\u00e3o direta da puls\u00e3o, o curso normal da satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 degradado pelo sintoma que tem o valor metaf\u00f3rico de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o e, de certo modo, encarna a exig\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o. Tendo em vista que o sintoma se manifesta no corpo, conclui-se, em termos lacanianos, que tanto o corpo, quanto a carne, podem ser tomados como significantes.<\/p>\n<p>Quando, em seu \u00faltimo ensino, Lacan prop\u00f5e que as palavras fazem corpo, tratam-se das palavras que se enodam ao corpo e representam o inconsciente real, dando corpo ao inconsciente. Desse modo, ele situa a liga\u00e7\u00e3o entre o corpo e o gozo, ao destacar que o corpo \u00e9 propriedade do corpo vivo que fala. Os efeitos que as palavras provocam no corpo, capturam e perturbam o corpo. Nesse sentido, vida na experi\u00eancia anal\u00edtica apresenta-se sob a forma de um corpo que goza. O corpo vivo \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de gozo, pois o gozo s\u00f3 existe por meio de um corpo que fala e goza de m\u00faltiplas maneiras.<\/p>\n<p>Uma pergunta que se repete bastante \u00e9: qual o lugar e import\u00e2ncia do corpo para a psican\u00e1lise? O que \u00e9 o corpo para a psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana? Na experi\u00eancia de an\u00e1lise, o ser falante se depara com os acontecimentos de corpo por meio dos quais seus sintomas s\u00e3o tra\u00e7ados. Esses tra\u00e7os podem ser lidos na presen\u00e7a de um analista que tamb\u00e9m tem corpo, sua marca, seu corpo, seu estilo. Trata-se de ler no dizer do ser falante os significantes que ressoam no corpo. A presen\u00e7a viva do analista permite que o analisante substitua a consist\u00eancia corporal imagin\u00e1ria do come\u00e7o da an\u00e1lise pela experi\u00eancia do real no final de an\u00e1lise.\u00a0 Assim, desde os traumas iniciais que constitu\u00edram o ser falante, passando pela entrada e percurso de an\u00e1lise, tanto para o analisando, quanto para o analista, o corpo existe na experi\u00eancia anal\u00edtica.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/L_66EHmOlMM?si=cHjTdzzn976_uZIR&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_single_image image=&#8221;12868&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text] Claudia Murta Coordenadora Geral das V Jornadas da SLO A proposta do tema, CORPO, M-E-M-\u00d3-R-I-A, a ser trabalhado nas V Jornadas da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise Leste-Oeste, inclui em sua apresenta\u00e7\u00e3o os conceitos CORPO, TRA\u00c7O, MEM\u00d3RIA. 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