{"id":6001,"date":"2020-10-06T14:15:49","date_gmt":"2020-10-06T17:15:49","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/?page_id=2941"},"modified":"2020-10-06T14:15:49","modified_gmt":"2020-10-06T17:15:49","slug":"estacao-corpo-e-territorio","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/eventos\/eventos\/xxvii-jornadas-exilios-programa\/estacao-corpo-e-territorio\/","title":{"rendered":"ESTA\u00c7\u00c3O CORPO E TERRIT\u00d3RIO"},"content":{"rendered":"<h6>06\/11, \u00e0s 18h<\/h6>\n<h3><strong style=\"font-size: 16px;\">Exi\u0301lios &#8211; Sinthoma, corpo e territo\u0301rio<\/strong><\/h3>\n<div class=\"page\" title=\"Page 1\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p><strong>XXVII Jornadas da Escola Brasileira de Psicana\u0301lise, Sec\u0327a\u0303o Rio e <\/strong><strong>Instituto de Cli\u0301nica Psicanali\u0301tica, ICP-RJ<\/strong><\/p>\n<h3>Territo\u0301rio e Corpo<\/h3>\n<h6>Paulo Vidal<\/h6>\n<p>Territo\u0301rio e\u0301 um espac\u0327o poli\u0301tico, cultural e simbo\u0301lico cujos trac\u0327os repercutem, se inscrevem nos corpos que nele habitam e por cujas coordenadas transitam. Nem a todos os corpos, pore\u0301m, e\u0301 dado transitar por qualquer territo\u0301rio.<\/p>\n<p>Durante um intervalo, ao longo das filmagens, em um bairro pobre de Sa\u0303o Paulo, um conhecido ator brasileiro dirigiu-se a um restaurante, no bairro dos Jardins. Trajava roupas e usava um corte de cabelo ao estilo de um jovem da periferia, assim como tudo o mais que incorporara ao seu personagem. Ao tentar entrar no recinto, advertiram-no de que na\u0303o havia mesa disponi\u0301vel. Respondeu que poderia comer no balca\u0303o, mas disseram-lhe que a cozinha ja\u0301 tinha fechado&#8230; Ele na\u0303o era do pedac\u0327o. Os territo\u0301rios te\u0302m fronteiras, exigem passaportes, ditam percursos. Caso o nosso ator tivesse tentado a porta dos fundos, ganharia o passaporte da invisibilidade, como ocorre com os habitantes da periferia que colocam a ma\u0301quina dos Jardins em funcionamento, limitados a\u0300 cozinha, func\u0327o\u0303es de limpeza, etc&#8230;<\/p>\n<p>Para H. Arendt, o ponto de partida da poli\u0301tica e\u0301 o fato da multiplicidade dos sujeitos, seres diferentes que na\u0303o guardam uma esse\u0302ncia em comum. A poli\u0301tica faz lac\u0327o entre diversos a partir do vazio entre eles. Deste modo, a poli\u0301tica na\u0303o e\u0301 sem conflito, oscilando entre tecer uma multiplicidade, um viver junto que preserve o ritmo de cada sujeito e fazer de todos Um, atados estreitamente num feixe, um fascio que expulsara\u0301, exterminara\u0301, no limite, o \u201ca mais\u201d, seja ele judeu, tutsi, ou negro.<\/p>\n<p>Estima-se que, diariamente, 34000 pessoas fogem de suas casas para evitar a morte sob a forma da guerra, da fome e da mise\u0301ria irrecorri\u0301veis. Ademais, o exi\u0301lio, na atualidade, praticamente coincide com a exclusa\u0303o: expulso de seu pai\u0301s, o exilado dificilmente e\u0301 recebido em outros pai\u0301ses, sendo geralmente tratado com indiferenc\u0327a, ou mesmo temor. Como escreveu Joseph Roth, \u201cO que e\u0301 uma pessoa sem pape\u0301is? Menos do que um papel sem uma pessoa!\u201d.<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<p>Em Luto e Melancolia (1915), Freud escreve que o luto concerne tanto a\u0300 perda de uma pessoa amada quanto a\u0300 perda da pa\u0301tria, exigindo um trabalho de elaborac\u0327a\u0303o da perda para que se abra a possibilidade de novos investimentos libidinais, a fim de que o desejo volte a transitar e nos fac\u0327a transitar. E\u0301 certo que o exilado precisa fazer o luto de sua pa\u0301tria, operando, inclusive, a difi\u0301cil separac\u0327a\u0303o entre a encarnac\u0327a\u0303o de suas refere\u0302ncias (amigos, fami\u0301lia, trabalho, etc.) e as refere\u0302ncias propriamente ditas, as quais sa\u0303o simbo\u0301licas, fatos de linguagem que na\u0303o se perde. Contudo, perguntamo-nos se a perda da pa\u0301tria coincide de todo com a perda de uma pessoa amada: a barba\u0301rie, o real do exi\u0301lio po\u0303e em jogo um trauma coletivo que se inscreve do lado da morte; o exilado decide fugir de um Outro absoluto, sem limite e sem lei que deseja a sua perda (1). O que coloca va\u0301rias questo\u0303es para no\u0301s: como esse horror se inscreve no romance familiar do sujeito? Como ele e\u0301 transmitido atrave\u0301s das gerac\u0327o\u0303es? Como ele e\u0301 sintomatizado pelos diversos sujeitos?<\/p>\n<p>Que cada sujeito responda a\u0300 sua maneira ao exi\u0301lio, leva-nos a uma das questo\u0303es que animam nossas jornadas: tensionar a dimensa\u0303o poli\u0301tica e histo\u0301rica do exi\u0301lio com a dimensa\u0303o estrutural do exi\u0301lio, pro\u0301pria ao sujeito enquanto ser falante, migrante entre uma palavra e outra, desprovido de origem ou esse\u0302ncia. Para que o sujeito exilado na\u0303o fique preso a\u0300 posic\u0327a\u0303o de vi\u0301tima de uma exclusa\u0303o, para que ele se desloque, e\u0301 importante que tensione seus exi\u0301lios. Que dirija, por exemplo, sua fala a outros, entre eles, se possi\u0301vel, um analista, para fazer algo com os restos do exi\u0301lio, na\u0303o se fixar no irrepara\u0301vel de uma perda. O pai\u0301s abandonado na\u0303o sera\u0301 o pai\u0301s reencontrado, o sujeito tampouco sera\u0301 o mesmo.<\/p>\n<p>Evidentemente, interroga-nos, poli\u0301tica e eticamente, o fato de vivermos num mundo em que o capital circula livremente, sem fronteiras, mas no qual sujeitos que fogem de bombas sa\u0303o segregados em verdadeiros campos de concentrac\u0327a\u0303o nos pai\u0301ses vizinhos, quando na\u0303o morrem afogados, durante a travessia. Vale lembrar que o termo \u201ce\u0301tica\u201d deriva de \u201ccasa\u201d, em grego, o que nos leva a\u0300 pergunta do filo\u0301sofo J. Derrida: na\u0303o deveri\u0301amos examinar as situac\u0327o\u0303es nas quais a hospitalidade e\u0301 coextensiva a\u0300 pro\u0301pria e\u0301tica?<\/p>\n<div class=\"page\" title=\"Page 2\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<hr \/>\n<h6>Notas:<\/h6>\n<h6>1) Para Freud, o indivi\u0301duo da horda na\u0303o conhece impossi\u0301vel. Qualquer semelhanc\u0327a com situac\u0327o\u0303es atuais na\u0303o e\u0301 mera coincide\u0302ncia.<\/h6>\n<h6>2) DERRIDA, J. e DUFOURMANTELLE, A. Da hospitalidade, SP, Ed. Escuta, 2003.<\/h6>\n<div class=\"page\" title=\"Page 3\">\n<div class=\"layoutArea\">\n<div class=\"column\">\n<h6>3) ROTH, J. Judeus em Exi\u0301lio, SP, Editora Madalena, 2017.<\/h6>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>06\/11, \u00e0s 18h Exi\u0301lios &#8211; Sinthoma, corpo e territo\u0301rio XXVII Jornadas da Escola Brasileira de Psicana\u0301lise, Sec\u0327a\u0303o Rio e Instituto de Cli\u0301nica Psicanali\u0301tica, ICP-RJ Territo\u0301rio e Corpo Paulo Vidal Territo\u0301rio e\u0301 um espac\u0327o poli\u0301tico, cultural e simbo\u0301lico cujos trac\u0327os repercutem, se inscrevem nos corpos que nele habitam e por cujas coordenadas transitam. 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