{"id":2118,"date":"2019-08-04T11:28:09","date_gmt":"2019-08-04T14:28:09","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2118"},"modified":"2019-08-04T11:28:09","modified_gmt":"2019-08-04T14:28:09","slug":"comentario-sobre-o-texto-de-cristina-duba-o-psicanalista-e-as-paixoes-o-gosto-do-riso-e-a-blasfemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/comentario-sobre-o-texto-de-cristina-duba-o-psicanalista-e-as-paixoes-o-gosto-do-riso-e-a-blasfemia\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio sobre o texto de Cristina Duba &#8220;O psicanalista e as paix\u00f5es: o gosto do riso e a blasf\u00eamia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2181 alignright\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/sol_psicanalista_e_as_paixoes-288x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"288\" height=\"300\" \/>De cara,\u00a0Cristina nos apresenta\u00a0o cerne da quest\u00e3o: &#8220;ressurgimento do valor da blasf\u00eamia em contraponto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o iluminista dos poderes da raz\u00e3o&#8221;. Em outras palavras,\u00a0a invas\u00e3o do oriente pelo ocidente, do discurso capitalista no discurso do mestre, da vacila\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao semblante na fixidez do sentido religioso. O choque est\u00e1 em desvelar o real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual atrav\u00e9s do golpe contra o sagrado do\u00a0outro que acredita na rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 um choque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00a0em que\u00a0uma tenta de se impor a outra pela via de um suposto Ideal. Como golpe n\u00e3o faz diferen\u00e7a de que lado parte.<\/p>\n<p>No caso da blasf\u00eamia, a via \u00e9\u00a0a\u00a0do\u00a0insulto. Sempre \u00e9 poss\u00edvel questionar se se trata de blasf\u00eamia, de insulto,\u00a0a\u00a0s\u00e9rie de charges\u00a0publicada pelo\u00a0Charlie Hebdo\u00a0em torno de Al\u00e1, Maom\u00e9 e seus seguidores. Quem decide\u00a0o que \u00e9 ou n\u00e3o insulto? Sempre vale a m\u00e1xima de quem decide o sentido \u00e9 quem o recebe. Os atos n\u00e3o tem graus que possam por si s\u00f3 serem classificados ou n\u00e3o como violentos,\u00a0at\u00e9\u00a0mesmo a morte,\u00a0que em determinadas circunst\u00e2ncias ou nas m\u00e3os de bons advogados,\u00a0pode virar um ato her\u00f3ico.<\/p>\n<p>De modo geral,\u00a0\u00e9 poss\u00edvel dizer que o insulto toca no &#8216;imposs\u00edvel de suportar&#8217; de cada um, o ponto de real para o qual n\u00e3o h\u00e1 significa\u00e7\u00e3o. O insulto ataca o ser do\u00a0outro presentificado em sua forma de gozar.<\/p>\n<p>No caso do Charlie Hebdo, devemos considerar que, mesmo decadente, se inseria numa cultura que tem como ideologia de\u00a0estado a Rep\u00fablica. A dignidade da Fran\u00e7a se alicer\u00e7a no ideal republicano da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mesmo que saibamos que a pr\u00e1tica desse ideal torna alguns menos livres, menos iguais e pouco\u00a0fraternos. As charges do Charlie confrontavam o eu ideal franc\u00eas com o Ideal do eu dos radicais.<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer que o Ideal dos jovens radicais n\u00e3o \u00e9 Al\u00e1, como nos esclarece Fethi Benslama. Para esse psicanalista franc\u00eas e estudioso do Isl\u00e3, o prop\u00f3sito desses jovens \u00e9 &#8220;vingar sua vida&#8221;, dar sentido as suas vidas pela ades\u00e3o ao radicalismo.\u00a0O &#8220;Em nome de Al\u00e1&#8221;, pronunciado nos ataques \u00e9 uma maneira, usando uma express\u00e3o da Cristina, de &#8220;fazer viver o significante&#8221; de um ideal pela via do gozo. Se fosse Ideal, esses jovens estariam\u00a0mais propensos a serem alcan\u00e7ados pelo Iluminismo franc\u00eas. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que se v\u00ea. Cabe ent\u00e3o a pergunta feita por Laurent: \u00e9 um Ideal ou um gozo novo?<\/p>\n<p>Trata-se de uma gera\u00e7\u00e3o atravessada pela ascens\u00e3o do objeto na qual o ideal sofreu uma transforma\u00e7\u00e3o, passando a ser sustentado por um &#8220;empuxo ao gozo&#8221;. \u00c9 como se o ideal\u00a0tivesse se transformado em\u00a0gozo, portanto, uma nova configura\u00e7\u00e3o de gozo. Seria um ideal que produziria, atrav\u00e9s dos auto-sacrif\u00edcios, objetos de gozo &#8211;\u00a0os m\u00e1rtires. S\u00e3o objetos que apontam o real da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, aquele que se quer crer livre, igual e fraterno. A originalidade desses objetos \u00e9 justamente a impossibilidade de serem reciclados, de serem reabsorvidos pela raz\u00e3o. Nesse caso,\u00a0poderia ser dito que a salva\u00e7\u00e3o pelos ideais se d\u00e1 ao torna-los objetos, dejetos.<\/p>\n<p>Assim, na radicaliza\u00e7\u00e3o encontramos o gozo do Um, o que \u00e9 um paradoxo porque em nome de um Ideal, supostamente comunit\u00e1rio, o que impera \u00e9 o gozo do Um. O que h\u00e1 \u00e9 o Um, como diz Lacan.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que\u00a0no nosso mundo capitalista,\u00a0sempre tem\u00a0uma\u00a0empresa\u00a0que\u00a0se prop\u00f5e\u00a0a vender, e at\u00e9 a criar, uma demanda que fa\u00e7a essa\u00a0transforma\u00e7\u00e3o do ideal em gozo.\u00a0Temos a\u00ed n\u00e3o s\u00f3 o Estado Isl\u00e2mico mas tamb\u00e9m a ind\u00fastria de armas.<\/p>\n<p>Qual efeito podemos considerar que o humor,\u00a0que n\u00e3o cede a fazer vacilar os semblantes,\u00a0possa ter sobre os jovens que buscam na radicaliza\u00e7\u00e3o um sentido para suas vidas?\u00a0O humor provoca o mal entendido, promove a ruptura entre significante e significado, portanto,\u00a0tem efeito traum\u00e1tico\u00a0porque levanta o v\u00e9u que cobre o real e demonstra que no sentido habita um sem sentido.\u00a0Lacan nos aponta dois caminhos poss\u00edveis\u00a0diante da ang\u00fastia\u00a0pela emerg\u00eancia\u00a0do\u00a0real: o do fantasma e o da passagem ao ato.\u00a0Por essas duas vias ter\u00edamos os indignados e os radicais.<\/p>\n<p>Sabe-se que nem todo jovem que se radicaliza vai para o sacrif\u00edcio, a maioria fica em fun\u00e7\u00f5es de apoio. Os que v\u00e3o para o auto-sacrif\u00edcio s\u00e3o, em geral, jovens de classes populares.\u00a0Os de classe m\u00e9dia (poucos)\u00a0ficam\u00a0nas fun\u00e7\u00f5es chamadas de intelig\u00eancia. Nos \u00faltimos tempos tem-se constatado, e tido acesso, a\u00a0cada vez mais relatos de jovens arrependidos\u00a0nos quais\u00a0fica clara a\u00a0busca\u00a0pelo gozo.<\/p>\n<p>Diante da vacila\u00e7\u00e3o generalizada dos semblantes que caracterizam a nossa cultura sub-vem a fixa\u00e7\u00e3o como defesa \u2013\u00a0o politicamente correto\u00a0\u00e9 respondido com\u00a0o &#8220;talquei&#8221;. H\u00e1 um franqueamento entre indigna\u00e7\u00e3o e \u00f3dio, ou como diz Cristina, &#8220;pode despertar as paix\u00f5es mais mort\u00edferas, o pr\u00f3prio \u00f3dio que se abriga sob a indigna\u00e7\u00e3o&#8221;. A indigna\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m servir como combust\u00edvel ao \u00f3dio, como assistimos nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 aqui no Brasil.\u00a0Foi a transforma\u00e7\u00e3o da indigna\u00e7\u00e3o\u00a0em \u00f3dio que elegeu o atual presidente de nosso pa\u00eds.<\/p>\n<h6>Ondina Machado<\/h6>\n<h6>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana de 03\/06\/2019.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De cara,\u00a0Cristina nos apresenta\u00a0o cerne da quest\u00e3o: &#8220;ressurgimento do valor da blasf\u00eamia em contraponto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o iluminista dos poderes da raz\u00e3o&#8221;. Em outras palavras,\u00a0a invas\u00e3o do oriente pelo ocidente, do discurso capitalista no discurso do mestre, da vacila\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao semblante na fixidez do sentido religioso. 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