{"id":6008,"date":"2020-10-06T14:23:29","date_gmt":"2020-10-06T17:23:29","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?page_id=2955"},"modified":"2020-10-06T14:23:29","modified_gmt":"2020-10-06T17:23:29","slug":"estacao-sinthoma-e-corpo","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/eventos\/eventos\/xxvii-jornadas-exilios-programa\/estacao-sinthoma-e-corpo\/","title":{"rendered":"ESTA\u00c7\u00c3O SINTHOMA E CORPO"},"content":{"rendered":"<h6>27\/11, \u00e0s 18h<\/h6>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Exi\u0301lios &#8211; Sinthoma, corpo e territo\u0301rio<br \/>\nXXVII Jornadas da Escola Brasileira de Psicana\u0301lise &#8211; Sec\u0327a\u0303o Rio e Instituto de Cli\u0301nica Psicanali\u0301tica ICP-RJ<\/p>\n<h3>Corpo e Sinthoma<\/h3>\n<h6>Marcus Andre\u0301 Vieira<\/h6>\n<p>Costumamos tomar nossos sintomas como males causados por agentes externos. Buscamos ajuda, de um me\u0301dico por exemplo, como a de algue\u0301m que possa nos livrar desses padecimentos. E\u0301 raro nos ocorrer que um sintoma seja tambe\u0301m parte de no\u0301s. E\u0301 exatamente, pore\u0301m, o que faz o analista. Ele assume que o sintoma faz parte da constituic\u0327a\u0303o de quem sofre, trazendo, ainda que de modo cifrado, um tanto da verdade daquele que se queixa.<\/p>\n<p>Assim lanc\u0327ada, do sintoma a\u0300 verdade, a experie\u0302ncia anali\u0301tica se desenrola como a busca de um si-mesmo original. Tudo se passa, enta\u0303o, como se fossemos de um \u201cPorque sofro?\u201d inicial a um \u201cO que este sofrimento diz sobre o que sou?\u201d<\/p>\n<p>Essa verdadeira busca das origens, no entanto, na\u0303o vai desembocar em um eu mais verdadeiro ou original. Quando chegamos perto dos confins, como na experie\u0302ncia de uma ana\u0301lise, desarmados, sem ideias preconcebidas, encontramos nossa singularidade distribui\u0301da entre toda uma se\u0301rie de experie\u0302ncias marcantes. Na\u0303o apenas uma, mas as va\u0301rias crianc\u0327as que fomos, de ta\u0303o variados os pape\u0301is que vivemos, e na\u0303o apenas elas, mas a ma\u0303e, o pai e ainda muitos outros personagens, cheiros e sons marcantes.<\/p>\n<p>Isso na\u0303o impede que tenhamos unidade. No meio da colcha de retalhos que somos quase sempre ha\u0301 um territo\u0301rio subjetivo relativamente esta\u0301vel que costumamos chamar de identidade. Ela na\u0303o esta\u0301 na base, mas no topo do iceberg de todo um processo de construc\u0327a\u0303o de si.Vale o mesmo para o corpo. Esse corpo que reconhecemos e que nos representa foi primeiramente vivido como exterioridade. Para estar relativamente bem em meu corpo, foi preciso de algum modo me apropriar, fazer alguma coisa com o que os outros fizeram com ele para poder, fra\u0301gil instavelmente que seja, ter um corpo para chamar de meu.<\/p>\n<p>O mais comum e\u0301 que essa unidade narci\u0301sica, como dizemos, se sustente em boa parte grac\u0327as ao legado de uma histo\u0301ria que nos e\u0301 transmitida.Nem todos te\u0302m essa chance, sabemos o quanto muitos recebem sua histo\u0301ria pulverizada, negada,<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>silenciada.Exatamente porque um dos caminhos comuns para po\u0302r ordem na casa de uma histo\u0301ria e\u0301 recorrer a polarizac\u0327o\u0303es, a\u0300s vezes violentas, que inocentam alguns personagens de tudo enquanto criminalizam outros antes mesmo ouvi-los.<\/p>\n<p>Seja como forem constitui\u0301dos corpo e identidade, assumiremos, com Freud que sua base e\u0301 plural.O analista se depara, desde o ini\u0301cio, com este excesso que por na\u0303o encontrar lugar vem nos transtornar, das enxaquecas a\u0300s fobias, so\u0301 que, como confusa\u0303o original, na\u0303o desaparece quando o transtorno se vai. Lacan nunca deixara\u0301 de chamar essa base, sintoma, mesmo quando na\u0303o se apresenta exatamente como um padecimento. E\u0301 para que nunca esquec\u0327amos que essa pluralidade e\u0301 invariavelmente perturbac\u0327a\u0303o, tumulto.Na\u0303o havera\u0301 eliminac\u0327a\u0303o ou assimilac\u0327a\u0303o total do que constitui o fundamento dessas perturbac\u0327o\u0303es, pois ele e\u0301 a vida que na vida na\u0303o coube.<\/p>\n<p>O que coube tornou-se nossa identidade. Nosso \u201csi-mesmo\u201d e\u0301 uma construc\u0327a\u0303o proviso\u0301ria feita daquilo que, do tanto que poderi\u0301amos ser, po\u0302de fazer parte do quotidiano de uma histo\u0301ria, sempre atarantada por essas tantas outras vidas a que renunciamos a cada vez que acordamos e tomamos cafe\u0301. Nesse sentido, a singularidade e\u0301 sintoma\u0301tica, vai sempre contra a identidade e a integridade corporal.<\/p>\n<p>Uma ana\u0301lise, para Lacan, pode oferecer um destino novo para essa nossa base fora de esquadro. Contara\u0301 para isso com o que o tumulto deixou como marcas. E\u0301 possi\u0301vel traze\u0302-lo para o campo do que somos desde que se possa fisga\u0301-la em uma rede feita dessas marcas. Basta, para isso, tomar a operac\u0327a\u0303o anali\u0301tica como um processo de escrita. Na\u0303o a escrita em seu aspecto de registro ou transcric\u0327a\u0303o de acontecimentos, mas por suas propriedades de enlace, de manter unidas coisas que nada te\u0302m entre si, tal como as marcas do vivido que na\u0303o puderam fazer parte de nosso si-mesmo.<\/p>\n<p>Para demonstrar essa possibilidade em ato e na\u0303o apenas em tese, ele recorre a um artifi\u0301cio de escrita passa a notar o termo sintoma com sua grafia em france\u0302s arcaico que traduzimos como sinthoma e que conta especialmente por na\u0303o ter nenhuma presenc\u0327a na pronu\u0301ncia do termo que e\u0301 ide\u0302ntica ao termo comum. Sinthoma so\u0301 existe na escrita e na\u0303o na fala. Nesse novo-velho termo, insiste todo um passado esquecido e muito mais por meio de sua homofonia em france\u0302s, que remete, entre outras coisas, a Sa\u0303o Thomas de Aquino e a James Joyce. Tudo isso, concentrado em alguns trac\u0327os de escrita aparentemente sem valor, mas que rementem e da\u0303o lugar a um mundo de coisas.<\/p>\n<p>Esse procedimento lembra o que fazem alguns quando acrescentam uma dupla consoante em seus nomes pro\u0301prios ou um \u201cy\u201d aqui, um \u201cw\u201d ali. Em uma ana\u0301lise, pore\u0301m, sera\u0303o trac\u0327os\u201cancestrais\u201d os que vira\u0303o, trac\u0327os que na\u0303o te\u0302m lugar na cena do corpo ou das ideias, mas que podem se apresentar, a\u0300s vezes, em uma memo\u0301ria meio<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>conturbada ou apagada, assim, como um garrancho histo\u0301rico. Se, como afirma Lacan, o inconsciente e\u0301 a memo\u0301ria do que se esqueceu, uma ana\u0301lise sera\u0301, nesse sentido, abrir as gavetas, encontrar coisas espalhadas, jogar um tanto pela janela e amarrar as sobras de algum jeito que sirva para poder deixar o vento percorrer de outro modo a casa.<\/p>\n<p>E\u0301 possi\u0301vel que uma pra\u0301tica como essa seja de valia hoje? Se o que foi dito ate\u0301 aqui se sustenta, creio que sim. E\u0301 preciso, pore\u0301m, cuidado. No\u0301s, analistas, em grande maioria, fazemos parte da hegemonia branca de um pai\u0301s que po\u0303e em curso uma ma\u0301quina de moer gente, um pai\u0301s que tem, hoje, no poder, os que desejam deixar morrer, velhos, mulheres e negros na versa\u0303o colonial de uma necropoli\u0301tica pseudo-teocra\u0301tica em que vivemos. Neste contexto, qualquer universalismo e\u0301 perigoso. E\u0301 preciso perder o lugar de enunciac\u0327a\u0303o de verdades universais ou aceitar ve\u0302-las rejeitadas em bloco com toda raza\u0303o, mesmo quando razoa\u0301veis, porque vindas do branco no poder. Na\u0303o podemos dizer, como dizemos a\u0300s vezes, lacanianos, que o sujeito na\u0303o tem cor, ou ge\u0302nero. Nem mesmo visar um \u201ccomum\u201d que so\u0301 existe negando-se uma diferenc\u0327a que pode ser baseada em efeitos imagina\u0301rios de superfi\u0301cie, de pele, por exemplo, mas na\u0303o e\u0301 por isso menos morti\u0301fera.<\/p>\n<p>Pode ser difi\u0301cil ser reduzido a um lugar, uma posic\u0327a\u0303o discursiva fixa, a do branco, por exemplo, mas se nosso trabalho consiste em encontrar a singularidade que expo\u0303e cada um a\u0300 sua estranheza mu\u0301ltipla e subverte sua identidade, na\u0303o ha\u0301 nada que o impec\u0327a de prosseguir, com ganhos para os sujeitos a partir de identificac\u0327o\u0303es fluidas o bastante para acolher as surpresas que fazem a vida.<\/p>\n<p>Pode A. Mbembe estar certo quando afirma que na\u0303o ha\u0301 como na\u0303o ver que o mundo euroce\u0302ntrico, ocidental, primeiro mundo, em que nos inclui\u0301mos, analistas, na\u0303o tem como comec\u0327ar mais nada por si mesmo? Que a descolonizac\u0327a\u0303o precisa ser pensada como um atravessamento dos bina\u0301rios, branco-preto e outros, rumo a outro modo de estar no mundo? Quem sabe poderiam, nesse sentido, as gambiarras que promovemos, feitas de nossos restos de identidade contribuir para forjar, como propo\u0303e J. A. Miller, modos de identificac\u0327a\u0303o na\u0303o segregativas ta\u0303o vitais hoje?<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>27\/11, \u00e0s 18h Exi\u0301lios &#8211; Sinthoma, corpo e territo\u0301rio XXVII Jornadas da Escola Brasileira de Psicana\u0301lise &#8211; Sec\u0327a\u0303o Rio e Instituto de Cli\u0301nica Psicanali\u0301tica ICP-RJ Corpo e Sinthoma Marcus Andre\u0301 Vieira Costumamos tomar nossos sintomas como males causados por agentes externos. 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