{"id":6068,"date":"2021-02-26T08:14:50","date_gmt":"2021-02-26T11:14:50","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=3427"},"modified":"2021-02-26T08:14:50","modified_gmt":"2021-02-26T11:14:50","slug":"a-roda-de-conversa-continua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/a-roda-de-conversa-continua\/","title":{"rendered":"A roda de conversa continua &#8230;"},"content":{"rendered":"<h6><em>Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros<\/em><\/h6>\n<p>Na Roda de Conversa do dia 7 de novembro de 2020, nas Jornadas sobre \u201dEx\u00edlios: corpo, <em>sinthoma<\/em> e territ\u00f3rio\u201d surgiram quest\u00f5es que traziam para o debate a tens\u00e3o entre o coletivo e o individual, consideradas a partir da experi\u00eancia do ex\u00edlio e seus destinos. Que respostas cada um pode dar para n\u00e3o encarnar o lugar da exclus\u00e3o absoluta, que confina algumas vezes com a morte?<\/p>\n<p>Paulo Vidal, em sua provoca\u00e7\u00e3o para a primeira esta\u00e7\u00e3o das Jornadas, nos convida a tensionar a dimens\u00e3o pol\u00edtica e hist\u00f3rica do ex\u00edlio com sua dimens\u00e3o estrutural, para que o sujeito possa se deslocar e n\u00e3o ficar preso \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de v\u00edtima de uma exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando Lacan diz que \u201c<em>o coletivo n\u00e3o \u00e9 nada sen\u00e3o o sujeito do individual<\/em>\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> (1945), ele tira consequ\u00eancias dessa tens\u00e3o, n\u00e3o para fazer uma oposi\u00e7\u00e3o, mas para localizar como se articulam, como se enla\u00e7am. O coletivo n\u00e3o \u00e9 uma justaposi\u00e7\u00e3o de corpos, n\u00e3o \u00e9 uma horda dirigida pelo instinto. Um coletivo \u00e9 uma forma de enlace, que s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque os indiv\u00edduos a\u00ed em jogo, enquanto seres falantes est\u00e3o submetidos a um processo de identifica\u00e7\u00e3o que os divide. O processo de identifica\u00e7\u00e3o divide e n\u00e3o torna unit\u00e1rio o sujeito, igual ao indiv\u00edduo. O coletivo se constitui pelas brechas deixadas abertas em cada um, em seu processo de identifica\u00e7\u00e3o, e em sua experi\u00eancia de gozo, que n\u00e3o \u00e9 absoluto. Quando isso n\u00e3o \u00e9 levado em conta, os coletivos terminam por se subdividirem ou se tornarem r\u00edgidos numa identifica\u00e7\u00e3o cega ao ideal.<\/p>\n<p>Se consideramos, como Lacan indicou, que o coletivo \u00e9 o sujeito do individual n\u00e3o temos como n\u00e3o levar em conta o furo que o coletivo faz no individual, o que \u00e9 bem diferente de pensar que o coletivo d\u00e1 consist\u00eancia ao individual. O que pode advir desse furo \u00e9 bem o que nos interessa, o que interessou a muitos nessa primeira rodada de conversas.<\/p>\n<p>O coletivo como lugar de ex\u00edlio \u00e9 o que vemos acontecer hoje na ades\u00e3o a grupos identit\u00e1rios, nos quais se juntam aqueles que experimentam formas diversas de exclus\u00e3o. Buscam abrigo para poder lidar com o que vem \u00e0 tona do ex\u00edlio pr\u00f3prio ao falasser, nesses momentos em que certas conjunturas obrigam a deixar para tr\u00e1s refer\u00eancias familiares, culturais, geogr\u00e1ficas ou a se protegerem de ataques devido a suas posi\u00e7\u00f5es sexuais. O ser falante, atravessado pelos significantes que o antecedem, n\u00e3o consegue experiment\u00e1-los de sa\u00edda, sen\u00e3o como parasitas, corpo estranho. O processo de identifica\u00e7\u00e3o se apoia nas marcas deixadas por esses significantes sem fazer uma unidade pr\u00f3pria ao indiv\u00edduo, mas uma divis\u00e3o pr\u00f3pria ao sujeito. Lembrar que o coletivo \u00e9 o sujeito do individual \u00e9 considerar as diferentes formas de divis\u00e3o que cada um experimenta ao encontrar fora de si, no coletivo a estranheza que lhe habita, que lhe concerne no mais \u00edntimo.<\/p>\n<p>Esse enunciado de Lacan, \u201co coletivo n\u00e3o \u00e9 nada sen\u00e3o o sujeito do individual\u201d, pode ter hoje uma for\u00e7a de orienta\u00e7\u00e3o para que os coletivos, enquanto lugar de abrigo, possam acolher o ex\u00edlio pr\u00f3prio de cada um, que faz ao mesmo tempo separa\u00e7\u00e3o e la\u00e7o.<\/p>\n<p>Podemos apostar assim em coletivos <em>dessegregativos<\/em> que acolham, que convoquem, que sustentem identifica\u00e7\u00f5es <em>dessegregativas<\/em>? Uma aposta de que a identifica\u00e7\u00e3o dessegregativa possa se enla\u00e7ar ao sinthoma que constitu\u00ed a singularidade de cada um, sua diferen\u00e7a absoluta.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que isso \u00e9 poss\u00edvel sem que haja algum tipo de interpreta\u00e7\u00e3o? Jacques-Alain Miller em sua Teoria de Turim nos diz: \u201cInterpretar o grupo, \u00e9 dissoci\u00e1-lo e reenviar cada um dos membros da comunidade a sua solid\u00e3o\u201d. A solid\u00e3o de seu sinthoma, o que \u00e9 bem diferente do isolamento. O apoio na marca singular torna poss\u00edvel lidar com a sua pr\u00f3pria estranheza e a estranheza no outro, estranheza do outro que est\u00e1 na raiz dos processos de segrega\u00e7\u00e3o. E dessa forma poder extrair algo novo do paradoxo sinthoma e la\u00e7o que se experimenta no coletivo.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, Jacques: O tempo l\u00f3gico ( 1945) in Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pg 213.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros Na Roda de Conversa do dia 7 de novembro de 2020, nas Jornadas sobre \u201dEx\u00edlios: corpo, sinthoma e territ\u00f3rio\u201d surgiram quest\u00f5es que traziam para o debate a tens\u00e3o entre o coletivo e o individual, consideradas a partir da experi\u00eancia do ex\u00edlio e seus destinos. 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