{"id":2165,"date":"2019-08-05T14:08:56","date_gmt":"2019-08-05T17:08:56","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2165"},"modified":"2019-08-05T14:08:56","modified_gmt":"2019-08-05T17:08:56","slug":"elefante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/elefante\/","title":{"rendered":"Elefante"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2187 alignright\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/cinema_elefante-211x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"211\" height=\"300\" \/>O intrigante t\u00edtulo do filme j\u00e1 nos d\u00e1 uma pista do esp\u00edrito do filme, n\u00e3o \u00e9 obvio \u00e0 primeira vista, ele nos intriga, sugere um enigma, e somente uma reflex\u00e3o externa aos elementos do filme nos traz um fio de elucida\u00e7\u00e3o: elefante, este t\u00edtulo, alude \u00e0 express\u00e3o \u201cum elefante na sala\u201d, que n\u00e3o pode deixar de ser notado? Ou podemos supor que se refere \u00e0 par\u00e1bola chinesa em que cinco cegos de nascen\u00e7a apalpam, cada um, uma parte de um elefante e dessa parte ou desse somat\u00f3rio de elefantices n\u00e3o deduzem um elefante? Tamb\u00e9m no filme, e at\u00e9 se pensarmos heterodoxamente em outros filmes que o suplementam, como \u201cTiros em Columbine\u201d, as diversas situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o perfazem um todo compreens\u00edvel.Tentemos.<\/p>\n<p>Partes do elefante:<\/p>\n<p>1-uma inexpressiva cidade americana (Littleton, sub\u00farbio de Denver, Colorado \u2013 cidade de origem, ali\u00e1s, de um dos criadores de South Park, a melhor s\u00e1tira, de anima\u00e7\u00e3o, da mentalidade da Am\u00e9rica profunda), mergulhada at\u00e9 o pesco\u00e7o nos valores americanos do sucesso, da popularidade, da lideran\u00e7a e, por outro lado, privada de maiores perspectivas culturais, condena \u00e0 solid\u00e3o e \u00e0 segrega\u00e7\u00e3o os diferentes, os esquisitos, os \u201cloosers\u201d que n\u00e3o se engajam na comunidade que os formam e que, ao mesmo tempo, os excluem. Os expulsos da ditadura de um ideal de normalidade \u201cmassacrante\u201d.<\/p>\n<p>2- o poderoso culto ao individualismo, essa flor do capitalismo, que sustenta a concep\u00e7\u00e3o t\u00e3o americana de que todos t\u00eam direito a se defender, direito de defesa que se separa por um fio do direito ao ataque. Todos t\u00eam direito a armas, afinal, \u00e9 um pa\u00eds \u201clivre\u201d, como se repete em muitos filmes de Hollywood.<\/p>\n<p>3- a solid\u00e3o e exclus\u00e3o social dos meninos que se consolida no mergulho em fantasias megal\u00f4manas de morte e vingan\u00e7a, que encontram forma no fasc\u00ednio pelo nazismo e ideologias que cultuam a for\u00e7a e a morte. Identificados ou encarnando os ideais de que est\u00e3o justamente exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>4- a solid\u00e3o amorosa, a ang\u00fastia sexual. A dif\u00edcil transi\u00e7\u00e3o da adolesc\u00eancia, a presen\u00e7a do corpo que se altera e de um corpo sexual que se imp\u00f5e e para o qual tantos n\u00e3o encontram recursos.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2167 alignright\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/1f5fe701-7fbd-4fdc-8585-c6c2b01cfd6f-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p>5 \u2013 a patologia de cada um, a solid\u00e3o familiar, o sil\u00eancio. O decl\u00ednio do pai que se insinua j\u00e1 na primeira cena, em que \u00e9 o filho que precisa cuidar do pai, \u00e9 o filho que ordena a fam\u00edlia, o mesmo menino que tentar\u00e1 em v\u00e3o alertar os que chegam \u00e0 escola no momento do ataque.<\/p>\n<p>Etc etc etc<\/p>\n<p>Somemos todas as partes desse elefante, elas n\u00e3o perfazem o elefante. H\u00e1 um vazio a separar todas essas causas e o que resulta, num salto, desse somat\u00f3rio. Sil\u00eancio e imagens de uma tormenta que se aproxima. E, por fim, precipita-se a satisfa\u00e7\u00e3o mort\u00edfera do ato. Por mais que tenha sido um ato planejado, minuciosamente arquitetado, n\u00e3o impediu hesita\u00e7\u00f5es e foi movido por uma intensa e triste satisfa\u00e7\u00e3o de matar. Entre a causa e o ato h\u00e1 um salto.<\/p>\n<p>Que outras motiva\u00e7\u00f5es obscuras, nos perguntamos? Como em todo ato suicida, n\u00e3o obteremos a resposta definitiva, j\u00e1 que seus autores terminaram o trabalho, est\u00e3o mortos.<\/p>\n<p>Mas, por outro lado, esse acontecimento teve um car\u00e1ter epid\u00eamico. Tanto \u00e9 vir\u00f3tico, espalha-se, trazendo o ganho secund\u00e1rio da celebridade, da notoriedade, como tamb\u00e9m, como fen\u00f4meno social, tem outras determina\u00e7\u00f5es. Assim, gera efeitos e \u00e9 ele pr\u00f3prio tamb\u00e9m efeito.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2168 size-medium alignright\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/f5d80f15-ca5e-4b4f-b8cb-d0fc3afdeb97-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p>Mas continua elefante, \u00e0 semelhan\u00e7a do pr\u00f3prio filme que, ao estilo de document\u00e1rio algo caseiro, acrescenta, no entanto, elementos ficcionais, trazendo as mesmas cenas, multiplicadas em diversos \u00e2ngulos e do ponto de vista de cada personagem, prolongando os poucos minutos que antecederam o massacre. Interessante observar que seus atores n\u00e3o s\u00e3o todos de fato atores, muitos utilizam seu pr\u00f3prio nome&#8230; Assim, mesclando document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o, somos trazidos pelo filme para muito perto de algo que n\u00e3o podemos compreender totalmente e nem de fato prevenir&#8230;<\/p>\n<p>Em outras palavras, o filme, ao reconstituir os fatos em sua vers\u00e3o mais plaus\u00edvel, retomando os simples acontecimentos que o antecederam por diversos olhares, desdobra em cenas multifacetadas o momento \u00fanico em que aconteceu o ato, mas, como em toda trag\u00e9dia, n\u00e3o recupera o sentido total do ato. Toda essa solu\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica, esses recursos dramat\u00fargicos, obt\u00eam \u00eaxito em nos mostrar que h\u00e1 ent\u00e3o um ponto em que o sentido se esvazia, se esv\u00e1i. Algo nos escapa do entendimento, algo para o qual n\u00e3o temos imagens nem palavras, afinal, n\u00e3o h\u00e1 o que sintetize o que foi esse acontecimento elefante. Nas cenas finais, o pr\u00f3prio m\u00f3vel mais vis\u00edvel do crime, seja a solid\u00e3o, o desamparo, o ressentimento, se esv\u00e1i numa esp\u00e9cie de gozo puro e aleat\u00f3rio. E se algo dessa viol\u00eancia permanece incompreens\u00edvel, isso n\u00e3o nos condena \u00e0 impot\u00eancia, principalmente porque nos interroga sobre nossa posi\u00e7\u00e3o ao percorrer exaustivamente esse percurso, nossa posi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a essa viol\u00eancia que n\u00e3o se torna s\u00f3 exterior, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a viol\u00eancia dos outros, tamb\u00e9m est\u00e1 em n\u00f3s, que percorremos os mesmos corredores, e cuja representa\u00e7\u00e3o nos concerne, nos atinge e nos comove.<\/p>\n<h6><em>Cristina Duba<\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O intrigante t\u00edtulo do filme j\u00e1 nos d\u00e1 uma pista do esp\u00edrito do filme, n\u00e3o \u00e9 obvio \u00e0 primeira vista, ele nos intriga, sugere um enigma, e somente uma reflex\u00e3o externa aos elementos do filme nos traz um fio de elucida\u00e7\u00e3o: elefante, este t\u00edtulo, alude \u00e0 express\u00e3o \u201cum elefante na sala\u201d, que n\u00e3o pode deixar&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-2165","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-aconteceu-na-secao-rj","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2165","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2165"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2165\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2165"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2165"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2165"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=2165"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}