{"id":11395,"date":"2021-04-14T07:04:09","date_gmt":"2021-04-14T10:04:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/?page_id=11395"},"modified":"2021-04-14T07:04:09","modified_gmt":"2021-04-14T10:04:09","slug":"argumento","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/slo\/jornadas\/ii-jornadas-ebp-secao-lo-amor-no-tempo-das-coleras\/argumento\/","title":{"rendered":"Argumento"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][eikra-vc-text-title style=&#8221;style2&#8243; title=&#8221;Argumento&#8221;][\/eikra-vc-text-title][vc_column_text]\n<h3><strong><span style=\"color: #993300;\">O Amor n\u00e3o sem o real\u00a0<\/span> <\/strong><\/h3>\n<h6><strong>Por Ruskaya Maia \u2013 Coordenadora Geral das II Jornadas EBP-LO <\/strong><\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-11458\" src=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/slo\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amurados_001_003.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"333\" \/>A idade m\u00e9dia \u00e9 considerada um per\u00edodo obscuro para a humanidade. \u00c9poca em que a morte se apresentava, sob suas diferentes faces, sem tr\u00e9gua aos seres falantes. Al\u00e9m da mis\u00e9ria, do frio, da fome e das guerras, v\u00e1rias epidemias assolavam a popula\u00e7\u00e3o: Peste bub\u00f4nica, peste negra, mal\u00e1ria, lepra, s\u00edfilis, c\u00f3lera&#8230; Ningu\u00e9m estava resguardado da contamina\u00e7\u00e3o. No entanto, a noite da Idade M\u00e9dia v\u00ea florescer uma nova modalidade de amor. Entre tantas desgra\u00e7as, aparece uma er\u00f3tica cujo ideal se fez princ\u00edpio de toda uma moral e de comportamentos exemplares. Um amor sublimado e levado at\u00e9 o extremo, que Lacan elevou ao estatuto de paradigma, o amor cort\u00eas foi tamb\u00e9m uma riqu\u00edssima cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, um verdadeiro exerc\u00edcio po\u00e9tico. O centro do quadro \u00e9 ocupado pela Dama rodeada de estritas proibi\u00e7\u00f5es e toda a l\u00f3gica desse amor se fundamenta em contornar essa mulher. Para Lacan, o amor cort\u00eas \u00e9 \u201cuma maneira inteiramente refinada de suprir a aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual, fingindo que somos n\u00f3s que lhe pomos obst\u00e1culo \u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Um engano, um v\u00e9u que os homens inventaram para sa\u00edrem impunes da dificuldade de enfrentar o que n\u00e3o existe. Quanto \u00e0 surpreendente produ\u00e7\u00e3o do amor cort\u00eas no feudalismo, Lacan esclarece que s\u00e3o restos preservados da antiguidade para concluir que o amor \u00e9, por estrutura, impulsionado pelo imposs\u00edvel do la\u00e7o sexual com o objeto, seja qual for a origem dessa impossibilidade. Diz Lacan, \u201cLhe \u00e9 preciso, por assim dizer, essa raiz de imposs\u00edvel. Isto \u00e9 o que eu disse ao articular este princ\u00edpio: que o amor \u00e9 amor cort\u00eas \u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Desde a primeira li\u00e7\u00e3o do seu semin\u00e1rio 21, Lacan faz obje\u00e7\u00e3o \u00e0 concep\u00e7\u00e3o do amor como conhecimento. Amor n\u00e3o \u00e9 conhecimento, \u00e9 acontecimento, \u201ccoisas que acontecem quando um homem encontra uma mulher \u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Embora n\u00e3o haja rela\u00e7\u00e3o sexual, o amor \u00e9 um fato. Mas, por quais caminhos se ama uma mulher? Talvez seja essa a pergunta com o maior n\u00famero de respostas que existe, diz Lacan, mas ele elege uma: Por acaso, pela boa sorte (<em>bon heur<\/em>). E, ent\u00e3o, vai formalizar o acaso no n\u00f3 borromeano: s\u00e3o tr\u00eas registros, tr\u00eas an\u00e9is de corda e a quest\u00e3o se centra em qual dos registros estar\u00e1 no meio enla\u00e7ando os outros dois. \u201cO que nos demonstra, o anel de fio do Imagin\u00e1rio tomado como meio? \u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> nada mais nada menos o que pode ser chamado de amor.\u00a0 Aqui o amor est\u00e1 no lugar que teve desde sempre. O Imagin\u00e1rio, ent\u00e3o, enla\u00e7a as palavras com o real do acontecimento amor. Mas, Lacan faz um pequeno deslocamento no que diz respeito ao Imagin\u00e1rio tal como era concebido pelo amor cort\u00eas: o amor \u00e9 o imagin\u00e1rio espec\u00edfico de cada um, que une certo n\u00famero de pessoas eleitas n\u00e3o completamente ao acaso. Ent\u00e3o aqui o amor \u00e9 relan\u00e7ado como (<em>a<\/em>)muro, com a mola do mais-de-gozar entrando na partida e o gozo fazendo limite ao amor.<\/p>\n<p>O amor ent\u00e3o se revela como contingente: ele se torna poss\u00edvel quando o sentido sexual cessa de se escrever. O sentido das palavras n\u00e3o \u00e9 mais que um aparato para o coito sexual, diz Lacan. \u00c9 preciso ent\u00e3o que o sentido das palavras desapare\u00e7a. Apagar o sentido das palavras \u00e9 demonstrar que a linguagem n\u00e3o est\u00e1 feita de palavras sen\u00e3o do la\u00e7o gramatical. \u00c9 o la\u00e7o gramatical o que se haver\u00e1 de romper para que o sentido das palavras se suspenda, deixe de se escrever e por a\u00ed o poss\u00edvel possa emergir.<\/p>\n<p>Lacan redefine o significante como o que apenas existe, na verdade, aos montes, cada um podendo ser qualquer outro, nenhum \u00e9 \u00fanico, mas sim totalmente solto e \u00e9 sobre isso que repousa a exist\u00eancia do Um, \u201cque n\u00e3o \u00e9 nem pensamento, nem quantidade, mas que escreve o gozo antes que haja sujeito algum para responder\u201d <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Rompida a ideia de cadeia significante, segue-se que o S \u00edndice 2, o saber inconsciente, \u00e9 um saber que n\u00e3o quer dizer nada, saber sem sujeito.\u00a0 Algo disso se imprimir\u00e1 segundo um caminho de puro acaso. \u201cEsse saber indel\u00e9vel e ao mesmo tempo absolutamente n\u00e3o subjetivado se formar\u00e1, real, ali, impresso em alguma parte\u201d <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> e isso \u00e9 o que ser\u00e1 o inconsciente.<\/p>\n<p>Aqui vemos Lacan anunciando o inconsciente real, resultante dos vest\u00edgios deixados no encontro do corpo com os S1 soltos, que escreve gozo antes do surgimento de um sujeito e por isso mesmo real. E ent\u00e3o Lacan anuncia a cifra do amor: a cifra do amor \u00e9 <em>2, o \u00edmpar<\/em>, quer dizer um dois que \u00e9 mais de dois, implica o tr\u00eas, \u201ca oculta trama do gozo pela qual o amor n\u00e3o promete a felicidade\u201d<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>. E o muro, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 o da linguagem: \u00c9 o gozo do Um que faz obst\u00e1culo ao encontro de dois.<\/p>\n<p>\u201cQuando lhes digo que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual, esclarece Lacan, n\u00e3o disse que os sexos se confundam\u201d <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>, apontando aqui para o que ele chama de sexua\u00e7\u00e3o: os efeitos do significante f\u00e1lico sobre o sexo biol\u00f3gico e o corpo imagin\u00e1rio. No entanto, ele faz a ressalva de que um mundo onde se introduz algo para fundamentar que na esp\u00e9cie chamada humana se \u00e9 homem ou se \u00e9 mulher \u00e9 totalmente enigm\u00e1tico. Para Lacan o ou-ou (ou homem ou mulher) \u00e9 logicamente insustent\u00e1vel, j\u00e1 que o que determina isso n\u00e3o \u00e9 nem mesmo um saber mas um \u2018dizer verdadeiro\u2019, que Lacan define como o que, da conting\u00eancia primeira de uma escritura do gozo, <em>passa pelas tripas<\/em>.<\/p>\n<p>Quando nos escreve sua carta de <em>almor<\/em> (<em>lettre d\u2019\u00e2mour<\/em>), Lacan nos apresenta uma formaliza\u00e7\u00e3o da maneira como os seres falantes (x) se relacionam com a linguagem (\u03a6). \u00c9 importante salientar que n\u00e3o se trata de uma classifica\u00e7\u00e3o de pessoas, mas da formaliza\u00e7\u00e3o de duas l\u00f3gicas distintas, que t\u00eam como operador principal o falo ou a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica, organizador da diferen\u00e7a entre os sexos. O falo, verdadeiro semblante, \u00e9 o respons\u00e1vel pelo fato de que, em todas as l\u00ednguas, haja eles ou elas, mas mesmo assim, n\u00e3o faz com que a divis\u00e3o entre homens e mulheres seja natural ou universal. Freud, no come\u00e7o do s\u00e9culo XX, j\u00e1 falava que a vida sexual \u2018normal\u2019 entre um homem e uma mulher n\u00e3o \u00e9 natural, mas uma soldadura, que a bissexualidade est\u00e1 em todos e que n\u00e3o s\u00e3o os corpos que comandam a agita\u00e7\u00e3o sexual, mas sim as fantasias inconscientes.<\/p>\n<p>Do lado esquerdo da chamada tabela da sexua\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o, inscreve-se uma l\u00f3gica que inclui a todos enquanto obedecendo \u00e0s raz\u00f5es do pensamento ordenado por uma sintaxe, sujeitos a uma l\u00f3gica da medida, da raz\u00e3o, do conceito ou da coer\u00eancia. Em contrapartida, do lado direito se inscreve o que a ci\u00eancia expulsa, se pode falar, pensar, delirar, negar o que se queira, sem nenhuma demonstra\u00e7\u00e3o nem provas de verifica\u00e7\u00e3o. Aqui n\u00e3o h\u00e1 conjunto e nem o todo, sen\u00e3o o um por um e os fen\u00f4menos irrepresent\u00e1veis pela linguagem, ou seja, algo que excede ao gozo delimitado pelo falo, que Lacan nomeou Outro gozo. \u00c9 desse lado que encontramos o inconfess\u00e1vel, o indiz\u00edvel, o que estremece os corpos, e, por isso, \u00e9 desse lado o espa\u00e7o que se abre para o discurso anal\u00edtico.<\/p>\n<p>Mas, desde que entramos no mundo, a l\u00edngua m\u00e3e que nos banha estremece nosso corpo, com c\u00f3cegas ou golpes, acolhimento ou recha\u00e7o, para o bem ou para o mal, esse gozo da <em>lal\u00edngua<\/em> n\u00e3o cessar\u00e1 de palpitar na linguagem e estar\u00e1 entre o ser falante e seu mundo e sua sexua\u00e7\u00e3o, que s\u00f3 se produz na travessia de uma s\u00e9rie de imprevis\u00edveis encontros. A sexualidade ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sem a elei\u00e7\u00e3o sexuada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 sem a singularidade do modo de gozar. A diferen\u00e7a anat\u00f4mica fica tomada em um gozo t\u00e3o de cada um que rateia a rela\u00e7\u00e3o sexual. O <em>a<\/em>-muro ent\u00e3o \u00e9 definido como o muro que \u00e9 o n\u00f3 que a cada um determina, mas \u00e9 da\u00ed tamb\u00e9m que pode surgir contingentemente o la\u00e7o que suple a falha desse encontro.<\/p>\n<p>Em sua aula de 22\/05\/2002 do curso de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana, Miller comenta a afirma\u00e7\u00e3o de Lacan de que o inconsciente \u00e9 a pol\u00edtica, fazendo uma contraposi\u00e7\u00e3o dessa proposi\u00e7\u00e3o com a afirma\u00e7\u00e3o freudiana de que a anatomia \u00e9 o destino. A frase foi proferida por Lacan em seu semin\u00e1rio 14 e, segundo Miller, a partir do contexto em que ela est\u00e1 inserida, fica claro que a afirma\u00e7\u00e3o de Freud \u00e9 sua matriz. Para Lacan, o que Freud \u2018verdadeiramente disse\u2019 n\u00e3o foi que a anatomia \u00e9 o destino. N\u00e3o \u00e9 ao corpo anat\u00f4mico ao qual Freud se refere para tentar explicar a diferen\u00e7a subjetiva da sexua\u00e7\u00e3o. Ao lado do corpo anat\u00f4mico, podemos colocar em quest\u00e3o, ent\u00e3o, o corpo vivo e distingui-los. O corpo vivo enquanto falante e enquanto isso condiciona seu gozo. \u00c9 o gozo desse corpo, poder\u00edamos talvez dizer, que lhe faz seu destino.<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o de Lacan, de que o inconsciente \u00e9 pol\u00edtico,nos anima a considerar a civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e seus efeitos sobre o ser falante quando o capitalismo selvagem, mestre contempor\u00e2neo, pluraliza infinitamente as possibilidades de satura\u00e7\u00e3o da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual e o discurso da ci\u00eancia, com sua ambi\u00e7\u00e3o, avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnoci\u00eancia incidindo diretamente sobre os corpos. Vemos ent\u00e3o proliferarem os semblantes da diversidade sexual, e tamb\u00e9m se multiplicarem os gozos que pretendem n\u00e3o responder \u00e0 castra\u00e7\u00e3o. Dessa forma, podemos dizer, a partir da l\u00f3gica da sexua\u00e7\u00e3o, que a estrutura do todo cedeu \u00e0 do n\u00e3o-todo. Essa afirma\u00e7\u00e3o, no entanto, seria suficiente para localizar a inscri\u00e7\u00e3o dessas novas sexualidades nas f\u00f3rmulas da sexua\u00e7\u00e3o? N\u00e3o poder\u00edamos precisar melhor em que termos isso acontece? Ainda sob essa perspectiva, como fica o amor nesses arranjos contempor\u00e2neos, h\u00e1, de fato, algo novo a\u00ed? Ou se trata dos velhos semblantes customizados para os tempos atuais?<\/p>\n<p>Vivemos dias dif\u00edceis. H\u00e1 pouco mais de um ano, o surgimento de uma cepa de coronav\u00edrus \u2013 o Covid 19 \u2013 bvem propagando a morte entre n\u00f3s, dividindo a humanidade entre os que morrem, os que quase morrem e os que choram seus mortos. A devasta\u00e7\u00e3o deixa seu lastro de tristeza, solid\u00e3o, loucura e desesperan\u00e7a. Al\u00e9m disso, no nosso pa\u00eds, vivemos uma crise sanit\u00e1ria in\u00e9dita que tem profundas ra\u00edzes pol\u00edticas: o \u00f3dio e o negacionismo, aflorados e legitimados como nunca, mal disfar\u00e7ados num discurso pseudoreligioso tornaram-se bandeira de um absoluto desprezo pela vida humana. Nessa \u2018idade m\u00e9dia\u2019 contempor\u00e2nea em que vivemos, que amor pode florescer?<\/p>\n<p>Numa confer\u00eancia na Universidade de Mil\u00e3o proferida em 12 de maio de 72, Lacan faz uma considera\u00e7\u00e3o interessante a respeito do futuro do discurso anal\u00edtico. Ele afirma acreditar que n\u00e3o se falar\u00e1 mais do psicanalista como descendente de seu discurso anal\u00edtico, outra coisa aparecer\u00e1, um outro discurso, que sustentar\u00e1 um semblante, mas que se chamar\u00e1 o discurso PS. E ele continua \u201cUm PS e depois um T, ser\u00e1 o discurso PST. Juntem a isso um E e teremos PESTE. Um discurso que seria realmente uma praga (<em>pesteux<\/em>), totalmente dedicado ao discurso capitalista\u201d <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>. Mas, como um contrapeso a essa esp\u00e9cie de pessimismo (<em>pest-imismo<\/em>), tamb\u00e9m encontramos a seguinte afirma\u00e7\u00e3o de Lacan: \u201co amo moderno \u00e9 a burocracia e a tirania do saber. O discurso capitalista, global, \u00e9 um falso discurso [&#8230;], poderiam bastar, para furar sua pretens\u00e3o \u2013 nada \u00e9 imposs\u00edvel \u2013 um sintoma ou um amor\u201d <a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p>Podemos dizer que um amor que vai \u00e0 contram\u00e3o do discurso capitalista e que pode furar sua l\u00f3gica \u00e9 o amor que se dirige ao inconsciente, o amor de transfer\u00eancia, aqui tomado tamb\u00e9m como um acontecimento e, portanto, ligado ao real. Esse \u00e9 o amor que suporta o ato anal\u00edtico, que s\u00f3 triunfa ao tocar na equivoca\u00e7\u00e3o do sujeito. \u00c9 nesse sentido que podemos entender a precis\u00e3o que Lacan traz nessa confer\u00eancia em Mil\u00e3o sobre o discurso do mestre. Ele diz: \u201cNo n\u00edvel do discurso do mestre, o que eu nomeei pra voc\u00eas agora h\u00e1 pouco de significante mestre, \u00e9 isso, o de que me ocupo nesse momento: h\u00e1 Um. Pode haver a\u00ed uma implica\u00e7\u00e3o sobre o discurso anal\u00edtico, a saber, um uso um pouquinho melhor do significante como Um\u201d <a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Seguindo a argumenta\u00e7\u00e3o de Lacan, o discurso anal\u00edtico \u00e9, ent\u00e3o, algo que se diz muito precisamente no n\u00edvel onde o significante \u00e9 Um, o que faz com que uma an\u00e1lise funcione, por que \u00e9 a\u00ed que se agarra o Um, \u00e9 a\u00ed que h\u00e1 Um. O ato anal\u00edtico, incidindo sobre o n\u00f3 que \u00e9 o analisante, como um instante de tor\u00e7\u00e3o, ou mesmo sec\u00e7\u00e3o de um la\u00e7o, alcan\u00e7a as resson\u00e2ncias do dizer em lal\u00edngua e muda a orienta\u00e7\u00e3o ou mesmo faz surgir um novo n\u00f3 \u2013 ou, nos remetendo \u00e0 cita\u00e7\u00e3o que Lacan faz do poema de Rimbaud, onde o amor aparece como o signo de uma mudan\u00e7a de raz\u00e3o \u2013 um novo amor.<\/p>\n<p>\u00c9 como uma pequena err\u00e2ncia \u2018<em>une petite erre\u2019<\/em> que Lacan descreve o t\u00edtulo que d\u00e1 a seu semin\u00e1rio 21 <em>Les non dupes errent. <\/em>Em seguida, ele descreve \u2018<em>erre\u2019<\/em> como o movimento que acontece \u201cquando algo \u00e9 lan\u00e7ado e continua correndo mesmo quando cessa o que o propulsou\u201d <a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.\u00a0 E, como faz tantas outras vezes em seus semin\u00e1rios, se dedica a analisar a etimologia desse termo, etimologia que pra ele \u00e9 \u201cpontuar o uso das palavras ao longo do tempo\u201d <a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a>. Trata-se, na verdade, de colher os efeitos do uso e do tempo sobre as palavras, ou, ainda, de colher os efeitos do gozo sobre as palavras e, com isso, observarmos o transbordamento do sentido inerente \u00e0 linguagem. O termo \u2018<em>errer\u2019<\/em>, por exemplo, vem de erro (n\u00e3o acerto) e de <em>iterare<\/em>, que quer dizer viagem. De <em>iterare<\/em> se retira o <em>iter<\/em> que \u00e9 repeti\u00e7\u00e3o. Tantas resson\u00e2ncias nos fazem entender o qu\u00e3o dif\u00edcil, sen\u00e3o imposs\u00edvel, \u00e9 capturar um sentido. Quando Lacan enuncia <em>Les non dupes errent<\/em> como outra forma de escrever o que se ouve como <em>les noms du p\u00e8re<\/em>, nessa pequena err\u00e2ncia,onde \u201ca l\u00edngua se v\u00ea impulsionada para mais al\u00e9m do que acreditava dizer\u201d <a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>, ele anuncia qual \u00e9 o campo lacaniano, o campo do analisante, o campo que possibilita o ato anal\u00edtico: a err\u00e2ncia.<\/p>\n<p>A for\u00e7a que lan\u00e7a o analisante em seu errar \u00e9 o amor de transfer\u00eancia. Na busca pelo bem dizer ele diz sempre mais ou menos do que queria, trope\u00e7a, esquece, se equivoca, repete e segue dizendo as tolices que lhe ocorrem e s\u00f3 assim pode abrir a via para algo contingente. O ato anal\u00edtico, imprevis\u00edvel, toca a dimens\u00e3o do Um e faz a\u00ed um furo e \u201cabre a ferida de gozo, que n\u00e3o cessa de se escrever no sintoma\u201d <a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Um desenlace, um reenlace, um novo n\u00f3, um novo amor. Segundo Lacan, isso \u00e9 o novo do discurso que Freud funda, que n\u00e3o se \u00e9 tolo de qualquer coisa, sen\u00e3o do inconsciente que nos determina. <a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a> O que disso podemos testemunhar em nossa cl\u00ednica hoje?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 20: <em>Mais, ainda. <\/em>(1972-1973) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985. p. 94<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 08 de janeiro de 1974. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 18 de dezembro de 1973. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 18 de dezembro de 1973. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> T\u00c1BOAS, C. <em>Um amor menos tonto. <\/em>Buenos Aires: Grama Ed., 2015 p. 130. (Tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 12 de fevereiro de 1974. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> T\u00c1BOAS, C. <em>Um amor menos tonto. Op. cit., <\/em>p. 63. (Tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 18 de dezembro de 1973. In\u00e9dito<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.pas-tou-lacan\">www.pas-tou-lacan<\/a>. Acessado em 15 de abril de 2021. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.pas-tou-lacan\">www.pas-tou-lacan<\/a>. Acessado em 15 de abril de 2021. Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> <a href=\"http:\/\/www.pas-tou-lacan\">www.pas-tou-lacan<\/a>. Acessado em 15 de abril de 2021.\u00a0 Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 06 de novembro de 1973. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> LACAN, J. <em>O Semin\u00e1rio<\/em>, livro 21: <em>Les non dupes errent<\/em>. Aula de 06 de novembro de 1973. In\u00e9dito.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> T\u00c1BOAS, C. <em>Um amor menos tonto. Op. cit., <\/em>p. 209. (Tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> T\u00c1BOAS, C. <em>Um amor menos tonto. Op. cit., <\/em>p. 71. (Tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> T\u00c1BOAS, C. <em>Um amor menos tonto. Op. cit., <\/em>p. 66. (Tradu\u00e7\u00e3o livre).<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][eikra-vc-text-title style=&#8221;style2&#8243; title=&#8221;Argumento&#8221;][\/eikra-vc-text-title][vc_column_text] O Amor n\u00e3o sem o real\u00a0 Por Ruskaya Maia \u2013 Coordenadora Geral das II Jornadas EBP-LO A idade m\u00e9dia \u00e9 considerada um per\u00edodo obscuro para a humanidade. \u00c9poca em que a morte se apresentava, sob suas diferentes faces, sem tr\u00e9gua aos seres falantes. 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