{"id":2444,"date":"2019-10-07T09:14:22","date_gmt":"2019-10-07T12:14:22","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2444"},"modified":"2019-10-07T09:14:22","modified_gmt":"2019-10-07T12:14:22","slug":"ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/","title":{"rendered":"Ecos do Enapol &#8211; O que pode brotar da indigna\u00e7\u00e3o &#8211; Por Andrea Vilanova"},"content":{"rendered":"<h6>Andrea Vilanova EBP-Rio<\/h6>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o nos interroga sobre seu lugar entre as paix\u00f5es e nos coloca a trabalho em busca de um enquadre que nos permita cernir sua estrutura, bem como, sua fun\u00e7\u00e3o nos tempos que correm. Ler o tema da indigna\u00e7\u00e3o com Miller, em \u201cComment se revolter?\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> e com H. Kaufmanner, em \u201cIndignai-vos, por\u00e9m&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> me conduz \u00e0 tentativa de leitura de uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstico-po\u00e9tica que parece conversar com a ideia do que poderia ser uma boa maneira de nos indignarmos.<\/p>\n<p>A perspectiva aberta pela orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nos indica que a indigna\u00e7\u00e3o revela o estatuto reflexivo da posi\u00e7\u00e3o do sujeito frente ao Outro da priva\u00e7\u00e3o, como destaca Kaufmanner, de sua leitura com Miller: \u201cQuando esta visa ao Outro, a trajet\u00f3ria de sua flecha retorna sobre o pr\u00f3prio sujeito. Se a revolta aponta o Outro, aquele que priva, o sujeito mesmo \u00e9 afetado pelo retorno de sua indigna\u00e7\u00e3o sobre si mesmo[..]\u201d. Parece n\u00e3o haver escapat\u00f3ria. Do lado dos direitos humanos a perspectiva de fazer valer uma resposta guiada pela justi\u00e7a distributiva, do lado da psican\u00e1lise, estamos \u00e0s voltas com uma perspectiva advertida sobre a natureza do imposs\u00edvel de suportar subjacente \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o, como pr\u00f3prio a cada um. A cada um seu gozo, os \u00f4nus e b\u00f4nus dessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas como nos servirmos desta advert\u00eancia sem cair na desafeta\u00e7\u00e3o, sem nos desimplicarmos da vida pol\u00edtica, quando n\u00e3o podemos simplesmente ignorar o mundo no qual tomamos parte? A indigna\u00e7\u00e3o pode colocar em cena o imbricado jogo entre o singular do sujeito e o n\u00f3 de sua posi\u00e7\u00e3o no Outro social. Como transitar nesse movedi\u00e7o terreno que coloca o Um e o m\u00faltiplo em tens\u00e3o? O que fazer com o gozo de cada um que n\u00e3o se deixa assimilar, nem neutralizar, quando estamos \u00e0s voltas com outros, ao mesmo tempo em que nos contamos um a um?<\/p>\n<p>A cada dia me pergunto: como metabolizar o impacto da viol\u00eancia de um desgoverno absolutamente desimplicado diante das atrocidades que emanam de suas arbitrariedades, seguindo em frente como cidad\u00e3 e psicanalista? As palavras de Eve Miller Rose, na abertura do IX Enapol iluminaram um ponto de jun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o que me ajuda a interrogar o modo de compor o que retomo a partir de um lugar onde minha resposta como cidad\u00e3 n\u00e3o prescinde dos instrumentos de navega\u00e7\u00e3o que a psican\u00e1lise me oferece, ainda que n\u00e3o se trate de confundir meu lugar de cidad\u00e3 com meu lugar de psicanalista. Recolhendo o que pude ouvir de suas palavras, trata-se de reconhecer que tomar a \u00e9tica em termos de dignidade seria elevar o humano \u00e0 dignidade de sujeito. \u00c9 o que me orienta. Mas entre cidad\u00e3 e psicanalista n\u00e3o h\u00e1 equival\u00eancia, nem superposi\u00e7\u00e3o. Creio que, como psicanalista, estar advertida daquilo que em mim n\u00e3o encontra lugar na pol\u00edtica dos bens e direitos, me permite calibrar meu lugar de cidad\u00e3, meu modo de tomar parte no mundo, nos la\u00e7os a inventar com os outros. Nada disso \u00e9 dado de antem\u00e3o.\u00a0 Na aus\u00eancia de respostas pr\u00e9vias, sigo tentando aprender com a arte, lembrando com Freud e Lacan que o artista antecede o psicanalista. E assim, compartilho o que pude recolher de uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica de jovens poetas das favelas do Rio de Janeiro que t\u00eam feito de certo uso da palavra uma arma potente.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses fui surpreendida por um ataque po\u00e9tico. Uma fala testemunhal ecoa pelos vag\u00f5es da metr\u00f3pole. Os \u201cataques\u201d colocam a voz em primeiro plano. No meio de uma viagem qualquer, uma voz rompe o sil\u00eancio: \u201cAtaque!\u201d Imediatamente outros respondem: \u201cpo\u00e9tico!\u201d De repente algu\u00e9m recita: \u201cEm nome do amor se oprime, reprime e ilude\/Em nome da paz instaurada, a guerra mata um preto, dentro e fora da favela, a cada 23 minutos\u201d.<\/p>\n<p>O que haveria de po\u00e9tico nisso? Ainda que n\u00e3o seja poss\u00edvel um relato sem a fic\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca ao que a palavra pode oferecer, o dito realismo com que alguns cr\u00edticos se referem a esta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria contempor\u00e2nea<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, tem sido marca dessas manifesta\u00e7\u00f5es, onde o poeta grita urg\u00eancias a partir de uma fala auto-biogr\u00e1fica que necessariamente incorpora a dimens\u00e3o pol\u00edtica das urg\u00eancias sociais que enuncia. Um ataque de poetas perif\u00e9ricos, como eles pr\u00f3prios se apresentam, suscita surpresa e muitas perguntas. Seu uso da l\u00edngua para despertar os transeuntes e chamar sobre si alguma aten\u00e7\u00e3o, traz a marca da indigna\u00e7\u00e3o soletrada em palavras duras que retratam a viol\u00eancia e o abandono que marcam seu cotidiano. Imposs\u00edvel n\u00e3o ser afetado. Muitas s\u00e3o as vozes que se atravessam, harmoniosamente ou n\u00e3o, mas \u00e9 interessante notar o modo como rompem com o anonimato de uma corriqueira viagem num transporte urbano. Eles nos desarmam. Sua interven\u00e7\u00e3o incide sobre n\u00f3s, sobre cada um que aprecia a beleza ou hostiliza os \u201cesquerdopatas\u201d. Uma cena se monta. Sa\u00edmos do autismo hipn\u00f3tico diante das telas dos smartphones.<\/p>\n<p>Muitos eventos, desde o in\u00edcio dos anos 2000, v\u00eam se consolidando com a marca desse uso da l\u00edngua para retratar a realidade da vida nas favelas, num misto de catarse e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, dita perif\u00e9rica, e que promove um reviramento ao interrogar onde ou qual seria o centro, j\u00e1 que se prop\u00f5em a testemunhar o drama que se faz seminal no centro de suas vidas, entre o que toca a todos ali e a cada um. Suas palavras escancaram a inexist\u00eancia do que quer que se possa chamar de sociedade, deixando expostas as valas comuns que exp\u00f5em o sem-valor da vida dentro da engrenagem do sistema do qual fazemos parte.<\/p>\n<p>Fazer da revolta arte, tocar o outro com suas palavras parece ser o nervo sens\u00edvel desse modo de produzir com a pr\u00f3pria voz uma audi\u00eancia que lhes ateste dignidade, reconhecimento e lhe renda dinheiro para sobreviver. Fazer da indigna\u00e7\u00e3o um ato de fala faz ecoar o princ\u00edpio de que \u00e9 preciso ser escutado para que o atributo de exist\u00eancia vigore, instaurando uma vida dentro da vida que chega a todos n\u00f3s pelas manchetes. E mais ainda, ao tomar a palavra de modo perform\u00e1tico, esses jovens fazem dela um proj\u00e9til que pode furar a massa de uns e instaurar Outro poss\u00edvel. Colocando a voz em cena d\u00e3o corpo a uma satisfa\u00e7\u00e3o que atravessa o desalento coletivo e faz vibrar o instante.<\/p>\n<p>Esses jovens n\u00e3o se apresentam como pobres pedintes. Passam o chap\u00e9u, de fato, mas \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico que lhes retorna e liga uma chave interessante, reatando um la\u00e7o, na vivacidade de um gesto que d\u00e1 testemunho de um antes e um depois do <em>happening<\/em> dentro do vag\u00e3o do metr\u00f4. A conting\u00eancia do encontro vigora e sua efemeridade faz vibrar a vida poss\u00edvel no meio de um dia como outro qualquer. Marcus Andr\u00e9 me perguntou qual seria a articula\u00e7\u00e3o entre o que fazem esses coletivos e o que ocorre em uma an\u00e1lise? A produ\u00e7\u00e3o de deslocamentos inauditos, respondi.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o impactada pela surpresa de um encontro pode ressignificar um dia, produzir perguntas, provocar deslocamentos, instaurar brechas. Permite tornar v\u00edvida a diferencia\u00e7\u00e3o que Miller prop\u00f5e, ao colocar a queixa do lado de uma posi\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e a indigna\u00e7\u00e3o, como revela\u00e7\u00e3o de um imposs\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a> La Cause Freudienne, n.75, juin, 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a> <a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/es\/indignai-vos-porem-2\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/es\/indignai-vos-porem-2\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a> Slans de poesia \u2013 batalhas de poesia falada<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andrea Vilanova EBP-Rio A indigna\u00e7\u00e3o nos interroga sobre seu lugar entre as paix\u00f5es e nos coloca a trabalho em busca de um enquadre que nos permita cernir sua estrutura, bem como, sua fun\u00e7\u00e3o nos tempos que correm. Ler o tema da indigna\u00e7\u00e3o com Miller, em \u201cComment se revolter?\u201d[1] e com H. 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