{"id":2114,"date":"2019-08-04T11:25:24","date_gmt":"2019-08-04T14:25:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2114"},"modified":"2019-08-04T11:25:24","modified_gmt":"2019-08-04T14:25:24","slug":"o-psicanalista-e-as-paixoes-o-gosto-do-riso-e-a-blasfemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/o-psicanalista-e-as-paixoes-o-gosto-do-riso-e-a-blasfemia\/","title":{"rendered":"O psicanalista e as paix\u00f5es &#8211; o gosto do riso e a blasf\u00eamia"},"content":{"rendered":"<p>Nos textos reunidos sob a rubrica <em>Je suis Charlie<\/em>, JA Miller responde aos acontecimentos de 2015 em Paris, quando houve o massacre da reda\u00e7\u00e3o do jornal Charlie Hebdo, num ataque terrorista em resposta a charges publicadas com a figura de Maom\u00e9.<\/p>\n<p>Gostaria de extrair nesse coment\u00e1rio alguns aspectos que me pareceram centrais nas observa\u00e7\u00f5es de Miller. O primeiro deles diz respeito ao ressurgimento do valor da blasf\u00eamia em contraponto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o iluminista dos poderes da raz\u00e3o, t\u00e3o caros \u00e0 sociedade francesa. Num mundo em que a religi\u00e3o retoma seu reinado, o reinado do sentido, capturando o desejo exatamente dos segregados de uma Fran\u00e7a branca, este choque se deu exatamente na trincheira \u201ciluminista\u201d do humor. Ao denomin\u00e1-la como iluminista, estou privilegiando o lugar relevante, proeminente, que \u00e9 dado \u00e0 raz\u00e3o e aos princ\u00edpios que da\u00ed derivam e cujas bandeiras principais se escrevem sob a \u00e9gide dos universalismos extra\u00eddos da raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ultraje a honra<\/strong><\/p>\n<p>Se considerarmos que a blasf\u00eamia se constitui exatamente neste ponto em que se golpeia o sagrado do Outro, onde o fundamento de uma cren\u00e7a \u00e9 ultrajado, insultado, atingido, no ponto em que se sustenta, podemos apreender que desperte a ira, a c\u00f3lera e, mais persistentemente, o \u00f3dio.<\/p>\n<p>O que parece ter surpreendido o mundo ocidental, a partir da Fran\u00e7a, n\u00e3o deve ter sido exatamente o massacre, a carnificina dos corpos, mas principalmente que essa f\u00faria, que n\u00e3o excluiu o planejamento minucioso do ato, tenha se dirigido a um jornal, a um ve\u00edculo primordialmente de discurso, de imagens e palavras, um jornal, ali\u00e1s, sem maior proje\u00e7\u00e3o, decadente, herdeiro de combates de outro momento. Mais propriamente das trincheiras de 68. Eu, por exemplo, que perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-68, do Rio de Janeiro, mas que sofreu diretamente essa influ\u00eancia e que cultuava o riso, o humor, que tinha Wolinski como uma esp\u00e9cie de pr\u00edncipe dos cartunistas, um dos que levava mais longe a iconoclastia iluminista, para al\u00e9m mesmo do politicamente correto, onde o direito a rir de tudo n\u00e3o encontrava quase barreira, posso verificar que isso mudou muito. Como disse Laerte, cartunista brasileiro e colaborador eventual do Charlie Hebdo, o humor encontrou limites \u00e9ticos, de forma mais r\u00e1pida que as demais artes.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0s cr\u00f4nicas de Miller, ele nos faz notar que os franceses reagiram a esse acontecimento e aos que se seguiram, aos ataques na mercearia kosher, com indigna\u00e7\u00e3o. Ao golpe de c\u00f3lera, ao instante do ato de terrorismo, os franceses reagiram com o afeto da indigna\u00e7\u00e3o, que sup\u00f5e primordialmente, a possibilidade de identifica\u00e7\u00e3o com o golpe sofrido pelo pr\u00f3ximo, pelo semelhante, por quem se compartilha o sentimento de humanidade, a fatia ultrajada a quem se reivindica dignidade. A indigna\u00e7\u00e3o que perdura por mais de um instante, um afeto mais duradouro. <em>Je suis Charlie<\/em>, era esta a palavra-de-ordem a \u201ccomandar\u201d, ao menos, a \u201cjuntar\u201d a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m nos faz notar, com a for\u00e7a de sua ironia, o s\u00fabito apaixonamento dos franceses pela pol\u00edcia. Nunca se clamou tanto pela ordem, quanto naquele momento em que um inimigo interno podia ser apontado, embora n\u00e3o se saiba bem onde. Um inimigo interno com seu gozo estranho, feito de sacrif\u00edcios e m\u00e1rtires e um deus obscuro aos ocidentais. Ondas de solidariedade se desencadearam, a partir desse sentimento de dignidade ferida e, assim, restitu\u00edda, recomposta, e que a indigna\u00e7\u00e3o arrebanhou. O que se revela a\u00ed, segundo Miller, n\u00e3o \u00e9 um louvor \u00e0s luzes, \u00e0s liberdades da Raz\u00e3o, mas um desejo de manter a ordem, um desejo de submiss\u00e3o, de servid\u00e3o volunt\u00e1ria, diante do temor ao gozo sombrio desse Outro que espreita em toda parte. Choque de gozos.<\/p>\n<p>No entanto, este mundo tamb\u00e9m foi confrontado por esse outro mundo que se indigna quando o cora\u00e7\u00e3o de sua f\u00e9, o sentido de sua f\u00e9, \u00e9 atingido, quando se sente insultado. Um insulto \u00e9 uma esp\u00e9cie de palavra-imagem que toca o imposs\u00edvel de suportar, a palavra mais pr\u00f3xima\u00a0 de uma bofetada. Um confronto de dignidades, poder\u00edamos supor, que acusa impasses dessas civiliza\u00e7\u00f5es que se chocam justamente porque se cruzam, se avizinham de um modo que possa beirar o intoler\u00e1vel. Sob o confronto de dignidades, o choque de gozos.<\/p>\n<p>Do lado dos humoristas, uma outra dignidade da qual, seja qual for a raz\u00e3o que se evoque, desde a mais desonrosa (sempre financeira), at\u00e9 a mais \u00edntima (a melancolia, a irresponsabilidade) n\u00e3o foi poss\u00edvel para eles se desprender, embora houvesse um risco anunciado: o fato \u00e9 que eles n\u00e3o recuaram desse princ\u00edpio de rir de tudo, rir de tudo, menos da possibilidade de rir.<\/p>\n<p><strong>O riso<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 o riso do c\u00f4mico, cujo exemplo extremo \u00e9 o pastel\u00e3o, \u00e9 o gozo que nos despertam as fraquezas, os trope\u00e7os, quando o que \u00e9 autom\u00e1tico revela o erro de seu funcionamento, surgindo o inesperado, como aponta Bergson, e que coincide com a com\u00e9dia do falo, como nos diz Lacan. E h\u00e1 o humor que descentraliza, que desliza, que vivifica pela iconoclastia, pela afinidade com o furo, pela aten\u00e7\u00e3o ao que escapa do furor do ideal, pela benevol\u00eancia cruel com a falha. \u00c9 o humor que revira o sentido, desliza, subverte o sentido que vigora, \u00e9 o humor que transgride. Este humor, marcado pelo <em>non sense<\/em>, \u00e9 primordialmente n\u00e3o conformista e, embora se dirija ao Outro, se produz na solid\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, implica numa satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que vivifica, mesmo o humor mais negro, ao revirar um sentido sinistro, introduz alegria no horror. \u00a0Lembro as piadas que autores como Viktor Klemperer relatam em seu di\u00e1rio na Alemanha nazista.<\/p>\n<p>Num mundo em que o pai responde com furor e capricho, n\u00e3o se suporta este riso que faz deslizar o sentido. Quando o discurso fundamentalista exige que n\u00e3o haja vacila\u00e7\u00e3o de sentido para que o del\u00edrio religioso se sustente e sustente seus devotos na cren\u00e7a absoluta, o imenso risco do fracasso torna a todos muito s\u00e9rios. Como dizia uma charge retratando revoltas populares na faixa de gaza nessa \u00e9poca: \u201dque gente estressada!\u201d O riso a\u00ed, o poder da com\u00e9dia ao revelar o derris\u00f3rio do falo, a precariedade do pai e do ideal, pode despertar as paix\u00f5es mais mort\u00edferas, o pr\u00f3prio \u00f3dio que se abriga sob a indigna\u00e7\u00e3o, por exemplo.\u00a0 A blasf\u00eamia que pode se apresentar nesse extremo do humor carrega ent\u00e3o uma face mort\u00edfera, quando seu agente n\u00e3o pode ceder desse gosto, desse gozo ao qual se condena n\u00e3o mais se apoiando no ideal do eu, mas nessa forma de gozo supereg\u00f3ico \u2013 do g\u00eanero:\u00a0 \u201cperder o amigo, mas n\u00e3o perder a piada\u201d. Assim, esse n\u00e3o conformismo do humor, como um valor do qual n\u00e3o se pode ceder, essa liberdade de tudo dizer, pode ser para o Outro do sentido um insulto, um ultraje, uma blasf\u00eamia.<\/p>\n<p><strong>Paradoxos<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel rir de tudo? Para a gera\u00e7\u00e3o de humoristas p\u00f3s-68, n\u00e3o. O humor, como as palavras, t\u00eam limites, a no\u00e7\u00e3o de responsabilidade pol\u00edtica pelo que se diz, o reconhecimento do poder e do perigo das palavras suplantou o gozo de tudo dizer. O reduto do \u201ctudo dizer\u201d ainda se encontra na psican\u00e1lise, que conhece os limites desse dispositivo e acolhe os pequenos dep\u00f3sitos dos gozos obscuros de cada um. Sem, no entanto, perder de vista a dignidade a extrair para cada um desses restos, afinal, a dignidade aponta para o que h\u00e1 de mais singular que marca e d\u00e1 valor a cada um. E at\u00e9 porque a psican\u00e1lise verifica o imposs\u00edvel de tudo dizer, a impot\u00eancia das palavras para dizer o real, a viol\u00eancia do insulto sempre anda por perto das palavras.<\/p>\n<p>Mas sabemos do radicalismo fascinante do humor de um Wolinski, por exemplo, que n\u00e3o recuava do direito iluminista de ir longe demais. Os perigos e fasc\u00ednios da raz\u00e3o. O quanto isso tinha de mort\u00edfero \u00e9 seu segredo agora.<\/p>\n<p>Retomando ainda: \u00e9 poss\u00edvel rir de tudo? N\u00e3o, porque a blasf\u00eamia est\u00e1 de volta, o que quer dizer que as palavras, bem como as imagens que falam, que s\u00e3o textos, e que nunca deixaram de insultar ao se dirigir ao ser do outro, inseridas na viol\u00eancia da linguagem, agora n\u00e3o s\u00e3o suportadas por esses ofendidos que se revoltam.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o de tudo dizer, de tudo rir, essa esp\u00e9cie de direito ao riso absoluto, ao confinar com o insulto ao gozo do pr\u00f3ximo, encontra um limite j\u00e1 no racismo que engendra com esse desprezo ao derris\u00f3rio da f\u00e9 estranha, estrangeira. Assim, podemos nos interrogar se o direito de rir de tudo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necessariamente um insulto ao gozo do pr\u00f3ximo. Um fato de racismo, racismo de gozo. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno franc\u00eas, ou apenas de primeiro mundo. Est\u00e1 relacionado ao recrudescimento do sentido religioso. (Do lado da psican\u00e1lise, a quest\u00e3o se expressa mais no sentido do humor, menos do riso). De todo modo a mordacidade de qualquer riso, traz sempre a surpresa, a irrup\u00e7\u00e3o, nem sempre partilh\u00e1vel, mas emergindo de uma fonte t\u00e3o \u00edntima quanto estranha.<\/p>\n<p>Uma palavra sobre a dignidade. Se a dignidade evoca em cada um o que h\u00e1 de mais singular, o que singulariza o sujeito no mundo, ela se realiza no significante que o representa, est\u00e1 referida ao significante com o qual o sujeito se coordena, logo, \u00e0quilo do qual n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o, ao custo por vezes da vida, ou pelo menos, no campo onde essa aposta pode se dar, onde se transita no fio t\u00eanue que \u00e0s vezes separa o sacrif\u00edcio \u00a0do hero\u00edsmo, entre cair como peda\u00e7o de carne, ou morrer\u00a0 para fazer viver o significante, para preserv\u00e1-lo. Como diz Miller em outro texto, \u201cNota sobre a honra e a vergonha\u201d, morrer de vergonha para sustentar sua honra.<\/p>\n<p>Parece que nesse massacre, que teve ares de trag\u00e9dia, a nenhum dos dois lados, foi dado <em>primmum vivere. <\/em>A cada um dos lados n\u00e3o foi poss\u00edvel escolher a vida e perder a honra. Um dos lados morreu de vergonha, o outro morreu de rir.<\/p>\n<h6>Cristina Duba<\/h6>\n<h6>02.06.19<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos textos reunidos sob a rubrica Je suis Charlie, JA Miller responde aos acontecimentos de 2015 em Paris, quando houve o massacre da reda\u00e7\u00e3o do jornal Charlie Hebdo, num ataque terrorista em resposta a charges publicadas com a figura de Maom\u00e9. 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