{"id":5991,"date":"2020-03-09T17:39:05","date_gmt":"2020-03-09T20:39:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?page_id=2650"},"modified":"2024-04-17T07:24:48","modified_gmt":"2024-04-17T10:24:48","slug":"leituras-em-cena","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/carteis-4\/intercambio\/leituras-em-cena\/","title":{"rendered":"Leituras em Cena"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h2><span style=\"color: #993300;\">2020<\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>LEITURAS EM CENA<\/strong><\/span><\/h3>\n[\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]<strong>Coordena\u00e7\u00e3o:<\/strong>\u00a0Isabel do R\u00eago Barros Duarte, Maricia Ciscato e Renata Martinez<\/p>\n<p>O Leituras em Cena est\u00e1 em seu segundo ciclo de trabalho. O primeiro, encerrado em meados de 2019, teve como marca o estudo te\u00f3rico em torno do tema da segrega\u00e7\u00e3o, impulsionado pela viva parceria com a Cia. dos Atores e pela pe\u00e7a \u201cInsetos\u201d, de J\u00f4 Bilac. Essa parceria funcionou t\u00e3o bem que decidimos dar continuidade a ela em um novo ciclo de estudo. Desta vez, estamos nos debru\u00e7ando sobre a pe\u00e7a \u201cJ\u00falio C\u00e9sar\u201d, que est\u00e1 sendo adaptada pela Companhia para ser apresentada em meados de 2020. Essa pe\u00e7a de Shakespeare nos abriu novas portas de pesquisa, levantando quest\u00f5es atuais que v\u00e3o desde o lugar do \u201cUm do Pai\u201d hoje at\u00e9 a multiplicidade que implica o \u201cUm do corpo\u201d.[\/vc_column_text][vc_empty_space][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;6490&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-12\">\n<div class=\"vc_column-inner\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h2><span style=\"color: #993300;\">2019<\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Apresenta\u00e7\u00e3o Leituras em Cena<\/span><\/h3>\n<h6>Renata Martinez<br \/>\n05\/07\/2019<\/h6>\n<p>Ol\u00e1 boa noite, \u00e9 com imenso prazer que dou as boas vindas a todos hoje! Essa \u00e9 uma noite especial para n\u00f3s do \u201cLeituras em Cena\u201d. N\u00f3s abrimos nossas janelas para os Insetos, abrimos nossa casa, a se\u00e7\u00e3o Rio da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, para receber presen\u00e7as t\u00e3o importantes nessa trajet\u00f3ria que constru\u00edmos at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Muitos sabem que esse evento estava marcado para a noite do 17 de maio, mas tivemos que adi\u00e1-lo pelo caos que se instalou ap\u00f3s as chuvas que deixaram nossa cidade amputada. Confesso que hoje pela manh\u00e3 me deu um certo friozinho na barriga\u2026 Esse adiamento inverteu uma ordem e fez com que apresent\u00e1ssemos o Leituras aqui na se\u00e7\u00e3o, numa noite de 2<sup>a<\/sup>\u00a0feira, antes da pr\u00f3pria Leitura ocorrer.<\/p>\n<p>O projeto, acolhido fortemente pela atual Diretoria,\u00a0 j\u00e1 tem uma estrada e acho importante situ\u00e1-la rapidamente. Assim como apresentar os \u201ccoletivos\u201d envolvidos e quem os sustenta.<\/p>\n<p>Serei breve: come\u00e7amos a nos reunir, Maricia Ciscato, Isabel do Rego Barros Duarte e eu, Renata Martinez,\u00a0 em mar\u00e7o de 2018. Em julho, juntaram-se a n\u00f3s Dinah Kleve, Natasha Berditchevsky, Patricia Patterson e Thereza De Felice. O que nos uniu foi a ang\u00fastia diante dos tempos atuais, diante de nossa cl\u00ednica e dos acontecimentos a nossa volta, a sensa\u00e7\u00e3o frequente de \u201cfim do mundo\u201d, ou melhor, do fim de um tipo de mundo em que acreditamos e apostamos. Brinc\u00e1vamos na \u00e9poca que \u00e9ramos \u201ccorpos angustiados\u201d\u2026<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2263\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/biblioteca_leituras_em_cena.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/oldsec\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/biblioteca_leituras_em_cena.jpg 595w, https:\/\/ebp.org.br\/oldsec\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/biblioteca_leituras_em_cena-212x300.jpg 212w, https:\/\/ebp.org.br\/oldsec\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/biblioteca_leituras_em_cena-274x388.jpg 274w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"425\" \/>N\u00e3o me canso de repetir e novamente escolho o mesmo fato pra ilustrar o que estou dizendo: mar\u00e7o de 2018, assassinato de Marielle Franco, como\u00e7\u00e3o, indigna\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m paralisia e frustra\u00e7\u00e3o. Claro que, bem antes disso ou de l\u00e1 pra c\u00e1, presenciamos muitos acontecimentos bizarros, muita coisa se passou\u2026 E o mal estar permaneceu ou mesmo cresceu. O \u201cLeituras em cena\u201d tem sido uma nova maneira de lidar com tudo isso.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise, desde Freud, nos oferece ferramentas de leitura para o mal estar na civiliza\u00e7\u00e3o. Mas nossa ideia era explodir as fronteiras, quer\u00edamos trabalhar com outras l\u00ednguas de tratamento do mal estar. A arte, mais especificamente o teatro, pelo impacto da palavra e pela presen\u00e7a dos corpos \u2013 atores e plateia \u2013 , nos pareceu um caminho a seguir e foi nessa busca que\u00a0<em>Insetos<\/em>\u00a0se apresentou pra n\u00f3s.<\/p>\n<p>Eu tinha assistido a pe\u00e7a no CCBB em maio e, em agosto, quando a Editora Cobog\u00f3 lan\u00e7ou o livro, inserimos o texto em nossos encontros. Que pot\u00eancia de transmiss\u00e3o! A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida\u2026 Frase de Oscar Wilde que voc\u00eas poder\u00e3o verificar daqui a pouco, ao ouvirem a leitura\u2026<\/p>\n<p>Nessa pe\u00e7a que comemora os 30 anos da Cia dos Atores, o texto de J\u00f4 Bilac, foi intensamente trabalho pelo diretor convidado, Rodrigo Portella, que n\u00e3o pode estar aqui hoje conosco, e pelos atores Cesar Augusto, Gustavo Gasparani, Marcelo Olinto e Marcelo Valle \u2013 esses maravilhosos que est\u00e3o aqui -, e mais Susana Ribeiro, cuja aus\u00eancia sentimos muito. Coletivamente, puseram a m\u00e3o na massa e criaram os personagens e seu pr\u00f3prio texto adaptado para o espet\u00e1culo no palco.<\/p>\n<p>A publica\u00e7\u00e3o de Insetos \u00e9 linda e faz parte da cole\u00e7\u00e3o Dramaturgia da Editora Cobog\u00f3, que tem hoje uma cole\u00e7\u00e3o enorme de teatro contempor\u00e2neo, s\u00e3o 58 t\u00edtulos publicados! Se quiserem, voc\u00eas podem comprar o livro ali na casa 16. A edi\u00e7\u00e3o traz as duas vers\u00f5es do texto lado a lado, \u00e9 um trabalho muito delicado.\u00a0 Queremos agradecer imensamente \u00e0 Isabel Diegues, editora chefe da Cobog\u00f3 que est\u00e1 aqui hoje pra participar da conversa e topou a parceira conosco com muita empolga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 a terceira vez que n\u00f3s nos encontramos para uma roda de conversa. Por \u201cn\u00f3s\u201d quero dizer a Cia dos Atores, a editora Cobog\u00f3 e o Leituras em Cena. Em dezembro, a convite da Cia dos Atores, estivemos no palco da Sede das Cias na Lapa ap\u00f3s o espet\u00e1culo para uma conversa com diretor, atores, editora e a plateia. Em fevereiro, foi a vez de adentrarmos a Carpintaria, uma galeria de arte que aposta no di\u00e1logo com outras linguagens. Ali, numa conversa animada, nos misturarmos \u00e0s artes pl\u00e1sticas e aos atores na exposi\u00e7\u00e3o \u201cPerdona que no te crea\u201d cujas fronteiras se queriam mesmo borradas. Foram duas experi\u00eancias intensas.<\/p>\n<p>Agora, para esquentar nossa terceira conversa p\u00fablica convidamos o psicanalista Marcus Andr\u00e9 Vieira e o escritor Luiz Eduardo Soares.<\/p>\n<p>Marcus \u00e9 de casa, psicanalista da EBP\/AMP, conduz h\u00e1 dois anos um semin\u00e1rio intitulado \u201cA psican\u00e1lise do fim do mundo\u201d. Muitas das ideias que nos impulsionam a sustentar o \u201cLeituras em Cena\u201d foram retiradas desse semin\u00e1rio e n\u00e3o pod\u00edamos deixar de convid\u00e1-lo para estar aqui conosco.<\/p>\n<p>O Luiz Eduardo al\u00e9m de cientista pol\u00edtico, antrop\u00f3logo e escritor \u00e9 amante e conhecedor de teatro. O Luiz esteve em nosso 2<sup>o<\/sup>\u00a0encontro na Carpintaria quando participou da leitura e da excelente conversa que tivemos l\u00e1. Apostamos que sua contribui\u00e7\u00e3o e suas ideias nos trar\u00e3o for\u00e7a para seguirmos trabalhando.<\/p>\n<p>Passemos ent\u00e3o a leitura de cenas de Insetos e depois a conversa! Obrigada<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid\">\n<div class=\"wpb_column vc_column_container vc_col-sm-6\">\n<div class=\"vc_column-inner\">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<div class=\"wpb_single_image wpb_content_element vc_align_center\">\n<figure class=\"wpb_wrapper vc_figure\">\n<div class=\"vc_single_image-wrapper vc_box_border_grey\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"vc_single_image-img \" title=\"leituras_em_cena_002\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/oldsec\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/leituras_em_cena_002-250x162.jpeg\" alt=\"leituras_em_cena_002\" width=\"250\" height=\"162\" \/>\u00a0 \u00a0 <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"vc_single_image-img \" style=\"color: var(--wpex-text-2);\" title=\"leituras_em_cena_001\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/oldsec\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/leituras_em_cena_001-250x162.jpeg\" alt=\"leituras_em_cena_001\" width=\"250\" height=\"162\" \/><\/div>\n<\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;4643&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator color=&#8221;juicy_pink&#8221; border_width=&#8221;2&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text][eikra-vc-text-title style=&#8221;style2&#8243; title=&#8221;Bi\u00eanio 2019-2021&#8243;][\/eikra-vc-text-title][\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Coment\u00e1rio Noite de cart\u00e9is<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Vicente Machado Gaglianone<\/h6>\n<p>Essa noite de cart\u00e9is foi um ponto de encontro, que pretendia produzir uma grande conversa a partir de algumas quest\u00f5es que ao longo do ano foram nos tocando e nos interrogando. N\u00f3s, do cartel da diretoria de cart\u00e9is, quer\u00edamos dividir com nossa comunidade esse interesse. Havia a provoca\u00e7\u00e3o de Nohemi Brown que, em nossa \u00faltima jornada, utilizou-se de uma controvertida cita\u00e7\u00e3o de Miquel Bassols onde afirmava que na escola, cada membro deveria\u00a0 experimentar-se na fun\u00e7\u00e3o de mais-um em rela\u00e7\u00e3o ao grupo de analistas. Para al\u00e9m da imposs\u00edvel identifica\u00e7\u00e3o do analista, resta o lugar do mais-um, como fun\u00e7\u00e3o que propicia o la\u00e7o entre os membros do grupo, na medida em que sustenta o furo no saber: \u201co mais-um \u00e9 precisamente aquele que deveria saber fazer aparecer o real no qual se funda o grupo para fazer dele sua b\u00fassola e saber tratar as miragens do imagin\u00e1rio e os impasses do simb\u00f3lico\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m nossas inquieta\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s proposi\u00e7\u00f5es de Miller sobre a fun\u00e7\u00e3o do mais-um que provinham de nossas leituras das \u201cCinco varia\u00e7\u00f5es sobre o tema da elabora\u00e7\u00e3o provocada\u201d, texto t\u00e3o fundamental e que vinha nos colocando a trabalho. A partir das tor\u00e7\u00f5es e articula\u00e7\u00f5es que Miller vai fazendo nos 4 discursos de Lacan, acaba por localizar o mais-um numa identifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, porque desconsistida da mestria, como um \u201cprovovocador-provocado\u201d dando a essa fun\u00e7\u00e3o toda a complexidade e import\u00e2ncia para a constru\u00e7\u00e3o de uma escola que n\u00e3o fosse regida pela l\u00f3gica de grupo sempre fadada \u00e0 ortodoxia da qual Lacan tanto esfor\u00e7ou-se em descolar-se.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o movidos por essas inquieta\u00e7\u00f5es que convidamos Maria do Ros\u00e1rio Collier do R\u00eago Barros, Marcia Zucchi, Paula Borsoi e Stella Jimenez para nos ajudarem a fazer ressoar as quest\u00f5es, a partir de suas experi\u00eancias como mais-uns na escola, e o que se pode constatar no v\u00eddeo certamente ficar\u00e1 sedimentado como um grande esfor\u00e7o de transfer\u00eancia de trabalho na se\u00e7\u00e3o rio em torno dos cart\u00e9is.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0\u00a0 Bassols, M.: <em>A imposs\u00edvel identifica\u00e7\u00e3o do analista<\/em>. Correio 81, p. 28.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5079&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=6nThvfxQwPw&amp;feature=youtu.be&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Jornada de Cart\u00e9is<\/span><\/h3>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><strong><span style=\"color: #993300;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2246 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/cartaz_jornada_de_carteis001-206x300.png\" alt=\"\" width=\"206\" height=\"300\" \/>O Cartel \u00e9 Escola\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span> <\/strong><\/h3>\n<p><strong>Jornada de Carteis da EBP- Se\u00e7\u00e3o Rio &#8211; 17\/08\/19<\/strong><\/p>\n<h6>Ana Tereza Groisman<\/h6>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cO real n\u00e3o est\u00e1 na sa\u00edda nem na chegada: ele se disp\u00f5e para a gente \u00e9 no meio da travessia\u201d <\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: right;\">Guimar\u00e3es Rosa<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><em><strong>[1]<\/strong><\/em><\/a><\/h6>\n<\/blockquote>\n<p>Como fala de abertura, farei uma breve apresenta\u00e7\u00e3o a partir de duas formula\u00e7\u00f5es sobre o Cartel e a Jornada de Cart\u00e9is.<\/p>\n<p><strong>Parte 1:<\/strong> <em>O cartel \u00e9 Escola<\/em><\/p>\n<p>Lacan, tanto no Ato de Funda\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, quanto na Dissolu\u00e7\u00e3o da Escola, aposta no Cartel como um dispositivo de trabalho que acompanha o que ele prop\u00f5e como Escola de psican\u00e1lise (mesmo que em 1980 ele proponha nomear de Campo e n\u00e3o de Escola)<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>Ele formula o Cartel como o \u00f3rg\u00e3o de base da Escola, seu cora\u00e7\u00e3o pulsante, ou talvez o f\u00edgado que acolhe a b\u00edlis, restaura e desintoxica o organismo Escola. O Cartel \u00e9 escola e o cartel faz Escola, tanto no sentido de faz\u00ea-la funcionar como lugar de ensino e transmiss\u00e3o, quanto como solu\u00e7\u00e3o para lidar com o mal-estar Escola. Ele constitui seu corpo, um corpo meio aos peda\u00e7os, mas que por vezes se torna vis\u00edvel num conjunto dissonante. Hoje teremos not\u00edcias de um trabalho de Escola que vem se produzindo em nossa se\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p><em>\u00a0<\/em><em>\u201cQuatro se escolhem para empreender um trabalho que deve ter seu produto. Esclare\u00e7o: produto pr\u00f3prio a cada um e n\u00e3o coletivo\u201d<\/em>. <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Noutro ponto, por\u00e9m, Lacan ressalta que se o produto \u00e9 singular, sua produ\u00e7\u00e3o conta com o apoio de um pequeno grupo, um pequeno grupo enla\u00e7ado pela transfer\u00eancia de trabalho e articulado a um grupo maior que chamamos Escola.<\/p>\n<p>Nessa mesma aula, ao formalizar o Cartel, ele chama a aten\u00e7\u00e3o de que \u201cn\u00e3o se espera do Cartel nenhum progresso al\u00e9m daquele de uma exposi\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica, uma exposi\u00e7\u00e3o tanto dos resultados quanto das crises de trabalho\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> Esse \u00e9 o objetivo dessa jornada: acolher essa produ\u00e7\u00e3o singular, apoiada no pequeno grupo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Parte 2: <\/strong><em>O cartel como elabora\u00e7\u00e3o provocada <\/em><\/p>\n<p>A jornada segue esse fluxo, \u00e9 provocada pelos frutos recolhidos do cartel, ao mesmo tempo em que provoca uma certa precipita\u00e7\u00e3o de sua colheita. A jornada \u00e9 tamb\u00e9m um meio do caminho, um percurso que come\u00e7a bem antes de hoje e nos leva um pouco mais adiante. Ela articula um tempo passado, quando acontece o trabalho de cartel, e se bem-sucedida, um futuro que exigir\u00e1 mais trabalho de cartel. Mas nesse meio do caminho paramos um pouco para recolher o que vimos at\u00e9 aqui, quest\u00f5es ser\u00e3o levantadas, sustentadas e discutidas para que o trabalho continue e algo se deposite como balizas que orientam o caminho.<\/p>\n<p>Inspirada pela leitura de \u201cGrande Sert\u00e3o: Veredas\u201d, meus votos para essa jornada \u00e9 que ela se inclua no veio do rio e desague na forma\u00e7\u00e3o que a Escola propicia a cada um de n\u00f3s. Os carteis s\u00e3o veredas que desaguam e se misturam no grande leito de Rio que \u00e9 nossa Escola, as vezes de aguas turbulentas, noutras turvas, mas felizmente tem seus momentos de calmaria, quando podemos desfrutar do prazer de mergulhos profundos ou de nos deixarmos levar por uma corrente amena e desembarcar em outras margens.<\/p>\n<p>Acolhemos hoje todos os trabalhos que nos chegaram, alguns se precipitam logo no in\u00edcio do tempo de Cartel, outros se constituem como uma retomada de um longo percurso, e outros ainda como um resgate de algo precioso que precisou ser interrompido precocemente. Cada um parte de um ponto. Vamos ver onde nos levam\u2026<\/p>\n<p>A jornada \u00e9 longa, n\u00e3o termina aqui e esperamos que possa se incluir no caminho de cada um como um momento de elabora\u00e7\u00e3o que ainda render\u00e1 outros frutos. Pensamos e organizamos essa jornada com o intuito de seguirmos o funcionamento de Cartel, uma elabora\u00e7\u00e3o provocada apoiada num grupo, nem t\u00e3o pequeno assim, mas tamb\u00e9m reunido pela transfer\u00eancia de trabalho e os la\u00e7os de confian\u00e7a que propiciam que as quest\u00f5es levantadas por cada um possam encontrar boa acolhida. Contamos para isso com a participa\u00e7\u00e3o de todos para que o trabalho de Escola aconte\u00e7a e frutifique.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>Not\u00edcias dos bastidores:<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Gostaria de falar tamb\u00e9m um pouquinho sobre nosso lindo cartaz, arte do nosso querido Louren\u00e7o. O cartaz d\u00e1 um pouco a cara do evento, e quando est\u00e1vamos na etapa de sua cria\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias ideias iam surgindo, v\u00e1rios significantes foram lan\u00e7ados para que Louren\u00e7o pudesse fazer sua arte, criando uma imagem que representaria nosso encontro: fronteira, caminho, travessia, dobradi\u00e7a, cross-cap, banda de moebius, n\u00f3s, enlaces, m\u00e1quina de guerra, furo, turbilh\u00e3o, bricolagem\u2026 Um enxame de significantes sintetizados nessa imagem de in\u00fameras dobradi\u00e7as, de diversos calibres, pontos de apoio e tamanhos diferentes, gostei especialmente da ideia dos furos abertos, aqueles que possibilitam que a dobradi\u00e7a cumpra sua fun\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica de dar passagem entre os espa\u00e7os que se separam por portas, janelas ou pequenos al\u00e7ap\u00f5es, quanto mais furos tem uma dobradi\u00e7a, maior \u00e9 sua for\u00e7a e mais seguros ficamos de que ela cumpra sua fun\u00e7\u00e3o. Apoiamo-nos, portanto nos furos da dobradi\u00e7a, confiando que hoje passaremos com ela de fora pra dentro ou de dentro pra fora numa pulsa\u00e7\u00e3o vibrante.<\/p>\n<p>A dobradi\u00e7a se difere da porta de entrada, ela \u00e9 o que movimenta e sustenta a porta que est\u00e1 por se construir por cada um ao seu tempo e ao seu modo. O cartel sem a Escola n\u00e3o faz sentido, assim como a Escola sem cartel n\u00e3o existe.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>Agrade\u00e7o desde j\u00e1 a todos que nos confiaram seus trabalhos e aos colegas que aceitaram nosso convite a animar o debate de cada um deles. Agrade\u00e7o tamb\u00e9m \u00e0s minhas colegas de diretoria, Andr\u00e9a Reis, Andr\u00e9a Villanova e Renata Martinez, pelo apoio acolhedor e animado de sempre. \u00c0 minha equipe maravilhosa que trabalhou muito para que esse evento pudesse acontecer, Francisca Menta, Louren\u00e7o Astua e Vicente Gaglianone, al\u00e9m de Clarisse Boechat que infelizmente n\u00e3o pode estar conosco hoje, mas que esteve presente em todas as etapas que antecederam a Jornada. E por fim, um agradecimento especial a Rodrigo Lyra e Nohemi Brown, respectivamente o ex e a atual diretora de Cart\u00e9is e interc\u00e2mbios da EBP. Considero um privil\u00e9gio poder juntar os dois hoje aqui para conversarmos sobre Cartel e sobre o trabalho da diretoria de Cart\u00e9is na rotina de nossa Escola. Nohemi que veio de Curitiba \u00e9 muito bem-vinda \u00e0 nossa se\u00e7\u00e3o onde j\u00e1 \u00e9 de casa!<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> ROSA, G. J. <strong>Grande sert\u00e3o: veredas<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2019, p. 52<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> LACAN, J. 1964 : Ato de funda\u00e7\u00e3o, Outros Escritos. Rio de Janeiro: JZE, 2003<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> LACAN, J. 1980. D\u2019\u00c9colage, in: Rocha, A.T. (org). <strong>Manual de Carteis<\/strong>. Minas Gerais: Scriptum \/ EBP-MG, 2010, p. 13-16.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Op.cit, p.14<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. 1980: D\u2019\u00c9colage, in: Rocha, A.T. (org). <strong>Manual de Carteis<\/strong>. Minas Gerais: Scriptum \/ EBP-MG, 2010, p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> BRIOLE, G. \u201cO cartel ensina?\u201d in: Rocha, A.T. (org). <strong>Manual de Carteis<\/strong>. Minas Gerais: Scriptum \/ EBP-MG, 2010, p. 37-40.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>A lucidez atual do cartel<a style=\"color: #993300;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><strong><em>Rodrigo Lyra Carvalho<\/em><\/strong><\/h6>\n<p>Eu recebi o convite para estar hoje nessa mesa como uma oportunidade de refletir sobre os dois anos em que fiz parte da diretoria da EBP, entre abril de 2017 e abril de 2019. Agrade\u00e7o genuinamente \u00e0 Diretoria da Se\u00e7\u00e3o Rio e especialmente \u00e0 Ana Tereza Groisman, pois o convite me permite aproveitar duas dimens\u00f5es muitos valiosas ao ato de reflex\u00e3o: por um lado, o endere\u00e7amento e, por outro, uma certa dist\u00e2ncia temporal. Algumas das coisas que se decantaram na escrita desse trabalho n\u00e3o teriam acontecido sem a perspectiva de endere\u00e7ar a voc\u00eas essas reflex\u00f5es e sem a passagem de algum tempo desde o fim da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tendo, portanto, voc\u00eas como meu Outro e alguns meses de esquecimento, busquei recordar a experi\u00eancia na diretoria e comecei a me perguntar sobre como tinha sido estar \u201crespons\u00e1vel\u201d pelos cart\u00e9is na Escola. Logo estranhei essa pergunta e essa palavra. Algu\u00e9m sentindo-se <em>respons\u00e1vel<\/em> pelos cart\u00e9is&#8230; Me veio \u00e0 mente a preocupa\u00e7\u00e3o com a realiza\u00e7\u00e3o de Jornadas de Cart\u00e9is nas Se\u00e7\u00f5es&#8230; Me lembrei, ainda, da aten\u00e7\u00e3o com o n\u00famero de cart\u00e9is na Escola e a satisfa\u00e7\u00e3o de terminar a diretoria vendo uma boa quantidade deles em funcionamento. Mais estranhamento&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 um pouco distante do exerc\u00edcio da fun\u00e7\u00e3o na diretoria, n\u00e3o foi dif\u00edcil interpretar a inquietude: eu experimentava perguntas e preocupa\u00e7\u00f5es de <em>mestre<\/em>. Dito de outro modo, eu estava tomando os cart\u00e9is como <em>objeto<\/em> a partir de uma posi\u00e7\u00e3o situada na hierarquia institucional, um lugar <em>executivo<\/em>, por assim dizer. Levando ao limite, poder\u00edamos dizer que \u00e9 exatamente o oposto daquilo que Lacan parecia almejar com a fun\u00e7\u00e3o do cartel.<\/p>\n<p>Para situar essa ideia, um pouco de hist\u00f3ria. Se eu me vi tomado pelo discurso do mestre, ent\u00e3o agora vamos ao discurso universit\u00e1rio. Mas vou tentar n\u00e3o perder o fio da meada, ou seja, aquilo que efetivamente me interroga sobre a Escola hoje, sobre meu desejo em rela\u00e7\u00e3o a esse movimento.<\/p>\n<p>O cartel foi inicialmente proposto por Lacan em 1964, no Ato de Funda\u00e7\u00e3o da Escola Freudiana de Paris, que se seguiu ao que Lacan designou como sua \u201cexcomunh\u00e3o\u201d da IPA. Ali, ele menciona que a \u201cexecu\u00e7\u00e3o do trabalho\u201d [na Escola] se apoiar\u00e1 em um pequeno grupo, composto por entre tr\u00eas e cinco pessoas, mais um. \u201cAp\u00f3s certo tempo de funcionamento\u201d, aponta Lacan, \u201cos componentes de um grupo ver\u00e3o ser-lhes proposta a permuta para outro\u201d pequeno grupo (1964\/2003, p. 235). Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria \u201cades\u00e3o [leia-se, a entrada] \u00e0 Escola ser\u00e1 feita mediante a apresenta\u00e7\u00e3o a ela\u201d desse pequeno grupo (1964\/2003, p. 235).<\/p>\n<p>Embora encontre-se a\u00ed a indica\u00e7\u00e3o de um lugar bastante central pensado por Lacan para a fun\u00e7\u00e3o do cartel na Escola, n\u00e3o parece que a ideia tenha sido efetivamente colocada em pr\u00e1tica como tal. Pelo que eu pude pesquisar sobre os dezesseis anos de exist\u00eancia da EFP, houve experi\u00eancias diversas com a ideia de grupos, com tamanhos e funcionamentos bem distintos, mas o cartel n\u00e3o chegou a funcionar com consist\u00eancia, ao menos n\u00e3o na forma que o conhecemos hoje.<\/p>\n<p>Aproximadamente dezesseis anos e v\u00e1rias crises institucionais depois, j\u00e1 no contexto de uma nova funda\u00e7\u00e3o (1980), Lacan retoma a proposta do cartel e fornece mais detalhes. \u00c9 ali que a not\u00f3ria express\u00e3o <em>\u00f3rg\u00e3o de base<\/em> \u00e9 usada para designar o cartel: \u201c(\u2026)\u00a0dou partida \u00e0 Causa Freudiana \u2014 e restauro em seu favor o <em>\u00f3rg\u00e3o de base<\/em> retomado da funda\u00e7\u00e3o da Escola \u2014 ou seja, o cartel\u201d (1980)<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essa n\u00e3o \u00e9 uma ideia simples. Ela chama aten\u00e7\u00e3o e interroga, pois geralmente pensamos que a base deve ser o que h\u00e1 de mais s\u00f3lido, mais consistente, mais duro; as funda\u00e7\u00f5es de um edif\u00edcio, se fizermos uma aproxima\u00e7\u00e3o com a constru\u00e7\u00e3o civil, devem ser inteiras, n\u00e3o podem ter um furo que seja, sob o risco de tudo desabar. Ao propor o cartel como base de sua Escola, Lacan parece n\u00e3o acreditar muito na engenharia civil ou, pelo menos, n\u00e3o querer que a Escola dele seja um edif\u00edcio muito alto. Ele n\u00e3o tem medo de que a Escola caia, ou talvez ache que a Escola vai ser melhor se estiver caindo o tempo todo.<\/p>\n<p>Em seguida, nesse mesmo texto, Lacan \u201caprimora\u201d a proposta inicial e descreve o seguinte funcionamento: os participantes se escolhem livremente, cada um deve ter um produto individual, ao mais-um compete a <em>provoca\u00e7\u00e3o<\/em> ao trabalho, o per\u00edodo de um ano \u00e9 o prazo desejado e dois anos \u00e9 o limite. Al\u00e9m disso, Lacan ressalta que tanto os produtos do cartel quanto as crises pelas quais ele venha a passar devem ser tratados \u201ca c\u00e9u aberto\u201d (1980).<\/p>\n<p>As indica\u00e7\u00f5es de Lacan fornecidas nesses dois momentos de funda\u00e7\u00e3o de Escolas, somadas a outros dispositivos propostos e outras considera\u00e7\u00f5es institucionais, nos permitem depreender que Lacan vislumbrava uma Escola que funcionasse em torno e a partir da l\u00f3gica dos cart\u00e9is.<\/p>\n<p>Agora, de volta ao presente.<\/p>\n<p>Talvez nem todos voc\u00eas saibam que apenas na Assembleia da EBP realizada em abril desse ano foi oficialmente criada, no n\u00edvel nacional, uma Diretoria de Cart\u00e9is. Antes disso, era a Diretoria de Secretaria, que eu ocupei, que se encarregava dos temas relativos aos cart\u00e9is, ainda que muitos se referissem informalmente a essa fun\u00e7\u00e3o como Diretoria de Cart\u00e9is.<\/p>\n<p>Pois bem, seguindo as palavras de Lacan sobre o cartel e o meu estranhamento com o caminho inicial das minhas reflex\u00f5es <em>de mestre<\/em>, cheguei \u00e0 ideia, uma ideia limite sem d\u00favida, feita apenas para provocar o pensamento, de que a exist\u00eancia de uma Diretoria de Cart\u00e9is revela, por si s\u00f3, um fracasso na fun\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is.<\/p>\n<p>Me permiti, ent\u00e3o, embarcar um pouco mais nessa dire\u00e7\u00e3o, ver aonde o pensamento me levaria e cheguei aqui: se o cartel \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o de base da Escola, como Lacan desejou, uma Jornada de Cart\u00e9is n\u00e3o deveria existir.<\/p>\n<p>Ou seja, assim como a exist\u00eancia de uma Diretoria de Cart\u00e9is, a realiza\u00e7\u00e3o de uma Jornada de Cart\u00e9is tamb\u00e9m testemunharia um fracasso.<\/p>\n<p>Me entendam bem: eu sempre tive a percep\u00e7\u00e3o de que a Jornadas de Cart\u00e9is eram bem-sucedidas. Durante meu tempo na diretoria, essa impress\u00e3o se confirmou muitas vezes: as diversas Jornadas de Cart\u00e9is realizadas ao redor da Brasil, que eu pude acompanhar mais de perto, eram quase sempre vividas como ricas, espont\u00e2neas, com temas m\u00faltiplos, com interven\u00e7\u00f5es mais pessoais e conversas francas sobre as dificuldades do dispositivo. Enfim, coisas muitos boas, mas, de algum modo, emparedadas dentro desse espa\u00e7o espec\u00edfico, um espa\u00e7o \u201cde cart\u00e9is\u201d, como se essa fosse uma das muitas salas na grande casa que \u00e9 a Escola.<\/p>\n<p>Ocorre que o cartel n\u00e3o foi criado para ter um espa\u00e7o espec\u00edfico dentro da Escola, sen\u00e3o para funcionar como a sua base e para furar a hierarquia. Por isso, justamente, a ideia de que o sucesso e a afirma\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os \u201cde cart\u00e9is\u201d podem ser, ao mesmo tempo, pensados como seu fracasso.<\/p>\n<p>Eu estava \u00e0s voltas com esse tipo de pensamento quando me veio \u00e0 mente um chiste cujo autor desconhe\u00e7o: \u201cN\u00e3o podemos deixar o fracasso subir \u00e0 cabe\u00e7a!\u201d.<\/p>\n<p>O chiste cai aqui como uma luva. Apontar o fracasso do cartel n\u00e3o significa afirmar que tudo est\u00e1 errado, que tudo deveria ser diferente, que tudo precisa ser corrigido. Isso seria, afinal, tomar o fracasso na perspectiva do mestre. Bem, mas se o discurso do mestre \u00e9 a raiz do problema, logo ele n\u00e3o poderia ser tamb\u00e9m a solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estamos diante de um fracasso que \u00e9, em sua raiz, inevit\u00e1vel. Dos cart\u00e9is, nesse sentido, n\u00e3o se espera que anulem essa tend\u00eancia, mas sim que sejam capazes de a tensionar. Esse fracasso, portanto, que eu chamaria de um fracasso estrutural, n\u00e3o demanda ser corrigido, mas sim ser continuamente interpretado.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que eu gostaria de tentar fazer, como eu puder, nos pr\u00f3ximos minutos, a partir da ideia de que tensionar o discurso do mestre, embora seja uma fun\u00e7\u00e3o permanente do cartel, toma formas muitas distintas a cada contexto institucional, a cada momento da civiliza\u00e7\u00e3o e mesmo a cada visada singular sobre essa fun\u00e7\u00e3o. A quest\u00e3o que se coloca, portanto, \u00e9 a seguinte: se o cartel foi criado como um ant\u00eddoto permanente \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do discurso do mestre, como podemos pensar essa fun\u00e7\u00e3o no contexto atual da cultura e da Escola?<\/p>\n<p>Para pensar isso, vou recorrer novamente \u00e0 hist\u00f3ria e vou seguir o fio da express\u00e3o \u201ca c\u00e9u aberto\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>, muito marcante no momento em que Lacan prop\u00f5e o cartel como <em>\u00f3rg\u00e3o de base<\/em> da Escola que ele estava fundando. Essa express\u00e3o certamente n\u00e3o \u00e9 casual; na verdade, me parece ser central para compreender de que modos Lacan via o discurso do mestre operar na institui\u00e7\u00e3o \u00e0quela \u00e9poca e como desejava subvert\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O surgimento dessa express\u00e3o em 1980 sugere que os dezesseis anos de exist\u00eancia da Escola Freudiana de Paris n\u00e3o foram suficientes para enfrentar um dos maiores problemas que Lacan enxergava no funcionamento das Sociedades de Psican\u00e1lise e que ele havia descrito com acidez e irrever\u00eancia \u2013 como mencionei em um trabalho anterior &#8211; no texto \u201cA situa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise em 1956\u201d (1956\/1998), onde ele cria verdadeiros personagens de teatro para elucidar a estrutura que regia o funcionamento da IPA. \u00c9 um texto importante para situar a posterior cria\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is na medida em que ali se detalha o cen\u00e1rio que deveria ser evitado.<\/p>\n<p>Lacan buscava combater um modo de constitui\u00e7\u00e3o e de funcionamento da Escola pautado pela fetichiza\u00e7\u00e3o da hierarquia, pelo carisma improdutivo, pelo sil\u00eancio das sumidades. A essas figuras com que convivia na IPA, Lacan chamou ironicamente de \u201cSufici\u00eancias\u201d e assim as descreveu: \u201cA sufici\u00eancia em si encontra-se para-al\u00e9m de qualquer comprova\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tem que bastar para nada, j\u00e1 que basta para si mesma\u201d (2008\/1956, p. 478)\u201d. Sob elas, na hierarquia institucional, encontram-se os \u201cSapatinhos apertados\u201d, que tampouco t\u00eam algo dizer, uma vez que \u201cum bom analisando n\u00e3o faz perguntas\u201d (1956\/1998). Justamente numa Sociedade, \u201ccuja incumb\u00eancia \u00e9 manter um certo discurso\u201d, diz Lacan, \u201co sil\u00eancio impera soberano\u201d (1956\/1998).<\/p>\n<p>Nesse sentido, a proposta do cartel visa afastar sua Escola do trabalho de \u201ccoopta\u00e7\u00e3o de doutos\u201d (1967\/2008) para inscrev\u00ea-la num movimento cont\u00ednuo de elabora\u00e7\u00e3o em torno de um ponto de imposs\u00edvel, ao qual todo e qualquer membro est\u00e1 submetido.<\/p>\n<p>Esse desejo de Lacan fica ainda mais evidente quando notamos que ele n\u00e3o se restringia \u00e0 proposta do cartel. Penso por exemplo em <em>Scilicet<\/em>, a publica\u00e7\u00e3o lan\u00e7ada por Lacan em 1968, em cuja capa ele quis que estivesse estampada a seguinte frase \u201cVoc\u00ea pode saber o que pensa a Escola Freudiana de Paris\u201d. Ou no dispositivo do passe, que embora n\u00e3o tenha tido, assim como o cartel, a aceita\u00e7\u00e3o que Lacan desejava durante os dezesseis anos de exist\u00eancia da EFP, visava igualmente \u00e0 coloca\u00e7\u00e3o a c\u00e9u aberto das experi\u00eancias de fim de an\u00e1lise e passagem \u00e0 analista.<\/p>\n<p>Desse modo, a inven\u00e7\u00e3o do cartel, a proposta do passe e a capa de <em>Scilicet<\/em>, somadas \u00e0 descri\u00e7\u00e3o que Lacan faz do funcionamento da IPA, oferecem um certo retrato da paisagem institucional e refletem tamb\u00e9m, certamente, algo do contexto da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Creio que podemos encontrar essa dobradi\u00e7a justamente no retrato que Lacan faz da Sociedade de Psican\u00e1lise em 1956. Embora ele d\u00ea grande destaque \u00e0 preval\u00eancia do imagin\u00e1rio nesse funcionamento institucional<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, marcado pela enfatua\u00e7\u00e3o e pelo carisma improdutivo, trata-se de uma modalidade espec\u00edfica de manifesta\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio, pr\u00f3pria a um contexto onde o simb\u00f3lico ainda se sustenta na efic\u00e1cia do pai. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Lacan, nesse mesmo texto, descreve o funcionamento da IPA de um modo congruente com a estrutura dos <em>grupos artificias <\/em>observados por Freud<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup>[4]<\/sup><\/a>. Afinal, apenas quando a aura do pai ressoa na cultura, \u00e9 poss\u00edvel fazer crer que, por tr\u00e1s do sil\u00eancio e da enfatua\u00e7\u00e3o, est\u00e1 secretamente guardado o saber sobre o que \u00e9 ser psicanalista<\/p>\n<p>Era exatamente nesse ponto, portanto, que incidia a interpreta\u00e7\u00e3o de Lacan: se a rela\u00e7\u00e3o da Sociedade tanto consiga mesmo, quanto com a cultura era de reten\u00e7\u00e3o, produzindo uma vertente imagin\u00e1ria da suposi\u00e7\u00e3o de saber, Lacan convocava sua Escola ao saber exposto, um verdadeiro ant\u00eddoto contra a enfatua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era em rela\u00e7\u00e3o a isso que o cartel, em grande parte, se situava.<\/p>\n<p>Ocorre que o saber exposto que, naquele momento, agiu como uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9, agora, o mandamento do mestre. Hoje, parece improv\u00e1vel que o sil\u00eancio seja capaz de produzir o carisma e a suposi\u00e7\u00e3o de saber. Pelo contr\u00e1rio, em meio \u00e0 fragiliza\u00e7\u00e3o do patriarcado, vemos uma busca ininterrupta pela demonstra\u00e7\u00e3o da autoridade que, no limite, precisa ser constru\u00edda a cada vez e no pr\u00f3prio momento em que se enuncia uma mensagem, em que se toma a palavra. Se o sil\u00eancio poderia simular a guarda de um segredo e conferir valor ao seu suposto detentor, hoje, quem n\u00e3o aparece desaparece.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a da civiliza\u00e7\u00e3o a respeito desse ponto \u00e9 t\u00e3o grande que podemos encontrar um cen\u00e1rio quase invertido. Ele se revela, por exemplo, no texto \u201cO nosso sujeito suposto saber\u201d de Miller, onde ele afirma: \u201cQuando o mestre, hoje, exige transpar\u00eancia e rastreabilidade, o que podemos alegar sen\u00e3o a opacidade necess\u00e1ria \u00e0 nossa pr\u00e1tica? (2007, p. 6)\u201d.<\/p>\n<p>Ou seja, hoje \u00e9 o pr\u00f3prio mestre quem exige que tudo, tudo mesmo, esteja a c\u00e9u aberto. H\u00e1 in\u00fameras formas de ilustrar esse fen\u00f4meno, mas ele pode ser bem resumido, me parece, se observamos, por um lado, o quanto o discurso cient\u00edfico aliado \u00e0 l\u00f3gica da avalia\u00e7\u00e3o avan\u00e7ou sobre incont\u00e1veis esferas subjetivas e sociais e, por outro, o quanto a l\u00f3gica da exposi\u00e7\u00e3o permanente passou a ditar o modo de constru\u00e7\u00e3o de identidades e das intera\u00e7\u00f5es no grande campo da internet.<\/p>\n<p>\u00c9 not\u00e1vel a diferen\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao regime de saber que imperava, segundo Lacan, em uma IPA onde o argumento de autoridade era antes sustentado pelo sil\u00eancio das Sufici\u00eancias.<\/p>\n<p>Durante a prepara\u00e7\u00e3o para o Encontro Brasileiro, escrevi um pequeno texto em que comparava, com algum humor, a frase de capa de Scilicet (\u201cVoc\u00ea pode saber o que <em>pensa<\/em> a Escola Freudiana de Paris\u201d) com a frase de capa do Facebook, <strong>\u201c<\/strong>No que voc\u00ea est\u00e1 pensando?\u201d<strong>,<\/strong> que nos convida permanentemente a publicar o que nos vem \u00e0 mente. Hoje, voc\u00ea pode saber o que pensam n\u00e3o apenas a <em>Escola Freudiana de Pari<\/em>s, mas tamb\u00e9m os mais de 2 bilh\u00f5es de seres falantes que se servem da rede social. Estimular o \u201cc\u00e9u aberto\u2019 est\u00e1 longe de ser, por si s\u00f3, uma subvers\u00e3o do esp\u00edrito do tempo.<\/p>\n<p>Estamos, portanto, nessa dobradi\u00e7a, em que o cartel se depara, por um lado, com a Escola e, por outro, com a civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa ideia, ali\u00e1s, de que o cartel \u00e9 a dobradi\u00e7a entre a Escola e a civiliza\u00e7\u00e3o pode ganhar uma importante dimens\u00e3o no nosso momento institucional, afinal, n\u00e3o apenas temos explorado h\u00e1 muitos anos a ideia da presen\u00e7a no analista no tecido social (a express\u00e3o analista-cidad\u00e3o, de Laurent, \u00e9 uma marca disso), como fomos instigados, mais recentemente, por Jacques-Alain Miller a levar a psican\u00e1lise \u00e0 pol\u00edtica e a recusar, uma vez mais, a tentadora posi\u00e7\u00e3o de extra territorialidade.<\/p>\n<p>Mas em um mundo infestado de manuais, t\u00e9cnicas, coachs, depoimentos, como n\u00e3o diluir a psican\u00e1lise ao a oferecer como uma t\u00e9cnica a mais? Como n\u00e3o ser enfeiti\u00e7ado pela l\u00f3gica da avalia\u00e7\u00e3o e dos <em>likes?<\/em> Como ir ao campo pol\u00edtico sem ser tragado pelas paix\u00f5es partid\u00e1rias e pelo reino das opini\u00f5es? Se tudo est\u00e1 a c\u00e9u aberto, a l\u00f3gica do cartel ainda nos serve?<\/p>\n<p>\u00c9 claro que n\u00e3o h\u00e1 como fornecer respostas imediatas e prontas a essas quest\u00f5es. Elas s\u00e3o permanentes e precisam ser enfrentadas a cada vez, a cada situa\u00e7\u00e3o. Elas nos conduzem, no entanto, a uma pergunta anterior: de que modo nossa Escola pode <em>lidar<\/em> com elas?<\/p>\n<p>Uma hip\u00f3tese, quase l\u00f3gica, poderia se amparar nessa mesma retomada hist\u00f3rica que eu fiz e concluir: bem, Lacan criou o cartel (uma estrutura, pequena, inst\u00e1vel, sem l\u00edder, provis\u00f3ria) para enfrentar uma forma oposta a essa, ou seja, uma pir\u00e2mide grupal forte e hierarquizada.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o, diante de um mundo ca\u00f3tico, desregulado, verborr\u00e1gico e acelerado, n\u00e3o dever\u00edamos apostar em um formato lento, controlado, ponderado e silenciado?<\/p>\n<p>Faria todo o sentido, mas infelizmente n\u00e3o faz nenhum.<\/p>\n<p>Diante da tarefa que temos diante de n\u00f3s, que pode ser enunciada de muitas formas, mas que pode ser resumida na forte express\u00e3o recente de Miller, a de \u201cinscrever para sempre o ensino de Lacan no discurso universal\u201d (2017), o melhor caminho, me parece, \u00e9 renovar nossa aposta no cartel.<\/p>\n<p>Podemos fazer isso sabendo que o cartel, hoje, de fato se parece com o mundo l\u00e1 fora, ao inv\u00e9s de antagoniz\u00e1-lo. Pequenos grupos, reunidos por um interesse, com dura\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel, sem hierarquia&#8230; Em um relat\u00f3rio elaborado sobre os cart\u00e9is, Ram Mandil fez uma afirma\u00e7\u00e3o muito precisa sobre essa quest\u00e3o: \u201cVemos nitidamente que as novas formas de manifesta\u00e7\u00e3o ou de organiza\u00e7\u00e3o do la\u00e7o social buscam negar o lugar do l\u00edder, como se o nivelamento dos semblantes fosse a melhor maneira de abordar o real em jogo\u201d (2018).<\/p>\n<p>A partir da an\u00e1lise que faz Ram Mandil, podemos encontrar uma nova vers\u00e3o do que eu chamaria de a <em>lucidez<\/em> do cartel diante do la\u00e7o social: a quebra hier\u00e1rquica que ele promove n\u00e3o caminha na dire\u00e7\u00e3o de uma desordem precipitada ou de um questionamento hist\u00e9rico. O cartel \u201csabe\u201d, se voc\u00eas me permitem essa personaliza\u00e7\u00e3o, que o nivelamento dos semblantes n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, resposta a nada, seja do ponto vista institucional, seja do ponto de vista da civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ou seja, embora em apar\u00eancia o cartel seja homologo ao tipo de reuni\u00e3o promovida de forma mais corriqueira nos la\u00e7os sociais atuais \u2013 inst\u00e1vel, tem\u00e1tico, provis\u00f3rio, sem hierarquia -, ele preserva sua pot\u00eancia subversiva na medida em que nos aponta um modo de fazer rede capaz de preservar e apoiar a narrativa das diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 uma tarefa atual\u00edssima. Como afirma Romildo do R\u00eago Barros,<\/p>\n<blockquote><p>Se \u00e9 verdade que nossa civiliza\u00e7\u00e3o se caracteriza por uma n\u00e3o resposta do outro (&#8230;) ent\u00e3o \u00e9 preciso que haja grupos que saibam manejar a liga\u00e7\u00e3o horizontal entre os iguais. \u00c9 preciso uma nova estrutura\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que parta n\u00e3o da ades\u00e3o de cada um ao chefe e sim da liga\u00e7\u00e3o horizontal, sem que isso se d\u00ea pela via de um \u201ctodos iguais\u201d, que tende a restabelecer o Um sob a forma do pior (2008, p. 58)<\/p><\/blockquote>\n<p>Nesse sentido, o produto de um cartel ser\u00e1 feito em nome pr\u00f3prio, sim, pois o saber n\u00e3o \u00e9 an\u00f4nimo, mas nem por isso ele ser\u00e1 a revela\u00e7\u00e3o daquilo que reside na mente isolada de psicanalista. O produto de um cartel \u00e9 a narrativa de uma experi\u00eancia de intera\u00e7\u00e3o, de enredamento, das conex\u00f5es que se fizeram ao longo dos encontros desse dispositivo.<\/p>\n<p>O cartel \u00e9 hoje nossa grande refer\u00eancia, nosso campo de estudos, sobre os modos poss\u00edveis estar no tecido social e, ainda assim, produzir textos que n\u00e3o sejam imediatamente absorvidos, vendidos e manipulados. Ele n\u00e3o \u00e9 apenas um dispositivo que favorece o estudo e as atividades institucionais, ele \u00e9 a pesquisa, em ato, de um novo modo de tecer o la\u00e7o e fazer a Escola. Por isso, ele pode ser subversivo, mesmo sendo parecido com o mundo l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Quando a Escola se lan\u00e7a com mais vigor rumo ao desejo de conversar com sua \u00e9poca, nenhum dispositivo \u00e9 mais pertinente que o seu bom e velho \u00f3rg\u00e3o de base.<\/p>\n<hr \/>\n<h6>Lacan, J. (1956\/1998) \u201cA situa\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise em 1956\u201d <em>in Escritos.<\/em> Rio de Janeiro: JZE, p. 478.<\/h6>\n<h6>Lacan, J. (1964\/2003) \u201cAto de Funda\u00e7\u00e3o\u201d <em>in Outro Escritos. <\/em>Rio de Janeiro: JZE.<\/h6>\n<h6>Lacan (1980) <em>D\u2019\u00c9colage. <\/em>Retirado de<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/www.wapol.org\/pt\/las_escuelas\/TemplateArticulo.asp?intTipoPagina=4&amp;intEdicion=1&amp;intIdiomaPublicacion=1&amp;intArticulo=159&amp;intIdiomaArticulo=5&amp;intPublicacion=10\">https:\/\/www.wapol.org\/pt\/las_escuelas\/TemplateArticulo.asp?intTipoPagina=4&amp;intEdicion=1&amp;intIdiomaPublicacion=1&amp;intArticulo=159&amp;intIdiomaArticulo=5&amp;intPublicacion=10<\/a><\/h6>\n<h6>Mandil, R. \u201cRelat\u00f3rio da Secretaria de Cart\u00e9is da AMP: efeitos das muta\u00e7\u00f5es dos v\u00ednculos socias sobre os cart\u00e9is\u201d, 2018.<\/h6>\n<h6>Miller, J.-A. (2007) \u00ab\u00a0Notre sujet suppos\u00e9 savoir\u00a0\u00bb <em>in La Lettre mensuelle n. 254. <\/em>Paris\u00a0: ECF.<\/h6>\n<h6>MILLER, J.-A. Campo Freudiano, ano zero.\u00a0<em>Lacan Quotidien<\/em>\u00a0n. 718, Paris, 11\/07 2017.<\/h6>\n<h6>Rego Barros, R. (2008) \u201cDa massa freudiana ao pequeno grupo lacaniano\u201d in Machado, O.; Grova, T. (Org.) Psican\u00e1lise na favela Projeto Diga\u00ed-Mar\u00e9: a cl\u00ednica dos grupos. 1 ed. Rio de Janeiro: Diga\u00ed, p. 25-35<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Apresentado durante as Jornadas de Cart\u00e9is da Se\u00e7\u00e3o Rio da EBP, em agosto de 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Esse trecho retoma partes de um pequeno texto chamado \u201cSobre o falo, o saber e as redes sociais\u201d escrito para o Boletim Preparat\u00f3rio ao XXII Encontro Brasileiro do Campo Freudiano.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> A identifica\u00e7\u00e3o ao analista como dire\u00e7\u00e3o do tratamento seria an\u00e1loga a uma institui\u00e7\u00e3o onde a suposta transmiss\u00e3o da posi\u00e7\u00e3o anal\u00edtica se d\u00e1 por \u201cuma reprodu\u00e7\u00e3o imagin\u00e1ria, que por uma modalidade de <em>fac-s\u00edmile<\/em> an\u00e1loga \u00e0 impress\u00e3o, permite sua tiragem num certo n\u00famero de exemplares\u201d (<em>ibid<\/em>, p.479).<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Na Sociedade, diz Lacan, \u201c\u00e9 por uma linha individual, na identifica\u00e7\u00e3o coletiva, que os sujeitos s\u00e3o informados; essa informa\u00e7\u00e3o s\u00f3 \u00e9 comum por ser id\u00eantica em sua fonte. Freud enfatizou o fato de que essa \u00e9 a identidade que a idealiza\u00e7\u00e3o narc\u00edsica traz em si (&#8230;)\u201d (E 482).<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_row_inner][vc_column_inner width=&#8221;1\/4&#8243;][\/vc_column_inner][vc_column_inner width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2278&#8243; img_size=&#8221;300&#215;146&#8243; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column_inner][vc_column_inner width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2277&#8243; img_size=&#8221;300&#215;146&#8243; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column_inner][vc_column_inner width=&#8221;1\/4&#8243;][\/vc_column_inner][\/vc_row_inner][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>O cartel e seu funcionamento na l\u00f3gica de Escola<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><strong>Nohem\u00ed Brown<\/strong><\/h6>\n<p>Agrade\u00e7o o convite feito por Ana Tereza para estar hoje na Se\u00e7\u00e3o RJ, agrade\u00e7o a diretoria da Se\u00e7\u00e3o pela oportunidade de conversar sobre a import\u00e2ncia do cartel para o funcionamento da Escola e sobre o trabalho da Diretoria geral na orienta\u00e7\u00e3o desse trabalho.<\/p>\n<p>J\u00e1 s\u00e3o tr\u00eas momentos nos quais acompanho os cart\u00e9is na EBP. Em um primeiro momento, de forma mais distante, quando Fernanda Otoni era \u201cDiretora secret\u00e1ria\u201d e eu fazia parte da comiss\u00e3o A\u00e7\u00e3o Dobradi\u00e7a; depois mais diretamente com Rodrigo Lyra, \u201cDiretor secret\u00e1rio\u201d at\u00e9 abril deste ano (a quem reitero o agradecimento pela parceria de trabalho) e, agora, como \u201cDiretora de cart\u00e9is e interc\u00e2mbio\u201d propriamente, uma mudan\u00e7a que foi feita recentemente na configura\u00e7\u00e3o da Diretoria da EBP.<\/p>\n<p>Especialmente a Rodrigo lhe agrade\u00e7o o sutil for\u00e7amento que fez quando eu duvidava em aceitar cuidar do cat\u00e1logo dos cart\u00e9is da EBP. Fun\u00e7\u00e3o que hoje Ana Tereza realiza. Inicialmente me resisti, pois o considerava uma atividade \u201cburocr\u00e1tica\u201d, sublinho burocr\u00e1tica, que \u00e9 a de registrar e retirar os cart\u00e9is no cat\u00e1logo online. Mas para minha surpresa Rodrigo muito sutilmente me questionou sobre isso, o que de alguma maneira \u201cprovocou certa elabora\u00e7\u00e3o\u201d, a partir de minha participa\u00e7\u00e3o como cartelizante ou Mais-um em alguns cart\u00e9is, e abriu meu interesse pela fun\u00e7\u00e3o do cat\u00e1logo. Ficar na ordem da burocracia, podemos dizer, \u00e9 a melhor forma de matar o desejo. O que me pareceu interessante foi acompanhar o valor da inscri\u00e7\u00e3o do cartel no cat\u00e1logo. A inscri\u00e7\u00e3o implica, no melhor dos casos, um <strong>tempo e um ato<\/strong>, isto \u00e9, um c\u00e1lculo sobre o momento da inscri\u00e7\u00e3o e, no final das contas, um <strong>ato<\/strong> realizado pelo <em>Mais-um<\/em> que pode ter efeitos importantes para o cartel e que \u00e9 fundamental recolher e saber ler. Essa dimens\u00e3o do tempo e do ato n\u00e3o est\u00e3o apenas na inscri\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m na dissolu\u00e7\u00e3o. Portanto, considerar a inscri\u00e7\u00e3o e a dissolu\u00e7\u00e3o deste modo, implica localizar outra l\u00f3gica diferente da do simples registro autom\u00e1tico dos cart\u00e9is. Ao contr\u00e1rio, isso vai contra a l\u00f3gica pr\u00f3pria do cartel. H\u00e1 algo no cartel de inapreens\u00edvel, de anti-burocr\u00e1tico. Como coloca Diana Wolodarsky da EOL \u201c&#8230;o trabalho de um cartel pode se tornar burocr\u00e1tico quando a cada vez que se re\u00fane n\u00e3o se circunscreva alguma constru\u00e7\u00e3o do saber do que n\u00e3o se sabe\u201d.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>Se bem podemos dizer que existe um automaton que h\u00e1 que preservar no cartel, por\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a burocracia. Porque o que interessa \u00e9 que seja s\u00e9rio, no sentido de que constitu\u00eda serie: s\u00e9rie de encontros, serie de leituras, s\u00e9rie de questionamentos, etc. mas sempre aberto \u00e0 contingencia, ou seja a um n\u00e3o saber central.<\/p>\n<p>H\u00e1 a burocracia como instrumento de gest\u00e3o, necess\u00e1rio para o estabelecimento de um funcionamento institucional, mas n\u00e3o pode se confundir com uma burocracia do saber. Ela n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria no seio do cartel. Neste sentido, a apresenta\u00e7\u00e3o de trabalhos e a assist\u00eancia \u00e0s jornadas de cart\u00e9is \u00e9 algo desej\u00e1vel. \u00c9 algo da ordem do desejo, que as vezes h\u00e1 que provocar.<\/p>\n<p>Inclusive, partindo da l\u00f3gica de trabalho do cartel v\u00e1rias sutilezas podem ser consideradas atrav\u00e9s do catalogo j\u00e1 que \u00e9 uma maneira como a Diretoria Nacional de Cart\u00e9is, pode acompanhar de forma mais pr\u00f3xima junto com os Diretores das Se\u00e7\u00f5es a forma\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is, os impasses, os n\u00e3o funcionamentos, os usos ou as particularidades dos cart\u00e9is em cada lugar.<\/p>\n<p>Na EBP, onde h\u00e1 uma tend\u00eancia a dispers\u00e3o, como j\u00e1 disse Miller em determinado momento, o cat\u00e1logo de alguma forma tem uma fun\u00e7\u00e3o de Um no m\u00faltiplo\u00a0da nossa Escola.<\/p>\n<p><strong>Precariedade e o real dos grupos<\/strong><\/p>\n<p>Considerando a quest\u00e3o do funcionamento do cartel, cabe destacar que parece haver sempre algo da ordem de uma precariedade. Uma precariedade n\u00e3o no sentido pejorativo do termo. E me parece que esse \u00e9 um ponto interessante. Como diz uma colega, quando o cartel n\u00e3o funciona \u00e9 quando nos fazemos perguntas, quando ele funciona o achamos natural. Assim, que quando h\u00e1 algo no cartel que n\u00e3o funciona, e \u00e9 bem frequente, resulta relevante, pois nos coloca a trabalho.<\/p>\n<p>Sobre a precariedade, Franco Berardi, filosofo italiano, no livro <em>Depois do futuro<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a><\/em>, faz uma reflex\u00e3o e coloca a precariedade como um modo de vida muito atual, fruto do desapontamento com a ideia da progress\u00e3o do conhecimento da ci\u00eancia para governar mais completamente o universo. As premissas filos\u00f3ficas, est\u00e9ticas e sociais que desenharam a expectativa de futuro dos modernos se desfizeram, produzindo a dissolu\u00e7\u00e3o da credibilidade de um<strong>\u00a0modelo progressivo de futuro<\/strong>. O que resta disso, segundo ele, \u00e9 uma paralisia da vontade, que \u00e9 um outro modo de dizer precariedade. A precariedade se torna uma forma geral da rela\u00e7\u00e3o social e afeta a composi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Neste sentido, me chamou a aten\u00e7\u00e3o que Lacan, na formaliza\u00e7\u00e3o que ele fez do cartel, no texto <em>Decolage<\/em>, parte de um questionamento da ideia de progresso. Ele diz que do cartel \u201cn\u00e3o se espera nenhum progresso al\u00e9m daquele de uma exposi\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica, tanto dos resultados quando das crises de trabalho\u201d.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0 O cartel n\u00e3o se coloca em uma linha de progresso, sen\u00e3o de efeitos, de restos, de momentos, de um tempo um tanto prec\u00e1rio poder\u00edamos dizer. Mas um prec\u00e1rio que d\u00e1 lugar ao desejo de cada um e pode produzir efeitos de forma\u00e7\u00e3o e n\u00e3o de devasta\u00e7\u00e3o que \u00e9 ao que se refere Franco Bernardi. Para isso, \u00e9 importante que o cartel se sustente em suas coordenadas precisas: \u00a0tempo limitado, permuta\u00e7\u00e3o, n\u00famero espec\u00edfico de participantes, e n\u00e3o hier\u00e1rquico.<\/p>\n<p><strong>O cartel, aberto \u00e0s contingencias, mas n\u00e3o disperso.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 O cartel. H\u00e1 cart\u00e9is, singulares. Quando participamos em algum sempre \u00e9 diferente do outro. Tanto como cartelizante ou como Mais-um. Inclusive as vezes parece haver um desejo de cartel mais forte do que outras. E h\u00e1 o que Miller coloca, n\u00e3o h\u00e1 a tend\u00eancia ao trabalho, h\u00e1 a tend\u00eancia \u00e0 pregui\u00e7a. Da\u00ed que a elabora\u00e7\u00e3o seja \u201cprovocada\u201d e o Mais-um tem que saber fazer com isso, provocar, inventar, desde sua singularidade um certo \u201cdespertar\u201d. Quando se identifica ao lugar do saber se amortece o desejo e todos dormem.<\/p>\n<p>Neste sentido se poderia pensar a precariedade da que falava antes do lado da contingencia.<\/p>\n<p>Portanto, o <strong>cartel \u00e9 um dispositivo <\/strong>de trabalho onde cada um <em>coloca algo de si<\/em>, vai contra a paralisia da vontade. Tem <strong>coordenadas precisas, mas \u00e9 aberto \u00e0s contingencias<\/strong>.<\/p>\n<ol>\n<li>H<strong>\u00e1 um tempo limitado<\/strong>, no m\u00e1ximo dois anos. Como j\u00e1 coloquei em outro lugar, a quest\u00e3o do tempo no cartel pode ser problematizada, desde a dimens\u00e3o da pressa que pode precipitar a elabora\u00e7\u00e3o ou pode precipitar impasses. Tamb\u00e9m pode ser pensada desde o tempo l\u00f3gico: do instante de ver, o tempo de compreender e o momento de concluir. E me parece importante nos interrogarmos sobre os chamados cart\u00e9is rel\u00e2mpagos. Carteis de uma reuni\u00e3o s\u00f3, por exemplo. S\u00e3o usos do cartel que podem renov\u00e1-lo, mas tamb\u00e9m banaliz\u00e1-lo. N\u00e3o se trata de fazer uma doxa do cartel, como nos lembra M. Brousse, mais bem, respeitar seus princ\u00edpios, fazer dele um instrumento de trabalho da psican\u00e1lise que pode ter efeitos de forma\u00e7\u00e3o. Essa parece-me uma boa dire\u00e7\u00e3o.<br \/>\nMauricio Tarrab faz uma observa\u00e7\u00e3o importante, neste sentido. Ele coloca: Trata-se de colocar a prova os dispositivos inventados por Lacan, n\u00e3o de acreditar neles. Trata-se de colocar a prova a pol\u00edtica que implica a orienta\u00e7\u00e3o ao real e suas consequ\u00eancias em n\u00edvel do grupo. Trata-se de colocar a prova o cartel, como dispositivo para verificar para que nos serve na Escola e que usos fazemos dele<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Este me parece ser um desafio importante se queremos pensar sobre o funcionamento do cartel na EBP.<\/li>\n<li>Como sabemos tamb\u00e9m implica <strong>um n\u00famero limitado de participantes<\/strong>. N\u00e3o \u00e9 o anonimato da massa que est\u00e1 em jogo; cada um est\u00e1 ali em <em>nome pr\u00f3prio<\/em> e implicado desde sua quest\u00e3o.<br \/>\nRam Mandil<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> destacou uma frase de Lacan, depois consegui o texto, mas essa frase ficou ressoando: \u201cem um cartel, h\u00e1 uma liga\u00e7\u00e3o entre o pequeno n\u00famero de seus membros e o fato de que cada membro desse pequeno grupo porta seu pr\u00f3prio nome\u201d (Ele essa retira afirma\u00e7\u00e3o de uma interven\u00e7\u00e3o de Lacan durante a Jornada de Cart\u00e9is da EFP em 1975).<br \/>\nEssa frase me parece muito interessante, pois n\u00e3o se trata do regime do anonimato, sen\u00e3o de portar o pr\u00f3prio nome. Do um a um, incluindo o Mais-um. O cartel leva em conta a <strong><em>enuncia\u00e7\u00e3o e o engajamento <\/em>que \u00e9 algo da ordem do<\/strong> <strong>incompar\u00e1vel<\/strong> que se faz presente para cada um dos membros no trabalho no cartel.<br \/>\nSe os cart\u00e9is tem como fundamento uma estrutura n\u00e3o hier\u00e1rquica e permutativa, isso se d\u00e1 na medida em que buscam favorecer a elabora\u00e7\u00e3o do <strong><em>saber de cada um<\/em><\/strong> de seus membros, decorrente de sua experi\u00eancia com o real a partir do discurso anal\u00edtico.<strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/li>\n<li><strong>Em certo sentido, o cartel \u00e9 um grupo muito contempor\u00e2neo, sem l\u00edder, sem hierarquias<\/strong>. O que particulariza o cartel dos grupos atuais? Porque n\u00e3o se confunde com as forma\u00e7\u00f5es grupais contempor\u00e2neas?<br \/>\nSe pensamos no funcionamento do cartel, as reuni\u00f5es de cartel implicam uma certa <strong>precariza\u00e7\u00e3o<\/strong>, n\u00e3o est\u00e3o marcadas por uma centralidade absoluta em uma doutrina ou ideologia.<br \/>\nCom seu funcionamento, o cartel torna-se um dispositivo que provoca a elabora\u00e7\u00e3o que a hierarquia ou a burocracia de uma institui\u00e7\u00e3o tendem a silenciar.<br \/>\nPodemos dizer que o cartel \u00e9 um grupo muito contempor\u00e2neo, sem l\u00edder, sem hierarquias, mas n\u00e3o todos s\u00e3o iguais. \u00c9 na fun\u00e7\u00e3o do Mais-um onde podemos encontrar a particularidade. Como diz Sergio de Castro, o cartel pode vir como: \u201cum sopro fresco e um ant\u00eddoto ao <em>aggiornamento <\/em>de massa que vemos ocorrer hoje em dia.\u201d<\/li>\n<li><strong>H\u00e1 uma dimens\u00e3o de grupo<\/strong>. S\u00e3o principalmente 4 que se re\u00fanem entorno de um tema e convidam ao Mais-um. Esse mais-um \u00e9 algu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 qualquer um, mas algu\u00e9m <em>que \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 <\/em>do grupo. Gosto do termo <em>Mais-um<\/em> porque \u00e9 uma forma de dizer que ele tamb\u00e9m tem uma quest\u00e3o e faz parte do grupo, mas por outro lado n\u00e3o \u00e9 do grupo, \u00e9 <em>um a mais<\/em> desse grupo e dali se deriva sua fun\u00e7\u00e3o.<\/li>\n<\/ol>\n<p>No cartel se trata de provocar o trabalho, que \u00e9 sob a forma de elabora\u00e7\u00e3o. O Mais-um encarna, principalmente, a fun\u00e7\u00e3o de provocar a elabora\u00e7\u00e3o. Mas ele tamb\u00e9m est\u00e1 provocado no cartel. N\u00e3o fica no \u201csil\u00eancio das sufici\u00eancias\u201d como ironicamente Lacan chamava a posi\u00e7\u00e3o do \u2018analista\u2019 da IPA em sua rela\u00e7\u00e3o com o saber. No cartel, fica como um <em>provocador \u2013 provocado<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><strong>[6]<\/strong><\/a><\/em>, como o chama Miller. Entendo isso como algu\u00e9m que n\u00e3o s\u00f3 convoca a elabora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m est\u00e1 fisgado pelo tema, pela quest\u00e3o, se sente convocado. Desde este lugar entendo a afirma\u00e7\u00e3o de Miller quando diz que \u201co ensino de Lacan, n\u00e3o pode se transmitir de um sujeito ao outro, sen\u00e3o pelas vias de uma transfer\u00eancia de trabalho.\u201d<\/p>\n<p>Trata-se n\u00e3o mais de um saber Suposto, sen\u00e3o de um saber a produzir. E mais do que um produzir um saber, <strong>trata-se de produzir uma mudan\u00e7a de posi\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao saber<\/strong>. Esta me parece uma orienta\u00e7\u00e3o fundamental.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a rela\u00e7\u00e3o com o saber no cartel implica certa satisfa\u00e7\u00e3o. Uma rela\u00e7\u00e3o \u201calegre\u201d com o saber, e ent\u00e3o, pode durar at\u00e9 que \u00e9 divertido. Quando deixa de ser \u2018divertido\u2019 pode se tornar outra coisa.<\/p>\n<p>Se o cartel \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o artificial para tratar os efeitos de grupo, como vimos o cartel \u00e9 um dispositivo privilegiado para considerar o real em jogo.<\/p>\n<p>E, neste ponto, se dizemos que na forma\u00e7\u00e3o h\u00e1 um real, como Lacan situa na <em>Proposi\u00e7\u00e3o&#8230;<\/em> o cartel \u00e9 um dispositivo que toma em conta o real em jogo na forma\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Primeiro, participar de fato de um cartel, implica um <strong>consentimento<\/strong> com sua l\u00f3gica de trabalho e funcionamento. Com essa \u201cprecariedade\u201d. \u00c9 um dispositivo com o qual h\u00e1 que <strong>consentir<\/strong>. Ram, nesse relat\u00f3rio, diz algo que me parece muito pertinente. Ele coloca que no cartel \u201ca palavra \u00e9 colocada em <strong>fun\u00e7\u00e3o<\/strong> e \u00e9 importante que os corpos possam consentir em se deslocar\u201d. A palavra \u00e9 colocada em fun\u00e7\u00e3o, no cartel funciona. E o deslocar n\u00e3o s\u00f3 no sentido f\u00edsico.<\/p>\n<p>Isso por um lado. Por outro, o real em jogo no cartel pode se manifestar, tamb\u00e9m, nos impasses com rela\u00e7\u00e3o ao saber de cada um de seus membros, inclusive na forma como ele se constitui, no funcionamento do grupo, na elabora\u00e7\u00e3o do produto, nas dificuldades de dissolu\u00e7\u00e3o ou permuta\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>No cartel, nos diferentes momentos h\u00e1 um real em jogo. A forma como pode se servir do cartel, n\u00e3o s\u00f3 nos aspectos epist\u00eamicos, mas tamb\u00e9m considerando os impasses, podem se produzir efeitos de forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A partir deste ponto, podemos pensar o cartel como um dispositivo privilegiado, n\u00e3o s\u00f3 um dispositivo de produ\u00e7\u00e3o de saber, mas especialmente, \u00e9 um espa\u00e7o privilegiado que implica as conting\u00eancias. Me parece que a precariedade no cartel a podemos pensar a partir dessa abertura as contingencias.<\/p>\n<p><strong>Entre o \u00edntimo e o coletivo<\/strong><\/p>\n<p>No cartel h\u00e1 algo entre o \u00edntimo e o coletivo. Neste sentido o cartel como <em>Dobradi\u00e7a<\/em> entre algo da ordem do \u00edntimo, do interior e o exterior, o coletivo. Este dispositivo tem uma rela\u00e7\u00e3o de dobradi\u00e7a com a quest\u00e3o mais singular que move a cada um que participa dele e que o enla\u00e7a ao coletivo.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, para que funcione como dobradi\u00e7a, a fun\u00e7\u00e3o do Mais-um, como j\u00e1 vimos, \u00e9 fundamental para que se sustente a diferen\u00e7a, a alteridade e possibilite a elabora\u00e7\u00e3o singular do que \u00e9 causa para cada cartelizante. A fun\u00e7\u00e3o do Mais-um, n\u00e3o com um Um que unifica, sen\u00e3o com Um que mantem a diferen\u00e7a, a dimens\u00e3o irredut\u00edvel da solid\u00e3o com a pr\u00f3pria causa, mas que abre a <strong>possibilidade de enla\u00e7amento<\/strong> com o Outro com quem se possa manter uma interlocu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste ponto acho interessante a amplia\u00e7\u00e3o que M. Bassols faz da fun\u00e7\u00e3o do Mais-um no marco da Escola. Ele coloca: \u201cO mais-um \u00e9 precisamente aquele que deveria saber fazer aparecer o real no qual se funda o grupo para fazer dele sua b\u00fassola e saber tratar as miragens do imagin\u00e1rio e os impasses do simb\u00f3lico&#8230; Que cada um chegue a ser \u201cmais um\u201d de uma experi\u00eancia tal de Escola \u00e9 o melhor tra\u00e7o de identidade que podemos esperar de \u201ccada um\u201d de seus membros, analistas e n\u00e3o analistas\u201d.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Neste sentido o cartel tem uma fun\u00e7\u00e3o de borda. Mas de borda tamb\u00e9m com a Escola. N\u00e3o \u00e9 um dentro e fora da Escola. E aqui a figura do cartel como \u201cPorta de Entrada\u201d se torna relevante: \u201cporta de entrada inclusive para os pr\u00f3prios membros, uma entrada desde o interior. Uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho. Uma rela\u00e7\u00e3o com o saber\u201d.<\/p>\n<p>Podemos destacar algo de uma dimens\u00e3o de solid\u00e3o n\u00e3o sem outros que implica o la\u00e7o de trabalho entre o funcionamento do cartel, a forma\u00e7\u00e3o do analista e a Escola, al\u00e9m dos formalismos institucionais. Essa fun\u00e7\u00e3o de Dobradi\u00e7a do cartel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Woldodarsky, D. \u201cUna \u00e9tica del cartel\u201d. In: El caldero de la Escuela, n. 81, outubro de 2000, p. 58-9.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Berardi, F. <em>Depois do futuro<\/em>. S\u00e3o Paulo: Ubu, 2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. D\u2019\u00c9colage. In: Manual de cart\u00e9is. Belo horizonte: EBP e Scriptum, p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Tarrab, M.\u00a0 Una pol\u00edtica por el cartel, entre ideal y Wirklichkeit \u201crealidade efectiva\u201d. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/www.eol.org.ar\/template.asp?Sec=publicaciones&amp;SubSec=on_line&amp;File=on_line\/etextos\/carteles\/textos\/tarrab.html\">http:\/\/www.eol.org.ar\/template.asp?Sec=publicaciones&amp;SubSec=on_line&amp;File=on_line\/etextos\/carteles\/textos\/tarrab.html<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Mandil, R., Relat\u00f3rio da Secret\u00e1ria de Cart\u00e9is da AMP (2017)<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. \u201cCinco varia\u00e7\u00f5es sobre o tema da elabora\u00e7\u00e3o provocada\u201d. <em>In: Manual de cart\u00e9is<\/em>. <em>Op. Cit<\/em>., p. 55-61.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Lacan, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 2003, p. 249.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Bassols, M. \u201cA imposs\u00edvel identifica\u00e7\u00e3o do analista\u201d. In: Correo. Revista da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, n. 81. Dezembro, 2017, p. 48.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2246&#8243; img_size=&#8221;171&#215;250&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2247&#8243; img_size=&#8221;171&#215;250&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2248&#8243; img_size=&#8221;171&#215;250&#8243; alignment=&#8221;center&#8221; onclick=&#8221;link_image&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text] 2020 LEITURAS EM CENA [\/vc_column_text][vc_empty_space][vc_column_text]Coordena\u00e7\u00e3o:\u00a0Isabel do R\u00eago Barros Duarte, Maricia Ciscato e Renata Martinez O Leituras em Cena est\u00e1 em seu segundo ciclo de trabalho. 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