{"id":2379,"date":"2019-09-29T11:11:11","date_gmt":"2019-09-29T14:11:11","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2379"},"modified":"2019-09-29T11:11:11","modified_gmt":"2019-09-29T14:11:11","slug":"o-tabu-de-um-gozo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/o-tabu-de-um-gozo\/","title":{"rendered":"O Tabu de um Gozo"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h6>Angela Batista<\/h6>\n<p>Quando nos referimos as\u201d Contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor\u201d em Freud destacamos: 1 \u2013 Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem (1910); 2- Sobre a deprecia\u00e7\u00e3o da vida er\u00f3tica (1912); 3- O Tabu da Virgindade (1918) [1917]).<\/p>\n<p>De que trata ent\u00e3o as Contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor em Freud? Das quest\u00f5es que concernem a todos nos.\u00a0 Podemos afirmar que a vida amorosa freudiana \u00e9 o lugar dos impasses e do mal-entendido entre os sexos de como se relacionam e se escolhem uns aos outros. \u00c9 o tema da escolha de objeto. Freud introduz na problem\u00e1tica da vida amorosa o complexo de castra\u00e7\u00e3o onde destaca o princ\u00edpio da deprecia\u00e7\u00e3o do homem pela mulher e a hostilidade da mulher para com o homem.<\/p>\n<p>Nessas contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor vemos o que determina o percurso do sujeito em dire\u00e7\u00e3o ao Outro, na perspectiva do amor, do desejo e do gozo. Escolhi trabalhar a terceira contribui\u00e7\u00e3o \u201cO Tabu da virgindade\u201d. A partir de uma frase que me pareceu preciosa; \u201ca libido freudiana tem a cor de um vazio\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. Vazio que coloca no centro do amor o objeto pequeno <em>a<\/em>. \u00a0Miller em seu simp\u00f3sio sobre o amor, fala que essas contribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 doutrina do gozo.<\/p>\n<p>Nessa terceira confer\u00eancia, Freud se pergunta sobre o acesso ao gozo, destacando o complexo de castra\u00e7\u00e3o e de seus impasses. A n\u00e3o complementariedade entre os sexos, indica diferentes formas de amar. O objeto de amor para um homem toma a forma fetichista em sua condi\u00e7\u00e3o de objeto a. O homem reveste a mulher como o falo para apagar o horror da castra\u00e7\u00e3o e para deseja-la. O gozo feminino se situa do lado do amor, na valoriza\u00e7\u00e3o pelas mulheres do amor em rela\u00e7\u00e3o ao desejo.<\/p>\n<p>Do deslocamento da m\u00e3e a mulher; o que se coloca nessa terceira conferencia \u00e9 que a mulher \u00e9 um Tabu. O tabu da virgindade que com Lacan, se situa mais al\u00e9m das formulas da sexua\u00e7\u00e3o, <em>no gozo<\/em>, sempre outro. \u00a0Talvez pus\u00e9ssemos perguntar se o Tabu n\u00e3o seria apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, mas ao gozo feminino, ao Outro gozo. Em todas as culturas h\u00e1 uma forma de regular o gozo, que no caso da mulher seria uma pressa em inscrever o gozo f\u00e1lico para tratar o ilimitado desse Outro gozo, do qual elas nada falam.\u00a0 Esse Outro gozo n\u00e3o est\u00e1 referido ao objeto, sequer ao gozo f\u00e1lico, mas a S (A) barrado, imposs\u00edvel de simbolizar. Essa defini\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m das posi\u00e7\u00f5es sexuadas, que n\u00e3o deixam de ser identifica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o anulam as formulas da sexua\u00e7\u00e3o, mas que mostram um gozo ilimitado, devastador.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es do amor se apresentam a partir de uma ren\u00fancia pulsional onde algo do imposs\u00edvel se manifesta nas parcerias amorosas. \u00a0Nesse sentido o caminho de Freud chega ao Tabu, que \u00e9 da ordem do n\u00e3o tocar, n\u00e3o ir al\u00e9m, chegando a mulher como Tabu, dado que a mulher \u00e9 do pai. Freud assim parte das condi\u00e7\u00f5es do amor e chega ao Tabu, ao tabu de um gozo. A mulher \u00e9 tabu porque \u00e9 dif\u00edcil seu acesso aos homens. Assim como as mulheres de outra forma n\u00e3o suportam tamb\u00e9m os homens. Lembrando Freud, a \u00fanica esperan\u00e7a est\u00e1 no segundo matrimonio. Nesse sentido h\u00e1 um tabu generalizado a mulher. A mulher \u00e9 outra n\u00e3o semelhante, inclusive para si mesma, representando o lugar de \u201cHeteros\u201d o Outro absoluto em sua radical alteridade. N\u00e3o seria esse o segredo das regras para o amor? Manter o enigma que a mulher encarna para sustentar um la\u00e7o poss\u00edvel entre os sexos?<\/p>\n<p>Nessas tr\u00eas contribui\u00e7\u00f5es Freud fala de substitui\u00e7\u00f5es e de met\u00e1foras e meton\u00edmias do objeto de amor.\u00a0 Da m\u00e3e enquanto proibida ao gozo imposs\u00edvel. Por isso Lacan pode dizer no Semin\u00e1rio sobre a \u00e9tica, que <em>das ding,<\/em> o gozo prim\u00e1rio \u00e9 a m\u00e3e. No amor freudiano s\u00f3 h\u00e1 substitutos. Nada de am\u00e1vel, diz Miller.\u00a0 A elei\u00e7\u00e3o introduz o objeto da satisfa\u00e7\u00e3o enquanto perdido. \u00a0No n\u00edvel do gozo como tal h\u00e1 a Coisa, das ding.\u00a0 Se h\u00e1 escolha de objeto, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual e os divinos detalhes apontam para castra\u00e7\u00e3o, para a mulher como tabu, fazendo da sua alteridade o princ\u00edpio da degrada\u00e7\u00e3o. Cito dois exemplos que revelam os impasses do amor, do desejo e do gozo na vida amorosa de dois personagens.<\/p>\n<p>Manon Lescault \u00e9 o romance citado por Miller, contado pelo abade Pr\u00e9vost, para falar da de como o amor feminiza na figura da mulher desleal, que encarna a mulher do desejo ( a puta)\u00a0\u00a0\u00a0 aquela mulher sempre do Outro. Manon \u00a0e seu \u00a0seu parceiro Des Grieux \u00e9 uma hist\u00f3ria de amor do tipo romance rosa. A desleal Manon signo da mulher indigna, e Des Grieux representa o pato, o enganado. O amor pela diab\u00f3lica que pertence a Outros. Manon revela algo de diab\u00f3lico e incivilizado quando interrogamos o\u00a0 \u201cque quer uma mulher, sen\u00e3o gozar do amor?<\/p>\n<p>A princesa de Cl\u00e8ves, e tamb\u00e9m uma cita\u00e7\u00e3o no curso de Miller sobre Os Divinos detalhes. Ao se apaixonar pelo Sr. de Nemours tem depois de muitos rodeios marca um encontro com ele e ela lhe revela sua paix\u00e3o.\u00a0 \u00a0Por causa disso, ela diz que ser\u00e1 o primeiro e \u00faltimo encontro deles. Ele fica at\u00f4nito e diz: Mas voc\u00ea me distinguiu dos outros homens. Justamente, ela lhe responde. Esse \u00e9 o obst\u00e1culo. Se eu o distingui isso pode acontecer a uma outra mulher. E se isso acontece, eu serei infeliz. Ele lhe fala de sua paix\u00e3o.\u00a0 Ela retruca dizendo que a paix\u00e3o n\u00e3o dura. Ela recusa conhecer a infelicidade do ci\u00fame. Entre suas razoes para renunciar revela a principal: Por vaidade ou por gosto, todas as mulheres lhe desejam. Outras mulheres o amar\u00e3o. Voc\u00ea me deixara.\u00a0 Os homens s\u00e3o inconstantes e infi\u00e9is. O \u00fanico homem que teria sido fiel a mim, \u00e9 o Sr. de Cl\u00e8ves que tinha uma \u00fanica raz\u00e3o para isso- eu n\u00e3o o amava. E encerra a conversa. \u00a0Assim ela prefere se exilar do amor, onde ser\u00e1 uma \u00fanica absoluta para seu amante, uma a menos para sempre<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan, explicita essa impossibilidade no semin\u00e1rio livro 18: \u201cde um discurso que n\u00e3o fosse semblante\u201d onde mostra a conjun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o entre o gozo e o semblante. O Semblante \u00e9 o falo como o significante da diferen\u00e7a sexual. \u00a0O homem e a mulher se encontram na interse\u00e7\u00e3o entre dois gozos, que mostram o desencontro estrutural.\u00a0 Sendo assim a terceira contribui\u00e7\u00e3o de Freud revela o segredo das condi\u00e7\u00f5es de amor. Os atrativos femininos dependem de um v\u00e9u, em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o ter, que se torna desejo. Essas condi\u00e7\u00f5es do amor s\u00e3o diversas formas de diminuir a alteridade da mulher sem faze-la desaparecer. A er\u00f3tica lacaniana seria a do homem sem rodeios (ambages), um homem que n\u00e3o temeria a mulher, ou que a mulher n\u00e3o fosse um tabu. O homem sem rodeios, seria aquele capaz de fazer parceria com a mulher como Outro. Lacan inventou um real pr\u00f3prio \u00e1 psicanalise. Um real que se alcan\u00e7a atrav\u00e9s da contingencia do amor. Essa contingencia demonstra a imposs\u00edvel harmonia do gozo que se encontrava velada pelos semblantes do amor. 1<\/p>\n<p>Trago para discuss\u00e3o a quest\u00e3o sobre as condi\u00e7\u00f5es do amor na atualidade, onde a mulher enquanto Outro radical, se desloca do Tabu que possibilita a diferen\u00e7a e que permite o la\u00e7o entre os sexos \u00a0para o \u00a0\u00f3dio, sem velamento da diferen\u00e7a, \u00a0atrav\u00e9s de actings e passagens ao ato, \u00a0a partir de uma diferen\u00e7a que precisa ser eliminada na nossa \u00e9poca do empuxo ao id\u00eantico . Byung Chul Han<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>, o filosofo coreano, diz que O trauma \u00e9 o sexual, mas que o violento \u00e9 o id\u00eantico. Laurent lembra de paradoxos do individualismo democr\u00e1tico de massa na autossufici\u00eancia do sujeito na atualidade no gozo que n\u00e3o faz la\u00e7o.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>Gostaria que discut\u00edssemos a partir do texto de Miller o que pode regular o gozo das rela\u00e7\u00f5es entre os sexos, na atualidade, pensando a solid\u00e3o entre os sexos e os destinos da puls\u00e3o de morte, \u201c expuls\u00e3o do Outro do amor\u201d no apagamento da alteridade e de suas consequ\u00eancias, onde o Tabu a mulher se desloca para o \u00f3dio ilimitado \u00a0em detrimento \u00a0do enigma da\u201d cor do vazio\u201d, do Heteros do feminino.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Miller, J Alain-\u201c Os divinos Detalhes \u2013 1989- Grama Ed.\u00a0 Li\u00e7\u00e3o V \u2013 \u201cO tabu de um gozo\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>Naveau Pierre- Os Homens, as mulheres e os semblantes- Papers Congresso Semblantes e Sinthoma VII Congresso da AMP- Paris 2010<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Byung Chul Han\u201d A Expuls\u00e3o do Outro\u201d\u00a0 Ed Vozes<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Laurent Eric- El Traumatismo del final de la politica de las identidades-\u00a0 XVI Jornadas DA ELP 2017 Boletim<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/DJUISLKRPEs &#8220;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text] Angela Batista Quando nos referimos as\u201d Contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor\u201d em Freud destacamos: 1 \u2013 Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem (1910); 2- Sobre a deprecia\u00e7\u00e3o da vida er\u00f3tica (1912); 3- O Tabu da Virgindade (1918) [1917]). 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