{"id":6394,"date":"2023-10-05T04:45:58","date_gmt":"2023-10-05T07:45:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=6394"},"modified":"2023-10-05T04:45:58","modified_gmt":"2023-10-05T07:45:58","slug":"comentario-sobre-o-seminario-a-politica-da-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/comentario-sobre-o-seminario-a-politica-da-psicanalise\/","title":{"rendered":"COMENT\u00c1RIO SOBRE O SEMIN\u00c1RIO \u201cA POL\u00cdTICA DA PSICAN\u00c1LISE\u201d"},"content":{"rendered":"<h6>Por Elisa Werlang<\/h6>\n<p>Foi com muito entusiasmo que aceitei o convite para uma conversa no Semin\u00e1rio &#8220;A Pol\u00edtica da Psican\u00e1lise &#8220;, coordenado por Cristina Duba e Paulo Vidal, a quem agrade\u00e7o essa alegria.\u00a0 Ali, uma pausa na din\u00e2mica proposta de trazer convidados envolvidos diretamente com a quest\u00e3o religiosa. Entre a pol\u00edtica e a religi\u00e3o, trazer um outro fazer na polis: a poesia.<\/p>\n<p>Com os Hinos, podemos dizer que a poesia nasceu de um dizer dirigido aos deuses. Era poesia a fala que sa\u00eda da boca dos or\u00e1culos, em sua opacidade, mas que fazia signo. Isso \u00e9,\u00a0portava uma verdade dirigida a quem se atrevia querer saber. Verdade surgida de um fazer, um artif\u00edcio, uma arte. Mesmo nesses tempos em que os deuses se exilaram e os or\u00e1culos se calaram, esse \u00e9 o lugar da poesia. Assim Roberto Schwarz lendo Kafka escreveu \u201cQuando n\u00e3o ha\u0301 resposta, o dizer torna-se puro, prece para quem diz, poesia para quem v\u00ea dizer&#8221;.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles falava sobre o efeito da poesia: o espanto. Num mundo marcado pelo desencantamento e apego \u00e0 realidade como algo apartado da fantasia, a poesia \u00e9 acusada de encantar ou reencantar o mundo. Ser Coisas de Fineza. Sem utilidade imediata. O lixo ou um luxo. Por essa mirada, o efeito de poesia seria uma ilus\u00e3o.<\/p>\n<p>Pude falar um pouco do que li no semin\u00e1rio\u00a0 \u201cUm esfor\u00e7o de Poesia\u2019 de J.-A. Miller. Num mundo sem poesia, diz, n\u00e3o h\u00e1 psican\u00e1lise. Nele, Miller aproxima\u00a0psican\u00e1lise e poesia. A fun\u00e7\u00e3o da voz oracular e a suspens\u00e3o da utilidade imediata na sess\u00e3o anal\u00edtica. A cada sess\u00e3o, Um esfor\u00e7o de poesia.<\/p>\n<p>Mas o que seria exatamente um esfor\u00e7o de poesia? Porque Miller n\u00e3o fala de efeito de poesia, como estamos acostumados a falar, a partir de Lacan, de efeito de verdade ou efeito de sujeito. N\u00e3o que o espanto que nos fala Arist\u00f3teles n\u00e3o esteja presente, quando algo de novo surge como\u00a0 verdade inaudita. Miller tampouco fala de um estado de poesia: a gra\u00e7a, o encantamento, o arrebatamento ou \u00eaxtase. Ele nos fala de um esfor\u00e7o, isso \u00e9, de resistir a uma puls\u00e3o, fazer face a uma defesa. Essa express\u00e3o, ele retira de uma cena do livro \u201cIlus\u00f5es Perdidas\u201d de Balzac. Nela, o protagonista do romance, ap\u00f3s perder uma a uma suas ilus\u00f5es,\u00a0est\u00e1 prestes a cometer o suic\u00eddio. O ato \u00e9 interrompido por uma figura peculiar: um padre espanhol que fala como um ladr\u00e3o de estradas. Um esfor\u00e7o de poesia, o que\u00a0essa estranha figura o exorta ao final, aparece como aquilo que se contrap\u00f5e \u00e0 estase da desilus\u00e3o. Um gozo mort\u00edfero.<\/p>\n<p>Para terminar, algumas palavras da poeta americana, negra e l\u00e9sbica, Audei Lorde. Em Irm\u00e3 Outsider, &#8220;Poesia n\u00e3o \u00e9 luxo&#8221;,\u00a0a poesia aparece como ilumina\u00e7\u00e3o. Como dar nome a ideias que, sem a poesia, n\u00e3o teriam nome ou forma. Ideias n\u00e3o nascidas, mas sentidas. Poesia seria colocar \u00e0 prova. Nos diz como n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil manter a cren\u00e7a em sua efic\u00e1cia. Vencer o medo de cruzar as pontes sobre o que ainda n\u00e3o existe. Aqui ela tamb\u00e9m fala de esfor\u00e7o. E nos exorta a &#8220;nos aventurar nas a\u00e7\u00f5es hereges que nossos sonhos sugerem e que s\u00e3o desmerecidas por tantas das nossas ideias antigas. Na linha de frente da nossa passagem \u00e0 mudan\u00e7a existe apenas a poesia para aludir \u00e0 possibilidade tornada real. Nossos poemas articulam as implica\u00e7\u00f5es de n\u00f3s mesmas, aquilo que sentimos internamente e ousamos trazer \u00e0 realidade (ou com o qual conformamos nossa a\u00e7\u00e3o), nossos medos, nossas esperan\u00e7as, nossos mais \u00edntimos terrores.\u201d<\/p>\n<p>Aqui a poesia \u00e9 aquilo que se contrap\u00f5e aos &#8220;velhos medos de ficarmos em sil\u00eancio, impotentes e sozinhos, enquanto experimentamos novas possibilidades e pot\u00eancias.\u201d<\/p>\n<p>Enfim, a poesia talvez n\u00e3o sirva para nada, pois n\u00e3o \u00e9 l\u00e1 muito servil. Antes que ilus\u00e3o, um certo poder de alus\u00e3o que nos aponta para al\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Elisa Werlang Foi com muito entusiasmo que aceitei o convite para uma conversa no Semin\u00e1rio &#8220;A Pol\u00edtica da Psican\u00e1lise &#8220;, coordenado por Cristina Duba e Paulo Vidal, a quem agrade\u00e7o essa alegria.\u00a0 Ali, uma pausa na din\u00e2mica proposta de trazer convidados envolvidos diretamente com a quest\u00e3o religiosa. 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