{"id":1907,"date":"2018-12-01T11:19:59","date_gmt":"2018-12-01T13:19:59","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?p=1907"},"modified":"2018-12-01T11:19:59","modified_gmt":"2018-12-01T13:19:59","slug":"comentario-sobre-introducao-ao-narcisismo-o-amor-de-si","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/comentario-sobre-introducao-ao-narcisismo-o-amor-de-si\/","title":{"rendered":"Coment\u00e1rio sobre Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo &#8211; o amor de si"},"content":{"rendered":"<h6>de <em>Carlos Augusto Nic\u00e9as<\/em><\/h6>\n<p>Os textos de Carlos Augusto Nic\u00e9as trouxeram desde sempre a marca de um esfor\u00e7o muito vivo e tenaz de resgatar a fibra dos debates que marcaram a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise freudiana e lacaniana. Mais: de retomar em Freud, e na malha muitas vezes para n\u00f3s j\u00e1 obscura e intrincada dos debates, controv\u00e9rsias e cismas das primeiras horas da psican\u00e1lise, a raz\u00e3o radical de sua inven\u00e7\u00e3o e de sua sustenta\u00e7\u00e3o no desejo de Freud.<\/p>\n<p>Pudemos acompanh\u00e1-lo nessa tarefa que fez sua por muitos anos, atrav\u00e9s de seus diversos artigos e interven\u00e7\u00f5es, de extrair dessas diverg\u00eancias os marcos fundamentais desse percurso da hist\u00f3ria da psican\u00e1lise, seus recuos, desvios e avan\u00e7os. Seu estilo claro mas minucioso, preciso mas coloquial,\u00a0 nos captura pelo encanto de seu estilo enquanto nos ensina.<\/p>\n<p>Mas, se retomar os debates cl\u00e1ssicos\u00a0 traduz certamente algo de seu estilo, Nic\u00e9as\u00a0 n\u00e3o o fazia por um preciosismo exeg\u00e9tico ou algum tipo de gosto obscurantista ou passadista, algum tipo de nostalgia por uma suposta pureza original da psican\u00e1lise. Tratava-se, pelo contr\u00e1rio, de tomar como guia nessa travessia a hip\u00f3tese fundamental da psican\u00e1lise, o inconsciente. E de apontar o que nos afasta dessa trilha.<\/p>\n<p>Assim, podemos acompanhar na leitura de seus textos, al\u00e9m de suas finezas cl\u00ednicas, o apuro de suas preocupa\u00e7\u00f5es com os destinos da psican\u00e1lise. Nesse sentido, vale lembrar alguns momentos de seu fecundo trabalho. Vale destacar, nesse sentido, sua leitura arguta e minuciosa dos caminhos que tomou o conceito de objeto desde a teoria freudiana.<\/p>\n<p>Nic\u00e9as nos fez entrever como a perspectiva que se produziu a partir de Abraham e se consolidou com Melanie Klein levou a desvios te\u00f3ricos que imprimiram consequ\u00eancias pr\u00e1ticas e ideol\u00f3gicas que marcaram a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise a partir de sua pr\u00f3pria doutrina. Nessa mesma perspectiva, Nic\u00e9as empreendeu a leitura dos te\u00f3ricos subsequentes da transfer\u00eancia e da contratransfer\u00eancia,\u00a0 demonstrando como esse \u00faltimo conceito resultou do abandono de hip\u00f3teses de base da psican\u00e1lise, engendrando, por sua vez, consequ\u00eancias que afastaram os analistas do rumo radical a que a doutrina de Freud conduz. Assim, como principal exemplo, destacamos um de seus temas: a teoria do objeto e do final de an\u00e1lise derivadas desse desvio, que resultaram no esvaziamento da novidade radical que a psican\u00e1lise introduziu na cultura, em benef\u00edcio de uma psicoterapia conveniente aos conformismos dos outrora novos tempos.<\/p>\n<p>De sua reflex\u00e3o, podemos assim retirar &#8211; parafraseando Lacan, \u201cpor acr\u00e9scimo\u201d &#8211; um efeito de elucida\u00e7\u00e3o que nos ressitua e nos faz recolocar quest\u00f5es contempor\u00e2neas \u00e0 luz do que esteve e est\u00e1 em jogo na sustenta\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise no mundo contempor\u00e2neo. Isso deu sempre aos seus textos uma extrema atualidade. Suas considera\u00e7\u00f5es permitem trazer para o presente, para o calor dos debates atuais, o que h\u00e1 de peste na psican\u00e1lise, sua hip\u00f3tese disruptiva e algo inc\u00f4moda \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. N\u00e3o \u00e0 toa, Nic\u00e9as se interessou t\u00e3o vivamente pelas quest\u00f5es de Escola e do passe entre n\u00f3s.<\/p>\n<p>Com este livro ent\u00e3o, Nic\u00e9as, al\u00e9m de ter dado continuidade \u00e0 sua perspectiva de trabalho, nos deu uma obra de refer\u00eancia para abordar a quest\u00e3o do narcisismo.\u00a0 Situou as raz\u00f5es de Freud para manter o car\u00e1ter sexual da libido e reparti &#8211; la em duas correntes, libido do eu e libido do objeto, pelas quais Freud sustentava com coer\u00eancia, a partir do real de sua cl\u00ednica, as consequ\u00eancias de sua hip\u00f3tese do inconsciente e do dispositivo de fala: o furo que a linguagem promove na sexualidade, a aus\u00eancia de objeto adequado \u00e0 puls\u00e3o e as consequ\u00eancias para o amor dessa delicada topologia, esses vasos comunicantes da libido do eu e do objeto. Nic\u00e9as tratou disso com min\u00facia, apontando os impasses constitutivos, estruturais, das solu\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, para essa fenda de estrutura. Desse modo, nos permitiu entrever de que maneira para esses impasses foram tra\u00e7adas as rotas de fuga, de resist\u00eancia, dos neofreudianos e sua psicologia do eu e das rela\u00e7\u00f5es de objeto, que Lacan p\u00f4de apontar. Verdadeiros desvios, Lacan nos ensinar\u00e1: face a esse impasse de estrutura, o narcisismo foi tomado como fase a ser superada, na dire\u00e7\u00e3o do encontro com o objeto total, simulacro da plenitude, de cuja impossibilidade justamente se funda a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>A insist\u00eancia de Freud sobre o dualismo pulsional, que gerou uma esp\u00e9cie de imprecis\u00e3o na teoria do narcisisimo, como Nic\u00e9as marca bem, com a biparti\u00e7\u00e3o da libido, n\u00e3o tem assim o car\u00e1ter apenas de um est\u00e1gio ou momento a ser superado na teoria das puls\u00f5es, n\u00e3o foi apenas um erro ou uma incorre\u00e7\u00e3o. A imprecis\u00e3o tem o valor de dar conta da natureza enganadora do eu e do amor, dessa topologia do eu e do outro e da fenda radical que o amor encobre.<\/p>\n<p>Niceas nos demonstra assim como a teoria do narcisismo se mostrou necess\u00e1ria para dar conta do impasse er\u00f3tico entre o eu e o outro, o sujeito e seus objetos. O dualismo freudiano ofereceu express\u00e3o a esse impasse que anuncia a impossibilidade da plenitude, fazer um de dois, ter um objeto adequado \u00e0 puls\u00e3o. Dessa fenda, dessa solid\u00e3o, Lacan tiraria outras consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>Por fim, gostaria de frisar que o mais importante \u00e9 que o texto de Nic\u00e9as n\u00e3o nos permite apenas remontar a um passado tomado como funesto, um passado de desvios, que poder\u00edamos pretender ultrapassado, como tamb\u00e9m coloca em cena, ou nos convida a coloc\u00e1-las, as tenta\u00e7\u00f5es de recuo ou desvio que podem se atualizar a cada momento em que o inconsciente pode se fechar. Acrescentar\u00edamos: principalmente, em nossa \u00e9poca, por sedu\u00e7\u00f5es da civiliza\u00e7\u00e3o capitalista, ou p\u00f3s-capitalista, tecnocient\u00edfica, e tamb\u00e9m tenta\u00e7\u00f5es institucionais que atualizam de modo terr\u00edvel o que h\u00e1 de mortificante na psicologia dos grupos, no narcisismo que nos acompanha, nos seus restos, nos nossos racismos e segrega\u00e7\u00f5es. Nic\u00e9as nos adverte sutilmente que essa divis\u00e3o est\u00e1 em n\u00f3s, em cada um, seja mal-estar ou impasse da civiliza\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s dessa advert\u00eancia, ele faz eco \u00e0 persevera\u00e7\u00e3o de Freud onde esta justamente encontra Lacan.<\/p>\n<h6><em>Cristina Duba<\/em><\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>de Carlos Augusto Nic\u00e9as Os textos de Carlos Augusto Nic\u00e9as trouxeram desde sempre a marca de um esfor\u00e7o muito vivo e tenaz de resgatar a fibra dos debates que marcaram a hist\u00f3ria da psican\u00e1lise freudiana e lacaniana. 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