{"id":6054,"date":"2020-08-20T09:46:36","date_gmt":"2020-08-20T12:46:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2819"},"modified":"2020-08-20T09:46:36","modified_gmt":"2020-08-20T12:46:36","slug":"sobre-a-stella-por-maria-ines-lamy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/sobre-a-stella-por-maria-ines-lamy\/","title":{"rendered":"Sobre a Stella &#8211; por Maria In\u00eas Lamy"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, quando nem havia o Corte Freudiano, fomos assistir \u00e0 palestra de um psicanalista franc\u00eas sobre algum tema lacaniano. S\u00e1bado de manh\u00e3, o Rio explodindo em sol e mar, e n\u00f3s dentro de um audit\u00f3rio com ilumina\u00e7\u00e3o artificial e ar condicionado. Na sa\u00edda, disse Stella, com olhar vago e brilhante: \u201cQuando ou\u00e7o sobre Lacan \u00e9 como quando leio Lacan: n\u00e3o vejo o tempo passar&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Stella era movida pelo desejo. Estudava muito porque adorava estudar. Assim como era apaixonada por literatura, cinema, teatro, dan\u00e7a, viagens, pol\u00edtica&#8230; Parecia seguir \u00e0 risca o que disse Lacan sobre Freud: o que o movia n\u00e3o era tanto a coragem mas a paix\u00e3o<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. O sacrif\u00edcio n\u00e3o faz parte da posi\u00e7\u00e3o de quem se deixa tocar pela psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o era outra paix\u00e3o da Stella e sorte tivemos n\u00f3s, que a escutamos e estudamos com ela.\u00a0 Valorizava a fala de cada um sem, no entanto, ceder do rigor e da \u00e9tica da psican\u00e1lise. A\u00ed est\u00e1 mais um tra\u00e7o fundamental da Stella: levar em conta o que o outro diz sem se colar aos ditos.<\/p>\n<p>A capacidade de se aproximar, podendo manter a dist\u00e2ncia, se revelava em outra de suas peculiaridades: mal come\u00e7\u00e1vamos a estudar com ela, \u00e9ramos convidados\/as para algum programa cultural ou almo\u00e7o. Stella transitava muito bem em meio aos diferentes v\u00ednculos que se estabeleciam.<\/p>\n<p>Esse seu tra\u00e7o fundamental tamb\u00e9m se manifestava na rela\u00e7\u00e3o com a Escola. A cada nova onda ou tema, Stella mergulhava, mas n\u00e3o se deixava tragar. Estudava o assunto a fundo, mas mantinha sempre sua interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, singular. Era capaz, por exemplo, de pin\u00e7ar no ultim\u00edssimo Lacan o primeir\u00edssimo Freud ou vice versa.<\/p>\n<p>Estrangeiro aqui como em toda parte \u2013 esse verso de Fernando Pessoa talvez diga muito sobre a Stella. O poema, escrito em portugu\u00eas, traz no t\u00edtulo em ingl\u00eas o nome da terra natal do poeta: \u201cLisbon revisited\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de presentificar uma vida movida pelo desejo, Stella, entre duas l\u00ednguas, nos deixou como legado o ensinamento de que somos todos estrangeiros e que cada um deve aprender, a seu modo, a se virar com seu pr\u00f3prio ex\u00edlio.<\/p>\n<p>O legado \u00e9 grande, a saudade tamb\u00e9m&#8230;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. O semin\u00e1rio, livro 11. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, quando nem havia o Corte Freudiano, fomos assistir \u00e0 palestra de um psicanalista franc\u00eas sobre algum tema lacaniano. S\u00e1bado de manh\u00e3, o Rio explodindo em sol e mar, e n\u00f3s dentro de um audit\u00f3rio com ilumina\u00e7\u00e3o artificial e ar condicionado. 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