{"id":6032,"date":"2020-06-08T08:23:14","date_gmt":"2020-06-08T11:23:14","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2709"},"modified":"2020-06-08T08:23:14","modified_gmt":"2020-06-08T11:23:14","slug":"o-real-impossivel-e-uma-possivel-nova-alianca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/o-real-impossivel-e-uma-possivel-nova-alianca\/","title":{"rendered":"O real imposs\u00edvel e uma poss\u00edvel nova alian\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h6>Um coment\u00e1rio a partir do convite da Diretoria da Se\u00e7\u00e3o-Rio, sobre o texto de Ruth Cohen publicado no numero de 15 de maio de 2020 da Correio Express<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/05\/15\/rupturas\/\">https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/05\/15\/rupturas\/<\/a><\/h6>\n<h6><em>Por Ana Beatriz Freire <\/em><\/h6>\n<p>O que pode o analista produzir com sua presen\u00e7a\/aus\u00eancia nos tempos de pandemia devido ao virus Covid 19? Qual as possibilidades do analista estar na fun\u00e7\u00e3o presente nos atendimentos on-line? Diante da conting\u00eancia do real que nos leva a pol\u00edtica universal de isolamento, como podemos responder, com a psican\u00e1lise, no singular de cada sintoma que se constr\u00f3i para al\u00e9m, ou com, o universal ( universal da pandemia que exige o isolamento para todos). Qual a rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel e a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e psican\u00e1lise? Como reconstruirmos nossas fantasias depois desse <em>automaton<\/em> que se rompeu, questionando os alicerces sobre os quais nossa realidade fantasm\u00e1tica se sustentava? Ou ainda, nas pr\u00f3prias palavras de Ruth Cohen, \u201cnosso desafio ser\u00e1 pensar o que sustenta e sustentar\u00e1 daqui pra frente o discurso anal\u00edtico. Ou mais, com que formato de espa\u00e7o e tempo podemos fazer supl\u00eancia a esse furo e, com que tecido vamos suturar a ferida que se abriu?\u201d ( sic Cohen). Como observa Miller, com a separa\u00e7\u00e3o natureza e real, temos uma grande desordem, sem a garantia da ordem simb\u00f3lica, o que tornou o real sem lei.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a><\/p>\n<p>Quanto \u00e0 fun\u00e7\u00e3o do analista, a autora nos interroga: \u201cQuem analisa hoje? Qual o lugar da interpreta\u00e7\u00e3o? Em que ponto estamos na transfer\u00eancia? Como agir com seu ser? \u201c Qual o lugar, acrescentaria, dos objetos olhar e voz nessas pequenas janelas maqu\u00ednicas da internet?<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o algumas interroga\u00e7\u00f5es que, nesse breve e instigante ensaio, Ruth Cohen nos convida a pensar. \u00a0Dentre as diversas vertentes que sua reflex\u00e3o nos convoca, gostaria, a partir da sua hip\u00f3tese sobre o rompimento do <em>automaton<\/em>, da realidade fantasm\u00e1tica, de pensar em particular sobre a rela\u00e7\u00e3o ou uma alian\u00e7a poss\u00edvel entre ci\u00eancia e psican\u00e1lise. Frente ao real, que n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever e se alastra, contingentemente, sob forma mort\u00edfera, como n\u00f3s, como analistas, podemos responder aliados, ou n\u00e3o, ao discurso da ci\u00eancia?<\/p>\n<p>Sabemos com Lacan que o sujeito da psican\u00e1lise, mesmo que paradoxalmente, implica em sua pr\u00e1xis o sujeito da ci\u00eancia <a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>e, que foi com a ci\u00eancia, que se constatou ser o real imposs\u00edvel. O real\u00a0\u00e9 imposs\u00edvel porque como afirma Lacan, n\u00e3o cessa de n\u00e3o se escrever<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>ou, como constataram os cientistas (com A. Koyr\u00e9), n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de tudo se apreender pelas f\u00f3rmulas cient\u00edficas. Se o real \u00e9 imposs\u00edvel no ideal de ci\u00eancia, coube \u00e0 ci\u00eancia ideal<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a> no saber fazer e com sua <em>techn\u00e9<\/em>, \u00a0em \u201cseu casamento com o capitalismo\u201d (sic Cohen), prometer a possibilidade de tudo saber e, consequentemente, poder. Todo saber que acredita construir atrav\u00e9s do uso de uma certa ci\u00eancia, t\u00e9cnica, cujo paradigma se pauta no ideal de m\u00e1xima \u00a0produtividade e opera\u00e7\u00e3o sobre o real, sobre os corpos n\u00e3o apenas para domin\u00e1-los, mas para torn\u00e1-los d\u00f3ceis ( como constata Foucault) e produtivos ou como afirma Lacan, foracluindo o sujeito<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a>.<\/p>\n<p>Resta-nos interrogar, ap\u00f3s e durante esse instante de ver nessa pandemia, quais consequ\u00eancias poderemos \u00a0tirar, como psicanalistas,<em> a posteriori<\/em>, dessa rela\u00e7\u00e3o e nos interrogarmos sobre a possibilidade de uma \u201cnova alian\u00e7a \u201c entre o real (da psican\u00e1lise) e a ci\u00eancia. Talvez as escolhas sejam for\u00e7adas: ou denegamos, nessa luta contra o v\u00edrus invis\u00edvel, a alian\u00e7a com a ci\u00eancia (como quer a universal dos fan\u00e1ticos\/a-pol\u00edticos\/ ditos religiosos) ou apostamos em uma \u201cnova poss\u00edvel alian\u00e7a\u201d onde n\u00e3o negamos que o real continua imposs\u00edvel, mas que possamos conviver como parceiros com a ci\u00eancia, atrav\u00e9s n\u00e3o apenas de desconstru\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias da \u00e9tica da psican\u00e1lise, mas, como sugere Marcus Andr\u00e9<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a>, afirmando alguma realidade contingente e estrat\u00e9gica. Um pouco de realidade, como propunha os surrealistas, para que possamos tamb\u00e9m continuar parceiros de nossas pequenas inven\u00e7\u00f5es e sintomas.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Miller, J. A, \u201cO real no s\u00e9culo XXI\u201d apresenta\u00e7\u00e3o do tema do IX Congresso da Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Psican\u00e1lise, Buenos Aires, abril de 2012.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> \u00a0Lacan, J. , \u201c A ci\u00eancia e a verdade\u201d in <em>Escritos<\/em>, p. 878.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Lacan, J. <em>Semin\u00e1rio XX<\/em>, Rio de Janeiro, Zahar editor, 1985, p.127.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> \u00a0Jean Claude Milner, em <em>A Obra Clara<\/em>,\u00a0 faz uma homologia entre a oposi\u00e7\u00e3o eu- ideal\/ ideal do eu de um lado e do outro a ci\u00eancia- ideal\/ ideal de ci\u00eancia. p.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a> Lacan, J., \u201cA Ci\u00eancia e a verdade\u201d, ibid, p.874.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a> Marcus, Andr\u00e9 &#8211; Atividade preparat\u00f3ria ao XXIII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano: A presen\u00e7a do analista, o que n\u00e3o se v\u00ea da Janela, 13 de maio de 2020.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um coment\u00e1rio a partir do convite da Diretoria da Se\u00e7\u00e3o-Rio, sobre o texto de Ruth Cohen publicado no numero de 15 de maio de 2020 da Correio Express https:\/\/www.ebp.org.br\/correio_express\/2020\/05\/15\/rupturas\/ Por Ana Beatriz Freire O que pode o analista produzir com sua presen\u00e7a\/aus\u00eancia nos tempos de pandemia devido ao virus Covid 19? 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