{"id":2302,"date":"2019-08-31T10:20:35","date_gmt":"2019-08-31T13:20:35","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2302"},"modified":"2019-08-31T10:20:35","modified_gmt":"2019-08-31T13:20:35","slug":"ecos-de-zadig-no-rio-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/ecos-de-zadig-no-rio-2\/","title":{"rendered":"Ecos de ZADIG no RIO"},"content":{"rendered":"<h6><em>Por Paula Legey<\/em><\/h6>\n<p><em>\u00a0<\/em>O F\u00f3rum <em>Lei e Viol\u00eancia<\/em> foi o terceiro promovido por <em>La movida Zadig Brasil \u201cDoces &amp;B\u00e1rbaros\u201d<\/em>. Desde o in\u00edcio, os f\u00f3runs t\u00eam sido organizados em torno de temas importantes para o momento pol\u00edtico e social do Brasil. O primeiro, \u201cEstado de direito e corrup\u00e7\u00e3o. O real da psican\u00e1lise \u00e9 a nossa moeda\u201d, em agosto de 2017, o segundo \u201cPor que apenas existem ra\u00e7as de discurso: desafios da democracia\u201d, em mar\u00e7o de 2018, al\u00e9m de uma conversa\u00e7\u00e3o \u201cPsican\u00e1lise e Democracia\u201d ocorrida em outubro de 2018 (m\u00eas das elei\u00e7\u00f5es presidenciais em nosso pa\u00eds). Dessa vez, o tema esteve diretamente ligado a fatos recentes. <em>Lei e Viol\u00eancia<\/em>: em que medida as figuras que se apresentam como representantes da lei podem us\u00e1-la para fins pol\u00edticos e interesses pr\u00f3prios? Quando a viol\u00eancia \u00e9 legitimada, incitada, cometida pelo Estado, qual a fun\u00e7\u00e3o da lei? Freud apontou para um aspecto violento no exerc\u00edcio e manuten\u00e7\u00e3o da lei. Em <em>O Mal-estar na civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, ele afirmava que a vida humana em comum se torna poss\u00edvel quando o poder de uma comunidade \u00e9 estabelecido como direito, em oposi\u00e7\u00e3o ao poder do indiv\u00edduo, condenado como for\u00e7a bruta. A lei serve para restringir a viol\u00eancia, por\u00e9m h\u00e1, na pr\u00f3pria lei, uma viol\u00eancia, na medida em que ela se apresenta como imposi\u00e7\u00e3o \u201cVemos, assim, que a lei \u00e9 a for\u00e7a de uma comunidade. Ainda \u00e9 viol\u00eancia, pronta a se voltar contra qualquer indiv\u00edduo que se lhe oponha\u201d (Freud, 1932, p.198).<\/p>\n<p>O que vemos nos dias de hoje no Brasil, no entanto, como apontou Marcelo Semer durante o f\u00f3rum, \u00e9 um modo de funcionamento onde a lei parece n\u00e3o ter a fun\u00e7\u00e3o de limita\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia. A constitui\u00e7\u00e3o existe e est\u00e1 em vig\u00eancia, n\u00e3o estamos em um estado de exce\u00e7\u00e3o declarado, onde a lei est\u00e1 suspensa, mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de mecanismos que permitem o seu desvio, fazendo da lei \u00e1libi da viol\u00eancia. Isso remete ao que lembrou Romildo do R\u00eago Barros ao usar uma express\u00e3o de Eric Laurent: h\u00e1 um <em>n\u00facleo louco da lei<\/em>, um aspecto em que a lei se confunde com viol\u00eancia na medida em que ela se apresenta como n\u00e3o regulada. A partir das quest\u00f5es trazidas no f\u00f3rum, Romildo questiona a possibilidade de que o jurista, na incapacidade de considerar que toda lei tem um n\u00facleo louco, possa assumir esse n\u00facleo louco para si, ele pr\u00f3prio sendo o enunciado da lei. Trata-se de um capricho nem mediado nem limitado pela lei: o inferno, como disse Romildo.<\/p>\n<p>Tatiana Roque realizou uma contribui\u00e7\u00e3o importante para pensarmos essa escalada do autoritarismo no Brasil e no mundo. A crise da democracia pode ser pensada sob a perspectiva do chamado fen\u00f4meno da p\u00f3s-verdade. A subida de respostas totalit\u00e1rias beneficia-se do ceticismo generalizado, ativamente produzido por uma estrat\u00e9gia herdeira da ind\u00fastria de cigarros e do negacionismo clim\u00e1tico. As pol\u00edticas neoliberais aliam-se ao negacionismo generalizado na destrui\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar social. O conservadorismo junta-se ao neoliberalismo na medida em que, no lugar das pol\u00edticas coletivas de bem-estar social, entra a sobrevaloriza\u00e7\u00e3o do privado, outra face dos \u201cvalores da fam\u00edlia\u201d. Podemos dizer que a queda dos referenciais simb\u00f3licos abre espa\u00e7o para a ascens\u00e3o de respostas totalit\u00e1rias, fundadas na elimina\u00e7\u00e3o do gozo do Outro, entendido como amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, o que fazer? Angelina Harari, no fechamento desse encontro de Zadig, lembrou de um apontamento de Lacan sobre a palavra f\u00f3rum, encontrada na carta de 23 de janeiro de 1980. \u201cF\u00f3rum, por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 o lugar onde as coisas s\u00e3o compartilhadas. \u201d O pr\u00f3prio f\u00f3rum j\u00e1 \u00e9 uma forma de fazer, se levarmos em conta os poderes da palavra no exerc\u00edcio coletivo, de corpo presente. Miriam Krenzinger falou de sua experi\u00eancia de atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o moradora da Mar\u00e9 na quest\u00e3o do acesso \u00e0 justi\u00e7a. Trouxe seus dilemas \u00e9ticos, profissionais e acad\u00eamicos na lida com situa\u00e7\u00f5es extremas. Como se posicionar diante de uma viol\u00eancia muitas vezes produzida pelo Estado? Como lidar com a viol\u00eancia cotidiana para al\u00e9m de uma posi\u00e7\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o paralisante ou de den\u00fancia sem consequ\u00eancias? Sobre isso, Marcus Andr\u00e9 Vieira falou a partir de sua experi\u00eancia de an\u00e1lise, transmitindo um ponto espec\u00edfico, em que a fala do analista incide sobre uma posi\u00e7\u00e3o sacrifical, revestida de ato pol\u00edtico, de ir at\u00e9 o pior. Isso causa um efeito de reposicionamento diante da viol\u00eancia e torna vi\u00e1vel um arranjo com o que at\u00e9 ent\u00e3o ficava de fora do seu campo de possibilidades.<\/p>\n<p>Lidar com aquilo que \u00e9 exclu\u00eddo est\u00e1 na base da \u00e9tica da psican\u00e1lise. O f\u00f3rum Zadig <em>Lei e Viol\u00eancia, <\/em>com o apoio da escola Brasileira de Psican\u00e1lise, caminhou nessa dire\u00e7\u00e3o, contribuindo para uma elabora\u00e7\u00e3o coletiva em torno de temas importantes, que t\u00eam sido fonte de ang\u00fastia. Que essa ang\u00fastia possa ser causa de desejo talvez dependa do trabalho que cada um pode recolher do que restou.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Paula Legey \u00a0O F\u00f3rum Lei e Viol\u00eancia foi o terceiro promovido por La movida Zadig Brasil \u201cDoces &amp;B\u00e1rbaros\u201d. Desde o in\u00edcio, os f\u00f3runs t\u00eam sido organizados em torno de temas importantes para o momento pol\u00edtico e social do Brasil. O primeiro, \u201cEstado de direito e corrup\u00e7\u00e3o. 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