{"id":6028,"date":"2020-04-28T19:12:58","date_gmt":"2020-04-28T22:12:58","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2662"},"modified":"2020-04-28T19:12:58","modified_gmt":"2020-04-28T22:12:58","slug":"a-vinganca-do-virus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/a-vinganca-do-virus\/","title":{"rendered":"A vingan\u00e7a do v\u00edrus"},"content":{"rendered":"<h6><em>Por Stella Jimenez<\/em><\/h6>\n<p>J-A. Miller, na aula de 25 de maio do Semin\u00e1rio O Ser e o Um, citando o que Lacan disse no Semin\u00e1rio 23 sobre Ad\u00e3o e a bact\u00e9ria, comenta: \u201cTentarei dar sentido ao ap\u00f3logo que ele (Lacan) apresenta no come\u00e7o, quando ele evoca a cria\u00e7\u00e3o dita divina e a hist\u00f3ria dos nomes que se teriam pedido a Ad\u00e3o para dar \u00e0s esp\u00e9cies animais. E ele destaca o seguinte: a bact\u00e9ria n\u00e3o foi nomeada. Pois bem, isso significa dizer que h\u00e1 exist\u00eancias que n\u00e3o t\u00eam nome, n\u00e3o t\u00eam significante, embora sejam igualmente reais.\u201d<\/p>\n<p>Miller conclui disto que a verdadeira import\u00e2ncia do que postulava Lacan era de que havia uma grande dist\u00e2ncia entre nomina\u00e7\u00e3o e real, e que, primeiro, h\u00e1 o real, logo, o significante. As bact\u00e9rias seriam da ordem do real, at\u00e9 serem nomeadas.\u00a0 Uma vez nomeadas, poder\u00edamos at\u00e9 atribuir-lhes um gozo, como nos insinua Lacan na aula do dia 23 de abril do Semin\u00e1rio 22. Ele diz: \u201cEsta pequena sujeira, que voc\u00eas olham no microsc\u00f3pio, e que manifestamente se mexe freneticamente, \u00e9 certo que ela goza; \u00f3timo para a bact\u00e9ria. Eu me interrogo: ser\u00e1 que a bact\u00e9ria goza?\u201d Mas, mesmo gozando, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel atribuir-lhe uma vontade de gozar de n\u00f3s. Nunca poder\u00edamos chamar esse gozo de gozo do Outro<\/p>\n<p>Deparamo-nos atualmente, \u00e0 diferen\u00e7a da passagem b\u00edblica que teria ignorado a bact\u00e9ria, com a s\u00fabita chegada \u00e0s\u00a0 nossas vidas de um pedacinho de real, infinitamente menor, ao qual foi designado um novo significante. Um real que nos amea\u00e7a com o que chamar\u00edamos de sua implac\u00e1vel voracidade, se pud\u00e9ssemos lhe atribuir gozos humanos. O Sars-cov-2 escreveu-se de maneira contingente nas nossas vidas \u2014 e as modificou completamente.<\/p>\n<p>Como de h\u00e1bito, o <em>falasser<\/em> tenta dar sentido ao acontecido, tenta transformar o contingente em necess\u00e1rio.\u00a0 Assim, logo surgem teorias conspirat\u00f3rias: foram os chineses, foram os americanos; est\u00e1 se tentando eliminar o custo dos idosos, dos pobres, dos in\u00fateis, dos n\u00e3o lucrativos. Claro que alguns governos aproveitam a incid\u00eancia da pandemia para sua necropol\u00edtica, mas isso \u00e9 um uso oportunista da conting\u00eancia. \u00a0Outra forma de lidar com o contingente \u00e9 transformar o acaso em determinante: s\u00f3 morrem pessoas de determinada idade, pessoas doentes etc. Mesmo se as pessoas idosas &#8211; por terem menor imunidade e sofrerem, frequentemente, de outras patologias &#8211; tendem a contrair formas mais graves da infe\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se sabe que podem morrer pessoas de todas as idades. Mas, novamente, a necropol\u00edtica mexe seus pauzinhos e a letalidade afeta mais aos pobres que n\u00e3o conseguem ser colocados a tempo em respira\u00e7\u00e3o assistida.<\/p>\n<p>Como se fosse uma ironia do destino, num momento em que a ci\u00eancia e a pesquisa cient\u00edfica estavam t\u00e3o desprestigiadas, especialmente no Brasil, o mundo fica amea\u00e7ado e apela desesperadamente para os pesquisadores e para os cientistas.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia, nos \u00faltimos tempos, pela sua alian\u00e7a com o discurso capitalista, tinha tamponado sua intr\u00ednseca rejei\u00e7\u00e3o da verdade com o signo do dinheiro que, como o S1 dominante dos tempos, determinava todos os outros lugares dos la\u00e7os sociais. Podemos pensar que essa alian\u00e7a esp\u00faria contribuiu para o seu desprest\u00edgio frente \u00e0 opini\u00e3o geral. Se n\u00e3o era mais poss\u00edvel confiar na ci\u00eancia, se ela se vendia ao que pagasse mais, se o que afirmava rapidamente era modificado de acordo com os interesses pecuni\u00e1rios dos cientistas, por que n\u00e3o esperar novamente respostas junto ao pensamento m\u00e1gico e \u00e0 religi\u00e3o?<\/p>\n<p>Mas, mesmo assim, a ci\u00eancia foi marcando o <em>falasser<\/em> na sua hist\u00f3ria, e n\u00e3o podemos negar que sempre teve \u201ca verdade\u201d como uma de suas causas. O problema tradicional da ci\u00eancia, antes mesmo da deturpa\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, foi o de sempre se ater \u00e0 verdade formal, como explica Lacan no seu escrito sobre o tema. Isso faz com que seja sempre incompleta \u2014 o que a ci\u00eancia sempre rejeitou, aspirando poder dar conta de tudo, forcluindo o imposs\u00edvel do saber.<\/p>\n<p>Apesar disso, a verdade mentirosa da ci\u00eancia sempre permitiu que algo do real aparecesse, \u00e0 diferen\u00e7a do que acontece com a verdade final da religi\u00e3o e da verdade eficiente da magia. Assim, a ci\u00eancia foi tocando \u00e0 humanidade com algo do real da castra\u00e7\u00e3o, e LOM foi abandonando seus preconceitos e seu desejo de supremacia \u2014 sua nega\u00e7\u00e3o do real da falta \u2014 por conhecimentos que o desalojaram de seu lugar almejado de centro: do centro do universo, do centro da cria\u00e7\u00e3o, da fantasia de ser dono de seus pensamentos.<\/p>\n<p>Muitos governantes atuais se op\u00f5em \u00e0 ci\u00eancia justamente neste ponto: pretendem fazer o homem voltar a suas satisfa\u00e7\u00f5es narc\u00edsicas, negando o real da castra\u00e7\u00e3o. Pretendem faz\u00ea-lo se sentir novamente o centro, superestimando suas sensa\u00e7\u00f5es e suas percep\u00e7\u00f5es, \u00e0 diferen\u00e7a do que dizem os cientistas. \u201cVoc\u00ea sente a terra girando sob seus p\u00e9s? Voc\u00ea v\u00ea o horizonte redondo ou plano? Por que voc\u00ea n\u00e3o acredita no seus olhos e sim nas mentiras dos cientistas, que hoje dizem uma coisa e amanh\u00e3 outra, dependendo do que for mais conveniente para eles? Eles dizem que o planeta est\u00e1 aquecendo, mas, e voc\u00ea, n\u00e3o sente frio?\u201d \u00c9 por esse apelo \u00e0s fantasias do ego que eles conseguem ser t\u00e3o escutados. Eles pr\u00f3prios, os governantes, \u00a0aliam o narcisismo aos anelos neoliberais. Para o neoliberalismo, ao contr\u00e1rio do que parece indicar a palavra liberal, \u00e9 melhor que o <em>falasser<\/em> fique preso a preconceitos e sistemas religiosos. De essa maneira \u00e9 mais f\u00e1cil manipul\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Como disse antes, nos \u00faltimos tempos a ci\u00eancia deu p\u00e9 a seu desprestigio: unindo suas duas fraquezas, a rejei\u00e7\u00e3o do real e a alian\u00e7a com o capitalismo, vinha dando suporte \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o da natureza, ao avan\u00e7o do desmatamento, \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de animais em condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o duvido em classificar como selvagens, paradoxalmente falando. Etc, etc.<\/p>\n<p>Se o real fosse uma criatura pensante, poder\u00edamos dizer que se vingou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Stella Jimenez J-A. 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