{"id":6075,"date":"2021-04-05T13:15:44","date_gmt":"2021-04-05T16:15:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=3661"},"modified":"2021-04-05T13:15:44","modified_gmt":"2021-04-05T16:15:44","slug":"textos-de-encerramento-da-diretoria-sobre-oasis-e-vaga-lumes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/textos-de-encerramento-da-diretoria-sobre-oasis-e-vaga-lumes\/","title":{"rendered":"Textos de encerramento da diretoria:  Sobre o\u00e1sis e vaga-lumes"},"content":{"rendered":"<h6><em>Andr\u00e9a Reis Santos <\/em><\/h6>\n<blockquote><p><em>\u201cOs vaga-lumes, depende apenas de n\u00f3s n\u00e3o v\u00ea-los desaparecerem. Ora, para isso n\u00f3s mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que n\u00e3o seja fechamento sobre si, a for\u00e7a diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrut\u00edvel\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Iniciamos essa diretoria h\u00e1 dois anos, em meio ao pessimismo que se instalou no pa\u00eds com o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Come\u00e7amos sonhando com uma escola o\u00e1sis que pudesse servir de ponto de parada e respiro, um lugar vivo, prop\u00edcio para ser habitado pelo esp\u00edrito anti-segregativo da psican\u00e1lise. Lugar de desejo e resist\u00eancia. T\u00ednhamos pela frente o desafio de manter vivo o trabalho de Escola em meio a um cen\u00e1rio pol\u00edtico desolador. Nos reunimos em cartel para estudar a Proposi\u00e7\u00e3o e outros textos institucionais, e junto aos colegas da Se\u00e7\u00e3o buscamos orientar os semin\u00e1rios da diretoria privilegiando o formato da conversa\u00e7\u00e3o e apostando forte no dispositivo do cartel como a boa maneira de trabalhar em grupo. Agrade\u00e7o aos que aceitaram coordenar os semin\u00e1rios das segundas feiras: Ana L\u00facia Lutterbach Holck no <em>Semin\u00e1rio do Passe<\/em>; Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do R\u00eago Barros no <em>Semin\u00e1rio Cl\u00ednico<\/em>; Elisa Alvarenga, Gl\u00f3ria Maron, Maria do Ros\u00e1rio do R\u00eago Barros e Paula Borsoi que junto comigo formaram o cartel que coordenou o <em>Conversas sobre o inconsciente e a forma\u00e7\u00e3o do analista<\/em>. Agrade\u00e7o tamb\u00e9m \u00e0 Ana Martha Wilson Maia que coordenou em parceria com a nossa saudosa Stella Jimenez os encontros do <em>Psican\u00e1lise e Cinema<\/em>, e ao Conselho da Se\u00e7\u00e3o Rio que esteve \u00e0 frente do <em>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> e durante a nossa gest\u00e3o foi presidido por Maria Silvia Hanna e posteriormente Ondina Machado com quem fizemos uma excelente parceria. Agrade\u00e7o a cada uma delas.<\/p>\n<p>O primeiro ano foi marcado pelas \u00e1guas: transbordamento de caixa d\u2019\u00e1gua, inunda\u00e7\u00e3o da casa, chuvas imensas na cidade com alagamentos e enchentes. Foi preciso fazer obras na sede da Se\u00e7\u00e3o e chegamos a cancelar atividades nos dias em que a cidade esteve intransit\u00e1vel. Ainda assim foi um ano que abrigou um trabalho muito intenso nos semin\u00e1rios e nas atividades abertas a outros campos de saber sob a rubrica da diretoria de biblioteca e de cart\u00e9is e interc\u00e2mbio, como os v\u00e1rios lan\u00e7amentos de livros, os encontros do <em>Leituras em cena<\/em> e as Jornadas de cart\u00e9is. Tivemos tamb\u00e9m belas Jornadas de Se\u00e7\u00e3o coordenadas por Tatiane Grova e Marcia Zucchi cujo tema foi: <em>A vida (n\u00e3o) \u00e9 um sonho: real e surpresa na psican\u00e1lise<\/em>. Recebemos nesse evento Mauricio Tarrab (EOL) e Alejandro Reinoso (NEL) e ao longo do ano, em diferentes atividades, muitos convidados de outras Escolas da AMP como Miquel Bassols (ELP), Marina Recalde (EOL), Irene Kuperwajs (EOL), Raquel Cors Ulloa (NEL). Isso tudo na \u00e9poca em que a casa da Se\u00e7\u00e3o ainda era o espa\u00e7o f\u00edsico que acolhia a presen\u00e7a dos corpos, o nosso vai e vem de cada dia.<\/p>\n<p>No ano seguinte, mal inauguramos a casa depois da reforma e fomos surpreendidos pela pandemia que nos obrigou a buscar meios de seguir trabalhando em condi\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas. O sonho da escola o\u00e1sis como espa\u00e7o de resist\u00eancia e autonomia, ponto de parada incluindo as conversas na cal\u00e7ada e a circula\u00e7\u00e3o dos corpos precisou ser substitu\u00eddo por uma escola virtual. \u00a0\u00a0Fomos arrancados da rotina e precisamos criar novos arranjos, conex\u00f5es, espa\u00e7os de encontro online para que o trabalho de Escola n\u00e3o fosse interrompido e o isolamento n\u00e3o fosse ainda mais brutal do que j\u00e1 se apresentava. Olhando pra traz me dou conta do quanto foi dif\u00edcil e tamb\u00e9m do quanto foi fundamental n\u00e3o parar, n\u00e3o adiar, seguir em frente sem ficar esperando a luz no fim do t\u00fanel como recomendou Miquel Bassols<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>As atividades online nos deram a chance de rever amigos e colegas, falar de psican\u00e1lise, seguir trabalhando para repensar a cl\u00ednica nesses tempos loucos. Foi a maneira que encontramos de responder \u00e0s conting\u00eancias afirmando o trabalho de Escola. Me pergunto agora em que medida nesse cen\u00e1rio, foi poss\u00edvel fazer Escola de acordo com o que Lacan prop\u00f4s no Ato de funda\u00e7\u00e3o: lugar de ref\u00fagio, base de opera\u00e7\u00e3o contra a o mal estar da civiliza\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Acredito que muitos de n\u00f3s tiveram a experi\u00eancia de encontrar ref\u00fagio, abrigo e o prazer da conviv\u00eancia ainda que mediada pelas telas em uma ou outra atividade da Se\u00e7\u00e3o durante a \u00e1rida travessia que ainda est\u00e1 em curso.<\/p>\n<p>Nessa travessia seguimos sem o clar\u00e3o do fim do t\u00fanel, mas n\u00e3o \u00e0s cegas. O tema dos Ex\u00edlios que orientou as Jornadas <em>Ex\u00edlios: sintoma corpo e territ\u00f3rio<\/em> nos ajudou a n\u00e3o perder o rumo. Foram Jornadas coordenadas por um cartel ampliado sustentado pela aposta forte no trabalho coletivo. Procuramos aprender a nos movimentar no dif\u00edcil mundo virtual e criar conex\u00f5es, canais de comunica\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s e tamb\u00e9m com outros saberes. Foi assim nas Jornadas e tamb\u00e9m nos outros espa\u00e7os da Se\u00e7\u00e3o: o <em>Semin\u00e1rio Cl\u00ednico<\/em>, coordenado por Marcus e Romildo tratou da cl\u00ednica da \u00e9poca em torno do tema da ang\u00fastia e da presen\u00e7a do analista; o <em>Conversas sobre o inconsciente e a forma\u00e7\u00e3o do analista <\/em>ajustou o foco do tema da forma\u00e7\u00e3o para pensar na articula\u00e7\u00e3o entre Instituto e Escola no novo cen\u00e1rio pand\u00eamico e o <em>Semin\u00e1rio do Passe<\/em> que precisou ser interrompido durante v\u00e1rios meses em fun\u00e7\u00e3o da natureza do tema, esteve presente em dois momentos crucias: No lan\u00e7amento das Jornadas com uma conversa entre Ana Lucia, Gustavo Dessal (ELP) e eu, e agora no encerramento da nossa gest\u00e3o recebendo Anna Arom\u00ed (ELP), Secret\u00e1ria do passe da AMP, para um entrevista muito viva e esclarecedora da qual fizeram parte Ana Lucia como coordenadora e as colegas da diretoria como entrevistadoras. Mais do que nunca tem sido importante aprender a escutar, como nos recomendou Stella antes de partir. N\u00e3o se deixar ofuscar pelas telas e suas luzes e saber escutar. Saber escutar como condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que as conex\u00f5es do mundo virtual possam produzir de vez em quando efeito de encontro.<\/p>\n<p>Acredito que esses breves momentos de encontro t\u00eam ajudado a iluminar a nossa trajet\u00f3ria t\u00fanel adentro. Como disse em resposta a Maricia na manh\u00e3 de cart\u00e9is, n\u00e3o esperamos a luz do final, nem tampouco contamos com luzes fortes dentro do t\u00fanel. Aposto mais na orienta\u00e7\u00e3o que vem da intermit\u00eancia dos pequenos lampejos, me servindo da met\u00e1fora usada por Didi-Huberman no maravilhoso livro <em>Sobreviv\u00eancia dos vagalumes<\/em>. Como forma de organizar nosso pessimismo diante do atual mal estar na cultura, \u00e9 preciso apostar na pot\u00eancia das sobreviv\u00eancias, saber enxergar nos lampejos er\u00f3ticos, alegres e festivos que Pasoline encontra na arte e na poesia (E porque n\u00e3o na psican\u00e1lise?) uma alternativa aos tempos sombrios ou muito iluminados do fascismo triunfante daquela \u00e9poca e da nossa tamb\u00e9m (?). \u201cOs vaga-lumes desapareceram? Certamente n\u00e3o. Alguns est\u00e3o bem perto de n\u00f3s, eles nos ro\u00e7am na escurid\u00e3o, outros partiram para al\u00e9m do horizonte, tentando reformar em outro lugar sua comunidade, sua minoria, seu desejo partilhado\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o aos colegas da Se\u00e7\u00e3o Rio, a cada um, por sustentar com sua presen\u00e7a e desejo a nossa comunidade, nossa minoria, a Natalina, Rosane e J\u00e9ssica pela dedica\u00e7\u00e3o de sempre, a Sandra Landim pela coordena\u00e7\u00e3o do trabalho das m\u00eddias e a parceria no Letrear. Agrade\u00e7o imensamente a Bruno Senna, Anna Luiza Almeida, Marina Morena Torres e Thereza De Felicce pelo trabalho gigantesco de bastidores que permitiu nossos encontros e muito especialmente agrade\u00e7o a minhas colegas de diretoria Andr\u00e9a Vilanova, Ana Tereza Groisman e Renata Martinez pelo ombro a ombro nesses dois anos, pelo desejo partilhado que fez efeito vaga-lume salpicando de alegrias a penumbra do t\u00fanel ao longo de toda essa travessia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Georges Didi-Huberman Sobreviv\u00eancia dos vaga-lumes. Editora UFMG pg 154<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Bassols, M. Coronavirus: Qu\u00e9 nos podemos enconstrar al final del t\u00fanel? Zadig Espanha<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. Ato de funda\u00e7\u00e3o In Outros escritos. 1971 Jorge Zahar Editor<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Georges Didi-Huberman Sobreviv\u00eancia dos vaga-lumes. Editora UFMG pg 160<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9a Reis Santos \u201cOs vaga-lumes, depende apenas de n\u00f3s n\u00e3o v\u00ea-los desaparecerem. Ora, para isso n\u00f3s mesmos devemos assumir a liberdade do movimento, a retirada que n\u00e3o seja fechamento sobre si, a for\u00e7a diagonal, a faculdade de fazer aparecer parcelas de humanidade, o desejo indestrut\u00edvel\u201d[1] Iniciamos essa diretoria h\u00e1 dois anos, em meio ao pessimismo&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6075","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-textos","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6075","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6075"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6075\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6075"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6075"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6075"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6075"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}