{"id":2052,"date":"2019-06-30T13:15:47","date_gmt":"2019-06-30T16:15:47","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=2052"},"modified":"2019-06-30T13:15:47","modified_gmt":"2019-06-30T16:15:47","slug":"atividade-da-biblioteca-leituras-em-cena-janelas-abertas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/atividade-da-biblioteca-leituras-em-cena-janelas-abertas\/","title":{"rendered":"Atividade da Biblioteca \u2013 Leituras em Cena &#8211; Janelas abertas"},"content":{"rendered":"<p>No dia 20\/05\/2019, a Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP abriu a casa para o projeto <em>Leituras em cena<\/em><em>,<\/em> em uma linda e surpreendente noite da Diretoria. Mediadas pela Diretora de Biblioteca da Se\u00e7\u00e3o, Andr\u00e9a Vilanova, as colegas Isabel do R\u00eago Barros Duarte, Maricia Ciscato e Renata Martinez falaram, cada uma \u00e0 sua maneira, sobre a pesquisa e o trabalho epist\u00eamico que embasa o projeto e deram not\u00edcias do que recolheram ao longo do trabalho que vem sendo desenvolvido h\u00e1 pouco mais de um ano.<\/p>\n<p>Este encontro estava planejado para acontecer em seguida a um evento de abertura, que teria outro formato, de conversa entre as psicanalistas, a Cia dos Atores e a editora Cobog\u00f3, a partir da leitura de cenas selecionadas da pe\u00e7a <em>Insetos<\/em>, de J\u00f4 Bilac. Este encontro pr\u00e9vio, que contaria ainda com a presen\u00e7a do escritor Luiz Eduardo Soares e de Marcus Andr\u00e9 Vieira, precisou ser adiado em fun\u00e7\u00e3o de uma das enchentes sem precedentes que a cidade do Rio de Janeiro atravessou no primeiro semestre de 2019. Decidido quanto a sua presen\u00e7a na cidade, o <em>Leituras em cena<\/em> n\u00e3o poderia deixar de se posicionar, tamanho o caos que se imp\u00f4s naquela sexta-feira de maio, de forma que, invertidas as datas, o encontro epist\u00eamico saiu antes do evento c\u00eanico. A boa not\u00edcia \u00e9 que j\u00e1 temos a confirma\u00e7\u00e3o da nova data: dia 5 de julho!<\/p>\n<p>A mesa formada pelas psicanalistas trouxe \u00e0 comunidade da Se\u00e7\u00e3o Rio not\u00edcias de um trabalho que vem se construindo na dobradi\u00e7a entre Escola e cidade, rompendo com a dicotomia dentro x fora. Foram apresentados recortes do que tem sido esse esfor\u00e7o de elabora\u00e7\u00e3o acerca do que pode a arte ensinar \u00e0 psican\u00e1lise sobre um certo modo de fazer com o real, com o que se apresenta no cen\u00e1rio social e pol\u00edtico atual. Com leveza, transmitiram o que ficou, para cada uma, dos encontros quinzenais com o coletivo que comp\u00f5e o projeto \u2013 formado por Dinah Kleve, Natasha Berditchevsky, Thereza De Felice e por mim \u2013, e tamb\u00e9m do cartel formado por elas, tendo Marcelo Veras (EBP-BA) como mais um.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas trabalhos fazem refer\u00eancia ao semin\u00e1rio de Marcus Andr\u00e9 Vieira, <em>A psican\u00e1lise do fim do mundo<\/em>, um importante espa\u00e7o de discuss\u00e3o e trocas sobre a pr\u00e1tica da psican\u00e1lise hoje. Al\u00e9m disso, a especificidade da linguagem do teatro dentro do campo das artes, a presen\u00e7a do texto e dos corpos em cena, s\u00e3o alguns dos pontos que n\u00e3o deixaram de aparecer. Finalmente, o porqu\u00ea de a pe\u00e7a <em>Insetos<\/em> ter ganhado lugar de destaque nessa pesquisa, por se tratar de uma leitura social com incr\u00edvel poder de transmiss\u00e3o, tamb\u00e9m foi abordado, de alguma forma, em todas as falas.<\/p>\n<p>Renata apresenta o <em>Leituras em cena<\/em> como um processo, um trabalho em constru\u00e7\u00e3o, que se inicia no encontro com alguns parceiros. Aproxima a pr\u00e1tica do analista \u00e0quela do artista, no mundo de hoje, ap\u00f3s o fim de um mundo conhecido. Retomando a indica\u00e7\u00e3o de Lacan sobre a import\u00e2ncia de o analista estar \u00e0 altura da subjetividade de sua \u00e9poca e a express\u00e3o cunhada por Laurent, o \u201canalista cidad\u00e3o\u201d, afirma que o <em>Leituras<\/em> \u00e9 uma nova maneira de lidar com tudo o que est\u00e1 a\u00ed. Ele surge com essa proposta, provocado por nosso tempo, a fim de buscar na linguagem da arte outros modos de tratamento dado ao objeto \u2013 n\u00e3o podemos desconsiderar o fato de que esse trabalho teve in\u00edcio ap\u00f3s o assassinato de Marielle Franco. Citando o cr\u00edtico de arte Lorenzo Mammi, Renata aponta para o papel do artista de descobrir os espa\u00e7os onde a arte poder\u00e1 se exercer, espa\u00e7os prec\u00e1rios e problem\u00e1ticos, e pergunta: n\u00e3o se trata tamb\u00e9m de construir esses espa\u00e7os?<\/p>\n<p>Maricia indica como os relatos de testemunhos p\u00f3s Segunda Guerra trazem um novo modo de transmiss\u00e3o do real, a partir dos restos, fazendo importante resist\u00eancia \u00e0 l\u00f3gica totalit\u00e1ria do nazismo, de elimina\u00e7\u00e3o dos restos. Discute a passagem das <em>Belas artes<\/em> (que apontam para o ideal) ao <em>Ready made<\/em> (o urinol, de Duchamp), nas artes pl\u00e1sticas. Conforme desenvolvido por Miller, em sua \u201cSalva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, essa estetiza\u00e7\u00e3o do dejeto promove uma eleva\u00e7\u00e3o do objeto \u00e0 dignidade da Coisa. Neste sentido, Maricia indaga: com o que contamos hoje? No mundo da ci\u00eancia e do capital, onde tudo se compra ou vende e, portanto, tudo \u00e9 elimin\u00e1vel, o que resta? Como impedir que o deserto se totalize sobre n\u00f3s? Resgata a no\u00e7\u00e3o de o\u00e1sis de Hannah Arendt, indicando que o maior desafio \u00e9 o de produzir e manter o\u00e1sis em meio ao caos, n\u00e3o como espa\u00e7os de descompress\u00e3o, mas como \u201cfontes vivas que nos capacitam a viver no deserto sem nos reconciliarmos com ele\u201d. Para Maricia, um efeito pessoal das \u201cconversas entre muitos\u201d, que se produziram na constru\u00e7\u00e3o da parceria com os atores e demais envolvidos na pe\u00e7a <em>Insetos<\/em>, foi o de repensar o lugar da obra hoje, do elevado, sublime, ao transbordamento em seu entorno, o que permitiu, como se desejava, borrar as fronteiras entre o teatro, as artes pl\u00e1sticas, a psican\u00e1lise e a pol\u00edtica, num ambiente menos sublime e muito vivo.<\/p>\n<p>Tanto Maricia quanto Isabel citam uma articula\u00e7\u00e3o feita por Marcus Andr\u00e9 Vieira em seu semin\u00e1rio, sobre o <em>artivismo<\/em> contempor\u00e2neo, que toma o fazer cont\u00ednuo como marca do gesto art\u00edstico: \u201cA arte, muito antes da gente, j\u00e1 percebeu que n\u00e3o vai ter grande objeto, grande arte, e que \u00e9 mais um fazer e meio coletivo, que n\u00e3o tem nem come\u00e7o nem fim\u201d.<\/p>\n<p>Em seu texto, Isabel indica que o fato de a leitura de pe\u00e7as de teatro ter sido o meio escolhido para o trabalho no <em>Leituras em cena<\/em> foi tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da possibilidade de, por emprestar o corpo e a voz num esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o do objeto art\u00edstico, evitar-se cair na l\u00f3gica do psicanalista que interpreta a obra de arte. Isso foi ilustrado por seu pedido \u00e0s colegas para lerem, junto com ela, a cena inicial da pe\u00e7a, dos gafanhotos, colocando em cena o esp\u00edrito do teatro, e mostrando que as psicanalistas beberam da fonte da proposta inovadora que v\u00eam trazer. Isabel diferencia o o\u00e1sis do bunker, onde os gafanhotos poderiam se proteger at\u00e9 a tempestade passar. Ela indica seu interesse pessoal em pesquisar as veredas, vias de acesso entre os o\u00e1sis, caminhos alternativos quando as vias principais est\u00e3o impedidas. Numa aproxima\u00e7\u00e3o com <em>O Grande Sert\u00e3o<\/em>, de Guimar\u00e3es Rosa, onde caminhar pelas veredas era a \u00fanica forma de viver em liberdade, pensa a travessia de uma an\u00e1lise e a fun\u00e7\u00e3o desse processo hoje, que conta mais do que o produto. Por fim, situa o efeito de sublima\u00e7\u00e3o como o de fazer com que alguma coisa dure um pouquinho mais, antes que vire nada outra vez.<\/p>\n<p>Como as artes e, mais especificamente, o teatro t\u00eam se virado com as quest\u00f5es do nosso tempo? O que fazem com esse real e como transmitem esse fazer \u2013 isso pode nos ensinar alguma coisa sobre a cl\u00ednica hoje? Podemos pensar o <em>Leituras em cena<\/em> como uma forma de o\u00e1sis que cria veredas, caminhos alternativos por onde transitar na cidade nos tempos atuais? S\u00e3o algumas das perguntas que ficaram.<\/p>\n<p>O debate que se seguiu trouxe, mais uma vez, o tom da leveza e da novidade desse trabalho, com coment\u00e1rios sobre os \u201ccorpos angustiados\u201d, a aproxima\u00e7\u00e3o do projeto com a <em>A\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, a imagem da capa do livro com os insetos e suas in\u00fameras patas, a provoca\u00e7\u00e3o para seguir a partir do que foi dito e, sobretudo, a pot\u00eancia do debate lan\u00e7ado naquela noite. O fato desse projeto ter sido acolhido pela atual Diretoria revela uma dire\u00e7\u00e3o de trabalho interessada em aprender com o que se inventa hoje na cidade. Pessoalmente, posso dizer que aprendi com o <em>Leituras<\/em> que, para sair da posi\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica e da indigna\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ter os dois p\u00e9s dentro da Escola, no sentido de um desejo decidido a encontrar modos de fazer. \u00c9 isso que permite avan\u00e7ar essa pesquisa, encontrando formas de abrir as janelas e promover outras rela\u00e7\u00f5es de dentro x fora, aberto x fechado. N\u00e3o se trata de olhar os insetos como objetos de estudo, mas de entender que somos todos insetos aprendendo a lidar como o que se apresenta no cen\u00e1rio des\u00e9rtico atual.<\/p>\n<p>Contamos com a presen\u00e7a de todos no dia 5!<\/p>\n<h6><em>por Patr\u00edcia Paterson<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 20\/05\/2019, a Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP abriu a casa para o projeto Leituras em cena, em uma linda e surpreendente noite da Diretoria. 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