{"id":6066,"date":"2021-02-26T08:13:24","date_gmt":"2021-02-26T11:13:24","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=3423"},"modified":"2021-02-26T08:13:24","modified_gmt":"2021-02-26T11:13:24","slug":"estacao-sinthoma-corpo-territorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/estacao-sinthoma-corpo-territorio\/","title":{"rendered":"Esta\u00e7\u00e3o Sinthoma. Corpo. Territ\u00f3rio."},"content":{"rendered":"<h6>Continuando a conversa&#8230;.<\/h6>\n<h6><em>Ondina Machado<\/em><\/h6>\n<p>No ano em que nada deu certo, as XXVII Jornadas Cl\u00ednicas da Se\u00e7\u00e3o Rio e do ICP-RJ estiveram na sua melhor forma. O trabalho coletivo teve um resultado coletivo: reuniu nossa comunidade e a ampliou. Os convidados n\u00e3o foram simplesmente convidados, aqueles que nem precisam levar o vinho. Eles fizeram parte do coletivo ampliado, trabalharam previamente em torno do tema proposto e do recorte destacado para cada Esta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 o resultado foi excelente, mas a repercuss\u00e3o e os desdobramentos das discuss\u00f5es tamb\u00e9m. Quero contar-lhes a minha experi\u00eancia.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es relativas \u00e0 autoestima e \u00e0 identidade s\u00e3o preciosas para as minorias e delicadas sob o ponto de vista da psican\u00e1lise. Tendemos a entend\u00ea-los como recursos eg\u00f3icos que, em geral, criam uma camada de verniz que engessa e compromete a singularidade. O eu nutre-se da expectativa do Outro social forjando para si um modo de ser condescendentemente reativo e pouco criativo, levando a mais exclus\u00e3o. Por seu lado, o supereu age com a for\u00e7a que o gozo lhe confere e, buscando sempre mais, se alimenta da impossibilidade em unir dever com querer. A singularidade n\u00e3o \u00e9 conforme, nem sempre o desejo coincide com o que \u00e9 o melhor, as escolhas que nos s\u00e3o poss\u00edveis requerem uma perda. Tudo isso nos faz desconfiar das solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o sacrificam os ideais, que n\u00e3o levam em conta o imposs\u00edvel de mudar.<\/p>\n<p>Com essa f\u00e9 no um a um, custamos a entender a for\u00e7a que o grupo ou territ\u00f3rio pode ter sobre o sujeito, a utilidade pol\u00edtica da identidade com ou sem um trabalho de depura\u00e7\u00e3o das identifica\u00e7\u00f5es. \u00c9 nesse sentido que entendo o quanto podemos aprender com os movimentos sociais. Foi tamb\u00e9m por isso que me interessei tanto pelas Esta\u00e7\u00f5es, em especial a Sinthoma.Corpo.Territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>Vou retomar aqui uma discuss\u00e3o que come\u00e7ou com uma pergunta que enderecei ao Wallace Lino no dia da Esta\u00e7\u00e3o e que se estendeu atrav\u00e9s das Mensagens Diretas do Instagram. Em sua fala ele citou o conceito de \u201camar a negritude\u201d de Bell Hooks e nos forneceu um exemplo: tomar as palafitas, constru\u00e7\u00f5es t\u00edpicas da Comunidade da Mar\u00e9, como s\u00edmbolo de tecnologia e n\u00e3o como s\u00edmbolo de pobreza, maneira usual pela qual esse tipo de constru\u00e7\u00e3o \u00e9 tratada no discurso branco hegem\u00f4nico. Minha pergunta foi semeada no atual clima pol\u00edtico brasileiro onde qualquer reivindica\u00e7\u00e3o ou den\u00fancia, principalmente as vindas de movimentos sociais, \u00e9 tratada como \u201cmimimi\u201d e vira alvo do esc\u00e1rnio e da ridiculariza\u00e7\u00e3o por parte do atual presidente brasileiro. Minha pergunta era composta de um elogio ao tratamento das palafitas como s\u00edmbolo tecnol\u00f3gico, mas questionava sobre um poss\u00edvel perigo em se retirar completamente a inscri\u00e7\u00e3o dessas constru\u00e7\u00f5es como signo de pobreza. Minha quest\u00e3o era se com isso n\u00e3o estar\u00edamos endossando uma recente fala do presidente, quando indagado por rep\u00f3rteres, sobre o, \u00e0 \u00e9poca, assombroso n\u00famero de 82 mil infectados pelo coronavirus. Na ocasi\u00e3o ele afirmou que \u201co brasileiro pula no esgoto e n\u00e3o acontece nada\u201d, portanto n\u00e3o haveria problema se nos contamin\u00e1ssemos. Gentilmente, Wallace me respondeu utilizando o argumento da narrativa \u00fanica, inspirado na concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria \u00fanica de Chimamanda Ngozi Adiche. Segundo a autora o perigo da hist\u00f3ria \u00fanica \u00e9 tomar um fato ou um aspecto de uma pessoa e reduzi-la a isso, sem perceber a rica complexidade que o fato ou a pessoa possam ter al\u00e9m daquele que faria parte de uma esp\u00e9cie de discurso\/narrativa\/hist\u00f3ria oficial. Ela aplica esse conceito n\u00e3o s\u00f3 ao \u00e2mbito social como tamb\u00e9m, e principalmente, ao campo pol\u00edtico. N\u00e3o se trata de saber se \u00e9 uma hist\u00f3ria verdadeira ou n\u00e3o, mas de n\u00e3o se limitar \u00e0 narrativa oficial, que ela seja tomada a partir de v\u00e1rias perspectivas, em especial daqueles diretamente implicados.<\/p>\n<p>Questionar a hist\u00f3ria \u00fanica est\u00e1 muito pr\u00f3ximo do trabalho de fazer vacilar os significantes do Outro que marcaram as nossas identifica\u00e7\u00f5es. Explorar diversas narrativas \u00e9 o leito sobre o qual corre uma an\u00e1lise e inventar um modo de gozo a partir das marcas singulares \u00e9 o que se pode esperar dessa experi\u00eancia. Achei que o Wallace Lino poderia me ajudar a entender melhor a \u00f3bvia, e ao mesmo tempo complicada, interfer\u00eancia do coletivo no singular. Mesmo o subjetivo jogando seu jogo na individualidade, ele tamb\u00e9m depende da possibilidade de no Outro haver espa\u00e7o para a inven\u00e7\u00e3o que venha a surgir.<\/p>\n<p>Na conversa pelas Mensagens Diretas do Instagram, Wallace reafirmou que a \u201cfratura colonial gera muita disson\u00e2ncia e complexidades\u201d, o que me fez retomar o argumento que faz valer o \u201camor \u00e0 negritude\u201d de Bell Hooks. Entendi que esse discurso n\u00e3o \u00e9 para convencer ningu\u00e9m, que ele tem todo sentido porque \u00e9 dirigido \u00e0 pr\u00f3pria comunidade negra. Assim, ele faz o discurso da ancestralidade deslizar da den\u00fancia \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o ao amor \u00e0 negritude. Parece que a l\u00f3gica da den\u00fancia, que \u00e9 sempre uma demanda dirigida ao Outro, perdeu for\u00e7a ao ser absorvida, e consequentemente, neutralizada, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o a ponto de n\u00e3o abalar o racismo estrutural. O que talvez, hoje, se constitua como uma forma de resist\u00eancia sejam as a\u00e7\u00f5es afirmativas e de valoriza\u00e7\u00e3o da cultura, dos saberes, da beleza e do poder de consumo dos negros. Esse novo ativismo recolhe narrativas internas \u00e0 pr\u00f3pria comunidade, d\u00e1-lhes um tratamento pela via do amor e as reintroduz por novos significantes-mestres, que correm por fora da norma branca. Esse movimento aposta na constru\u00e7\u00e3o de gera\u00e7\u00f5es de negros orgulhosos de sua ancestralidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Continuando a conversa&#8230;. Ondina Machado No ano em que nada deu certo, as XXVII Jornadas Cl\u00ednicas da Se\u00e7\u00e3o Rio e do ICP-RJ estiveram na sua melhor forma. O trabalho coletivo teve um resultado coletivo: reuniu nossa comunidade e a ampliou. Os convidados n\u00e3o foram simplesmente convidados, aqueles que nem precisam levar o vinho. 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