{"id":6406,"date":"2023-10-30T05:36:49","date_gmt":"2023-10-30T08:36:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=6406"},"modified":"2023-10-30T05:36:49","modified_gmt":"2023-10-30T08:36:49","slug":"comentario-sobre-o-seminario-a-politica-da-psicanalise-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/comentario-sobre-o-seminario-a-politica-da-psicanalise-2\/","title":{"rendered":"COMENT\u00c1RIO SOBRE O SEMIN\u00c1RIO \u201cA POL\u00cdTICA DA PSICAN\u00c1LISE\u201d"},"content":{"rendered":"<h6>Por Aspazia Barcelos<\/h6>\n<p>No mais recente encontro do semin\u00e1rio \u201cA pol\u00edtica da psican\u00e1lise\u201d, tivemos a alegria de contar com uma fala inspirada e cativante de Gilson Iannini, da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, convidando-nos a pensar as fronteiras e litorais de temas como as intelig\u00eancias artificiais (nem t\u00e3o inteligentes, nem t\u00e3o artificiais), a humanidade e sua parte \u201cm\u00e1quina\u201d, os sonhos e os del\u00edrios. E como pano de fundo, suscitando inquietude &#8211; como n\u00e3o poderia deixar de acontecer &#8211; o infamiliar que nos habita.<\/p>\n<p>Diante do fasc\u00ednio que a promessa de m\u00e1quinas que aprendem desperta na humanidade &#8211; ontem e hoje &#8211; nos perguntamos, \u00e0 luz da psican\u00e1lise, qual seria o limite desse aprendizado &#8211; e quais suas consequ\u00eancias? Que aprendem, n\u00e3o resta d\u00favida, e a partir do estudo conduzido pelo pr\u00f3prio Iannini verificamos (n\u00e3o sem um tanto de surpresa) que as m\u00e1quinas podem aprender a sonhar! Melhor dizendo, as m\u00e1quinas conseguem processar informa\u00e7\u00f5es textuais de sonhos que simulam os mecanismos humanos e podem aprender aquilo que, em n\u00f3s, tamb\u00e9m \u00e9 da estrutura de m\u00e1quina &#8211; os mecanismos de condensa\u00e7\u00e3o e deslocamento, met\u00e1fora e meton\u00edmia. Atrav\u00e9s de conjuntos de simuladores que processam uma quantidade gigantesca de dados simultaneamente em forma de \u201ccamadas\u201d &#8211; a \u201cnuvem\u201d &#8211; a rapidez e a amplitude das respostas que tanto nos impressionam n\u00e3o passam, em \u00faltima inst\u00e2ncia, de um sofisticado mecanismo de processamento que demanda um investimento descomunal de energia do planeta.<\/p>\n<p>Iannini nos apresentou o artigo publicado em 1970 por Masahiro Mori, onde o cientista, engenheiro e professor de rob\u00f3tica japon\u00eas elabora o conceito de \u201cvale infamiliar\u201d (Uncanny Valley). A hip\u00f3tese de Mori surgiu de uma constata\u00e7\u00e3o: quanto mais parecido com um humano, mais atraente se torna um rob\u00f4. Contudo, quando a tecnologia se aproxima da realidade a ponto de ser praticamente imposs\u00edvel dizer o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9, testemunhamos um tal desconforto que nos provoca tanto confus\u00e3o quanto repulsa. Algo que Freud j\u00e1 nos ensinava em 1919, em seu texto \u201cDas Unheimliche\u201d. Ao comentar o conto \u201cO Homem de Areia\u201d, de E.T.A. Hoffmann &#8211; que tem como uma das personagens a boneca aut\u00f4mato Ol\u00edmpia &#8211; nos diz que esta seria \u201cuma condi\u00e7\u00e3o especialmente favor\u00e1vel para a eclos\u00e3o dos sentimentos do <em>infamiliar<\/em>, na medida em que desperta uma incerteza intelectual, se algo estaria ou n\u00e3o vivo\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>E se estamos na era da indiscernibilidade, com a dissolu\u00e7\u00e3o das fronteiras entre o humano e o n\u00e3o humano, as esferas p\u00fablica e privada, a fantasia e a realidade, a hip\u00f3tese de Iannini nos provoca: estamos vivendo mergulhados no vale infamiliar? E se assim for, como criar estrat\u00e9gias que funcionem como um anteparo frente a esse real que se apresenta sufocante, numa profus\u00e3o infinita do objeto <em>a<\/em> em sua vers\u00e3o mais-de-gozar? Seria essa uma vers\u00e3o \u201cbarulhenta\u201d da puls\u00e3o de morte, que testemunhamos pelas variadas formas de adi\u00e7\u00e3o e mal estar contempor\u00e2neos? Parece necess\u00e1rio interrogar os efeitos do desenvolvimento atual da ci\u00eancia e o pr\u00f3prio papel da psican\u00e1lise nesse cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Iannini nos convoca, ent\u00e3o, a uma aposta radical no falasser, e no ensino do ultim\u00edssimo Lacan, abrindo m\u00e3o do que seria supostamente o dom\u00ednio do \u201chumano\u201d, e nos convida a pensar moebianamente o ponto inferior do vale, onde se conjugam o sentimento de familiaridade e de repulsa. Num mundo onde progressivamente o humano e a m\u00e1quina se hibridizam, dissolvendo as fronteiras, por quais artif\u00edcios podemos fazer uma borda ao real?<\/p>\n<p>Seria a arte um desses artif\u00edcios? Ainda que \u201cinfamiliar\u201d para n\u00f3s &#8211; e talvez por pouco tempo &#8211; uma pe\u00e7a de teatro encenada em SP em 2019 por uma companhia alem\u00e3 apresenta um mon\u00f3logo onde o \u201cator\u201d \u00e9 um androide. Ali, um rob\u00f4 criado \u00e0 imagem e (quase) semelhan\u00e7a do escritor Thomas Melle interage com o p\u00fablico e discorre sobre temas como a bipolaridade, a tecnologia e a compet\u00eancia das c\u00f3pias para ajudar ou n\u00e3o os humanos. Na mesma dire\u00e7\u00e3o, lembro a ORLANoide, uma humanoide atualmente em exibi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m em SP, criada pela artista francesa ORLAN para ser um experimento de hibridiza\u00e7\u00e3o de intelig\u00eancia artificial, coletiva e social. A androide, com o rosto e a voz da artista, canta, dan\u00e7a e responde perguntas do p\u00fablico, enquanto interage tamb\u00e9m com v\u00eddeos onde ORLAN filmou esp\u00e9cies de \u201cmanifestos\u201d. Finalizo assim com as palavras da artista: \u201ceu sou um corpo, inteiramente um corpo, nada al\u00e9m de um corpo, e \u00e9 meu corpo que pensa. Pode-se dizer que \u00e9 uma m\u00e1quina sofisticada, mas de carne, o que faz toda a diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos rob\u00f4s de metal ou pl\u00e1stico\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> Freud, S.<strong> O infamiliar e outros escritos<\/strong> (1919). Ed. Aut\u00eantica, 2021<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> ORLAN. <strong><em>Strip-tease<\/em>: tudo sobre minha vida, tudo sobre minha arte<\/strong>. Edi\u00e7\u00f5es SESC. 2023<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Aspazia Barcelos No mais recente encontro do semin\u00e1rio \u201cA pol\u00edtica da psican\u00e1lise\u201d, tivemos a alegria de contar com uma fala inspirada e cativante de Gilson Iannini, da Se\u00e7\u00e3o Minas Gerais, convidando-nos a pensar as fronteiras e litorais de temas como as intelig\u00eancias artificiais (nem t\u00e3o inteligentes, nem t\u00e3o artificiais), a humanidade e sua parte&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6406","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6406"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6406\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6407,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6406\/revisions\/6407"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6406"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}