{"id":6070,"date":"2021-02-26T08:16:19","date_gmt":"2021-02-26T11:16:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=3431"},"modified":"2021-02-26T08:16:19","modified_gmt":"2021-02-26T11:16:19","slug":"minha-pratica-e-o-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/minha-pratica-e-o-covid-19\/","title":{"rendered":"Minha pr\u00e1tica e o COVID-19"},"content":{"rendered":"<h6><em>Isabel Lins<\/em><\/h6>\n<p>Queria falar a voc\u00eas sobre como percebo essa quest\u00e3o nos meus atendimentos, reduzidos hoje ao uso da tecnologia. Sem querer me precipitar, posso dizer que parte de meus pacientes est\u00e1 mais pronta para suas an\u00e1lises, que aumentaram sua disposi\u00e7\u00e3o a associar livremente e v\u00eam apresentando uma maior capacidade de elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como entender que frente ao confinamento, ao ex\u00edlio, ao isolamento, a um tal quotidiano, privado de suas costumeiras refer\u00eancias, um mundo inteiramente de cabe\u00e7a para baixo, enfrentando riscos permanentes e imprevis\u00edveis de contrair a doen\u00e7a, nos deparemos com inconscientes mais abertos, mais puls\u00e1teis ou mesmo mais alertas?<\/p>\n<p>A que podemos atribuir essa minha constata\u00e7\u00e3o, ou o que vem propiciando a alguns analisandos, esse maior comprometimento com os princ\u00edpios da psican\u00e1lise, com o discurso anal\u00edtico? Como pensar isso, que chamaria <u>de um certo reflorescimento do inconsciente,<\/u> justamente num per\u00edodo t\u00e3o estranho, de reclus\u00e3o, de clausura, e que se estende a toda a humanidade?<\/p>\n<p>Pelo momento, vou me permitir avan\u00e7ar com as ferramentas que meu sintoma oferece, usando de met\u00e1foras, brincando um pouco com a precis\u00e3o dos conceitos, afrouxando o rigor que se exigiria de um escrito. Deixar que fantasias e del\u00edrios possam ser nossos companheiros e nos tragam frescor. Afinal de contas, nesses tempos de pandemia, a natureza vem demonstrando com exuber\u00e2ncia sua capacidade de regenera\u00e7\u00e3o e de renova\u00e7\u00e3o, sem que tenha havido nenhuma interfer\u00eancia do homem para isso, ao contr\u00e1rio, apenas a deixamos em paz.<\/p>\n<p>Escusado dizer que falo, ou escrevo, tamb\u00e9m do lugar de uma ex-exilada, isso existe? Ou somos para sempre exilados enquanto sujeitos? Uma ex-exilada que durante quinze anos se viu privada do conv\u00edvio com o seu pa\u00eds e com os seus.<\/p>\n<p>Numa de suas comunica\u00e7\u00f5es, a prop\u00f3sito do que estamos vivendo, Bassols<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> nos traz o exemplo dos canais de Veneza, que, com suas \u00e1guas l\u00edmpidas, t\u00eam trazido de volta cisnes e peixes, numa n\u00edtida demonstra\u00e7\u00e3o de que a vida ali era poss\u00edvel sim, quando ent\u00e3o tudo indicava o contr\u00e1rio. Mas uma condi\u00e7\u00e3o foi decisiva: o distanciamento social, a quarentena, que acarretou um afluxo muito menor de pessoas a transitar pela cidade, numa diminui\u00e7\u00e3o substancial de lixo despejado negligentemente nos seus canais.<\/p>\n<p>Nem precisamos do exemplo italiano, o mesmo tem sido observado na nossa Ba\u00eda de Guanabara, desaguadouro dos rejeitos industriais, dos tamb\u00e9m rejeitos de restaurantes e de resid\u00eancias, todos sem nenhum tratamento sanit\u00e1rio, <em>In natura<\/em>. Cessados ou diminu\u00eddos esses despejos, o que agora podemos ver s\u00e3o in\u00fameros cardumes e tartarugas felizes a nadar no habitat recuperado. Os exemplos s\u00e3o m\u00faltiplos.<\/p>\n<p>De suprema import\u00e2ncia tamb\u00e9m, \u00e9 constatar que o v\u00edrus tem nos mantido, por for\u00e7a de sua propaga\u00e7\u00e3o, afastados das tenta\u00e7\u00f5es insanas e f\u00fateis que a produ\u00e7\u00e3o capitalista perfidamente nos oferece. Afastados do fasc\u00ednio dos an\u00fancios luminosos de g\u00e1s n\u00e9on e das vitrines que capturam nosso olhar, nos voltamos para o que h\u00e1 de mais essencial, de mais constitutivo da vida, para o que \u00e9 mais simples.<\/p>\n<p>Impulsos mais primitivos, marcas pret\u00e9ritas dos significantes no corpo, nosso arcabou\u00e7o ps\u00edquico submetidos ao recalque, se contentavam com prazeres mais imediatos, rompendo com outras rela\u00e7\u00f5es de compromisso.<\/p>\n<p>O imagin\u00e1rio de antes, que carreava uma certa representa\u00e7\u00e3o do corpo e do mundo, j\u00e1 n\u00e3o se engata com o simb\u00f3lico por este estar a se ocupar, principalmente, em dar significa\u00e7\u00f5es aos novos acontecimentos, e a propiciar ao sujeito fazer face ao real e se <em>arreglar<\/em> com seus conflitos imagin\u00e1rios. Real, que, como diz Miller, est\u00e1 em desacordo com a ordem do universo, que n\u00e3o se confunde mais com a natureza, est\u00e1 fraturado, e a natureza, aviltada.<\/p>\n<p>Miller<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, no seu Um Esfor\u00e7o de Poesia, nos diz tamb\u00e9m que uma epidemia instaura uma nova rela\u00e7\u00e3o ao corpo, ao gozar e \u00e0 fala. Para que o medo e a ang\u00fastia n\u00e3o ocupem um lugar privilegiado na cena, fazemos ver ao sujeito que outros caminhos podem ser seguidos ou mesmo, desobstru\u00eddos.<\/p>\n<p>Usando de uma licen\u00e7a po\u00e9tica ou de uma met\u00e1fora delirante, se a natureza respondeu \u00e0 tr\u00e9gua que os homens lhe deram e vivificou-se, podemos considerar que esse tempo de pandemia e retraimento, de ex\u00edlio, poder\u00e1 tamb\u00e9m vivificar, fecundar o inconsciente do sujeito, aumentar sua produ\u00e7\u00e3o, quer no n\u00edvel do imagin\u00e1rio ou do simb\u00f3lico, lhe oferecendo subs\u00eddios para que uma nova amarra\u00e7\u00e3o com o real seja poss\u00edvel. Novas formas de gozo foram se apoderando do universo ps\u00edquico de cada um, carecendo de novos la\u00e7os, de outros enodamentos.<\/p>\n<p>Antes de terminar esse texto, vou falar de uma experi\u00eancia: de quando, h\u00e1 muito tempo, estourou no estado do Cear\u00e1, Nordeste brasileiro, o a\u00e7ude de Or\u00f3s. Mesmo que em muito, mas muito menor propor\u00e7\u00e3o, o ocorrido n\u00e3o deixou de ser uma grande calamidade para as comunidades inundadas pelas \u00e1guas. Sabemos da import\u00e2ncia que tem para essa regi\u00e3o a \u00e1gua. \u00c9 quest\u00e3o de vida e morte. Podemos imaginar o padecimento e o horror de ter vivido tal desastre.<\/p>\n<p>Trabalhava ent\u00e3o no Movimento de Cultura Popular e fiz, a pedido do Professor Paulo Freire, que a\u00ed tamb\u00e9m trabalhava, uma pesquisa para levantar dados para o seu m\u00e9todo de alfabetiza\u00e7\u00e3o de adultos. Considerava ele a ocasi\u00e3o prop\u00edcia para fazer um levantamento do universo vocabular dessas popula\u00e7\u00f5es, sob o impacto daquela trag\u00e9dia. Acreditava tamb\u00e9m no surgimento de um \u201cpensamento m\u00e1gico,\u201d n\u00e3o t\u00e3o raro por aquelas bandas do Nordeste &#8211; vide a lenda do Rei Dom Sebasti\u00e3o, as experi\u00eancias m\u00edsticas de Padre C\u00edcero e a eterna devo\u00e7\u00e3o nordestina a este \u201csanto\u201d, a experi\u00eancia de Canudos, os beatos que atravessavam terras e serras, pregando a palavra dos profetas! Euclides da Cunha e Glauber Rocha foram int\u00e9rpretes, por excel\u00eancia, desses epis\u00f3dios e das ang\u00fastias e perdas que o povo nordestino teve que enfrentar.<\/p>\n<p>No caso de Or\u00f3s, como hoje no caso do COVID, uma nova realidade viria mudar a percep\u00e7\u00e3o das coisas e o modo de relacionamento entre os homens.<\/p>\n<p>Munida de desejo e de um di\u00e1rio de bordo, partia para as periferias escutar que palavras usavam, que interpreta\u00e7\u00f5es os moradores davam sobre o chamado estouro do a\u00e7ude de Or\u00f3s e as registrava ao p\u00e9 da letra. Bairro da Barriguda, do Alto Z\u00e9 do Pinho, Bairro da Macaxeira, dos Afogados&#8230; Encruzilhada, V\u00e1rzea. Quanta coisa aprendi!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vemos como aquele m\u00e9todo, que alfabetizou tanta gente nas terras sofridas do Nordeste, precisava espelhar sempre as experi\u00eancias vividas e contadas pelo seu povo, com palavras extra\u00eddas do seu universo vocabular, de seu linguajar \u00fanico, de uma l\u00edngua que, na ocasi\u00e3o, n\u00e3o suportava mais ficar exilada, soterrada. Veio \u00e0 tona.<\/p>\n<p>Talvez esteja pisando noutro campo do conhecimento humano, mas mesmo assim, o que adianto nos serve como um balizamento frente aos sujeitos. Aquela trag\u00e9dia despertou e carreou mitos, que, como nos diz Freud, s\u00e3o prot\u00f3tipos, cria\u00e7\u00f5es que explicam as origens; temos \u00c9dipo, como o mais importante dentre eles, temos o recalque prim\u00e1rio, a pr\u00f3pria puls\u00e3o e muito mais.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Galv\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, comentando o livro de Fernando Caio Abreu, nos diz: \u201cO ex\u00edlio enquanto experi\u00eancia traum\u00e1tica instala a necessidade das personagens em narrar os acontecimentos dif\u00edceis que o caracterizam\u201d. E mais adiante: \u201cMas as tentativas de transformar as experi\u00eancias de ex\u00edlio em relato, narrar essas perdas e os destro\u00e7os da err\u00e2ncia, obstruem-se nos limites de uma palavra que parece insuficiente para alcan\u00e7ar a experi\u00eancia daquela realidade indiz\u00edvel, que n\u00e3o pode ser \u201cverdade\u201d, que n\u00e3o pode ter acontecido. Por isso a insufici\u00eancia da palavra para descrever e narrar a experi\u00eancia traum\u00e1tica das personagens dos Contos de Ex\u00edlio de Fernando Caio Abreu\u201d.<\/p>\n<p>Por sua vez, Lacan nos diz que uma l\u00edngua se faz ao falar. N\u00e3o ser\u00e1 que o V\u00edrus COVID-19 \u2013 com sua carga mort\u00edfera e sua invisibilidade, que nos provocam medo, ang\u00fastia, desamparo \u2013, s\u00f3 o suportamos falando, falando e falando mais? O sujeito \u00e9 vontade de dizer, de dizer ao Outro, nos lembra Miller. Talvez tenhamos a\u00ed mais uma explica\u00e7\u00e3o para a intensidade que venho observando nas an\u00e1lises, na produ\u00e7\u00e3o dos analisandos, nas suas associa\u00e7\u00f5es, nos sonhos, nos lapsos. At\u00e9 mesmo numa certa modera\u00e7\u00e3o no seu modo de gozar.<\/p>\n<p>Munidos de algumas das ideias tratadas no texto, poder\u00edamos afirmar que trag\u00e9dias dessa propor\u00e7\u00e3o trazem necessariamente novas cadeias significantes capazes de ressignificar modos de viver e de gozar. Ser\u00e1 que \u00e9 a isso que chamo de uma maior abertura ao inconsciente, de um florescimento, cuja produ\u00e7\u00e3o vem aproximando mais alguns analisandos do m\u00e9todo e do discurso psicanal\u00edtico?<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, 17 de maio de 2020.<\/p>\n<p>Post scriptum: Escrevo ou falo para manter viva minha mem\u00f3ria, seja ela de antes ou depois do ex\u00edlio, pouco importa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><em>Bibliografia<\/em><\/h6>\n<ol>\n<li>\n<h6>Miller, J.A. Semin\u00e1rio &#8220;Extimit\u00e9&#8221;, 1985-1986 &#8211; Esse curso foi dado por Miller dentro das atividades do departamento de psican\u00e1lise da Universidade Paris VIII. Transcrito a partir do texto de Jacques Peraldi, n\u00e3o revisado pelo autor.<\/h6>\n<\/li>\n<li>\n<h6>Lacan, Jacques, consultas esparsas.<\/h6>\n<\/li>\n<\/ol>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Bassols, Miquel \u2013 \u201cA Lei da Natureza e o real sem lei\u201d, publicado originalmente em Zadic Espanha, gentilmente cedido pelo autor para o Correio Express, 20\/03\/2020<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, Jacques Alain. Un Effort de Po\u00e9sie, Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, 2002\/2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Galv\u00e3o, Ant\u00f4nio \u2013 Ex\u00edlio, Fic\u00e7\u00e3o e Hist\u00f3ria sobre os contos de Fernando Caio Abreu nos diz: \u201cO presente trabalho consiste em um estudo das imagens liter\u00e1rias do ex\u00edlio em contos de Fernando Caio Abreu.\u201d<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Lins Queria falar a voc\u00eas sobre como percebo essa quest\u00e3o nos meus atendimentos, reduzidos hoje ao uso da tecnologia. Sem querer me precipitar, posso dizer que parte de meus pacientes est\u00e1 mais pronta para suas an\u00e1lises, que aumentaram sua disposi\u00e7\u00e3o a associar livremente e v\u00eam apresentando uma maior capacidade de elabora\u00e7\u00e3o. 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