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Cartéis

Cartel

Breve histórico

No Ato de Fundação da Escola Freudiana de Paris (EFP), em junho de 1964, Lacan propõe como princípio do trabalho na Escola uma elaboração de saber sustentada por “pequenos grupos” que, posteriormente, seriam denominados de “cartéis”.

No Cartel, Lacan vê a possibilidade de um laço de trabalho não fundado sobre a psicologia das massas, onde o grupo se estrutura em torno de um líder a quem seus membros se identificam, e a ele delegam uma posição de saber, o que provocaria toda a sorte de efeitos imaginários e obscenidades.

Em diferentes momentos de seu ensino, Lacan volta a colocar a ênfase nesse dispositivo como instrumento privilegiado para reduzir o gozo do imaginário grupal, destacando sua crucial importância como ponto de partida para o trabalho em uma Escola.

Estrutura borromeana do cartel

Composto por 4 que se elegem a partir de um tema, e cuja conjunção se opera em torno de um +1, o cartel é um modo de elaboração de saber que põe em jogo a dimensão subjetiva.

A conjunção desses 4, tomados um por um, constitui um enigma cujo deciframento nos remete a estrutura do nó borromeano, onde o 1 denota uma operação de anodamento dos 4, dentro de uma lógica de união na separação.

O X + 1 é precisamente o que define a fórmula do nó. O 1 não indica uma posição de mestria. E não contêm a síntese das partes engajadas na partida. O 1 dá consistência ao laço entre os 4, e ao mesmo tempo, torna possível sua separação, mantendo dessa forma a identidade de cada um.

Esse 1 representa um lugar vazio e, por isso mesmo, é uma função intercambiável, podendo ser ocupado por “qualquer um” dos membros. O elemento “mais” que integra o nome dessa função não denota uma operação de adição: 4 + 1 não fazem um grupo de 5, mas um conjunto de 4 + 1. O 1 não se adiciona, isto é, sua propriedade associativa se reduz a zero. O “mais” não é um signo, mas sim um significante que denota a separação. A fórmula “4 + 1” deve ser lida ao pé da letra: quatro separados um por um.

Lógica de funcionamento

A lógica de funcionamento do cartel supõe que esses 4 se enlacem em uma conjunção que dura o tempo de um trabalho, onde o +1 em posição de exceção, é a garantia de que os 4 não façam Um juntos. Que não obedeçam à lógica da massa, à lógica da identificação.

Nessa experiência o laço é mantido por uma questão própria a cada um. O que liga os 4 é a transferência de trabalho, cabendo a perícia do +1 dar-lhe curso. Eis por que “sua tarefa é da ordem do saber-fazer. Saber-fazer com que a questão do cartel faça sua série no discurso e sua marca no escrito como prova de um trabalho de transmissão que soube fixar seu momento de concluir”1 possibilitando – ao cabo de 1 ou 2 anos – a permuta com outros membros.

A quem se destina

Podem constituir um cartel psicanalistas, membros e não membros da EBP, e todos aqueles que desejem estudar a psicanálise e suas conexões com outros campos de saber. A partir de um tema comum, cada integrante define a questão que vai trabalhar, objeto de sua pesquisa individual. Não é preciso ter um conhecimento prévio em psicanálise. O que conta é o desejo de saber e o consentimento com a lógica de trabalho e funcionamento do cartel.

Cartel e Escola

O cartel está incluído no conceito de Escola em sua dimensão epistêmica, clínica e política. É o princípio de sustentação de trabalho em uma Escola de analistas.

Como dispositivo de trabalho, ele conjuga o laço social que possibilita a produção, com a palavra contingente de cada um, com seu traço próprio, com seu sintoma, com seu nome. Nesse sentido, ele permite a produção de um saber não acabado de cada um com os outros, dentro de uma lógica de união na separação, pois tem no horizonte a perspectiva da permutação e a dissolução.


Diretora de Cartéis e Intercâmbio (2019/2021): Cleudes Maria Slongo
Colaboradoras: Nancy Greca Carneiro e Jussara Jovita Souza da Rosa
Interessados em formar cartel e/ou obter mais informações a respeito de seu funcionamento: [email protected], [email protected].

VIGANÒ, Carlo. Sobre o cartel: entrevista com Carlo Viganò. Boletim Eletrônico n. 5, ano 2, 01/09/04. Delegação SC da EBP.