{"id":6043,"date":"2020-08-20T09:31:36","date_gmt":"2020-08-20T12:31:36","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2796"},"modified":"2020-08-20T09:31:36","modified_gmt":"2020-08-20T12:31:36","slug":"stella-estrangeira-por-elisa-alvarenga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/stella-estrangeira-por-elisa-alvarenga\/","title":{"rendered":"Stella, estrangeira &#8211; por Elisa Alvarenga"},"content":{"rendered":"<p>Conheci Stella, n\u00e3o sei precisar quando, nos Encontros da EBP. Eu a achava delicada, interessante, e gostava de conversar com ela. Fomos descobrindo interesses em comum, e o que mais nos aproximou n\u00e3o foi a psican\u00e1lise, mas o gosto por viajar. Hav\u00edamos visitado alguns lugares em comum em nossas andan\u00e7as pelo mundo, ela me falava de lugares onde eu nunca tinha ido, eu lhe contava de outros que ela n\u00e3o visitara. Mapeamos alguns lugares onde nenhuma das duas havia estado, que gostar\u00edamos de conhecer. Assim nasceu a ideia da viagem ao Marrocos, por ocasi\u00e3o do Congresso de Barcelona, em 2018. \u00a0A ideia foi ganhando corpo, e cara, depois roteiro. Fernando Coutinho, amigo de Stella e companheiro de outras viagens, aderiu \u00e0 proposta. Ele j\u00e1 conhecia o Marrocos, mas queria retornar, e achava que duas mulheres n\u00e3o deviam fazer aquela viagem sozinhas a um pa\u00eds predominantemente mu\u00e7ulmano.<\/p>\n<p>Essa viagem, com Stella e Fernando, foi para mim um sonho. N\u00e3o apenas pela beleza das paisagens, que cruzamos de norte ao sul do pa\u00eds, guiados por um motorista berbere, que nos fazia ouvir as melodias de sua cultura e nos apresentava as comidas de cada lugar. Cruzamos o Atlas, visitamos ruinas romanas e as medinas das cidades imperiais, sempre nos hospedando nos Riads, pequenos pal\u00e1cios feios por fora e preciosos por dentro. Mas o mais rico desta viagem foi compartilhar com Fernando e Stella as andan\u00e7as, comidas, descobertas e conversas, em um universo t\u00e3o estranho para n\u00f3s e ao mesmo tempo t\u00e3o acolhedor. Pudemos compartilhar, no nosso amor pelo cinema, alguns filmes delicados sobre a cultura marroquina.<\/p>\n<p>A gentileza de Fernando tinha seu contraponto na autenticidade de Stella: quando o guia queria parar o carro, em um ponto tur\u00edstico, para tirarmos fotos com macacos, Stella n\u00e3o hesitou em lhe dizer que aquilo n\u00e3o nos interessava. Na sua seriedade decidida, ela dizia ao jovem motorista que ele n\u00e3o podia dirigir e falar ao celular ao mesmo tempo. Sempre corajosa, enfrentou o medo genu\u00edno de subir \u00a0em um camelo e atravessar o deserto at\u00e9 o acampamento onde passamos a noite.<\/p>\n<p>Me impressionavam seus vastos conhecimentos e sua mem\u00f3ria dos detalhes, dos nomes e das hist\u00f3rias. Sem as pesquisas e escolhas de Stella, aquela viagem jamais teria sido t\u00e3o m\u00e1gica e inesquec\u00edvel. A cidade azul \u2013 Chefchaouen \u2013 e o Jardin Marjorelle, em Marraquexe, foram p\u00e9rolas encontradas gra\u00e7as aos dois amigos. Num fim de tarde, nos demos ao luxo de tomar uns drinks nos jardins de um hotel de luxo, onde Stella comentou, com sua firmeza habitual, o que Jacques-Alain Miller havia formulado em um de seus Cursos. E a\u00ed entramos em um outro cap\u00edtulo: o do saber imenso e sutil de Stella, cujo sabor pude desfrutar mais uma vez nos dois textos que ela escreveu pouco antes de nos deixar: \u201cDemocracia e psican\u00e1lise: a vida exige coragem\u201d e \u201cA vingan\u00e7a do real\u201d.<\/p>\n<p>Um ano depois de nossa viagem perdemos Fernando Coutinho. Foi um duro golpe para Stella. Pouco antes, almo\u00e7amos juntas no Instituto Moreira Salles e fomos ver Tarsila do Amaral no MASP, com Ang\u00e9lica Bastos, uma amiga em comum, por ocasi\u00e3o do Congresso da EBP em S\u00e3o Paulo. E pouco depois, por ocasi\u00e3o do ENAPOL, almo\u00e7amos novamente juntas as tr\u00eas: foi a \u00faltima vez que vi Stella e passei com ela um bom momento.<\/p>\n<p>No dia 23 de abril escrevi a Stella para lhe dizer que havia visto sua live com os psicanalistas pela democracia e fiquei com saudades. Ela estava linda nesse v\u00eddeo. Conversamos um pouco no whatsapp sobre o momento e ela me disse: \u201cEspero que isto acabe algum dia. As perspectivas s\u00e3o ruins\u201d. De fato. No dia 19 de julho, Ang\u00e9lica me ligou para contar as tristes not\u00edcias. E 10 dias depois, Stella se foi.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 gentileza de Andr\u00e9a Reis, pude participar da homenagem feita a ela pelos colegas do Rio e despedir-me, assim, um pouco dela. Foram momentos de muita emo\u00e7\u00e3o e Cec\u00edlia, falando do amor de sua m\u00e3e pela psican\u00e1lise e por seu trabalho, me tocou profundamente. Ali entendi que minha afinidade com Stella era da ordem de uma \u201crela\u00e7\u00e3o intersinthom\u00e1tica\u201d, como diz Lacan em 1978: \u201ccomo ent\u00e3o comunicar o v\u00edrus desse sinthoma sob a forma do significante?\u201d, ele pergunta. \u00c9 o que estou tentando fazer aqui. Encontrei em Stella algo da estrangeira que habita em mim.<\/p>\n<h6>07.08.2020<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conheci Stella, n\u00e3o sei precisar quando, nos Encontros da EBP. Eu a achava delicada, interessante, e gostava de conversar com ela. Fomos descobrindo interesses em comum, e o que mais nos aproximou n\u00e3o foi a psican\u00e1lise, mas o gosto por viajar. Hav\u00edamos visitado alguns lugares em comum em nossas andan\u00e7as pelo mundo, ela me falava&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-6043","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-homenagem-a-stella-jimenez","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6043","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6043"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6043\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6043"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6043"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6043"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=6043"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}