{"id":6047,"date":"2020-08-20T09:42:08","date_gmt":"2020-08-20T12:42:08","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2805"},"modified":"2020-08-20T09:42:08","modified_gmt":"2020-08-20T12:42:08","slug":"homenagem-a-stella-jimenez-por-angelica-bastos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/homenagem-a-stella-jimenez-por-angelica-bastos\/","title":{"rendered":"Homenagem a Stella Jimenez &#8211; por Ang\u00e9lica Bastos"},"content":{"rendered":"<p>Agrade\u00e7o \u00e0 diretoria da Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP a oportunidade dessa homenagem a Stella Jimenez.<\/p>\n<p>Desde que me interessei pela pr\u00e1tica da psican\u00e1lise e pelo ensino de Lacan, coisas para mim concomitantes, Stella j\u00e1 estava a\u00ed, a princ\u00edpio como a psicanalista argentina ativa no Corte Freudiano e, em seguida, na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. Era uma presen\u00e7a singular, cuja raridade eu apenas adivinhava, ao descobrir o t\u00edtulo <em>\u201c<\/em><em>O desejo \u00e9 o diabo<\/em><em>\u201d <\/em>na colet\u00e2nea por ela organizada com Manoel Motta. Mais tarde, como Analista Membro da Escola (AME) e secret\u00e1ria do Passe, soube discretamente testemunhar, com o que h\u00e1 de inigual\u00e1vel no que chamamos de estilo, que a Escola \u00e9 tamb\u00e9m um sujeito, com sua divis\u00e3o e seu real.<\/p>\n<p>Meu gosto pela palavra escrita, meu encanto pelas ouvidas, foi profundamente tocado por seu uso da palavra, t\u00e3o econ\u00f4mico quanto preciso, agudo, faca amolada. Encontrei em um livro de Chico Buarque a express\u00e3o que evocou essa caracter\u00edstica dela: ouvir uma l\u00edngua estrangeira era como cortar um rio a facas. De seu lugar entre l\u00ednguas, afiada, cortava a facadas o rio das palavras que era t\u00e3o h\u00e1bil tanto em provocar quanto em estranhar.<\/p>\n<p>Supervisora, parceira de estudo e trabalho, companheira de congressos e viagens, amiga, nossos la\u00e7os se estenderam aos pr\u00f3ximos de cada uma. Guardo lembran\u00e7as das idas ao cinema com os queridos Manoel Motta e Fernando Coutinho. Afinal, o livro \u201c<em>No cinema com Lacan<\/em>\u201d foi composto pela pr\u00f3pria vida de Stella. Recordo com especial emo\u00e7\u00e3o encontros em que generosamente compartilhou a presen\u00e7a de sua filha Cec\u00edlia com Fernando e comigo em Buenos Aires e, depois, com \u00c2ngela Bernardes e comigo aqui no Rio. Em ocasi\u00f5es como essas, a luz pr\u00f3pria, caracter\u00edstica da estrela, dava lugar ao humor e ao sorriso, como aquele do gato risonho de \u201c<em>Alice no Pa\u00eds das Maravilhas<\/em><em>\u201d<\/em>, um sorriso que perdura quando o pr\u00f3prio corpo se elide.<\/p>\n<p>Stella n\u00e3o foi \u2018a\u2019 supervisora, tampouco \u2018uma\u2019 supervisora. Foi v\u00e1rias, pois soube acompanhar ao longo de mais de duas d\u00e9cadas de modo m\u00f3vel e firme as transforma\u00e7\u00f5es atravessadas n\u00e3o s\u00f3 pela supervisionanda, mas pela pr\u00f3pria psican\u00e1lise de orienta\u00e7\u00e3o lacaniana.<\/p>\n<p>Stella escrevia a n\u00f3s do N\u00facleo de Topologia com a express\u00e3o \u201cQuerido N\u00facleo\u201d. At\u00e9 o dia 15\/07\/20, o \u00faltimo em que trocamos mensagens, foi este o assunto que mais lhe interessou. Ela se animava especialmente com os preparativos para a publica\u00e7\u00e3o do livro do N\u00facleo de Topologia do ICP-RJ. Esse livro n\u00e3o era nosso, dela ou meu, nem dos autores nele reunidos, mas de todos os que participaram do trabalho por ela impulsionado, que partilharam a constru\u00e7\u00e3o dos casos e as leituras, enfim, daqueles que contribu\u00edram com o que tinham a dizer, para al\u00e9m do que sabiam ou n\u00e3o sabiam.<\/p>\n<p>Uma nota sobre a pol\u00edtica, que tanto a mobilizou nos \u00faltimos dois anos. Sempre entendi essa faceta de Stella como um efeito de forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica. N\u00e3o que o exerc\u00edcio da pol\u00edtica n\u00e3o possu\u00edsse antecedentes em sua hist\u00f3ria, sei que se remetia a momentos cruciais de sua vida. Considero seu engajamento como efeito pol\u00edtico da forma\u00e7\u00e3o permanente, nela t\u00e3o manifesto, porque n\u00e3o se traduzia em militantismo que coletivizasse em torno de ideais, nem em agendas e pautas preconizadas, mas como a express\u00e3o do que Jacques-Alain Miller denominou uma espiral. Ao inv\u00e9s da dualidade entre forma\u00e7\u00e3o e engajamento pol\u00edtico, essa espiral se expande com desenvolvimento e recorr\u00eancia do mesmo numa mesma \u00e9tica da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>Em um v\u00eddeo que circulou com Stella na instala\u00e7\u00e3o \u201c<em>Os resistentes\u201d<\/em> de sua amiga, a artista pl\u00e1stica e psicanalista Gl\u00f3ria Sedon, Stella proclamava o termo \u2018esperan\u00e7ar\u2019, invocando Paulo Freire. Esse significante diz muito dela. Outro, \u00e9 a palavra \u2018amadurar\u2019, que ela preferia a \u2018amadureder\u2019. Com o termo espanhol <em>madurar<\/em>, ela alternava o \u2018amadurar\u2019, o que para mim insinuava a inje\u00e7\u00e3o de castelhano introduzida no portugu\u00eas carioca. Com essa palavra \u2018ama-durar\u2019 posso dizer de minha gratid\u00e3o e de meu voto de que sua transmiss\u00e3o amadure\u00e7a e dure entre n\u00f3s.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agrade\u00e7o \u00e0 diretoria da Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP a oportunidade dessa homenagem a Stella Jimenez. Desde que me interessei pela pr\u00e1tica da psican\u00e1lise e pelo ensino de Lacan, coisas para mim concomitantes, Stella j\u00e1 estava a\u00ed, a princ\u00edpio como a psicanalista argentina ativa no Corte Freudiano e, em seguida, na Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. 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