{"id":6067,"date":"2021-02-26T08:14:16","date_gmt":"2021-02-26T11:14:16","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=3425"},"modified":"2021-02-26T08:14:16","modified_gmt":"2021-02-26T11:14:16","slug":"ode-ao-coletivo-ou-como-construir-jornadas-na-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/ode-ao-coletivo-ou-como-construir-jornadas-na-pandemia\/","title":{"rendered":"Ode ao coletivo ou como construir Jornadas na pandemia"},"content":{"rendered":"<h6><strong>Marina Morena Torres<\/strong><\/h6>\n<p>Para escrever sobre as resson\u00e2ncias das \u00faltimas Jornadas escolhi me deter no significante \u201ccoletivo\u201d como eixo, por ter aparecido diversas vezes expl\u00edcita ou implicitamente ao longo de todo o per\u00edodo preparat\u00f3rio, como tamb\u00e9m em cada final de semana das Jornadas. Escrevo esse texto apoiando-me em Miller, na Teoria de Turim quando diz que \u201cA vida de uma Escola deve se interpretar.\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Algo parecia estar ali desde o princ\u00edpio, desde antes de irromper a pandemia: foi acordado um funcionamento diferente nessas Jornadas, algo mais plural e que possibilitasse maior acesso, em todos os sentidos da palavra. Eu e outras participantes n\u00e3o-membros da Escola fomos chamadas a compor o cartel estendido de coordena\u00e7\u00e3o junto de membros. Agora, num momento <em>a posteriori<\/em>, entendo esse convite como uma das maneiras de tentar fazer presente uma extimidade ao j\u00e1 conhecido saber-fazer das Jornadas que acontecem todo ano. Em pouco tempo est\u00e1vamos nos referindo ao cartel de coordena\u00e7\u00e3o como um coletivo. N\u00e3o sei precisar exatamente em qual momento essa denomina\u00e7\u00e3o se deu, mas nos acompanhou at\u00e9 a conclus\u00e3o do evento.<\/p>\n<p>Com o atravessamento da pandemia, da solid\u00e3o de nossas casas, nos referimos ao pacto coletivo do isolamento social com o lema \u201cQuem puder ficar em casa, por favor fique, por todos n\u00f3s\u201d. Nesse 2021, j\u00e1 com uma infinidade de viv\u00eancias na pandemia, ansiamos mais uma vez pelo pacto coletivo das vacinas. Mas afinal, o que do real da pandemia nos leva a clamar por um coletivo?<\/p>\n<p>Como bem colocou Marina Recalde na Esta\u00e7\u00e3o 3, ao retomar Mbembe, \u201cOs coletivos interp\u00f5em, ent\u00e3o, um limite a essa brutalidade do Outro ou, ao menos, tentam faz\u00ea-lo, para impedir que esse corpo seja massacrado, humilhado, violentado, invisibilizado.\u201d Segundo a autora, h\u00e1 um tipo de identifica\u00e7\u00e3o que coletiviza e produz esperan\u00e7a. E esperan\u00e7a n\u00e3o \u00e9 um sentimento fundamental em tempos brutos como esse? Acredito que pudemos recolher um sentimento de esperan\u00e7a ao longo desse ano de trabalho, dado que a comunidade da Se\u00e7\u00e3o Rio sustentou o desejo de fazer Escola mesmo quando nos foi imposto seguir trabalhando de um modo in\u00e9dito, online, sem avistar a luz no fim de t\u00fanel<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>. Esse desejo apareceu de diversos modos ao longo das Jornadas.<\/p>\n<p>Como psicanalistas nosso trabalho \u00e9 sempre com o real. Nesse cen\u00e1rio do real da pandemia, do isolamento, do luto por colegas, da falta de luz no fim do t\u00fanel, como n\u00e3o recuar diante desse real aterrorizante que se imp\u00f4s no ano de 2020? E ainda, como construir Jornadas sem se apoiar em uma experi\u00eancia pr\u00e9via? Arrisco dizer que s\u00f3 foi poss\u00edvel por ter sido um trabalho coletivo. Afinal, o que somos n\u00f3s sem as pessoas?<\/p>\n<p>Segundo Miller, na Escola trata-se de uma forma\u00e7\u00e3o coletiva que n\u00e3o pretende fazer desaparecer a solid\u00e3o subjetiva, mas que pelo contr\u00e1rio se funda nela, a manifesta, a revela. \u00c9 o paradoxo da Escola e tamb\u00e9m sua aposta, dado que a rela\u00e7\u00e3o com a causa anal\u00edtica remete cada um \u00e0 sua solid\u00e3o radical, como nos orienta Lacan no Ato de funda\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. E participando desse coletivo de solid\u00f5es singulares, amando no outro o insuport\u00e1vel de si mesmo como pontuou Simone Souto<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, indo na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria dos movimentos segregativos atuais e atualizados, fizemos Jornadas coletivas que deixaram muitos efeitos em todos que participaram.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, Jacques-Alain. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. <a href=\"http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_21\/Teoria_de_Turim.pdf\">http:\/\/www.opcaolacaniana.com.br\/pdf\/numero_21\/Teoria_de_Turim.pdf<\/a> Acesso em 01 de fevereiro de 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a> Bassols, Miquel. \u00bfQu\u00e9 nos podemos encontrar al final del t\u00fanel? <a href=\"https:\/\/zadigespana.com\/2020\/04\/05\/coronavirus-que-nos-podemos-encontrar-al-final-del-tunel\/\">https:\/\/zadigespana.com\/2020\/04\/05\/coronavirus-que-nos-podemos-encontrar-al-final-del-tunel\/<\/a> Acesso em 01 de fevereiro de 2021.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Lacan, Jacques. Ato de funda\u00e7\u00e3o in <em>Outros Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Souto, Simone. Amar no outro o insuport\u00e1vel de si mesmo. <em>Boletim Um por Um <\/em>n.358.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marina Morena Torres Para escrever sobre as resson\u00e2ncias das \u00faltimas Jornadas escolhi me deter no significante \u201ccoletivo\u201d como eixo, por ter aparecido diversas vezes expl\u00edcita ou implicitamente ao longo de todo o per\u00edodo preparat\u00f3rio, como tamb\u00e9m em cada final de semana das Jornadas. 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