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Seminários

Seminários da Orientação Lacaniana

Quando dizemos psicanálise de “orientação lacaniana” estamos nos referindo ao ensino de Jacques-Alain Miller, à sua transmissão da psicanálise pela via do legado de Freud e Lacan, realizada durante muitos anos semanalmente no quadro do Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris VIII.

Como informa o site da Associação Mundial de Psicanálise[1], Miller começou este trabalho em 1973, “lendo Lacan a partir de sua formação de filósofo”. A partir de 1981 agregou a essa perspectiva a de praticante da psicanálise.

As atividades desenvolvidas na EBP-Seção Santa Catarina sob esse título oferecem aos interessados a oportunidade de acompanhar esse ensino através de seminários conduzidos por membros da EBP/AMP. Lacan destacou a importância do saber textual na formação dos analistas da Escola, juntamente com a própria análise e a prática sob supervisão. Nossa proposta é acompanhar Miller na exploração das rotas percorridas por Lacan a partir da consistência dos conceitos freudianos que orientam a nossa prática, seguindo o rigor da sua abordagem das dimensões epistemológica, clínica e política da psicanálise que caracterizam a orientação lacaniana.

[1] http://www.wapol.org/pt/orientacion/Template.asp?Archivo=presentacion.html

Seminário “O feminino na contemporaneidade”

por Zelma Galesi, AP, membro da EBP/AMP

“As histéricas do final do século XIX tiveram papel fundamental no surgimento da Psicanálise, foram elas que permitiram a Freud fazer do sintoma um objeto narrativo, dando toda dignidade ao discurso histérico, ali onde reinava a desconfiança e as suspeitas de simulação.

Mas no decorrer de sua obra verificamos que Freud abordou o feminino a partir da indagação sobre o enigma da mulher, expressa pela célebre frase: “A mulher é o continente negro da psicanálise”. Além do que, Freud deixou em segundo plano a influência que o social exerce no desenvolvimento sexual e psíquico da mulher, o que é de extrema importância para se compreender o feminino.

Jacques Lacan, foi muito além dos impasses freudianos quanto ao feminino e assinalou que a questão em jogo seria “ qual a relação que cada mulher, uma a uma, tem com o seu corpo, no qual a feminilidade, muito frequentemente lhe é reenviada pelo olhar dos outros, e o Outro da linguagem, aparece para ela primeiramente como um encontro  enigmático. “([1] Brousse M-H., “Le mystère de sa propre féminité, sa féminité corporelle”, la cause du désir, Paris, Navarin, n.89,2015, p.5.)

A nossa questão, à luz, das contingencias do século XXI, é verificar: Qual o acesso que a psicanálise dá à feminilidade, sejam como mulheres, mães, profissionais, dessa maneira o corpo falante, do lado feminino, está no centro dessa questão. Ou seja, o corpo das mulheres no tempo da “evaporação do Pai”. ( Lacan, “Note sur le Père”, 1968).

 A atualidade exibe uma multiplicidade de atentados aos direitos das mulheres, como as violências da qual são objetos, chegando as formas mais tradicionais de segregação e opressão, até a mais brutal que é o feminicídio. A psicanálise está concernida, envolvida nisso porque ela dá acesso ao real da existência, e também porque ela nos ensinou que é sobre a função paterna que se apoiava o sistema simbólico, no qual o corpo das mulheres era definido. O que se passa, então, quando o pai se evapora?  “

Seminário “Outrar-se”

por Flávia Cera, AP, membro da EBP/AMP

A diferença nos constitui e nos localiza no mundo. As relações são fundadas, sobretudo, na ideia de diferença, por exemplo, na oposição de pares significantes dia e noite, natureza e cultura ou para ficarmos mais perto dos nossos tempos casa e rua, dentro e fora. Essa diferença está na língua, é a diferença entre uma coisa e outra. Há aí um espaço entre em que a diferença aparece, e é preciso que haja esse espaço. Há também encontro, e é preciso que ele aconteça. Partindo do encontro de Clarice com a barata em a Paixão segundo GH, pensaremos outros lugares da diferença. Com o que GH, que também pode ser lido como Gênero Humano, se encontra ali? Seria a diferença entre humano e não-humano? Se sim, o que ela implica? Se não, o que desse encontro é tão determinante? Clarice deixa um recado aos possíveis leitores “que sabem que a aproximação com o que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar”, Nosso pano de fundo será o Seminário …ou pior de Lacan em que ele começa a introduzir mudanças na sua proposta sobre a diferença. O espaço entre começa a ganhar outros contornos e que podemos ver, por exemplo, na ideia de litoral, do hétero, do feminino. Lacan desloca o entre para “alhures” com o que ele chama de “se outropor”. Que consequências têm esse deslocamento? Vamos ver se conseguimos, ao modo de Clarice, nos aproximarmos atravessando o oposto.

Seminário “A natureza e o lance de dados (entre neurociências, filosofia e psicanálise)”

por Adriano Aguiar, AP, membro da EBP/AMP
“Não se deve insultar o futuro”
(Jacques-Alain Miller)

Vivemos um momento de crise. Uma contingência, um vírus, instaura um novo saber no real que ameaça a humanidade e nos convoca a reformular uma série de coisas. Dentre elas uma, cujo aspecto político já se impunha antes mesmo da pandemia, se coloca agora demasiado evidente para ser negligenciada: em tempos de “Terra planismo”, como nos situar em nossa relação com a ciência e a verdade?

A história do pensamento no século XX é marcada pela separação entre natureza e cultura e correlativamente, entre ciência e humanidades. Entretanto, alguns pensadores atuais têm defendido a necessidade urgente de uma mudança de perspectiva.

Eduardo Viveiros de Castro, por exemplo, afirma que nosso modo de pensar é profundamente marcado pela idéia de encontrar aquilo que torna nós os homens tão especiais diante do restante da criação. E que, com a crise ecológica gravíssima que vivemos, “o objetivo da Antropologia contemporânea não pode ser mais o de encontrar esses diferentes sucedâneos da glândula pineal que faz os humanos diferentes do resto da natureza”.

Catherine Malabou, filósofa francesa contemporânea, também têm defendido que “o futuro das humanidades”, depende de sermos capazes de pensar de outro modo a relação entre natureza e cultura, através de uma interlocução dos saberes que compõem as chamadas “ciências humanas” com a ciência propriamente dita, particularmente com as neurociências.

No que diz respeito à psicanálise de orientação lacaniana, Jacques-Alain Miller, ao comentar na sua conferência de Comandatuba (que foi publicada com o título “Uma Fantasia”) dá balizas da posição que devemos assumir em relação às neurociências e à ciência de uma maneira geral, afirmando que “não se deve insultar o futuro” e que caberia à psicanálise de orientação lacaniana tentar pensar “uma nova aliança entre psicanálise e ciência, se ouso dizer, que repousa sobre a não-relação”. Com isso, Miller pede aos interessados no assunto, que tragam notícias do que está acontecendo nesses outros campos.

A proposta desse seminário é tentar explorar esse desafio, buscando encontrar, na interface entre neurociências, filosofia e psicanálise, elementos que nos ajudem a pensar o que poderia ser essa proposta lançada por Miller de uma nova aliança entre psicanálise e ciência que repouse sobre a não-relação.