{"id":6094,"date":"2021-08-04T07:22:20","date_gmt":"2021-08-04T10:22:20","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=3926"},"modified":"2021-08-04T07:22:20","modified_gmt":"2021-08-04T10:22:20","slug":"o-corpo-estrangeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/o-corpo-estrangeiro\/","title":{"rendered":"O CORPO estrangeiro"},"content":{"rendered":"<h6><em>Por Fabian Naparstek<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em>Em 1944 Sartre escrevia sua famosa obra de teatro \u201cA porta fechada\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, onde mostrava-se que <em>o inferno s\u00e3o os outros<\/em>. Ainda n\u00e3o havia terminado a segunda guerra mundial, tampouco se havia liberado Paris e Sartre colocava sobre a mesa o problema do confinamento e dos outros. A obra mostrava um s\u00f3 cen\u00e1rio contrariando toda a possibilidade de se pensar um lugar diferente. De fato, J. Lacan discutia com Sartre<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> \u2014 planejando exatamente o contr\u00e1rio \u2014 j\u00e1 que para ele n\u00e3o havia sa\u00edda para o sujeito sem ser com o Outro. Com efeito, o grande desafio \u2014 depois da Grande Guerra \u2014 era o de uma sociedade nova onde as diferen\u00e7as possam coexistir inventando com cada uma delas seu pr\u00f3prio mundo. Na verdade, no meio de uma \u00e9poca em que primava a ilus\u00e3o das m\u00e1ximas liberdades, J. Lacan tamb\u00e9m anunciava o retorno da xenofobia e do racismo. Quanto maior \u201cuniversaliza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> \u2014 o que depois se chamou de globaliza\u00e7\u00e3o \u2014 maior seria o recha\u00e7o dirigido aos grupos diferentes. Esse mundo das diferen\u00e7as no qual muitos de n\u00f3s acredit\u00e1vamos e defend\u00edamos at\u00e9 faz pouco tempo \u2014 e seguiremos defendendo com certeza \u2014, se converte cada vez mais em um s\u00f3 cen\u00e1rio. Esse mundo virtual que parecia nos abrir as mil e uma possibilidades de encontro com qualquer um \u2014 Tinder, Instagram, etc, pelo menos \u2014 come\u00e7a a se fechar. Todos ficam com a <em>porta fechada<\/em>. N\u00e3o importando se trata-se de para\u00edsos democr\u00e1ticos ou de reinos autorit\u00e1rios. Encerrados com nossos mais \u00edntimos para escapar desse estranho em que se converteu o outro. Entretanto, mesmo nesse confinamento \u00edntimo tamb\u00e9m se pode enfiar o v\u00edrus. Esses \u00edntimos, com os quais habitualmente e paradoxalmente compartilhamos menos que com os estranhos, tamb\u00e9m se transformam em alheios. Grande parte das redes hoje se ocupa em pensar e a zombar sobre como passar o tempo sem que os nossos mais \u00edntimos se transformem em um inferno. O v\u00edrus do desconhecido penetra por todos os lados.<\/p>\n<p>At\u00e9 voc\u00ea mesmo poderia estar incubando o desconhecido sem sab\u00ea-lo. Voc\u00ea mesmo come\u00e7a a desconfiar do que acontece consigo. Voc\u00ea mesmo tem que estar atento sobre o que lhe sucede e em \u00faltima an\u00e1lise \u00e9 voc\u00ea mesmo quem se transforma em um estrangeiro para si mesmo. Por fim, se busca isolar o corpo. \u00c9 o encontro entre os corpos o que se p\u00f5e em quest\u00e3o. Parafraseando esse dito pol\u00edtico para enfatizar do que se trata: \u00e9 o corpo, est\u00fapido!!!!<\/p>\n<p>\u00c9 o corpo que se tornou estrangeiro!!!<\/p>\n<p>A ci\u00eancia nos fez crer que pod\u00edamos dominar cada vez mais nosso corpo, viver mais tempo e com corpos jovens. O v\u00edrus n\u00e3o diferencia classes sociais, ra\u00e7as, identidades de g\u00eanero, etc, e ataca \u2014 na sua forma mais letal \u2014 especialmente \u00e0queles que tem a marca do real do tempo no corpo.<\/p>\n<p>Mas, como tamb\u00e9m sinaliza Lacan e sublinha J-A. Miller: o corpo \u00e9 esse outro estranho para voc\u00ea mesmo. \u201cUOM kitemum corpo e s\u00f3-s\u00f3 Teium.\u201d<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Com efeito, vamos ver como esse acontecimento de corpo no social \u2014 onde a pandemia nos lembra a cada instante que cada um tem um \u2014 que consequ\u00eancia poder\u00e1 trazer. Poderemos ver, n\u00e3o sem o Outro, se vamos poder nos desembara\u00e7ar ante essa irrup\u00e7\u00e3o do corpo real. Se poderemos encontrar uma sa\u00edda, para al\u00e9m da vacina, que nos leve a novos modos de segrega\u00e7\u00e3o (\u201cO v\u00edrus chin\u00eas\u201d, Trump dixit). Uma via que n\u00e3o implique a segrega\u00e7\u00e3o para com os outros e aponte em dire\u00e7\u00e3o ao mais real e \u00eaxtimo que tem o parl\u00eatre; o corpo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Buenos Aires, 21-03-20.<\/h6>\n<h6><strong>Tradu\u00e7\u00e3o<\/strong>: Bruna Guaran\u00e1<\/h6>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> &#8211; Esse texto foi escrito na quarentena.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> &#8211; Sartre, J. P.\u00a0: \u00ab\u00a0Huis clos\u00a0\u00bb, En Huis Clos, suivi de les Mouches, Ed. Gallimard.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> &#8211; Lacan, J.\u00a0: \u201cEl Tiempo L\u00f3gico y el\u00a0<strong>Aserto de Certidumbre Anticipada<\/strong>. Un Nuevo Sofisma\u201d, En Escritos 1, Ed. Siglo XXI. Buenos Aires.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> &#8211; Lacan, J.: \u201cProposici\u00f3n del 9 de octubre de 1967 sobre el psicoanalista de la Escuela\u201d. En Otros Escritos, Ed. Paidos, Buenos Aires-Brcelona-M\u00e9xico, 2012, pag 276.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> &#8211; Lacan, J.\u00a0 \u201cJoyce, o Sintoma\u201d. In: <em>Outros Escritos<\/em>, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003, p. 561.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fabian Naparstek[1] \u00a0Em 1944 Sartre escrevia sua famosa obra de teatro \u201cA porta fechada\u201d[2], onde mostrava-se que o inferno s\u00e3o os outros. Ainda n\u00e3o havia terminado a segunda guerra mundial, tampouco se havia liberado Paris e Sartre colocava sobre a mesa o problema do confinamento e dos outros. 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