{"id":2074,"date":"2019-07-25T08:51:29","date_gmt":"2019-07-25T11:51:29","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?page_id=2074"},"modified":"2023-09-22T08:26:52","modified_gmt":"2023-09-22T11:26:52","slug":"seminario-clinico-bienio-2019-2021","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/ensino\/seminarios-4\/seminario-clinico-bienio-2019-2021\/","title":{"rendered":"Semin\u00e1rio Cl\u00ednico &#8211; Bi\u00eanio 2019-2021"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h2><span style=\"color: #993300;\">2020<\/span><\/h2>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><strong><span style=\"color: #993300;\">SEMIN\u00c1RIO CL\u00cdNICO<\/span> <\/strong><\/h3>\n<p>Cl\u00ednica da Extimidade: interpreta\u00e7\u00e3o, constru\u00e7\u00e3o, inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Coordena\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do R\u00eago Barros<\/p>\n<p>Trata-se de demonstrar como a atopia do psicanalista, solid\u00e1ria do real de uma an\u00e1lise, incide em suas inven\u00e7\u00f5es.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sem_clinico_outubro\"><\/a>Desejo, ang\u00fastia, certeza<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>A pr\u00e1tica da Ang\u00fastia II (19\/10\/20)<\/h6>\n<h6><strong>Semin\u00e1rio Cl\u00ednico da EBP-Rio<\/strong><\/h6>\n<h6><em>Coord: Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do R\u00eago Barros<\/em><\/h6>\n<p><strong>Abertura<\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcus:<\/strong> Estamos aqui para um \u00faltimo encontro dessa sequ\u00eancia. Segunda sequ\u00eancia do Semin\u00e1rio Cl\u00ednico deste ano, que intitulamos a pr\u00e1tica da ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Lembro a voc\u00eas que selecionamos a li\u00e7\u00e3o 12 do <em>Semin\u00e1rio 10 <\/em>para abordar a ang\u00fastia tal como Lacan a traz em seu ensino. Foram tr\u00eas encontros.<\/p>\n<p>No primeiro encontro abrimos a discuss\u00e3o entre medo e ang\u00fastia. A ideia geral \u00e9 que a ang\u00fastia marca a aproxima\u00e7\u00e3o de um encontro, que implica toda uma perturba\u00e7\u00e3o. S\u00f3 que n\u00e3o \u00e9 medo, porque o objeto que se aproxima \u00e9 muito especial. Aquilo que ela apresenta pode ser pensado como o encontro com um objeto desde que seja um objeto muito especial, uma esp\u00e9cie de <em>desobjeto<\/em>, abjeto, como Lacan falar\u00e1 \u00e0s vezes que \u00e9 o nosso objeto <em>a<\/em>. \u00c9 o encontro com nossa pr\u00f3pria estranheza, a raiz da estranheza.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 o que se faz com isto que ser\u00e1 decisivo. Por isso, a partir da ang\u00fastia, Lacan teoriza o ato, sua teoriza\u00e7\u00e3o para o que ocorre neste momento em que, como vimos, a falta falta. Por isso, no segundo encontro, o anterior a este, discutimos a rela\u00e7\u00e3o entre a ang\u00fastia, a certeza e ato.<\/p>\n<p>Na vida, reconhecemos a n\u00f3s mesmos pelo fato de que desejamos, nos movemos pelo desejo. Quando encontramos com este ponto em que o desejo, como falta essencial, parece faltar, quando \u00e9 como se tudo estivesse ali, nada estivesse mais faltando, isso \u00e9 uma crise, um abalo na estrutura da vida cotidiana. \u00c9 neste ponto de crise que um ultrapassamento pode acontecer, n\u00e3o no sentido de uma supera\u00e7\u00e3o, mas no sentido de, como vimos, deixar cair esse objeto, deixar alguma coisa para tr\u00e1s e poder seguir de outro modo, como se houvesse, depois do ato, uma \u201cnova falta\u201d em que o sujeito se reencontra em outro lugar, ou como diz Lacan \u201co sujeito, ap\u00f3s o ato, encontra sua presen\u00e7a renovada\u201d.<\/p>\n<p>A terceira parte da li\u00e7\u00e3o introduz o tema que abordaremos hoje. O que discutiremos um pouco \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do desejo. Deixamos cair alguma coisa que instaura a falta que permite que um objeto venha a entrar na cena do seu desejo. Por isto dizemos que o objeto <em>a<\/em> est\u00e1 atr\u00e1s do desejo. \u00c9 quando ele cai que o desejo se lan\u00e7a. O desejo n\u00e3o se lan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o ao objeto em frente dele, isto \u00e9 aos objetos da demanda. Estes s\u00e3o variados, s\u00e3o mais ou menos fixos, mas se n\u00e3o tiver a instaura\u00e7\u00e3o da falta n\u00e3o tem como se lan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no ato, mais especificamente no ato anal\u00edtico, se trata de deixar cair a queda. Este \u00e9 o ponto de hoje, mas antes precisamos retomar a ideia da queda como instaurando o desejo.<\/p>\n<p>Na \u00faltima se\u00e7\u00e3o da li\u00e7\u00e3o 12, Lacan vai introduzir essa ideia. \u00c9 uma introdu\u00e7\u00e3o a partir das coordenadas que eram as mais importantes do momento, que eram a de uma discuss\u00e3o sobre o falo e a castra\u00e7\u00e3o. Ele introduz o tema da queda trazendo a mesma ideia do que dissemos, mas sem o objeto <em>a<\/em>, com o falo. O essencial dessa li\u00e7\u00e3o \u00e9 quando ele diz que o falo \u00e9 um \u00f3rg\u00e3o que funciona pela sua detumesc\u00eancia e isto \u00e9 o ponto chave que falamos no \u00faltimo encontro. \u00c9 quando cai alguma coisa que \u00e9 poss\u00edvel nos instaurarmos no desejo.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u00e9 porque o falo cai que h\u00e1 desejo e n\u00e3o porque ele se mant\u00e9m ereto. Dito de outro modo, o falo funciona como um operador de negatividade e n\u00e3o de positividade.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos esquecer que estamos falando de falo, como falo simb\u00f3lico e n\u00e3o imagin\u00e1rio. O primeiro \u00e9 o da falta, o segundo o da positividade idealizada, o que completaria e na completude daria poder. N\u00e3o. O falo que est\u00e1 no centro da cl\u00ednica psicanal\u00edtica e no cora\u00e7\u00e3o do desejo \u00e9 o falo que cai, que nunca est\u00e1 ali, que estava, mas n\u00e3o est\u00e1 mais. E esse falo n\u00e3o d\u00e1 poder, mas d\u00e1 desejo, desejo de tentar de novo, por exemplo.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 o que est\u00e1 em jogo na \u00faltima parte da li\u00e7\u00e3o, mas achamos que pod\u00edamos retomar isto mais em termos de objeto a e menos do falo como objeto simb\u00f3lico, significante da falta.<\/p>\n<p>A maneira mais clara de fazer isto foi come\u00e7ar pela li\u00e7\u00e3o seguinte, a primeira parte da li\u00e7\u00e3o 13, que se chama \u201cAforismos sobre o amor\u201d. \u00c9 no amor que a falta vai aparecer como causa.<\/p>\n<p>Comecemos por este espa\u00e7o mediano, como Lacan fala da ang\u00fastia. A partir da\u00ed, pensaremos sobre como se mover em dire\u00e7\u00e3o ao desejo ou a outra coisa a partir do ato e da ang\u00fastia. Depois, vamos a uma discuss\u00e3o, se conseguirmos chegar l\u00e1, sobre o amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Ponto mediano<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo: <\/strong>A grande quest\u00e3o do semin\u00e1rio inteiro e da discuss\u00e3o toda sobre a ang\u00fastia \u00e9 a de localizar onde e como se d\u00e1 a passagem do gozo ao desejo. Esta \u00e9 a quest\u00e3o mais geral que permite que se introduza a quest\u00e3o da ang\u00fastia, mas n\u00e3o s\u00f3 da ang\u00fastia. Veremos daqui a pouco que a quest\u00e3o do amor tamb\u00e9m passar\u00e1 por a\u00ed.<\/p>\n<p>Lembramos, na p\u00e1gina 192 do Semin\u00e1rio 10, um esquema muito simples que Lacan desenha.<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"76\">\n<p style=\"text-align: center;\">A<\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"66\">S<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"85\">Gozo<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"76\">\n<p style=\"text-align: center;\"><em>a<\/em><\/p>\n<\/td>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"66\">\u023a<\/td>\n<td width=\"85\">\n<p style=\"text-align: center;\">Ang\u00fastia<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td style=\"text-align: center;\" width=\"76\">$<\/td>\n<td width=\"66\"><\/td>\n<td width=\"85\">\n<p style=\"text-align: center;\">Desejo<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<h6 style=\"text-align: left;\"><em>A ang\u00fastia entre o gozo e o desejo\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voc\u00eas est\u00e3o vendo, s\u00e3o tr\u00eas andares: no primeiro, A sem barra, S sem barra; no segundo, <em>a<\/em>, \u023a; e no terceiro andar, $. No primeiro, gozo; no segundo a ang\u00fastia; no terceiro o desejo.<\/p>\n<p>O mais importante para se entender aquilo que Lacan chama dos tr\u00eas patamares \u00e9 entender que o primeiro andar, usando um termo que Lacan usa, \u00e9 m\u00edtico, quer dizer, nem existe $, nem existe S sem barra. Em Kant com Sade, o objetivo na fantasia de Sade \u00e9 atingir o S sem barra. Este S m\u00edtico.<\/p>\n<p>Voc\u00eas veem que para se passar ao n\u00edvel da experi\u00eancia desejante a ang\u00fastia funciona como mediana, passa-se pela ang\u00fastia para sair do gozo ao desejo. O que \u00e9 interessante \u00e9 que fala-se em sair do gozo ao desejo, mas o gozo \u00e9 uma hip\u00f3tese retroativa, j\u00e1 que n\u00e3o se situa este A e este S no campo da experi\u00eancia. Ele \u00e9 uma hip\u00f3tese subjetiva e retroativa: atrav\u00e9s ou por meio do movimento da ang\u00fastia ou da atua\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia \u00e9 que o gozo se revela. Com a atua\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia existe a perda do objeto que d\u00e1 o \u023a e o $ na dimens\u00e3o do desejo.<\/p>\n<p>Parece-me que este esquema de Lacan resume talvez toda nossa discuss\u00e3o sobre a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>O aforismo lacaniano diz que a ang\u00fastia \u00e9 a \u00fanica vers\u00e3o subjetiva do objeto <em>a<\/em>. Pensando neste esquema, podemos acentuar a palavra subjetiva. \u00c9 a \u00fanica vers\u00e3o em que de fato se pode falar de <em>sujeito<\/em>. Sujeito como exist\u00eancia, n\u00e3o como hip\u00f3tese m\u00edtica, como \u00e9 o caso no primeiro andar deste esquema.<\/p>\n<p>A fun\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia \u2013 \u00e9 uma das afirma\u00e7\u00f5es de Lacan \u2013 seria a de funcionar como a <em>mediana<\/em>, aquela que est\u00e1 no meio do caminho entre gozo e desejo.<\/p>\n<p>O que \u00e9 interessante \u00e9 que como o primeiro andar do gozo \u00e9 hipot\u00e9tico, \u00e9 m\u00edtico, somente com a passagem para o desejo, com a experi\u00eancia da falta do desejo \u00e9 que se vai hipotetizar a positividade do gozo. \u00c9 muito interessante, pois situa a ang\u00fastia como n\u00edvel 1 ou 0, da experi\u00eancia subjetiva, quer dizer, ela \u00e9 a \u00fanica vers\u00e3o subjetiva do objeto <em>a<\/em>. Ou seja, o objeto <em>a<\/em> somente aparece como experi\u00eancia de sujeito com o afeto da ang\u00fastia. Isto me parece muito interessante. Todo o resto que discutimos neste semin\u00e1rio, a diferen\u00e7a entre ang\u00fastia e o medo, a quest\u00e3o do objeto indeterminado, do objeto da ang\u00fastia, se dar\u00e1 na passagem da ang\u00fastia para o desejo, ou seja, onde j\u00e1 exista a dimens\u00e3o da falta do objeto.<\/p>\n<p>No primeiro andar, nenhuma destas hip\u00f3teses \u00e9 pens\u00e1vel. Somente na articula\u00e7\u00e3o entre ang\u00fastia e desejo \u00e9 que se pode pensar retroativamente no gozo, no A e no S sem barra.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Vale retomar isto com o tema da queda, pois Lacan falar\u00e1 demais em queda. No primeiro n\u00edvel, que seria do gozo, vamos dizer, o gozo \u00e9 absoluto. \u00c9 o gozo se pudesse ser totalizado, se s\u00f3 goz\u00e1ssemos. N\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia humana.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Lacan chama este S sem barra de sujeito do gozo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Podemos imaginar isto assim: ser\u00edamos o animal na natureza, a natureza n\u00e3o barrada, o A e o animal completamente imerso S. Ou ent\u00e3o, Ad\u00e3o e Eva no para\u00edso, talvez. Coisas assim.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Ou mesmo na fantasia sadiana, quer dizer, o objetivo final do Sade \u00e9 chegar a uma profundidade tal da divis\u00e3o do sujeito que ela se anule. No esquema do Lacan, num movimento de baixo para cima. A experi\u00eancia para o esgotamento da experi\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Eu estava pensando no movimento de cima para baixo, mais m\u00edtico, mas podemos fazer de baixo para cima tamb\u00e9m. Na verdade esse andar \u201ccima\u201d n\u00e3o existe, este espa\u00e7o de um gozo total. Chamamos de \u00fatero da m\u00e3e, coisas assim.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 m\u00edtico. \u00c9 alguma coisa que precisamos para falar do existencial depois.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O que vamos pensar \u00e9 que s\u00f3 tem gozo quando estamos no segundo plano, no plano da ang\u00fastia. Esse \u00e9 o plano do gozo \u201cque temos para hoje\u201d. Colocar o gozo l\u00e1 em cima tudo bem, mas o \u00fanico gozo que \u00e9 subjetiv\u00e1vel \u00e9 este que est\u00e1 no plano da ang\u00fastia. Ele s\u00f3 se apresenta quando deixamos cair alguma coisa do que seria o gozo absoluto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Quer dizer, tudo isto s\u00f3 pode ser pensado se existe uma maneira do pequeno <em>a<\/em> equivaler ao sujeito, em algum plano. Quer dizer se n\u00e3o existe esta hip\u00f3tese, ou partimos direto para o mito como nos parece que Lacan faz no Semin\u00e1rio 4 na liga\u00e7\u00e3o de Hans e a m\u00e3e dele antes do sintoma f\u00f3bico. Ent\u00e3o, se n\u00e3o tem como dizer <em>a<\/em> = sujeito ou sujeito = <em>a<\/em>, n\u00e3o temos como fazer este movimento. Ficaremos no plano do mito, que \u00e9 est\u00e1vel, ele \u00e9 parado.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Este paradoxo \u00e9 que \u00e9 muito dif\u00edcil, temos que imaginar e \u00e9 isto que Lacan far\u00e1 nesta parte 3 da li\u00e7\u00e3o 12. \u00c9 imaginar que o que chamamos de orgasmo \u00e9 exatamente quando cedemos do gozo m\u00e1ximo e n\u00e3o quando o atingimos. O que chamamos de orgasmo? O que chamar\u00edamos de gozo f\u00e1lico? \u00c9 quando cedemos, largamos, nos deixamos cair. Quando nos deixamos cair temos alguma coisa do nosso pr\u00f3prio ser que desistimos, vamos dizer do gozo absoluto, e nisto gozamos. Gozamos antes e perdemos porque gozamos, a\u00ed queremos de novo. Este ponto quando cai alguma coisa \u00e9 o lugar do gozo, este \u00e9 o ponto da ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Esta articula\u00e7\u00e3o que Lacan faz, que \u00e9 muito conhecida, entre orgasmo e detumesc\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Ele d\u00e1 um exemplo de algu\u00e9m que entrega uma prova, um trabalho ou uma tese e tem um orgasmo na entrega. Nunca vi isto na minha experi\u00eancia, mas vamos imaginar que isto aconte\u00e7a. Ele quer assimilar que esta entrega tem um efeito de gozo. Ela n\u00e3o \u00e9 feita de perda. Temos um efeito de perda cinco minutos depois. Por isto que o obsessivo segura, pois ele n\u00e3o quer perder. Ele n\u00e3o quer gozar.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Esta \u00e9 a uma maneira de ilustrar este segundo andar do esquema lacaniano.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Estamos descendo, quando descemos, fica estranho por que chamar de ang\u00fastia. Mas quando vamos de baixo para cima d\u00e1 para entender por que chamar de ang\u00fastia este espa\u00e7o. De cima para baixo este espa\u00e7o seria, digamos o orgasmo. Ou o momento de um prazer por ter sa\u00eddo do \u00eaxtase, sa\u00edmos do absoluto, tem alguma coisa que \u00e9 a satisfa\u00e7\u00e3o. E a partir da\u00ed descemos para o andar de baixo e agora somos um ser desejante, perdemos alguma coisa que acabamos de experimentar e queremos de novo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Ou seja, para que o sujeito existente seja pensado \u00e9 preciso que o objeto se constitua numa perda do lado do Outro e o sujeito se constitua nesta perda, isto \u00e9, que vale ao deixar cair, que torna pens\u00e1vel a exist\u00eancia do gozo. Por exemplo, quando Lacan fala do orgasmo, \u00e9 neste sentido, orgasmo n\u00e3o \u00e9 um gozo m\u00edtico. Ele sup\u00f5e a queda de um objeto. A queda deste objeto constitui existencialmente, se podemos dizer, o Outro, este que tem barra e o sujeito que tem barra. Existe uma perda geral e \u00e9 com ela que se constitui, primeiro o <em>a<\/em>, segundo o sujeito como <em>a<\/em> e terceiro a fantasia como articula\u00e7\u00e3o sujeito\/objeto. Acho que estas tr\u00eas dimens\u00f5es ficam explicadas a partir desta precipita\u00e7\u00e3o, digamos assim, do objeto quando sai do gozo m\u00edtico. O que \u00e9 bem interessante \u00e9 que neste quadro a ang\u00fastia passa a ser uma experi\u00eancia fundadora.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A\u00ed fazemos o caminho inverso. Come\u00e7amos no andar l\u00e1 embaixo, sujeito do desejo, sou algu\u00e9m para quem falta, eu estou na falta, eu busco, eu tenho saudade, eu quero repetir o gozo que sei que j\u00e1 vivi. Como encontramos isto? Encontramos um lugar, este andar do meio que seria este encontro mediano, que Lacan chama ang\u00fastia, porque o afeto de ang\u00fastia fala disto. Encontramos um espa\u00e7o de completude, digamos assim, onde a falta falta. Quando chegamos neste espa\u00e7o de completude o que experimentamos \u00e9 a ang\u00fastia. Mas se deixamos cair alguma coisa, voltamos para o espa\u00e7o do desejo. Em chegando neste espa\u00e7o da ang\u00fastia, chegamos mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel do gozo absoluto. E experimentamos algo disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O esquema do Rubic\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Isto est\u00e1 ligado \u00e0queles tr\u00eas momentos que distinguimos h\u00e1 dois encontros atr\u00e1s, entre a falta, a falta da falta e que foi chamado aqui de uma nova falta, pegando o exemplo de Julio Cesar antes e depois de atravessar o Rubic\u00e3o. \u00c9 como se o Julio Cesar viesse de baixo, ele \u00e9 um general no plano do desejo. Ele quer, por exemplo, fazer a guerra ou outras coisas, ele vai at\u00e9 a ang\u00fastia, ele entra neste plano. Digamos que esta \u00e9 a hora que ele est\u00e1 no Rubic\u00e3o, ou quase, ou no limite, que foi a maneira que voc\u00ea definiu essa posi\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia. Ele chega no limite. Ficamos achando que o ato de atravessar o Rubic\u00e3o \u00e9 ir para o lado de l\u00e1. N\u00e3o \u00e9. Ao inv\u00e9s de ir para o gozo \u00e9 voltar para c\u00e1, s\u00f3 que num novo lugar. O Rubic\u00e3o \u00e9 esta linha da ang\u00fastia. Tem o Julio Cesar antes no n\u00edvel do desejo e outro Julio Cesar no n\u00edvel do desejo quando ele volta. O Rubic\u00e3o \u00e9 a linha da ang\u00fastia se colocarmos na mesma linha o ato. O ato retirando da ang\u00fastia sua certeza, como Lacan diz no <em>Semin\u00e1rio 15<\/em>.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3099 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_001.png\" alt=\"\" width=\"375\" height=\"185\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Como \u00e9 ang\u00fastia e ato?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Voc\u00ea est\u00e1 dizendo que a ang\u00fastia \u00e9 o Rubic\u00e3o. Eu estou dizendo que no Rubic\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 o ato. S\u00f3 que o ato funciona na medida em que ele retira da ang\u00fastia sua certeza. Sem a certeza retirada da ang\u00fastia o ato \u00e9 a paralisia obsessiva, por exemplo. Ele n\u00e3o se realiza. D\u00e1 pra ver?<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3100 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_002.png\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"195\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: D\u00e1. Coloquei a certeza aqui.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3101 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_003.png\" alt=\"\" width=\"466\" height=\"233\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Neste andar, est\u00e3o pequeno <em>a<\/em>, \u023a\u00a0e ang\u00fastia, e mais uma palavra que acrescento, o ato. Daqui a pouco ainda falaremos do amor, que tamb\u00e9m est\u00e1 por aqui. Quer dizer em n\u00edveis diferentes. Mas acho que este outro aforisma de que o ato retira da ang\u00fastia sua certeza \u00e9 precioso para discutir esta li\u00e7\u00e3o 13.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3102 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_004.png\" alt=\"\" width=\"531\" height=\"252\" \/><\/p>\n<p>Acho que o mais importante na leitura cl\u00ednica deste esquema \u00e9 pensar que o gozo s\u00f3 tem exist\u00eancia a partir, de uma retroa\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia. De cima para baixo, do gozo para a ang\u00fastia, o gozo tem que ser pensado como sem exist\u00eancia, m\u00edtico. Ele \u00e9 um apoio m\u00edtico para se pensar a ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Colocaremos aqui o orgasmo para n\u00e3o ter d\u00favida.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3103 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_005.png\" alt=\"\" width=\"531\" height=\"231\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00f3 temos acesso ao gozo como orgasmo ou como algum prazer, \u00e9 claro que Lacan falou depois de um outro gozo. Podemos imaginar que temos not\u00edcias do plano da experi\u00eancia subjetiva desse gozo m\u00edtico. De qualquer maneira, n\u00e3o \u00e9 o gozo em si. O gozo em si \u00e9 puramente m\u00edtico, seria a morte.<\/p>\n<p>Quando estamos falando que \u00e9 retroativo, estamos dizendo isto, vamos do sujeito para a ang\u00fastia ou para o encontro com este objeto estranho e a volta dele \u00e9 a experi\u00eancia do prazer.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: D\u00e1 para ver a\u00ed claramente a fun\u00e7\u00e3o primordial que existe na ideia de que o sujeito se move com a fantasia. A fantasia \u00e9 uma oposi\u00e7\u00e3o segundo Lacan que existe entre o $ e o <em>a<\/em>. \u00c9 esta posi\u00e7\u00e3o que constitui a realidade ps\u00edquica como Freud chamava.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3104 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_006.png\" alt=\"\" width=\"543\" height=\"256\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 isto que Lacan diz, que \u00e9 conjun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Qualquer experi\u00eancia vai se dar com o apoio da fantasia, pois a fantasia \u00e9 a realidade. Desde Freud.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Olha o que voc\u00ea est\u00e1 dizendo, que este <em>a<\/em> &lt;&gt; $ \u00e9 a nossa realidade. N\u00e3o tem realidade do gozo, tem a realidade do gozo parcial, o objeto <em>a<\/em> \u00e9 o gozo parcial que \u00e9 o gozo que podemos ter.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: At\u00e9 certo ponto, por exemplo, se espera que possa existir uma travessia da fantasia. A travessia da fantasia desconjunta esta liga\u00e7\u00e3o que funda a realidade. Na travessia n\u00e3o podemos falar de realidade. \u00c9 um espa\u00e7o irreal, talvez n\u00e3o m\u00edtico, mas irreal.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Aqui entre n\u00f3s, \u00e9 um espa\u00e7o muito frequentado nos finais de an\u00e1lise. Tem qualquer coisa da experi\u00eancia da transfer\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: O que se espera de um AE \u00e9 que ele d\u00ea testemunho, se der testemunho s\u00f3 disto, j\u00e1 fez muita coisa.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A transfer\u00eancia \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o a-passional, mas uma rela\u00e7\u00e3o que enquadra a realidade. Quando estamos na an\u00e1lise estamos na realidade, por mais que dizemos que \u00e9 a realidade subjetiva, estamos na vida. Quando vai chegando neste ponto que a fantasia est\u00e1 meio desmembrada, ou est\u00e1 nos seus cacos ou est\u00e1 meio frouxa, essa paix\u00e3o da transfer\u00eancia vai ficando um pouco como se fosse uma ultrarrealidade, n\u00e3o \u00e9 irreal, como falamos um pouco surreal. E tem muito testemunho dos AEs que v\u00e3o voltar para a vida a partir deste espa\u00e7o desrealizado.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: A\u00ed aparece o que chamamos meio selvagemente num desses dois \u00faltimos semin\u00e1rios de uma nova falta.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A nova falta eu vou tentar desenhar aqui. Est\u00e1 tudo no esquema, a nova falta.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Este esquema \u00e9 uma preciosidade.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3105 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_007.png\" alt=\"\" width=\"547\" height=\"258\" \/><\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Eu queria desenhar este eixo que voc\u00ea est\u00e1 falando, mas eu n\u00e3o estou conseguindo fazer, mas seria descendo aqui. Quando voc\u00ea diz que a nova falta \u00e9 esta volta para $, volta para o sujeito, depois da experi\u00eancia da ang\u00fastia ou da experi\u00eancia do que chamamos de ato, que \u00e9 um deixar cair. J\u00falio Cesar deixa cair o general, quando ele atravessa. Mas ele n\u00e3o faz: \u201cAdeus general\u201d, como nos filmes. Deixamos cair a minha crian\u00e7a que est\u00e1 traumatizada. Deixo cair meu pai que est\u00e1 em coma. N\u00e3o \u00e9 como nos filmes. Deixamos cair aquilo que est\u00e1 nos prendendo para podermos ficar leves. \u00c9 verdade que ao me lan\u00e7ar na experi\u00eancia da falta da falta, quando conseguimos estar nela o bastante, melhor do que se lan\u00e7ar, alguma coisa cai, essa alguma coisa que cai \u00e9 o novo sujeito. \u00c9 um novo modo de estar no gozo ou no prazer.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 um novo modo. Existem milh\u00f5es de perguntas, por exemplo, aqui o pr\u00f3prio Lacan fez: como \u00e9 que vive a puls\u00e3o algu\u00e9m que atravessou a fantasia? Esta \u00e9 uma pergunta que Lacan se faz e talvez a finalidade do passe seja responder esta pergunta. A finalidade principal do passe \u00e9 saber como vive a puls\u00e3o algu\u00e9m que atravessou a fantasia. Ele vai testemunhar de um certo tratamento do mito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Primeira discuss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pergunta:<\/strong> A Angela Negreiros est\u00e1 lembrando que consta na hist\u00f3ria que Julio Cesar transava com a m\u00e3e na v\u00e9spera da passagem do Rubic\u00e3o. Esta eu n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Lacan comenta no Semin\u00e1rio 15, ele n\u00e3o conta esta hist\u00f3ria, mas ele diz que atravessar o Rubic\u00e3o para J\u00falio C\u00e9sar era penetrar a m\u00e3e, a terra m\u00e3e. Eu n\u00e3o sabia desta hist\u00f3ria, mas lembro deste coment\u00e1rio de Lacan.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: Sandra Viola perguntando que vantagem Maria leva a partir da frase que a Marcia Zucchi repetiu: do gozo s\u00f3 temos acesso enquanto efeito e a partir da ang\u00fastia retroativamente?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Que vantagem? \u00c9 isto que tentamos falar Sandra, agora neste momento, tem alguma coisa de desrealiza\u00e7\u00e3o da fantasia, t\u00ednhamos um enquadre quase que montado em mim, do acesso meu ao prazer, \u00e9 sempre uma chegada ao objeto mais ou menos no mesmo lugar e o recuo dele. \u00c9 este recuo que d\u00e1 prazer, a fantasia \u00e9 a chave desta repeti\u00e7\u00e3o e ao mesmo tempo \u00e9 o esteio do desejo. Pois a cada vez vamos recuar do objeto, e a cada vez vamos voltar a ele. Esta \u00e9 a fantasia.<\/p>\n<p>Quando pensamos num atravessamento da fantasia, uma esp\u00e9cie de desrealiza\u00e7\u00e3o da estrutura que era a estrutura do meu desejo, temos uma nova condi\u00e7\u00e3o. Esta nova condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 uma nova fantasia, mas ser\u00e1 uma nova rela\u00e7\u00e3o com este ir e vir. Este \u00e9 o m\u00e1ximo de vantagem que Maria leva, que saber\u00edamos dizer, pois n\u00e3o queremos dizer que vamos para outro espa\u00e7o fora da fantasia. Afrouxar os parafusos da fantasia d\u00e1 esse ganho, precisar\u00edamos ter trazido algum fragmento espec\u00edfico. Mas pode ser uma discuss\u00e3o que ficar\u00e1 para as pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong>: Tem pergunta sobre a psicose, como isto tudo fica na psicose?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Ter\u00edamos que repensar isto tudo na psicose. Alguns fazem isso, por exemplo, retomando em lugar da fantasia o del\u00edrio, a\u00ed fica tudo diferente. Talvez desse para manter algum tipo de analogia. Ou ao inv\u00e9s do del\u00edrio, uma constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o delirante, mas uma constru\u00e7\u00e3o de algum tipo de aparelhagem subjetiva, algum dispositivo, uma bricolagem que permitisse esta manuten\u00e7\u00e3o do desejo pela perda de alguma coisa, o deixar cair de alguma coisa.<\/p>\n<p>Nas experi\u00eancias com o autismo, foi contado v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>Lembro de um caso, acho que \u00e9 o Miquel Bassols que apresenta, de um autista que ele n\u00e3o escolhe um livro na prateleira, ele lida com o livro queimado. Ele pega um livro queimado, sem texto, sem nada, ileg\u00edvel, mas este livro \u00e9 que faz uma extra\u00e7\u00e3o e que produz a possibilidade de um desejo.<\/p>\n<p>Vemos que tem qualquer coisa que \u00e9 necess\u00e1rio mesmo no plano da psicose, de um deixar cair. Neste caso precisamos incluir alguma coisa que deixa cair alguma coisa, inclu\u00edmos o livro e deixamos cair toda linguagem queimando-a. Isto seria outra discuss\u00e3o tamb\u00e9m. Estamos falando mais na neurose.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Uma quest\u00e3o importante \u00e9 saber se e como se d\u00e1 a extra\u00e7\u00e3o de objeto na psicose. Nesta quest\u00e3o que voc\u00ea est\u00e1 tratando ela \u00e9 caudat\u00e1ria desta outra mais geral.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Quando falamos de extra\u00e7\u00e3o do objeto temos a ideia que vem um cirurgi\u00e3o e extraiu. Estamos tentando mostrar que esta din\u00e2mica \u00e9 uma pr\u00e1tica cotidiana de quando gozamos, ou quando vivemos algo que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o desejo, alguma coisa caiu, um objeto se extraiu. S\u00f3 que n\u00f3s neur\u00f3ticos extra\u00edmos mais ou menos sempre o mesmo objeto que cai e nem conhecemos. Por isto vivemos o gozo mais ou menos parecido.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Voc\u00ea falou neste instante do exemplo que Lacan d\u00e1, que tamb\u00e9m \u00e9 aquele de algu\u00e9m que vai entregar uma prova ao professor. Ele no ato de entregar ele goza. Ele ejacula, ele tem orgasmo. Acho que ficou faltando localizar a ang\u00fastia, que \u00e9 anterior a este momento em que ele entrega o trabalho ao professor. De onde est\u00e1 a ang\u00fastia, completamos o quadro.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Eu estava tentando voltar aqui, mas \u00e9 isto mesmo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: De tal maneira que o gozo prazer \u00e9 impens\u00e1vel sem a ang\u00fastia. Desde que articulamos gozo e prazer como orgasmo temos que considerar a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Amor<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Voc\u00ea diz que a experi\u00eancia do prazer n\u00e3o se pensa sem um tanto de ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Acabei de pensar agora, estou testando e falando ao mesmo tempo. Vamos dizer assim: n\u00e3o \u00e9 certo que o ato sexual seja um ato, no sentido lacaniano.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: N\u00e3o \u00e9 certo, n\u00e3o. Certamente, na pr\u00e1tica n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: N\u00e3o \u00e9! Pois \u00e9. Ent\u00e3o, a articula\u00e7\u00e3o entre gozo e prazer que caracteriza o orgasmo n\u00e3o \u00e9 pens\u00e1vel sem este n\u00edvel da ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: S\u00f3 n\u00e3o \u00e9 pens\u00e1vel como n\u00e3o \u00e9 experiment\u00e1vel. A ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 conceito.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: A\u00ed depende. N\u00e3o sei se \u00e9 experimentado a cada vez, pode ser que n\u00e3o. Mas enfim \u00e9. N\u00e3o d\u00e1 para pensar sem ela.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Entendo o que voc\u00ea quer dizer. N\u00e3o estou dizendo que a pessoa tem que sentir ang\u00fastia, mas se colocamos isto no plano da fenomenologia dos fen\u00f4menos, da descri\u00e7\u00e3o dos fen\u00f4menos e da coisa, acho que ningu\u00e9m vai discordar que tem alguma coisa a ver com a ang\u00fastia este momento que est\u00e1 chegando perto de alguma coisa e que \u00e9 de certa maneira de recuo disso que \u00e9 o efeito do gozo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: E da\u00ed ganha sentido mais forte a defini\u00e7\u00e3o, vamos dizer assim, de Lacan, da ang\u00fastia como \u00fanica vers\u00e3o subjetiva do objeto <em>a<\/em>. Existe nesta defini\u00e7\u00e3o, o objeto e ao mesmo tempo sujeito. \u00c9 \u00fanica vers\u00e3o subjetiva do objeto <em>a<\/em>, ou seja, existe sujeito e objeto <em>a<\/em>, que \u00e9 a estrutura da fantasia. Ent\u00e3o, podemos falar da ruptura da realidade cada vez que exista a experi\u00eancia do gozo, do gozo existente, do gozo que se pode experimentar. N\u00e3o necessariamente do prazer.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: N\u00e3o necessariamente, exatamente. Estou vendo v\u00e1rias quest\u00f5es e vamos passar para o amor, talvez tenha muita coisa que o pessoal ainda vai dizer e talvez voltemos para a ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: S\u00f3 queria lembrar a Maria Helena que ele ejacula no auge da ang\u00fastia. Realmente \u00e9 por a\u00ed. E a Marcia falando das compuls\u00f5es, \u00e9 neste sentido, beber infinitamente o mesmo copo, \u00e9 um pouco esta ideia de n\u00e3o recuar, ou melhor, ficar s\u00f3 no recuo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Quem fala: beber infinitamente no mesmo copo?<\/p>\n<p><strong>Perguntas: <\/strong>Ela pergunta se seria o equivalente de deixar cair, \u00e9 a Marcia Zucchi que est\u00e1 citando.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Eu sei, mas o citado \u00e9 de quem?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: N\u00e3o sei.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Eu me lembro em Deleuze tinha um DVD do abeced\u00e1rio e ele que j\u00e1 bebeu, ele era alco\u00f3latra, ele diz que o alco\u00f3latra busca \u00e9 o pen\u00faltimo copo. Que a dist\u00e2ncia entre o pen\u00faltimo e o \u00faltimo \u00e9 imposs\u00edvel de medir. \u00c9 at\u00e9 o pen\u00faltimo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: E \u00e9 no pen\u00faltimo que est\u00e1 o gozo, n\u00e3o o prazer, mas o gozo. O prazer \u00e9 se ele vem para o antipen\u00faltimo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: O limite est\u00e1 no pen\u00faltimo, ele n\u00e3o fala assim, mas me parece que d\u00e1 para dizer isto.<\/p>\n<p><strong>Perguntas:<\/strong> A Bianca lembrando o filme Lua de Fel, onde eles percebem esse gozo m\u00edtico que acaba morrendo mesmo. Ela deu o <em>spoiler<\/em>.<\/p>\n<p>A Gisele diz: se n\u00e3o houvesse ang\u00fastia no sexo, n\u00e3o haveria prazer. E nem repeti\u00e7\u00e3o do sexo, que \u00e9 o retorno da falta.<\/p>\n<p>Um certo movimento c\u00edclico.<\/p>\n<p><strong>Perguntas:<\/strong> A Ruth j\u00e1 traz a frase que seria a nossa passagem e a passagem \u00e9 esta mesma. Voltaremos para o esquema para n\u00e3o ficarmos muito no ar na hora desta passagem.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Isto lembra o esquema do Saussure.<\/p>\n<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3106 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_008.png\" alt=\"\" width=\"531\" height=\"252\" \/><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Logo antes deste esquema Lacan fala de <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-3109 alignnone\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Captura-de-Tela-2020-12-22-a\u0300s-08.48.42.png\" alt=\"\" width=\"15\" height=\"31\" \/>\u00a0\u00a0.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: No ponto do ato, que trabalhamos bastante, \u00e9 sempre do cotidiano. No trabalho da sess\u00e3o, h\u00e1 a ang\u00fastia como um meio, mas n\u00e3o tem nada depois dela. Isto aparece claramente: na pr\u00e1tica da ang\u00fastia a ideia n\u00e3o \u00e9 atravessar a ang\u00fastia e do outro lado dela encontrar o gozo, encontrar o prazer, seja l\u00e1 o que for. \u00c9 uma aproxima\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia no sentido amb\u00edguo; ela se aproxima, n\u00f3s nos aproximamos e nessa aproxima\u00e7\u00e3o alguma coisa se extrai e essa alguma coisa que se extrai n\u00e3o levamos conosco, ela cai, e reencontramos de alguma maneira. Temos a hist\u00f3ria do que caiu e trazemos isto na pr\u00f3xima sess\u00e3o. Sa\u00edmos \u00e0s vezes da sess\u00e3o numa esp\u00e9cie de ang\u00fastia e ali na escada, descendo a escada do analista, encontramos alguma coisa que j\u00e1 caiu. N\u00e3o voltamos a desejar esta coisa, \u00e9 uma coisa que caiu. Isto \u00e9 o movimento do C\u00e9sar que agora se transformou num analisante neur\u00f3tico m\u00e9dio.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 este movimento do ato, da ang\u00fastia, do objeto que cai e do gozo que se envolve e da nova posi\u00e7\u00e3o do sujeito \u00e9 o que acontece numa an\u00e1lise e em outros lugares. H\u00e1 uma proposta da cultura de que, neste espa\u00e7o da ang\u00fastia, ao inv\u00e9s de ficar l\u00e1 o m\u00e1ximo poss\u00edvel at\u00e9 que alguma coisa caia, o que temos que fazer \u00e9 colocar no lugar da ang\u00fastia um v\u00e9u. Neste espa\u00e7o, neste rio, colocar uma ideia, uma imagem, ou uma ilus\u00e3o se exagerarmos, e isto seria a obra do amor.<\/p>\n<p>Remeto voc\u00eas ao texto do Romildo que ele apresentou nas Jornadas, onde ele contrastava a ideia desse rio que desenhei que \u00e9 um ponto mediano, um espa\u00e7o mediano, mas voc\u00eas j\u00e1 entenderam, \u00e9 mediano entre a vida e nada. \u00c9 um espa\u00e7o mediano e neste espa\u00e7o mediano acontece a ang\u00fastia, acontece o ato e acontece o amor, s\u00f3 que o amor se estabelece como se houvesse a possibilidade de uma media\u00e7\u00e3o entre a vida que levamos e este espa\u00e7o do gozo absoluto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: A\u00ed cabe a diferen\u00e7a que \u00e9 fundamental no cap\u00edtulo 13, que \u00e9 o amor como media\u00e7\u00e3o ou como mediador e a ang\u00fastia como mediana. Isto ao mesmo tempo indica que est\u00e3o no mesmo plano deste esquema, que \u00e9 o plano do pequeno <em>a<\/em> e \u023a, mas ao mesmo tempo mostra a diferen\u00e7a entre elas. A ang\u00fastia que \u00e9 uma vers\u00e3o do objeto <em>a<\/em> se coloca como mediana entre gozo e desejo, enquanto o amor faz a media\u00e7\u00e3o entre gozo e desejo. S\u00f3 o amor pode permitir, pode condescender ao gozo no desejo. Como \u00e9 a frase? \u201cS\u00f3 a amor permite ao gozo condescender ao desejo\u201d. O importante disto \u00e9 que isto exige aquilo que \u00e9 pr\u00f3prio da psican\u00e1lise desde Freud: que o amor \u00e9 uma ilus\u00e3o ou um v\u00e9u, como Lacan chama. \u00c9 um v\u00e9u que tapa o buraco; existe nessa travessia do gozo a ang\u00fastia.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3107 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_009.png\" alt=\"\" width=\"514\" height=\"224\" \/><\/p>\n<p>Ele preenche, imagina. Por exemplo, J\u00falio Cesar atravessando e dizendo vou atravessar para a Gl\u00f3ria de Roma: ele consegue com isto recobrir como um v\u00e9u, recobrir o buraco que a ang\u00fastia ocupa.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Ent\u00e3o, o mediano \u00e9 uma falha, falha no sentido de uma fissura, e neste sentido o v\u00e9u vai recobrir esta fissura, \u00e9 como se cheg\u00e1ssemos do desejo para a ang\u00fastia, cheg\u00e1ssemos no limite do que \u00e9 poss\u00edvel viver. Al\u00e9m daquilo, parece que vou desaparecer, vou derreter. E neste ponto limite, que \u00e9 o ponto da ang\u00fastia, o amor \u00e9 dizer: posso fazer uma ponte, isto \u00e9 s\u00f3 um rio, posso ir para o outro lado, existe alguma coisa do outro lado. Neste sentido que \u00e9 um v\u00e9u. Neste sentido \u00e9 a media\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Teresa e o acontecimento do amor<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: A grande quest\u00e3o, que \u00e9 um desafio para a psican\u00e1lise, Lacan insiste nisto v\u00e1rias vezes, \u00e9 uma pergunta: ser\u00e1 que o amor pode n\u00e3o ser s\u00f3 uma ilus\u00e3o? Ser\u00e1 que o amor pode ter uma dimens\u00e3o que seja mais do que recobrir com o v\u00e9u esta fissura que o Marcus est\u00e1 falando? N\u00e3o vamos esquecer a express\u00e3o que Lacan usou em outro contexto de um amor mais digno. Eu li em algum lugar, mas j\u00e1 faz muito tempo, mas nunca encontrei o lugar onde Lacan faz um neologismo, faz uma brincadeira: ao inv\u00e9s de <em>dignit\u00e9<\/em> (dignidade) ele faz <em>ding-nit\u00e9<\/em>, de <em>das ding<\/em>. Infelizmente n\u00e3o consigo achar onde tem isto. Digamos um amor mais digno \u00e9 aquele amor que inclui este contato tornado poss\u00edvel pela dimens\u00e3o do ato psicanal\u00edtico.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Gostamos desta ideia de um amor mais digno, um outro amor, um novo amor. N\u00e3o est\u00e1vamos falando disto. Mas neste plano, o amor n\u00e3o seria, como Lacan vai dizer na pr\u00f3xima li\u00e7\u00e3o, sublima\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 isto, o amor sublima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: \u00c9 o amor tomado na sua vertente mais de ilus\u00e3o do que nesse amor mais real. S\u00f3 para ficar nele um pouco, eu estava vendo as perguntas.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Num curso de Miller, <em>A cl\u00ednica lacaniana<\/em>, ele fala exatamente disto. Vou ver se eu acho.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Isto que \u00e9 o amor real, continuar amando o Rubic\u00e3o sendo que ele vai embora todas as vezes. Vou parar aqui, voltamos, s\u00f3 para acompanharmos, o pessoal est\u00e1 dizendo para retomarmos.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: A Viviane retoma uma volta sobre o alcoolista.<\/p>\n<p>Tem a ideia desse v\u00e9u, uma pergunta se ao inv\u00e9s do amor poderia ser o consumo. Outras pr\u00e1ticas que fariam o efeito de v\u00e9u. A\u00ed ter\u00edamos que discutir se \u00e9 v\u00e9u ou se n\u00e3o \u00e9 v\u00e9u. Estamos ficando com o amor que \u00e9 mais seguro.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>:Tem a Poliana pedindo para falarmos disto a partir de uma situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica. Vai chegar. E a Ruth retomando, dizendo: a posi\u00e7\u00e3o mediana tem um poder transformador e ativo de por ao trabalho o gozo, produzindo a causa do desejo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Pensamos num caso cl\u00ednico mas \u00e9 um poema que trar\u00e1 esta discuss\u00e3o sobre o deixar cair, o objeto <em>a<\/em>, o ponto mediano e o amor como media\u00e7\u00e3o. Vamos a ele? Romildo voc\u00ea quer que eu projete ou voc\u00ea vai ler?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Eu o tenho aqui. \u00c9 um poema de Manuel Bandeira chamado <em>Teresa<\/em>. O poema \u00e9 o seguinte:<\/p>\n<blockquote><p><strong><em>Teresa<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>A primeira vez que vi Teresa<\/p>\n<p>Achei que ela tinha pernas est\u00fapidas<\/p>\n<p>Achei tamb\u00e9m que a cara parecia uma perna<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando vi Teresa de novo<\/p>\n<p>Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo<\/p>\n<p>(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Da terceira vez n\u00e3o vi mais nada<\/p>\n<p>Os c\u00e9us se misturaram com a terra<\/p>\n<p>E o esp\u00edrito de Deus voltou a se mover sobre a face das \u00e1guas.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O que \u00e9 tocante \u00e9 justamente a terceira estrofe quando o amor vem. Podemos discutir que amor \u00e9 este, se este amor \u00e9 media\u00e7\u00e3o, ou se ele \u00e9 v\u00e9u, mas \u00e9 isto, a experi\u00eancia do amor \u00e9 de uma esp\u00e9cie de totaliza\u00e7\u00e3o em que o sujeito parece se perder, mas queremos dizer que isto n\u00e3o \u00e9 como no ato. Porque neste a\u00ed ele perde os olhos mais velhos, ele perde os olhos que nasceram e ficaram 10 anos esperando, ele perde as pernas est\u00fapidas, n\u00e3o, ele ganha, ele ganha pois vai lembrar delas a partir da fus\u00e3o que foi, o amor que foi este esp\u00edrito de Deus que sinto agora em mim e nela, entre ele e a Teresa.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Ele usa o linguajar do livro do G\u00eanese, na B\u00edblia exatamente no momento da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Ent\u00e3o, \u00e9 isto a cria\u00e7\u00e3o do amor como o amor do Universo, fomos feitos um para o outro, por exemplo. Deus j\u00e1 dizia isto desde a G\u00eanese. O que sabemos agora \u00e9 que eu e voc\u00ea somos o infinito. Nisto acho que ele se perde, \u00e9 uma experi\u00eancia deliciosa, mas num certo sentido ele perde estes objetos que eram nosso dos objetos <em>a<\/em>. Ele n\u00e3o deixa cair, isto talvez seja uma discuss\u00e3o. Ele n\u00e3o deixa cair, ele perde de vista, mas eles est\u00e3o l\u00e1. Ele continua vendo, mas ele passa achar a coisa mais linda. Tem alguma coisa para diferenciar do que estamos chamando de ato. Tem alguma coisa desses objetos que para de funcionar para que o sujeito possa encontrar Teresa de outro jeito.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Manoel Bandeira n\u00e3o era brincadeira.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Podemos partir desta parte que \u00e9 mais segura. As pernas est\u00fapidas e a cara pareciam uma perna. \u00c9 justamente os pontos onde somos atra\u00eddos, \u00e9 a causa do desejo, os olhos muito mais velhos que o resto do corpo. A maneira que ele localiza estas coisas, s\u00e3o peda\u00e7os, n\u00e3o no sentido fetichista, s\u00e3o objetos que se extraem do encontro.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Podemos at\u00e9 dizer que na segunda estrofe os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse e quando o resto do corpo nasceu veio com olhos. Feito Santa Luiza.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Veio com estes olhos.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Claro. Tem os olhos que estavam esperando, ou seja, que s\u00e3o depositados como objetos e tem os olhos do corpo. Como Santa Luzia que Lacan comenta no cap\u00edtulo 12.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Exatamente. Estava falando da experi\u00eancia fetichista que \u00e9 a masculina cl\u00e1ssica que \u00e9: ele pega as pernas, as pernas s\u00e3o maravilhosas, ele tem tes\u00e3o nas pernas, e elas s\u00e3o o objeto que atrai, a mulher n\u00e3o importa. Aqui n\u00e3o \u00e9 isto. Perna est\u00fapida \u00e9 totalmente diferente do objeto fetichista. Vamos ver, at\u00e9 agora nada. Ah, o poema <em>Porquinho da \u00edndia<\/em> do Manuel Bandeira \u00e9 uma vers\u00e3o oposta ao sublime do amor.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Exatamente, <em>Porquinho da \u00edndia<\/em>, que ele teve na inf\u00e2ncia. Deixa eu ver se eu&#8230; Tenho medo de sair daqui e perder tudo.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong>: Veridiana est\u00e1 dando a refer\u00eancia que voc\u00ea queria a <em>chosi\u00e9t\u00e9, <\/em>n\u00e3o sei se \u00e9 <em>dignit\u00e9<\/em>, mas \u00e9 no Semin\u00e1rio 7. Fala das caixas de f\u00f3sforo do Pr\u00e9vert.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: N\u00e3o \u00e9 isto n\u00e3o. \u00c9 <em>ding-nit\u00e9<\/em>, ele joga com a <em>dignit\u00e9<\/em>, colocando o <em>Das ding<\/em> na frente. \u00c9 uma brincadeira que ele faz, que me parece muito precisa. \u00c9 pena que eu vi isto h\u00e1 anos e n\u00e3o sei onde \u00e9.<\/p>\n<p><strong>Pergunta<\/strong>: Viviane Tinoco traz uma passagem do Mia Couto, que \u00e9: quem se lembra tanto de tudo \u00e9 que n\u00e3o espera mais nada da vida.<\/p>\n<p>E a Marcia Zucchi traz esta f\u00f3rmula que ela montou, ela veio com os olhos e a\u00ed n\u00e3o vi mais nada. \u00c9 o corpo que veio com os olhos e a\u00ed n\u00e3o vi mais nada.<\/p>\n<p><strong><em>Amor digno? <\/em><\/strong><em>(segunda discuss\u00e3o)<\/em><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Estamos na quest\u00e3o do amor. Eu estava lembrando que o amor estar\u00e1 na mesma linha do <em>a<\/em>, do \u023a\u00a0e da ang\u00fastia e do ato. Com a diferen\u00e7a de que o amor visa recobrir com v\u00e9u aquilo que seria um buraco nesta passagem.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-3108 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/sem_clin_img_010.png\" alt=\"\" width=\"449\" height=\"235\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Miller diz uma coisa bem interessante, exatamente sobre isto, ele diz que o amor de uma certa forma d\u00e1 um certo tratamento ao objeto <em>a<\/em>, pois ele trata o objeto <em>a<\/em> como se fosse o objeto da falta e o objeto agalm\u00e1tico. Isto \u00e9 bem interessante se pensarmos do lado da histeria, por exemplo. Me parece que cabe perfeitamente.<\/p>\n<p>\u00c9 isto, o amor tem tudo a ver com a ang\u00fastia, com o ato, com a diferen\u00e7a que o amor faz o recobrimento, Miller usa uma palavra forte, ele diz: ele falsifica o objeto <em>a<\/em>. Ele trata o objeto <em>a<\/em> como se fosse um ag\u00e1lma e n\u00e3o como se fosse o dejeto.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: \u00c9 neste sentido que eu estava dizendo que o objeto <em>a<\/em> n\u00e3o cai, n\u00e3o tem este deixar cair no amor.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: No amor n\u00e3o. No amor existe uma utiliza\u00e7\u00e3o, uma falsifica\u00e7\u00e3o, esta palavra \u00e9 boa, existe uma falsifica\u00e7\u00e3o no sentido de que o objeto <em>a<\/em> que seria dejeto passa a ser agalm\u00e1tico. Tratamos o objeto <em>a<\/em> como se fosse um objeto do desejo, como se fosse ele que faltasse.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Quando falamos de uma falsifica\u00e7\u00e3o fica parecendo que o amor \u00e9 s\u00f3 engano.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Foi por isso que falei na procura eterna de Lacan de um amor mais digno, a import\u00e2ncia desta procura \u00e9 um procura do que h\u00e1 no amor, que \u00e9 uma ilus\u00e3o, al\u00e9m da ilus\u00e3o. Isto \u00e9 uma procura bem da psican\u00e1lise. Ser\u00e1 que o amor \u00e9 s\u00f3 um recobrimento da ang\u00fastia e do ato? Ou o amor \u00e9 um pouco como uma rela\u00e7\u00e3o entre prazer e gozo? O que seria um amor que de alguma forma n\u00e3o falsificaria o objeto <em>a<\/em>, mas pudesse levar em conta o car\u00e1ter, digamos real do objeto <em>a<\/em>? Isto \u00e9 um desafio cl\u00ednico de ponta. Fundamental.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Poder\u00edamos dizer que esta frase do condescender&#8230; \u00e9 pelo amor que no desejo ir\u00e1 se escrever o gozo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 isto, exatamente isto. Condescender o gozo no desejo. Exatamente isto. Interessante a palavra condescender, o gozo no desejo \u00e9 um presente do amor, num certo sentido.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Ficou bonito. O gozo no desejo \u00e9 um presente do amor. Isto tudo para dizermos que n\u00e3o est\u00e1 caindo o objeto, mas estamos tendo uma experi\u00eancia do objeto inclu\u00eddo mantendo o desejo ainda. Na ideia de uma vida que continua.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: O que parece que \u00e9 exigido no amor \u00e9 a imaginariza\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>, para que ele possa ser agalm\u00e1tico. \u00c9 interessante, porque na verdade no amor fundamos talvez estribado no objeto <em>a<\/em>, criamos uma nova dimens\u00e3o positiva. \u00c9 diferente do desejo. O amor tem uma positividade mesmo que seja \u00e0 custa da imaginaliza\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em>. N\u00e3o sei se est\u00e1 complicado tudo isto,.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: \u00c9 dif\u00edcil falar do amor de fora. \u00c9 muito dif\u00edcil. Gisele Fleury dizendo: o poema vai do objeto estranho ao agalm\u00e1tico. \u00c9 bem isto.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: A Poliana dizendo: \u00e9 quando a puls\u00e3o esc\u00f3pica cai que o amor entra em cena? Acho que eu concordaria, mas ela n\u00e3o cai, ela \u00e9 inclu\u00edda neste novo espa\u00e7o amoroso.<\/p>\n<p>A Viviane est\u00e1 lembrando que hoje estamos em tempos de amores livres. E a\u00ed?<\/p>\n<p>Amor l\u00edquido seria tudo de que n\u00e3o estamos falando, estamos falando sempre de uma estrutura neur\u00f3tica e ela estaria perturbada com esta ideia do consumo. Encontraremos o objeto agalm\u00e1tico. Podemos compr\u00e1-lo, mas n\u00e3o este sentimento que s\u00f3 no amor vamos encontrar. Isto \u00e9 pr\u00f3prio da neurose.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Parece-me que o car\u00e1ter l\u00edquido que se pode pensar no amor pode ser comparado com o consumo, a meton\u00edmia do objeto de consumo. Digamos, \u00e9 uma sucess\u00e3o supostamente infinita de objetos que iremos consumir, mas n\u00e3o vamos nem topar com a dimens\u00e3o real do objeto nem topar com a dimens\u00e3o da falta do objeto, nem com uma opera\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica, se a meton\u00edmia pudesse ser infinita.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Podemos imaginar da mesma maneira outra coisa. Estamos naquele rio da ang\u00fastia, estamos na falta da falta. \u00c9 o que faz a situa\u00e7\u00e3o de hoje: podemos ter, \u00e9 s\u00f3 comprar, \u00e9 s\u00f3 adquirir. N\u00e3o tem um sentimento que n\u00e3o temos como ter. O objeto n\u00e3o est\u00e1 perdido, o objeto est\u00e1 prometido e esta promessa \u00e9 vivida como uma realidade, n\u00e3o como uma coisa vaga que podemos ter. Ficamos na falta da falta. N\u00e3o tem como deixar cair nada para desejar voltar para ali. O amor l\u00edquido \u00e9 muito mais um outro nome para o que estamos chamando de ang\u00fastia. Ficamos no lugar, estamos afogados no Rubic\u00e3o, mas a vida n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isto. Isto seria a situa\u00e7\u00e3o radical do tempo de hoje. De qualquer maneira, n\u00e3o estamos falando de amor como v\u00e9u, mas estamos falando de amor como promessa do objeto que nos leva para a falta da falta. Ou como Romildo falou, uma infinitiza\u00e7\u00e3o da cadeia de compras em que estamos sempre comprando o pr\u00f3ximo <em>Iphone<\/em>, ent\u00e3o estamos sempre obtendo objetos, n\u00e3o conseguimos perder, n\u00e3o conseguimos perder o \u00faltimo <em>Iphone<\/em>, j\u00e1 vamos logo para o pr\u00f3ximo, nem vemos o que fizemos com o outro, ali\u00e1s, nem sabemos o que fazer. Damos para algu\u00e9m, jogamos numa gaveta. \u00c9 nesta rela\u00e7\u00e3o entre deixar cair e o desejo que Lacan situa todo o drama do amor e da ang\u00fastia neste Semin\u00e1rio. Isto que est\u00e1 dif\u00edcil no amor livre.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 isto. Se bem que o amor l\u00edquido n\u00e3o \u00e9 uma opini\u00e3o de Bauman, \u00e9 uma constata\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma fotografia. Ele notou que o amor, a sociedade, a economia, tem uma por\u00e7\u00e3o de liquidez; ele notou que estas dimens\u00f5es hoje em dia s\u00e3o l\u00edquidas. N\u00e3o \u00e9 uma milit\u00e2ncia dele pelo l\u00edquido. Ele constata.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Pelo contr\u00e1rio, ele quer criticar. \u00c9 uma descri\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma met\u00e1fora descritiva que quase vira conceito, nem sei se podemos chamar de conceito. Tem um valor de dizer uma verdade. O que \u00e9 este l\u00edquido. Come\u00e7amos a descrever os la\u00e7os amorosos de hoje. Proporia que estes la\u00e7os est\u00e3o marcados pela falta da falta e n\u00e3o pela falta. A maneira de traduzir, acho que v\u00e1rios do Campo Freudiano j\u00e1 disseram isto. Por exemplo, o Dany Dufour diz que n\u00e3o estamos mais em tempo de culpa e perda, estamos em tempos de ang\u00fastia e possibilidade, ang\u00fastia e satisfa\u00e7\u00e3o. Tempos de excesso como se diz tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: Ana Beatriz: o amor l\u00edquido estaria mais pr\u00f3ximo do gozo absoluto?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Quando estamos no n\u00edvel da imposi\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, estamos mais pr\u00f3ximos, ao mesmo tempo n\u00e3o estamos, pois o gozo absoluto n\u00e3o tem como chegar. O amor l\u00edquido seria viver num mundo que a promessa do gozo absoluto \u00e9 uma realidade, pois a cren\u00e7a no gozo absoluto poss\u00edvel \u00e9 uma realidade. Se viv\u00eassemos nos tempos mais do Nome do Pai, a cren\u00e7a do gozo absoluto como poss\u00edvel n\u00e3o estava no ar. Agora est\u00e1 no ar. \u00c9 poss\u00edvel, ent\u00e3o temos que.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: A cren\u00e7a existe. Mas o gozo absoluto n\u00e3o existe. \u00c9 por isto que estamos chamando aten\u00e7\u00e3o para a meton\u00edmia infinita da sucess\u00e3o de objeto de investimento amoroso, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O problema \u00e9 que o infinito \u00e9 muito rom\u00e2ntico. Tem que ser o infinito do Tinder. Infinito n\u00e3o \u00e9 que vamos buscando cada vez mais aquela que quer\u00edamos. Infinito \u00e9 o infinito do Tinder.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: N\u00e3o estamos buscando coisa nenhuma. N\u00e3o tem busca nenhuma. Vamos reproduzindo o nosso consumo e cada objeto \u00e9 s\u00f3 um sucessor. O objeto infinito \u00e9 o sujeito quando ele pr\u00f3prio se torna objeto, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Eu n\u00e3o estava dizendo que voc\u00ea estava romantizando. Eu estou dizendo que quando usamos o termo infinito para a sucess\u00e3o meton\u00edmica \u00e9 uma tend\u00eancia tomar isto como quem vai em busca de Deus. N\u00e3o \u00e9 isto. \u00c9 muito mais o infinito do Tinder.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: O infinito \u00e9 da quantidade incont\u00e1vel. Tem uma s\u00e9rie, mas n\u00e3o tem adi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Isto. Por isto \u00e0s vezes fazemos a diferen\u00e7a de infinito e ilimitado.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Temo que tenha sido meio dif\u00edcil, mas chegou em alguma coisa. Quero aproveitar ent\u00e3o, antes de encerrar, para agradecer a voc\u00eas todos a participa\u00e7\u00e3o que tiveram neste Semin\u00e1rio. Eu pessoalmente agrade\u00e7o a Marcus Andr\u00e9 o companheirismo e a presen\u00e7a e a discuss\u00e3o t\u00e3o interessante que tivemos.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Mais uma vez, um prazer e uma honra. \u00c9 um prazer danado.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Bola para frente.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Andr\u00e9a est\u00e1 dizendo que: no amor h\u00e1 um engano porque se esconde um objeto a como dejeto.<\/p>\n<p>Agora tem v\u00e1rias coisas sobre o amor. A Andr\u00e9a agradecendo, a nossa diretora. Temos que agradecer \u00e0 Andr\u00e9a tamb\u00e9m que nos convidou para renovar isto desta vez.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Andr\u00e9a e Marina Morena, que cada vez que tenho um impasse no Zoom ela me ajuda.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Um abra\u00e7o Marina, um abra\u00e7o Andr\u00e9a, um abra\u00e7o gente. Boa noite.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Tchau.[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5404&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5405&#8243; img_size=&#8221;500&#215;149&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sem_clinico_set_2020\"><\/a>Desejo, ang\u00fastia, certeza<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>A pr\u00e1tica da Ang\u00fastia II (14\/09\/20)<\/h6>\n<h6><strong>Semin\u00e1rio Cl\u00ednico da EBP-Rio<\/strong><\/h6>\n<h6><em>Coord: Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do R\u00eago Barros<\/em><\/h6>\n<p><strong><em>Introdu\u00e7\u00e3o e recapitula\u00e7\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcus:<\/strong> Fomos ambiciosos, para variar, por propor um roteiro bem ousado e em tempo restrito. S\u00e3o tr\u00eas encontros sempre com base na mesma li\u00e7\u00e3o 12 do <em>Semin\u00e1rio 10<\/em> de Lacan. \u00c9 um Semin\u00e1rio central no qual ele traz a ideia do objeto <em>a<\/em> a partir da ang\u00fastia.<\/p>\n<p>\u00c9 um objeto paradoxal, estranho, \u00e9 o objeto da estranheza, nos temos de Lacan. \u00c9 o objeto da ang\u00fastia, se podemos aproximar a estranheza da ang\u00fastia. \u00c9 esse, segundo ele o modo de apreender o objeto da psican\u00e1lise, o objeto que faz acontecer uma an\u00e1lise, ou o que \u00e9 o referente de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Conclu\u00edmos que a li\u00e7\u00e3o XII seria a melhor li\u00e7\u00e3o para abordarmos o que \u00e9 o fen\u00f4meno da ang\u00fastia por um lado, e como a an\u00e1lise prop\u00f5e alguma coisa com rela\u00e7\u00e3o a este fen\u00f4meno, por outro. Lacan acaba de trazer seu objeto e delimitar sua especificidade, aqui ele revisa rapidamente esse percurso, com algumas analogias fortes e abre para o que segue: o uso desse objeto pelo analista que ter\u00e1 rela\u00e7\u00e3o com o que vimos anteriormente com Nohem\u00ed Brown sobre a presen\u00e7a do analista e que hoje retomaremos com rela\u00e7\u00e3o ao tema do ato.<\/p>\n<p>Escolhendo esta li\u00e7\u00e3o vimos que dava para dividir em tr\u00eas partes, mesmo, como Miller dividiu, e pensamos que poder\u00edamos dividir nossos encontros nas mesmas tr\u00eas partes.<\/p>\n<p>A primeira parte, corresponde, grosso modo a uma distin\u00e7\u00e3o entre medo e ang\u00fastia, como vimos no encontro passado e o nome pr\u00f3prio de base \u00e9 Tchekov e seus <em>Pavores<\/em>. Lembro a voc\u00eas s\u00f3 duas ou tr\u00eas coisas. Lacan recusa a ideia cl\u00e1ssica de que o medo tem objeto e de que a ang\u00fastia n\u00e3o. Faz duas opera\u00e7\u00f5es fortes. A primeira \u00e9 dizer que sim, vale distinguir os dois afetos, partir dessa distin\u00e7\u00e3o e a segunda \u00e9 a de que n\u00e3o \u00e9 pela presen\u00e7a ou aus\u00eancia do objeto, mas pela diferen\u00e7a qualitativa da apresenta\u00e7\u00e3o dele nos dois casos. O objeto do medo, para come\u00e7ar, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples quanto se pensa. N\u00e3o tenho medo apenas quando um assaltante est\u00e1 na minha frente. O medo pode ser tamb\u00e9m medo de um objeto que s\u00f3 consigo definir como desconhecido. O medo pode vir do encontro com variados tipos de objeto, n\u00e3o apenas concretos, podem, al\u00e9m de inintelig\u00edveis, imaginados.<\/p>\n<p>A diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 se o objeto est\u00e1 presente ou n\u00e3o. Nem se ele \u00e9 conhecido ou n\u00e3o. Mas \u00e9 a de que o objeto da ang\u00fastia \u00e9 <em>indeterminado<\/em>, foi o termo de Lacan que usamos. \u00c9 um objeto estranho, paradoxal, nesta paradoxal estranheza \u00edntima. N\u00e3o consigo colocar delimitar. E quanto a conhecer, tenho a impress\u00e3o de que o conhe\u00e7o. Ao contr\u00e1rio do medo que pode ser de um objeto desconhecido, como demonstra Tchekov, que sempre tenho a impress\u00e3o de um estranho \u00edntimo, que tem a ver comigo, mesmo se n\u00e3o consigo apreend\u00ea-lo pelo saber. O desconhecido ganha formas, inclusive a forma do desconhecido. A forma do objeto \u00e9 exatamente o que \u00e9 dif\u00edcil de fixar na ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Lembrando que a ang\u00fastia \u00e9 o caminho usado por Lacan para chegarmos a isso a que ela nos apresenta. Este objeto est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia. Mas a proposta de Lacan, que tentaremos desdobrar hoje, n\u00e3o \u00e9 que temos que ficar na ang\u00fastia, nem mesmo necessariamente experimentar a ang\u00fastia, mas que com a ang\u00fastia aprendemos sobre o trabalho com este objeto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: A diferencia\u00e7\u00e3o que Lacan faz na parte 1 \u00e9 bem radical. Ele liga o medo ao desconhecido e a ang\u00fastia ao amea\u00e7ador de in\u00edcio. Talvez seja bom, dar uma parada nisto, ou pelo menos chamar aten\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o \u00e9 a primeira intui\u00e7\u00e3o que se tem da diferen\u00e7a entre medo e ang\u00fastia. Primeiro, a pr\u00f3pria diferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o intuitiva assim. E Lacan no <em>Semin\u00e1rio 10<\/em> me pareceu que ele aproxima mais do que afasta o medo da ang\u00fastia, a tal ponto, que somos levados a pensar que a ang\u00fastia \u00e9 a base, os alicerces do medo. Existe sempre uma ang\u00fastia dando fundamento ao medo. Mas Lacan \u00e9 bem claro quando ele chamou o medo do desconhecido e a ang\u00fastia o objeto \u00e9 indeterminado.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Amea\u00e7a ainda \u00e9 uma primeira distin\u00e7\u00e3o, pois amea\u00e7a parece que refere a algu\u00e9m amea\u00e7ando, \u00e9 dif\u00edcil separar o termo da amea\u00e7a de um objeto concreto e conhecido na minha frente. Mas \u00e9 uma amea\u00e7a indeterminada. A frase dele \u00e9 que trata-se de uma amea\u00e7a que me toca no meu mais \u00edntimo. Freud diria um \u201cperigo interno\u201d para falar desta amea\u00e7a. Esse objeto no mais \u00edntimo de mim mesmo, mas que n\u00e3o consigo dizer o que \u00e9, que n\u00e3o consigo apreend\u00ea-lo, mas que me provoca essa mobiliza\u00e7\u00e3o intens\u00edssima que vai nos interessar, a mobiliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a ang\u00fastia, essa mobiliza\u00e7\u00e3o tem a ver com o que acontece numa an\u00e1lise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Tr\u00eas frases <\/em><\/strong><\/p>\n<p>A segunda parte \u00e9 a que passamos a apresentar a voc\u00eas agora. Para desdobrar a segunda parte, achamos que para poder ir r\u00e1pido pod\u00edamos tomar os tr\u00eas exemplos que Lacan d\u00e1 nessa parte para desenhar um pouco o que \u00e9 este objeto.<\/p>\n<p>Ele faz isto de in\u00fameras maneiras no ensino dele, todos sabem, e muitas vezes durante muito tempo a partir deste Semin\u00e1rio ele dar\u00e1 prefer\u00eancia \u00e0 matem\u00e1tica, \u00e0 l\u00f3gica, \u00e0 topologia para termos a experi\u00eancia desta coisa que \u00e9 e n\u00e3o \u00e9 e que \u00e9 dentro e que \u00e9 fora e que \u00e9 minha e n\u00e3o minha, que n\u00e3o est\u00e1 nem em mim e nem no outro.<\/p>\n<p>Neste Semin\u00e1rio a coisa \u00e9 mais imaginada, mais imagin\u00e1rio, e por isto \u00e9 interessante tamb\u00e9m, fica mais vivo. O que Lacan far\u00e1 neste primeiro tempo, n\u00e3o darei as cita\u00e7\u00f5es desta parte, mas darei as tr\u00eas frases que pensamos, que ordenariam um pouco o desenrolar que falaremos hoje.<\/p>\n<p>Estas tr\u00eas frases n\u00e3o est\u00e3o nesta segunda parte, mas extra\u00edmos desse Semin\u00e1rio. Elas desenham essa li\u00e7\u00e3o e balizam um caminho de chegada a esse objeto <em>a<\/em>, assim como um caminho de interroga\u00e7\u00e3o e aposta, a posta de que acionando este objeto produz-se a reviravolta e a subvers\u00e3o pr\u00f3prias de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>\u00c9 uma sequ\u00eancia de fala sobre a ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>1)<\/strong> A falta \u00e9 \u201cuma car\u00eancia positiva\u201d (p. 283) um \u201cvazio estruturante\u201d (p. 67) \u201cSe a falta de repente n\u00e3o faltar \u00e9 nesse momento que come\u00e7ar\u00e1 a ang\u00fastia\u201d (p. 52).<\/p>\n<p>Isto tudo podemos resumir com a famosa frase: \u201cA ang\u00fastia \u00e9 a falta da falta\u201d.<\/p>\n<p>Lembro de um texto do Bernardino que dizia: a castra\u00e7\u00e3o \u00e9 a alegria dos homens. Mas tem alguma coisa neste sentido. Precisamos de falta para deseja. Ent\u00e3o, A falta \u00e9 \u201cuma car\u00eancia positiva\u201d, um \u201cvazio estruturante\u201d e a ang\u00fastia \u00e9 o surgimento da falta sob uma forma positiva, ou seja, quando a falta de repente n\u00e3o falar. \u00c9 neste momento que come\u00e7a a ang\u00fastia (p. 52).<\/p>\n<p>J\u00e1 abordaremos a falta da falta, mas antecipamos a segunda frase:<\/p>\n<p><strong>2)<\/strong> \u201cAgir \u00e9 arrancar da ang\u00fastia sua certeza\u201d (p. 88).<\/p>\n<p>Este \u00e9 o ponto que vai nos permitir fazer a virada que queremos, a de que n\u00e3o vamos \u00e0 an\u00e1lise para nos angustiar, mas para descobrir o que a ang\u00fastia traz como certeza.<\/p>\n<p>Como isto ser\u00e1 feito? Nisto que Lacan chama de ato anal\u00edtico e que ele diz que se funda \u201cnuma estrutura paradoxal\u201d. A estrutura paradoxal \u00e9 que est\u00e1 aqui.<\/p>\n<p><strong>3)<\/strong> No ato anal\u00edtico: \u201cO objeto \u00e9 ativo e o sujeito subvertido\u201d (Outros Escritos p. 332).<\/p>\n<p>Quem a princ\u00edpio enuncia suas frases em an\u00e1lise, vai sair subvertido, e quem age essa subvers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 quem enuncia, mas o que, em seu enunciado \u00e9 ele mesmo como objeto. Quem age \u00e9 o enunciado e n\u00e3o quem o enuncia, para ficar de uma maneira mais simples.<\/p>\n<p>S\u00e3o estes nossos passos hoje. O primeiro passo \u00e9 o da falta da falta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A falta da falta<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Estamos agora no primeiro tempo que \u00e9 o da falta da falta. \u00c9 neste tempo que corresponde tamb\u00e9m a momento da presen\u00e7a do objeto, deste nosso objeto estranho.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a falta da falta? Lacan recorrer a tr\u00eas exemplos: \u00c9dipo, Santa Luzia e Santa \u00c1gata.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 o \u00c9dipo que conhecemos. \u00c9 quando o ex-\u00c9dipo Rei j\u00e1 avan\u00e7ou em busca da verdade.<\/p>\n<p>Estamos retomando uma parte do <em>Semin\u00e1rio 17<\/em> e uma conversa que tivemos um pouco antes com a Ros\u00e1rio. Temos v\u00e1rias passagens do <em>Semin\u00e1rio 17<\/em> que ajudam muito a retomar posteriormente o que estamos falando.<\/p>\n<p>Vou contar como se fosse um personagem bem neur\u00f3tico para facilitar. \u00c9dipo avan\u00e7a em busca da verdade sempre. Ele quer ver, poder\u00edamos dizer que ele quer saber. Ele quer a vis\u00e3o da coisa em si. Por isso ele vai tr\u00e1s da esfinge, ele quer ver o perigo que assola Tebas. Vence-a por conseguir at\u00e9 abrir m\u00e3o da necessidade da verdade e poder jogar com enigmas, mas isso n\u00e3o o cura do desejo da verdade porque torna-se rei e quando a peste cai sobre Tebas, ele quer saber, ele quer ver qual a causa da peste. Tiresias diz a ele algo como afirma Guimar\u00e3es Rosa: o pior cego \u00e9 o que quer ver, mas ele insiste.<\/p>\n<p>Se pud\u00e9ssemos, n\u00e3o sei se vai dar, mas seria \u00f3timo poder pensar como indica\u00e7\u00e3o do Laurent e que o Ram retomou sobre a discuss\u00e3o sobre ex\u00edlios, hoje dever\u00edamos come\u00e7ar a pensar o que seria o \u00c9dipo a partir do ponto de vista da peste. Agora estamos no ponto de vista do \u00c9dipo.<\/p>\n<p>Nisto ele vai encontrar o parric\u00eddio e o incesto dele e neste ponto ele arranca seus olhos e sai em ex\u00edlio pelo mundo com sua filha Ant\u00edgona a ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<p><em>\u00c9dipo em Colona<\/em> parte da\u00ed. \u00c9 desse \u00e9dipo que Lacan fala nesse semin\u00e1rio. Estamos agora no p\u00f3s-tr\u00e1gico da primeira trag\u00e9dia. A cena que Lacan traz s\u00e3o os olhos de \u00c9dipo no ch\u00e3o. O que acontece com ele naquela hora dos olhos no ch\u00e3o? \u00c9 muito estranho. N\u00e3o pensem apenas em mutila\u00e7\u00e3o, perda, dor, mas perguntem-se: estes olhos olham? \u00c9dipo v\u00ea seus olhos? Os olhos n\u00e3o s\u00e3o materializa\u00e7\u00e3o daquilo que era o excesso do desejo de \u00c9dipo? N\u00e3o podemos dizer que de certa forma esses olhos nos olham dizendo isso? Vejam no que d\u00e1 querer olhar demais?<\/p>\n<p>Entendo que \u00e9 o que Lacan quer marcar. N\u00e3o \u00e9 tanto o castigo, como se o gozo do olhar de \u00c9dipo tivesse sido arrancado dele, mas a materializa\u00e7\u00e3o desse gozo. Ele n\u00e3o est\u00e1 mutilado necessariamente, ele n\u00e3o est\u00e1 castrado, ele est\u00e1 no horror, pois ele era este olhar.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 perda. Ali, acontece o imposs\u00edvel os olhos n\u00e3o est\u00e3o mais ali, ao mesmo tempo estando. Ele n\u00e3o est\u00e1 mais no registro da falta, do desejo de ver como falta de olhar o que o faz olhar. Ele est\u00e1 na presen\u00e7a do que o faz olhar e n\u00e3o \u00e9 um objeto que falta, \u00e9 seu pr\u00f3prio gozo de olhar que ele v\u00ea. N\u00e3o s\u00e3o os olhos como materializa\u00e7\u00e3o do objeto que falta a ver, falta a ser de \u00c9dipo, mas os olhos como sua verdade presente: ele quer ver porque goza vendo, s\u00f3.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Tentaria completar um pouco com os dois exemplos seguintes que Lacan d\u00e1 que \u00e9 com Santa Luzia, que \u00e9 uma santa importante no Brasil, ela \u00e9 bem conhecida, \u00e9 padroeira de v\u00e1rios lugares, e Santa \u00c1gata, que \u00e9 menos conhecida. S\u00e3o duas Santas m\u00e1rtires mais ou menos da mesma \u00e9poca, S\u00e9culo III e IV, bem no come\u00e7o do Cristianismo e a hist\u00f3ria \u00e9 praticamente a mesma das duas. As duas para defenderem a virgindade se negam a ceder e s\u00e3o condenadas a extra\u00e7\u00e3o dos olhos para Luzia e dos seios para \u00c1gata. \u00c9 interessante notar que as imagens e a iconografia das duas na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 muito semelhante. Luzia tem olhos ao mesmo tempo ela apresenta numa esp\u00e9cie de bandeja os dois olhos extra\u00eddos dela.<\/p>\n<p>Isto \u00e9 quase tudo. Os olhos est\u00e3o em cena. E \u00c1gata mant\u00e9m os dois seios no corpo e tamb\u00e9m segura uma bandeja com os dois seios arrancados como puni\u00e7\u00e3o do Imperador Diocleciano, ou alguma coisa por a\u00ed.<\/p>\n<p>O nosso esfor\u00e7o \u00e9 tentar localizar a ang\u00fastia neste movimento dos objetos. Eu traria o falo nesse sentido. Podemos dizer que tudo come\u00e7a com a fun\u00e7\u00e3o f\u00e1lica destas partes do corpo cuja falta imp\u00f5e uma falta f\u00e1lica e falta f\u00e1lica aqui \u00e9 no mesmo sentido que se fala no Pequeno Hans, a falta f\u00e1lica \u00e9 aquilo que falta ao Outro, que o sujeito \u00e9 condenado, \u00e9 chamado a suprir.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Aqui eu tinha vontade de fazer uma nota de roda p\u00e9 e dizer que entendam \u201co falo que importa\u201d \u00e9 o falo como falta, o regime f\u00e1lico \u00e9 o regime da falta. Todos tendemos a pensar o falo mais como o falo imagin\u00e1rio, o falo do poder, da completude.<\/p>\n<p>Me parece que o falo tem que ser pensado como algo que falta, um objeto que falta por defini\u00e7\u00e3o, mas que est\u00e1 na base de fantasia de completar o outro. Tem que ser pensado na articula\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o temos n\u00e3o entendemos qual \u00e9 a m\u00e1quina da neurose.<\/p>\n<p>O caso Hans nos ensina muito. Lacan chega a falar no <em>Semin\u00e1rio 4<\/em> que antes daquela experi\u00eancia de ang\u00fastia Hans vivia num para\u00edso, nunca esqueci este termo que Lacan usa. Hans vivia num para\u00edso que era o que a tradi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica chama de simbiose ou de coisa parecida.<\/p>\n<p>Temos que pensar que a complementa\u00e7\u00e3o do Outro que num certo sentido \u00e9 o horizonte da possess\u00e3o f\u00e1lica \u00e9 ao mesmo tempo fundada no objeto que falta.<\/p>\n<p>Como isto se articula visando a falta da falta? Isto \u00e9 o que podemos aprender com Luzia e com \u00c1gata.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria se diz que Luzia teve um milagre de aparecerem novos olhos vendo, mais lindos que os de antes e que ela fica vendo os pr\u00f3prios olhos perdidos. N\u00e3o precisamos ir nesta dire\u00e7\u00e3o. Podemos dizer que aquela complementa\u00e7\u00e3o que falta na rela\u00e7\u00e3o do sujeito com falo, ou seja, aquilo que complementaria o Outro, qualquer crian\u00e7a para a m\u00e3e, fantasmas fetichistas etc. s\u00e3o de certa forma realizados na ang\u00fastia. \u00c9 quando o objeto aparece no sujeito, n\u00e3o mais faltante por defini\u00e7\u00e3o, mas como positivo. Tem aqui esta express\u00e3o, acho perfeita, a falta sob uma forma positiva.<\/p>\n<p>A passagem para a ang\u00fastia \u00e9 exatamente pela anula\u00e7\u00e3o do objeto f\u00e1lico.<\/p>\n<p><strong>Marcus:<\/strong> Eu pegaria um exemplo, ante do ato ainda, na falta da falta ainda, vemos como \u00e9 dif\u00edcil a rela\u00e7\u00e3o com o objeto que se perde. Por exemplo, o objeto que se perde e \u201cera tudo para mim\u201d, isto n\u00e3o produz falta, para lembrar este paradoxo; isto produz ang\u00fastia, pois como ele era tudo para mim \u00e9 como se tiv\u00e9ssemos como algo mais presente depois que ele vai embora. \u00c9 s\u00f3 para mostrar o paradoxo. E ao contr\u00e1rio tamb\u00e9m. Quando temos um objeto que \u00e9 tudo para mim e eu alcan\u00e7o, temos este sentimento de falta da falta. O arruinado do \u00eaxito, do Freud, \u00e9 mais ou menos esta ideia, se o objeto encarnou para mim aquela cobertura no Leblon quando cheguei do Cear\u00e1, encarnou tudo para mim e passei 20 anos trabalhando para ela, quando chegamos nela, a sensa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 de realiza\u00e7\u00e3o, exatamente, n\u00e3o \u00e9 de certeza, \u00e9 de ang\u00fastia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Desejo, ang\u00fastia e certeza<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Ontem, conversando, t\u00ednhamos pensado que podemos localizar numa an\u00e1lise esses tr\u00eas momentos de que acabamos de falar. Existe, primeiramente, o momento do objeto como falta. A seguir, existe a falta da falta, que \u00e9 o momento da ang\u00fastia. E existe o que chamamos de um novo tipo de falta, o que talvez seja nossa tarefa tentar definir hoje. \u00c9 uma nova falta que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a falta f\u00e1lica, mas que seria a falta localizada pela sa\u00edda da ang\u00fastia.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que a ang\u00fastia seja o horizonte ou a estrat\u00e9gia do psicanalista, mas quando Lacan diz que o ato retira da ang\u00fastia sua certeza, ele tamb\u00e9m est\u00e1 falando, me parece do fen\u00f4meno da ang\u00fastia. A fun\u00e7\u00e3o do psicanalista, decididamente n\u00e3o de angustiar seu paciente, mas n\u00e3o se deve esquecer que em algum lugar Lacan diz que a orienta\u00e7\u00e3o que um analista pode ter de que em que ponto pode estar seu paciente \u00e9 a ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A an\u00e1lise \u00e9 n\u00e3o sem ang\u00fastia, para usar a express\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Talvez se possa dizer isto: a an\u00e1lise \u00e9 n\u00e3o sem ang\u00fastia, no sentido de que a passagem pela ang\u00fastia pela an\u00e1lise tamb\u00e9m pode ser indeterminada. Como a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o do objeto da ang\u00fastia.<\/p>\n<p>Quero salientar a tentativa de estabelecer tr\u00eas momentos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 falta.<\/p>\n<p>Temos a falta, por exemplo na neurose, isto pode perfeitamente levar um sujeito para an\u00e1lise, a falta do objeto, quer seja diante de uma reivindica\u00e7\u00e3o excessiva do Outro do seu objeto, quer seja do sentimento que tem o sujeito de que ele falta. Isto qualquer uma das duas situa\u00e7\u00f5es pode conduzir o sujeito a pedir uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>H\u00e1, por outro lado, certa aproxima\u00e7\u00e3o do Real que estamos considerando do ponto de vista da ang\u00fastia. Lacan come\u00e7a o Semin\u00e1rio dizendo que a ang\u00fastia \u00e9 sempre por aproxima\u00e7\u00e3o, na verdade ela n\u00e3o se apodera do objeto, ela \u00e9 sempre algo por aproxima\u00e7\u00e3o. Podemos dizer que h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o da ang\u00fastia, n\u00e3o que seja uma estrat\u00e9gia do psicanalista, mas como efeito do trabalho anal\u00edtico, o sujeito passa a ter uma certa aproxima\u00e7\u00e3o com a duplica\u00e7\u00e3o do objeto, neste sentido como voc\u00ea estava falando da falta da falta.<\/p>\n<p>E h\u00e1 a sa\u00edda da falta da falta, isto \u00e9 cl\u00e1ssico no ensino de Lacan, pelo o ato.<\/p>\n<p>O primeiro em torno da falta f\u00e1lica.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Que podemos chamar de tempo do desejo tamb\u00e9m, n\u00e3o no sentido maior.<\/p>\n<p>Sim. O segundo \u00e9 o tempo da ang\u00fastia e o terceiro o tempo do ato.<\/p>\n<p>Podemos usar, apesar de n\u00e3o serem os mesmos dados, aquela conta de divis\u00e3o que Lacan faz, no come\u00e7o do cap\u00edtulo 12.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2978 aligncenter\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/equacao.png\" alt=\"\" width=\"311\" height=\"226\" \/><\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre o Outro, objeto e o terceiro \u00e9 o efeito subjetivo da sua separa\u00e7\u00e3o que \u00e9 o $, \u00e9 a pr\u00f3pria dimens\u00e3o do desejo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Temos que ir bem devagar. Poder\u00edamos esquematizar dizendo dos tr\u00eas tempos. O tempo do desejo, o tempo da ang\u00fastia e o tempo da certeza. Essa esquematiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 mostra que n\u00e3o se trata de uma progress\u00e3o. A an\u00e1lise vai andando em torno destas experi\u00eancias, a experi\u00eancia do desejo, da ang\u00fastia e da certeza (que \u00e0s vezes chamamos a experi\u00eancia da causa do desejo).<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Se a an\u00e1lise visa o ato anal\u00edtico, acho que mais do que nunca a ideia de Lacan, segunda a qual o ato extrai da ang\u00fastia sua certeza.<\/p>\n<p>Acho que aqui temos as tr\u00eas frases que trouxemos a partir de Lacan, a falta, a falta da falta, a certeza do ato vinda da ang\u00fastia, o que a an\u00e1lise visa. No caso s\u00e3o quatro, pois h\u00e1 o momento pr\u00e9-hist\u00f3rico da falta f\u00e1lica, do objeto como falo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Agora passar\u00edamos para pensar justamente este regime do ato que culminar\u00e1 na certeza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Perguntas: <\/strong>Qual seria a diferen\u00e7a entre priva\u00e7\u00e3o e castra\u00e7\u00e3o? Luciana Monnerat perguntando. Eduardo Benedito: o analista convoca o sujeito a se depara com o horror e da\u00ed passar para o ato? Parece super angustiante a an\u00e1lise. Angela Bernardes: E a diferen\u00e7a entre ato e passagem ao ato?<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O ato<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Para o ato eu queria usar o exemplo, j\u00e1 falei isto em outros lugares, o exemplo de Julio C\u00e9sar. O contexto primeiro. Julio C\u00e9sar era um general com tropas e o governo de Roma proibiu os generais de entrarem em Roma, por raz\u00f5es evidentes, se os militares entram em Roma, como eles podem dar um golpe de Estado. Eles tinham que ficar no riacho Rubic\u00e3o. Eles podiam chegar at\u00e9 Rubic\u00e3o e n\u00e3o podiam atravessar. A grande fa\u00e7anha de Julio C\u00e9sar \u00e9 que ele atravessou o Rubic\u00e3o e a partir da\u00ed o destino dele mudou completamente. Ele terminou imperador e terminou assassinado. Era um grande general, era um escritor tamb\u00e9m, Julio C\u00e9sar, o livros dele sobre a Guerra G\u00e1lica, <em>De Bello Gallico<\/em> \u00e9 um livro muito bem constru\u00eddo que narra detalhes de como foi a batalha dele contra os gauleses, quem n\u00e3o conhece Ob\u00e9lix e Ast\u00e9rix que resistem a esta domina\u00e7\u00e3o romana.<\/p>\n<p>Ele se aproxima do Rubic\u00e3o, sabendo que \u00e9 proibido. Neste momento, n\u00e3o tenho informa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica nenhuma, mas podemos imaginar que ele se detendo na beira do Rubic\u00e3o, isto \u00e9 caracterizado pelo momento da ang\u00fastia, pelo momento da falta da falta. Antes havia uma falta, ele \u00e9 um general proibido de entrar em Roma, poderia ser uma formula\u00e7\u00e3o da falta. Diante do Rubic\u00e3o, ele est\u00e1 no momento da ang\u00fastia de que falta aquela falta que fazia que ele fosse somente um general que n\u00e3o pode ir \u00e0 Roma.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Para ficar bem claro fica assim: ele n\u00e3o tem mais volta. A ang\u00fastia \u00e9 um sentimento. Ele est\u00e1 ali, se ele quer voltar n\u00e3o tem problema.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 isto, nunca vamos saber o que passou pela cabe\u00e7a de Julio C\u00e9sar, mas basta dizer, para saber o efeito da passagem da ang\u00fastia para o ato, basta pensar que ele n\u00e3o tem outra coisa para fazer. Quando ele atravessa o Rubic\u00e3o o destino dele foi retra\u00e7ado e ele nunca mais ser\u00e1 um general com comando de exercito etc. Ele vai se embrenhar na pol\u00edtica de Roma at\u00e9 virar Imperador e at\u00e9 ser assassinado. O que eu queria chamar aten\u00e7\u00e3o de voc\u00eas \u00e9 para a passagem da ang\u00fastia para o ato. A passagem da ang\u00fastia para o ato, significa a falta da falta. Podemos imaginar Julio C\u00e9sar diante do Rubic\u00e3o, \u00e9 a falta da falta e tendo atravessado este riacho ele reestabelece uma nova falta que n\u00e3o \u00e9 a mesma do General que nunca poderia entrar em Roma.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A frase do Lacan no Semin\u00e1rio sobre isto \u00e9: ap\u00f3s o ato, o sujeito reencontra sua presen\u00e7a renovada.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 isto. Isto \u00e9 o que estamos chamando de uma nova falta. Uma nova falta. Quando Lacan diz no <em>Semin\u00e1rio 15<\/em>, mas ele diz tamb\u00e9m no 10 que o ato retira da ang\u00fastia sua certeza \u00e9 a certeza necess\u00e1ria para se dar este passo. Aqui acho que clinicamente podemos encontrar exemplos numerosos. De como \u00e9 que um ato \u00e9 tornado poss\u00edvel pelo esgotamento da falta da falta ou pelo esgotamento da ang\u00fastia. Isto que o Marcus estava dizendo que n\u00e3o \u00e9 que o analista empurre o sujeito para a ang\u00fastia, mas n\u00e3o h\u00e1 como se encarar o ato sem ter algum tipo de contato com a falta da falta. Que n\u00e3o seja necessariamente o afeto da ang\u00fastia, voc\u00ea se arrebentar de ang\u00fastia, mas o que acontece com o sujeito quando a l\u00f3gica do complemento f\u00e1lico n\u00e3o funciona. Esta seria uma outra maneira de definir a ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Colocando nos termos da nossa cultura liberal, voc\u00ea est\u00e1 dizendo que a certeza come\u00e7a al\u00e9m da zona de conforto. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a gente chegar numa nova rela\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria falta ou castra\u00e7\u00e3o na certeza de uma outra rela\u00e7\u00e3o se n\u00e3o deixamos em algum momento nesta \u00e1rea que \u00e9 delimitada pela ang\u00fastia, esta \u00e1rea que nos ide\u00e1rio liberais de hoje \u00e9 \u201czona de conforto\u201d.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: N\u00e3o sei se a palavra conforto d\u00e1 conta disto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Se supomos que a falta f\u00e1lica nos leva para an\u00e1lise h\u00e1 um desconforto. A falta da falta, entendemos como algo desconfort\u00e1vel. E o ato, podemos pensar que h\u00e1 uma imposi\u00e7\u00e3o absoluta, j\u00e1 que h\u00e1 uma dessubjetiv\u00e7\u00e3o da passagem da ang\u00fastia para o ato. N\u00e3o podemos esquecer, n\u00e3o h\u00e1 sujeito do ato. Quer dizer, Julio Cesar do Rubic\u00e3o, isto \u00e9 importante, e atravessando o Rubic\u00e3o existe um <em>des-Cesar-Julicisa\u00e7\u00e3o<\/em>. Existe um esvaziamento, por exemplo, da divis\u00e3o de Julio C\u00e9sar de saber se enfrentava ou n\u00e3o o risco de entrar em Roma.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Este paradoxo \u00e9 excelente, pois sen\u00e3o, pensaremos no ato, como ato do her\u00f3i, ele n\u00e3o tem divis\u00e3o, ele avan\u00e7a na certeza. N\u00e3o, ele vai porque \u00e9 objeto. E esta \u00e9 a terceira frase: <em>no ato anal\u00edtico o objeto \u00e9 ativo e o sujeito \u00e9 subvertido<\/em>. O que ele era antes se torna outra coisa no final.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: O que ele est\u00e1 falando est\u00e1 em torno da quest\u00e3o de como algu\u00e9m se torna analista. N\u00e3o se \u00e9 valiosa esta imagem da travessia do Rubic\u00e3o, ela na forma\u00e7\u00e3o do analista \u00e9 interessante no sentido que existe um esvaziamento subjetivo, nesta travessia, na dire\u00e7\u00e3o do ato. N\u00e3o \u00e9 nenhum horizonte m\u00edstico, mas \u00e9 verdade que n\u00e3o \u00e9 com sua subjetividade que o sujeito extrai sua certeza da ang\u00fastia. Essa extra\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: De outro jeito, para simplificar, se voc\u00ea n\u00e3o for arrastado e a\u00ed que \u00e9 a ideia do objeto, se voc\u00ea n\u00e3o for arrastado voc\u00ea n\u00e3o faz, porque o sujeito n\u00e3o faz, quem faz \u00e9 voc\u00ea como objeto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Isto significa que n\u00e3o \u00e9 com minhas qualidades pessoais que fa\u00e7o isso, nem com meus talentos, nem com a beleza de meu car\u00e1ter. Existe uma transforma\u00e7\u00e3o a\u00ed. \u00c9 dif\u00edcil discutir isto e pode conduzir a uma m\u00e1 compreens\u00e3o do analista ou como um her\u00f3i ou como uma outra vers\u00e3o do perverso. Exige que esta rela\u00e7\u00e3o da aus\u00eancia ou da falta do objeto da positiva\u00e7\u00e3o deste objeto e de uma nova falta do objeto, esta nova falta do objeto se deve ao fato de que foi o pr\u00f3prio sujeito que se tornou objeto. Diferentemente do falo materno nas fobias infantis, de Hans, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: Quest\u00f5es em torno disto, Romildo. Duas quest\u00f5es em torno disto. Chegamos num ponto bom. Duas quest\u00f5es que v\u00e3o para onde estamos falando. Uma \u00e9 a M\u00e1rcia Zucchi, ent\u00e3o h\u00e1 uma restaura\u00e7\u00e3o do desejo p\u00f3s-acontecimento. Eu queria modular um pouco, aproveitando, quando falamos ato, fica parecendo, de novo, o ato \u00e9 sem sujeito para Lacan. Ent\u00e3o, eu n\u00e3o fa\u00e7o um ato. Quando falamos um analista fez um ato, n\u00e3o o analista fez coisas. Ent\u00e3o, se aconteceu alguma coisa ali nos registros do ato, foi o objeto que agiu, esta \u00e9 a tese do Lacan. O ato \u00e9 sem sujeito.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Poder\u00edamos falar tamb\u00e9m al\u00e9m de ato, <em>acontecimento<\/em>. Se acontece alguma coisa na an\u00e1lise \u00e9 porque houve esta passagem de um sujeito que enunciava para um lugar de objeto, o objeto aconteceu e o sujeito se reencontrou depois. A\u00ed eu concordo com a M\u00e1rcia que h\u00e1 uma reinstaura\u00e7\u00e3o do desejo nessa nova reconfigura\u00e7\u00e3o p\u00f3s-acontecimento. Proponho que se acrescente acontecimento para tomarmos igualmente um vocabul\u00e1rio deleuziano. Ato traz consigo a fantasia do ideal, acontecimento esvazia a ideia de um sujeito do ato.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: <em>Ato<\/em> tem uma dignidade muito grande no ensino de Lacan, ele tem um semin\u00e1rio que se chama <em>O <\/em><em>Ato Psicanal\u00edtico<\/em>, o ato psicanal\u00edtico seria o paradigma do ato como tal.<\/p>\n<p>Sobre o ato n\u00e3o ter sujeito. Podemos ver que na pr\u00e1tica anal\u00edtica o ato n\u00e3o tem sujeito pois \u00e9 o sujeito tornado objeto. Na forma do psicanalista, mas em outras. Peguem Sergio Ricardo quebrando o viol\u00e3o em 67 e jogando na massa. Ali a h\u00e1 um ato e uma dessubjetiva\u00e7\u00e3o. Ele nunca p\u00f4de responder por este ato, como sujeito. A menos que ele se diga her\u00f3i, etc.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O que n\u00e3o impede que possa encontrar sua presen\u00e7a como sujeito renovado depois do ato. Pode ser que ele fique na ang\u00fastia, pode ser que n\u00e3o. Mas ele provavelmente encontra.<\/p>\n<p><strong>Romildo:<\/strong> Ele pode dizer foi meu desejo. Mas na hora do ato ele nem sabia disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Mas a nobreza \u00e9 essa. A nobreza do ato anal\u00edtico. Fico imaginando Lacan rindo. A nobreza do ato \u00e9 feita pelo dejeto. O resto \u00e9 o nobre no ato, \u00e9 o que age no ato. A dignidade do analista \u00e9 poder ser objeto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Em <em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos<\/em> de J. A. Miller, ele diz que o analista n\u00e3o fica na posi\u00e7\u00e3o de dejeto porque ele fica como base de um novo discurso.<\/p>\n<p>Se da travessia do Rubic\u00e3o n\u00e3o sa\u00edsse nenhum ato, seria s\u00f3 dejeto, por exemplo, Julio C\u00e9sar seria condenado \u00e0s galeras. Ent\u00e3o, existe em algum sentido uma resubjetiva\u00e7\u00e3o, mas renovado \u00e9 outra coisa, \u00e9 desejarmos com a hip\u00f3tese do objeto. Entenda que o objeto j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o objeto que voc\u00ea anseia que lhe complete, mas \u00e9 o objeto que \u00e9 causado pelo objeto indeterminado. E que sua an\u00e1lise visa perseguir.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Lembro tamb\u00e9m que ele diz, o que faz um analista transformar sua posi\u00e7\u00e3o de objeto numa pr\u00e1tica, condi\u00e7\u00e3o de uma pr\u00e1tica. Ele pratica ser o objeto <em>a<\/em> por um certo tempo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 mais ou menos isso que Miller diz na salva\u00e7\u00e3o pelo dejeto. O analista na posi\u00e7\u00e3o de dejeto na base de um novo discurso.<\/p>\n<p><strong>Perguntas<\/strong>: A quest\u00e3o do Miguel, eu acho que ela pode ajudar porque ela coloca o tema de onde isto termina. Vou ler: \u201c\u00c9 natural que ent\u00e3o nunca nos realizemos, em vez disso criamos novos prop\u00f3sitos quando concretizamos os primeiros ou permane\u00e7amos na ang\u00fastia e que s\u00f3 temos um destes dois destinos?\u201d Podemos imaginar este processo se infinitizando, o objeto ligado ao sujeito.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: O qu\u00ea se infinitizando?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Um sujeito, um acontecimento, por exemplo, o acontecimento interpretativo, o objeto que eu sou para o Outro se apresenta para mim, eu sa\u00ed modificado. Eu posso fazer isto eternamente, n\u00e3o?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Sim, mas a modifica\u00e7\u00e3o que ele sofreu vai ter efeito nesta nova experi\u00eancia, \u00e9 a mesma l\u00f3gica de com fim ou sem fim da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Exatamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Ato e certeza<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Uma marca fica dessa \u201cnova falta\u201d, mas ao mesmo tempo o sujeito est\u00e1 sujeito a experi\u00eancias de confronto com a falta da falta. Seria pedir muito que a psican\u00e1lise livrasse o sujeito da ang\u00fastia. O que ela facilita \u00e9 a passagem da ang\u00fastia para o ato, acho que isto \u00e9 uma facilita\u00e7\u00e3o permanente. Esta o sujeito n\u00e3o perde, se tiver feito an\u00e1lise. Mas ao mesmo tempo existem as ang\u00fastias.<\/p>\n<p>Hoje eu estava me lembrando, acho que no <em>Semin\u00e1rio 11<\/em>, voc\u00ea me disse, eu n\u00e3o me lembrava, quando Lacan disse, seria interessante saber, como \u00e9 que algu\u00e9m que levou an\u00e1lise at\u00e9 o fim vive a puls\u00e3o. \u00c9 uma pergunta preciosa. Talvez seja dific\u00edlima de responder. Mas \u00e9 preciosa. O que acontece no sujeito quando ele se v\u00ea \u00e0s voltas com uma irrup\u00e7\u00e3o do real. Na puls\u00e3o tudo bem, mas tamb\u00e9m na ang\u00fastia.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Estamos associando ato anal\u00edtico \u00e0 ideia da passagem, do final da an\u00e1lise. Eu afirmaria que esta estrutura se apresenta desde o come\u00e7o da an\u00e1lise, acho importante. Algumas interpreta\u00e7\u00f5es tem esta estrutura de \u201cnova falta\u201d, acontece alguma coisa, que estamos chamando de ato e a produ\u00e7\u00e3o do novo lugar de sujeito.<\/p>\n<p><strong>Perguntas:<\/strong> Paola: ao final da an\u00e1lise o ato do lado do analisante parece uma sa\u00edda, o ato do analisante tamb\u00e9m seria arrastado? Acho que sim. Seria ser arrastado, no lugar de objeto, mas poder estar nesse lugar, habit\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, t\u00ednhamos pensado numa situa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos conversando e me veio uma situa\u00e7\u00e3o, justamente, de relato de passe, mas que \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o de come\u00e7o de an\u00e1lise. Tive uma ideia, vou apresentar para voc\u00eas a ideia que tive, que conversamos Romildo e eu. Depois fui olhar, n\u00e3o \u00e9 bem assim, mas acho que d\u00e1 para manter a estrutura, vou tentar defend\u00ea-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O falo e o fogo (fragmento cl\u00ednico)<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de um fragmento do relato de passe de Patricia Bosquin-Caroz, a refer\u00eancia \u00e9 <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 58<\/em>, o t\u00edtulo \u201cA-paixonada\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 uma longa an\u00e1lise, toda vida dela, \u00e9 s\u00f3 uma cena que vamos falar. \u00c0s tantas na an\u00e1lise ela tem uma posi\u00e7\u00e3o, se eu me lembro bem, uma m\u00e3e abandonada, mais para melanc\u00f3lica e ela o guerreiro que vai sustentar a m\u00e3e, salvar a m\u00e3e, manter a m\u00e3e em vida, ela \u00e9 super, dir\u00edamos no jarg\u00e3o corriqueiro, f\u00e1lica. Ela \u00e9 ativa, \u00e9 o falo da m\u00e3e, sustenta a m\u00e3e. Ela traz para a an\u00e1lise uma cena marcando que foi ali o come\u00e7o de uma fobia de avi\u00e3o. Esta situa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 interpretada. \u00c9 a seguinte:<\/p>\n<p><em>Ela est\u00e1 com a m\u00e3e no avi\u00e3o, muita turbul\u00eancia, noite escura, chuva l\u00e1 fora, tempestade e ela ali vai pegar a m\u00e3o da m\u00e3e, a m\u00e3e est\u00e1 olhando pela janela, ela chega perto da m\u00e3e para consol\u00e1-la e ouve a m\u00e3e dizendo vamos todos morrer, vamos morrer n\u00f3s duas. A janela \u00e9 a negra noite, a noite profunda. <\/em><\/p>\n<p>Este ponto para ela \u00e9 o ponto que ela desenvolve uma fobia, posterior \u00e0 grande ang\u00fastia que a cena traz. Estamos na falta da falta.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Queria chamar aten\u00e7\u00e3o para o enquadramento da janela, o enquadramento de objeto nenhum. Isto na hist\u00f3ria da fobia que ela desenvolveu me parece importante.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: N\u00e3o \u00e9 a falta de objeto. O enquadre est\u00e1 ali e n\u00e3o tem nada, \u00e9 a noite absoluta. Ela tentar\u00e1 pelo medo sair da situa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia, com a fobia do avi\u00e3o. Na an\u00e1lise, anos depois, vai retomar esta cena, e o que acontece \u00e9 uma sequ\u00eancia de interpreta\u00e7\u00f5es, no texto voc\u00eas v\u00e3o ver \u00e9 muito mais complexo \u00e9 mais uma sequ\u00eancia de cenas e de hist\u00f3rias, mas acho que d\u00e1 para resumir dessa maneira.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 materializado que ela tinha a fantasia de tudo se acabar em chamas, mais que isso, dela se acabar em chamas como Joana d\u2019Arc, numa esp\u00e9cie de mart\u00edrio, mart\u00edrio dela mesma. H\u00e1 o gozo do inc\u00eandio e \u00e9 isso que essa cena interpretada em an\u00e1lise vai revelar. A ato anal\u00edtico de atravessamento da ang\u00fastia a leva, pelas associa\u00e7\u00f5es ao avi\u00e3o pegando fogo ao cair, e do fogo a seu gozo. Ela encontra ent\u00e3o, uma vez atravessada a ang\u00fastia, a certeza de que goza de seu mart\u00edrio. Ela, que sempre tinha sido o soldado da m\u00e3e, sempre tentando compensar o falo paterno, estava ao mesmo tempo no gozo da m\u00e1rtir, se entregando em sacrif\u00edcio, gozando deste sacrif\u00edcio para poder salvar a m\u00e3e e de certa maneira salvar o pai tamb\u00e9m. O que vai aparecer \u00e9 a certeza de um gozo, digamos da fantasia inconsciente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quela conduta sintom\u00e1tica do desejo de salvar a m\u00e3e, de cuidar da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Acho que podemos conversar sobre esta situa\u00e7\u00e3o um pouco, o que ela talvez d\u00ea uma situa\u00e7\u00e3o mais de dia a dia do que estamos chamando de ato.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Talvez se possa, inclusive, usar esta narrativa cl\u00ednica para estabelecer os tr\u00eas tipos de objeto que distinguimos. Ela como falo da m\u00e3e, ou seja, como a falta permanente da m\u00e3e, a falta da falta quando ela se imp\u00f5e, me parece, no momento do \u201cn\u00f3s vamos morrer\u201d, e o ato que \u00e9 determinado pelo relan\u00e7amento da hist\u00f3ria do avi\u00e3o pegando fogo, que \u00e9 uma fantasia que vai se mostrar em momento bem posterior \u00e0 viagem de avi\u00e3o. Me parece que d\u00e1 para fazer disto uma ilustra\u00e7\u00e3o que \u00e9 bem interessante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A sa\u00edda f\u00f3bica \u00e9 cl\u00e1ssica. H\u00e1 um excesso de demanda da m\u00e3e e ela usa o sintoma f\u00f3bico como Nome do Pai, isto \u00e9 o cl\u00e1ssico da fobia. A grande quest\u00e3o \u00e9 o que ela produz com o avi\u00e3o se esborrachando no ch\u00e3o e aparecendo o fogo, que \u00e9 uma coisa que vai aparecer durante a an\u00e1lise, que ela vai dizer ao analista que ela tinha pensado nisto.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Aparecem tamb\u00e9m no relato v\u00e1rios efeitos de retroa\u00e7\u00e3o. Mais para frente ela arranja um novo marido e eles s\u00e3o super quentes. E o analista diz: \u00e9 muito calor nesta rela\u00e7\u00e3o, a\u00ed volta para o fogo e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Podemos metaforizar como quisermos, mas existe um certo peso de Real, por exemplo no fogo, que tem a ver com o ato anal\u00edtico. O analista, afirma mais ou menos isto, \u00e9 calor demais nesta rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Quer dizer quebrar a inteireza da falta da falta. Neste sentido que ele retira da ang\u00fastia sua certeza. A falta da falta fecha todas as sa\u00eddas. Quebramos o liame entre as faltas, estabelecemos uma nova rela\u00e7\u00e3o com a falta. Este \u00e9 o objetivo da psican\u00e1lise. A psican\u00e1lise serva para isto. Para dar um destino a uma falta estruturante no sujeito. Que come\u00e7a ele como objeto da falta do Outro ou da falta no Outro.<\/p>\n<p><strong>Perguntas: <\/strong>Vanda Almeida lembra: o ato implica na queda do objeto. Sim, dizemos aqui que o ato \u00e9 a extra\u00e7\u00e3o do objeto, que \u00e9 an\u00e1logo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Os momentos de certeza em an\u00e1lise est\u00e3o sempre ligados ao objeto e n\u00e3o ao sujeito. Todos os momentos em que se tem a certeza de uma vida acontecendo, nestas horas voc\u00ea \u00e9 objeto em cena, n\u00e3o \u00e9 sujeito. \u00c9 voc\u00ea no colo da m\u00e3e, \u00e9 voc\u00ea sendo empurrado para c\u00e1 ou para l\u00e1. S\u00e3o estes objetos que atuam, que fazem andarmos na an\u00e1lise. Neste sentido do objeto \u00e9 ativo, o sujeito \u00e9 subvertido.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Acho que a conta de divis\u00e3o que Lacan coloca no come\u00e7o do cap\u00edtulo 12 \u00e9 bem clara neste sentido. Na verdade o aparecimento do objeto <em>a<\/em>, ele se refere a uma, o termo que pensei n\u00e3o \u00e9 bom, h\u00e1 uma amputa\u00e7\u00e3o do Outro. O Outro quando desce para o segundo andar \u00e9 como o Outro barrado, que \u00e9 o andar que Lacan chama da ang\u00fastia. Descompleta.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>Objeto ativo e sujeito subvertido<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A extra\u00e7\u00e3o do objeto, ou seja, o objeto aparecendo como ativo \u00e9 o resultado do atravessamento da ang\u00fastia. Ela como objeto do mart\u00edrio, por exemplo. Eu prefiro extra\u00e7\u00e3o, pois queda fica parecendo que perdeu e agora vai sentir saudades, como se tiv\u00e9ssemos voltado para falta daquele objeto. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o do objeto e re-perda.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Acho que ele vai sentir saudades, a quest\u00e3o que me parece que a an\u00e1lise, a \u00e9tica da psican\u00e1lise pode levar \u00e9 n\u00e3o fazer desta saudade que \u00e9 poss\u00edvel, desta saudade uma paix\u00e3o. Dedicarmos a vida \u00e0 recompor esta divis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: \u00d3timo, a saudade como paix\u00e3o \u00e9 que \u00e9 problema.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Isso, a saudade como paix\u00e3o. A saudade de dizer, como era bom naquele domingo e tal, tudo bom.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Que saudades da minha an\u00e1lise, podemos dizer tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Saudade da an\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: \u00c9 muito comum ficar com saudades da vizinhan\u00e7a do consult\u00f3rio do analista.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Fazer isto a raz\u00e3o de ser da sua vida ou uma paix\u00e3o, a\u00ed de fato a an\u00e1lise n\u00e3o funcionou. Isso podemos dizer com seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Debate e conclus\u00e3o: um novo discurso<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong>Perguntas: <\/strong>Uma pergunta com psic\u00f3ticos. Se nesse caso o analista ficaria na posi\u00e7\u00e3o de dejeto. N\u00e3o sei se eu consigo improvisar sobre isso. \u00c9 dif\u00edcil. Talvez a express\u00e3o secret\u00e1rio do alienado possa ajudar.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Neste faz conta ele est\u00e1 como objeto na base de um novo discurso. Isto que \u00e9 precioso naquela frase da <em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos<\/em>. N\u00e3o \u00e9 qualquer objeto, me bate, n\u00e3o \u00e9 qualquer objeto, um lixo. Ela \u00e9 um objeto, um dejeto necess\u00e1rio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de um novo discurso.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Algu\u00e9m pergunta: A posi\u00e7\u00e3o do m\u00e1rtir, no caso da Patr\u00edcia, n\u00e3o seria masoquista? Quero mais usar para pensar o analista. O analista n\u00e3o \u00e9 nem m\u00e1rtir, nem masoquista porque ele \u201cbanca\u201d o objeto. Ele d\u00e1 corpo a este objeto resto que n\u00e3o est\u00e1 muito claro para o analisante, para que venham os objetos e os objetos fa\u00e7am a festa.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Estrutura como discurso. Isto que eu acho muito fundamental para evitar uma ideia poss\u00edvel. J\u00e1 houve, hoje menos. Mas falar do analista como her\u00f3i ou como um m\u00e1rtir. Me lembro da discuss\u00e3o em torno do <em>Semin\u00e1rio 7<\/em>, havia um pouco isso. As pessoas esqueciam que Lacan dizia neste <em>Semin\u00e1rio 7<\/em> que um mundo dirigido por m\u00e1rtires seria um inc\u00eandio absoluto. \u00c9 uma frase muito forte.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: N\u00e3o queria ir para conclus\u00e3o sem ir para outros lugares. Outra quest\u00e3o: podemos dizer que se a fantasia \u00e9 a janela para o real, o seu enquadramento, atravess\u00e1-la modifica nossa rela\u00e7\u00e3o com a demanda pulsional. Isto \u00e9 da Luciene. Quer comentar?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: H\u00e1 uma frase de Lacan que eu citei do <em>Semin\u00e1rio 11.<\/em> N\u00e3o sei se os AE\u2019s deram conta disso, mas pode-se pensar que \u00e9 a tarefa principal dos AE\u2019s.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Pergunta: N\u00e3o seria o atravessamento da janela da fantasia uma nova rela\u00e7\u00e3o com a demanda pulsional? <strong>Romildo<\/strong>: Provavelmente, isso tem que ser demonstrado pela experi\u00eancia. A pergunta de Lacan \u00e9 afirmativa se a travessia da fantasia ou se uma an\u00e1lise levada ao seu final muda a rela\u00e7\u00e3o do ser com a puls\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Aquela mesa que aconteceu no \u00faltimo congresso em Barcelona, em 2018, foi num Congresso de Membros. Era como fica o seu programa de gozo depois do final de an\u00e1lise. Foi uma pergunta para os AE\u2019s sobre isto. Os tr\u00eas, os quatro, n\u00e3o lembro quem estava na mesa comigo. A ideia tentar dar conta de como fica a fantasia que \u00e9 um jeito de funcionar para viver. Voc\u00ea n\u00e3o fica sem ela, como ela fica depois que mais ou menos est\u00e1 fazendo que \u00e9 atravessar. Remeto voc\u00eas \u00e0 <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 58<\/em> e esta mesa sobre o problema de gozo do Passe de 2018 tamb\u00e9m est\u00e1 publicada na <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, l\u00e1 tem os depoimentos dos ex AE\u2019s.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Nesta pergunta do colega ou da colega, que fala da janela, na verdade tem mais do que, como vive a puls\u00e3o, tem a quest\u00e3o do enquadramento da realidade. Isto volta para o nosso primeiro Semin\u00e1rio, quando a gente estava discutindo a realidade, \u00e9 que o enquadramento define o espa\u00e7o da realidade. Neste sentido, fantasia, quadro e puls\u00e3o&#8230; Eu nunca esque\u00e7o que Lacan diz que fantasia e puls\u00e3o ocupam o mesmo lugar na estrutura, talvez tinha a necessidade de enquadramento que est\u00e1 inclu\u00edda nesta pergunta.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Aquela janela do avi\u00e3o, resume, condensa para Patricia, o que era a vida dela, a realidade dela era olhar para onde a m\u00e3e estava olhando, ver o que ela queria e ir atr\u00e1s. Era isto. O problema \u00e9 que ao olhar era uma janela negra e a m\u00e3e dizendo: j\u00e1 era.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 isto. Voc\u00ea acha que \u00e9 o qu\u00ea, o negro da janela?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O coment\u00e1rio dela \u00e9 como se fosse o Real. Ou \u00e9 uma opacidade. Eu estou falando em negro, mas nem devia falar assim. \u00c9 porque ela fala em negro, mas \u00e9 uma certa coisa opaca naquela janela. N\u00e3o tem nada a ser visto.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: De noite, n\u00e9?<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Mas a experi\u00eancia dela que vai fazer ela trazer o avi\u00e3o em chamas \u00e9 isto. Ela est\u00e1 na ang\u00fastia, porque aquilo \u00e9 opaco.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Tem tamb\u00e9m o vatic\u00ednio materno, que \u00e9 um dos pontos mais costumeiros da an\u00e1lise que \u00e9 dizer, \u201cn\u00f3s vamos morrer\u201d. Isto n\u00e3o \u00e9 isento do desejo materno. A\u00ed existe, me parece uma passagem de n\u00edvel do objeto que falta \u00e0 m\u00e3e para o objeto dejeto de uma opera\u00e7\u00e3o que inclui a m\u00e3e: n\u00f3s vamos morrer. Parece que a\u00ed precipita nela esta rela\u00e7\u00e3o com o objeto que estamos chamando com Lacan de falta da falta.<\/p>\n<p>Para n\u00e3o perdermos o tempo que resta, pod\u00edamos seguir um pouco no que voc\u00ea trouxe da <em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos<\/em> e imaginar, como a profiss\u00e3o do psicanalista, essa a\u00e7\u00e3o do objeto, fazer disso uma pr\u00e1tica, poderia ser uma pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Como est\u00e1 isso hoje? Hoje qual \u00e9 o problema na cidade para isso? Acho que talvez ajude a tirar um mal entendido sobre a ideia que tem a nobreza da a\u00e7\u00e3o do objeto, ficaremos com o termo de nobreza ou dignidade da a\u00e7\u00e3o do objeto, n\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de ser o objeto andando pela cidade, ser o resto, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 a a\u00e7\u00e3o do her\u00f3i. Ent\u00e3o, esse fazer do analista, a gente encontra isso em algum lugar?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Esta foi a discuss\u00e3o que depois do <em>Semin\u00e1rio 7<\/em>, nos meios lacanianos na \u00e9poca se fez em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo \u00e0 Ant\u00edgona. Uma figura comparada ao analista \u00e9 a\u00ed que Lacan diz que o mundo dirigido por m\u00e1rtires seria um inc\u00eandio absoluto. A frase de Miller, \u00e9 uma pena que eu n\u00e3o a tenho aqui. Eu queria cit\u00e1-la literalmente, mas \u00e9 mais ou menos isso: a diferen\u00e7a entre o analista e o dejeto propriamente dito, apesar dele ser chamado a uma posi\u00e7\u00e3o de dejeto \u00e9 que nessa posi\u00e7\u00e3o ele est\u00e1 na funda\u00e7\u00e3o de um novo discurso.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Isto eu acho important\u00edssimo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Maravilhoso, pelo seguinte, porque, retomando a nossa quest\u00e3o inicial, nesta frase, eu nunca esque\u00e7o esta frase, ela est\u00e1 sempre na minha cabe\u00e7a. Nessa frase existe a ideia, justamente, do que o \u00e9 que o analista faz com a certeza do seu ato. A base de um novo discurso n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa da posi\u00e7\u00e3o do objeto complementar da m\u00e3e, na crian\u00e7a f\u00f3bica.<\/p>\n<p>\u00c9 renova\u00e7\u00e3o de uma nova falta se eu puder chamar assim, mas de tal maneira que desse objeto seja produzido um novo discurso a tal ponto de Lacan chamar no <em>Semin\u00e1rio 17<\/em> o objeto de o motor que faz girar os discursos.<\/p>\n<p>Como na civiliza\u00e7\u00e3o se pode garantir a presen\u00e7a e a atua\u00e7\u00e3o desse lugar, que \u00e9 de dejeto. Dejeto discursivo, n\u00e3o \u00e9 Di\u00f3genes vestido com barril, n\u00e3o \u00e9 exatamente isso. Mas que \u00e9 um resto de opera\u00e7\u00e3o discursiva, por exemplo, falamos tanto atualmente de capitalismo, como se a an\u00e1lise fosse em si um atentado ao capitalismo. Podemos pensar antes disto, na produ\u00e7\u00e3o capitalista do objeto que d\u00e1 a uma vez ao analista, ao surgimento do analista no mundo.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O princ\u00edpio de um novo discurso \u00e9 uma express\u00e3o de que vale a pena falar, at\u00e9 para modular um pouco. O novo discurso n\u00e3o \u00e9 falar uma coisa original, mas sim que ali come\u00e7a um novo assunto ou, como diz Lacan no <em>Semin\u00e1rio 19<\/em>, quando a coisa roda de outra maneira. Isto faz muita diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Quando me encontro numa mem\u00f3ria esquecida, quando eu encontro minha m\u00e3e espremendo minha espinha nas costas, \u00e9 um caso famoso de Kohut, quando me encontro neste lugar, isto n\u00e3o vai ser para eu cair do discurso melancolicamente, n\u00e3o vai servir para eu fazer disso uma est\u00e9tica nova, mesmo que de dejeto. N\u00e3o. Esse lugar de objeto vai servir para come\u00e7ar uma nova hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: N\u00e3o s\u00f3 novo discurso de uma retomada pelo sujeito de novas condi\u00e7\u00f5es para sua vida, mas um novo discurso, no universo do discurso. O discurso anal\u00edtico, o Lacan disse v\u00e1rias vezes, \u00e9 muito recente.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Tamb\u00e9m. Esse discurso na civiliza\u00e7\u00e3o, podemos perguntar sobre o lugar dele hoje.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Podemos nos perguntar qual a fun\u00e7\u00e3o do objeto <em>a<\/em> no mundo de hoje.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Do objeto mais valia, do objeto mais de gozar. Onde encontramos isto? Gosto muito de um texto de Lorenzo Mammi em que ele localiza como a arte hoje n\u00e3o tem mais objeto, ela n\u00e3o valoriza o objeto de arte como a arte mais cl\u00e1ssica. Ela est\u00e1 mais na performance, na instala\u00e7\u00e3o, mas seu ato n\u00e3o \u00e9 mais o que oferecer novos objetos a um mercado de galeristas milion\u00e1rios, mas sim de obter uma parada na circula\u00e7\u00e3o de mercadorias, suspens\u00e3o, tempor\u00e1ria que seja, da infinitiza\u00e7\u00e3o dos objetos de consumo, um ap\u00f3s o outro todos do mesmo valor.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Era esta a inten\u00e7\u00e3o dos dada\u00edstas e os surrealistas, como descapitaliz\u00e1vamos o objeto para manter a arte. Um objeto na parede<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Isto \u00e9 um lugar onde encontramos, por exemplo, o objeto <em>a<\/em> em a\u00e7\u00e3o, aqui e ali na arte e n\u00e3o, por exemplo, nos exclu\u00eddos lutando para serem reincorporadas.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Fico pensando que pode, pegando este exemplo de Marcel Duchamp, podemos dizer, me parece, que na verdade \u00e9 a funda\u00e7\u00e3o de uma nova rela\u00e7\u00e3o a partir da ironia. Colocar um mict\u00f3rio pendurado na parede numa exposi\u00e7\u00e3o de arte. <em>A salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos<\/em> \u00e9 uma imagem que Val\u00e9ry inventou, ele n\u00e3o gostava de surrealista, para falar dos surrealistas.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: O Miller usa com a ironia que voc\u00ea est\u00e1 buscando.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Exatamente, Miller pega ironicamente a express\u00e3o. Val\u00e9ry n\u00e3o era exatamente ir\u00f4nico nisso. Era uma cr\u00edtica feroz a Breton, a Dali.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Temos uma s\u00e9rie de perguntas sobre isso que falamos em termos de: o lugar do objeto <em>a<\/em> na cultura, ou a\u00e7\u00e3o do objeto resto na cultura, como produzindo certezas ou produzindo suspens\u00f5es interessantes da falta, ou uma nova falta. Tem gente perguntando e o amor como fica? Mais de um. A nova falta implicaria um amor, digamos mais real?<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Acho que \u00e9 por a\u00ed. A ideia \u00e9 essa, quer dizer, amor mais real, n\u00e3o sei&#8230; mas d\u00e1 para entender amor mais digno, \u00e9 uma express\u00e3o que Lacan usou. Me parece que o que estamos chamando da nova falta \u00e9 sem as ilus\u00f5es da complementa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica. Isto \u00e9 da experi\u00eancia, isto n\u00e3o \u00e9 um ideal rom\u00e2ntico, \u00e9 o contr\u00e1rio at\u00e9. Mas de fato uma modifica\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Voltando para Patricia posso imaginar isso, a complementa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica dela era ser a Joana D\u2019Arc da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Esta complementa\u00e7\u00e3o f\u00e1lica deixa de funcionar no mesmo registro, ainda fica a mesma coisa, mas do mesmo registro, quando ela v\u00ea o quanto ela \u00e9 m\u00e1rtir tamb\u00e9m nisso. O quanto ela goza do fogo que est\u00e1 pegando. Ela come\u00e7a a desejar o fogo, tanto \u00e9 que ela vai casar com um homem que pega fogo. Tem uma revolu\u00e7\u00e3o por a\u00ed que vale \u00e0 pena ler o caso.<\/p>\n<p>Coisa que era imposs\u00edvel para ela antes.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: \u00c9 bem interessante, pelo menos na minha experi\u00eancia deste semin\u00e1rio de hoje e do preparo dele, como facilita o pensamento, voc\u00ea estabelecer momentos diferentes. Claro que existe um risco de um certo esquematizmo, mas de qualquer forma voc\u00ea se situar numa carreira de sujeito num itiner\u00e1rio de sujeito, o momento de complementa\u00e7\u00e3o do Outro, a falta da falta como ang\u00fastia, e uma sa\u00edda pelo ato, acho que organiza muito bem a compreens\u00e3o cl\u00ednica.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A Gl\u00f3ria Maron trouxe a seguinte situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sei se era essa, mas, o discurso anal\u00edtico \u00e9 o la\u00e7o social espec\u00edfico que se tece em torno do analista como dejeto. Representante que daquilo que do gozo resta inssocializ\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Nesse texto o Miller joga muito com o social, o dejeto, a inser\u00e7\u00e3o, desinser\u00e7\u00e3o, lembrar de um PIPOL que era sobre a desinser\u00e7\u00e3o e n\u00e3o falamos disso da ideia do social e do objeto a como inssocializ\u00e1vel, mas \u00e9 ele. Quando come\u00e7amos a falar que ele \u00e9 o estranho, que ele \u00e9 um dejeto que n\u00e3o \u00e9 lixo exatamente, mas que est\u00e1 ali. \u00c9 o material recalcado que retorna, tudo isto Miller define como a parte inssocializ\u00e1vel do sujeito. \u00c9 uma outra maneira de dizer.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Tenho a impress\u00e3o que tem que colocar em paralelo com o objeto <em>a<\/em> no z\u00eanite. Acho que se se p\u00f5e em paralelo a parte inssoci\u00e1vel do sujeito mais objeto elevado nos nossos tempos ao z\u00eanite, acho que introduz um paradoxo que \u00e9 muito atual.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: A Carla Ceres fala: ent\u00e3o, pode chamar para voltar para o t\u00edtulo: Pr\u00e1tica da ang\u00fastia. \u00c9 isto que voc\u00eas est\u00e3o falando? Esta pr\u00e1tica da ang\u00fastia seria cl\u00ednico orientada pelo Real?<\/p>\n<p><strong>Romildo:<\/strong> Acho bem correta, bem dentro do que pensa no nosso meio, da orienta\u00e7\u00e3o lacaniana. A primeira parte eu posso contar essa hist\u00f3ria. Est\u00e1vamos conversando Marcus e eu e a gente disse: seria bom que o semin\u00e1rio fosse eminentemente cl\u00ednico. Ent\u00e3o, n\u00e3o me lembro se o Marcus ou eu ou um dos dois disse, uma boa coisa seria chamar a pr\u00e1tica da ang\u00fastia ou as pr\u00e1ticas da ang\u00fastia \u00e9 meio estranho como t\u00edtulo, mas nos empurrava para fun\u00e7\u00e3o cl\u00ednica da ang\u00fastia. Esta foi a hist\u00f3ria desta express\u00e3o. Eu sabia que era uma express\u00e3o meio esquisita, mas ela nos ajudou a pensar a sequ\u00eancia dos tr\u00eas semin\u00e1rios.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Olhando agora, <em>a posteriori<\/em>, acho que ela diz bem o que tentamos dizer no come\u00e7o tamb\u00e9m, a ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 um objetivo a ser perseguido, mas na pr\u00e1tica passamos pela ang\u00fastia. Ent\u00e3o, pr\u00e1tica da ang\u00fastia faz sentido.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Tenho a impress\u00e3o que uma leitura que seria interessante ou uma releitura provavelmente \u00e9 \u201cA fantasia\u201d de Miller em Comandatuba. Ele situa a crise da psican\u00e1lise e a partir do fato que o objeto est\u00e1 no z\u00eanite. Me parece que uma leitura desta confer\u00eancia seria bem vinda, bem apropriada.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Est\u00e1 na <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em> tamb\u00e9m de 2004.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: Boa noite para todos.<\/p>\n<p><strong>Marcus<\/strong>: Um abra\u00e7o para todos, boa noite. Mais uma vez um prazer. At\u00e9 o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p><strong>Romildo<\/strong>: At\u00e9 a pr\u00f3xima.[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5313&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5314&#8243; img_size=&#8221;500&#215;149&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sem_clinico_agosto_2020\"><\/a>Pr\u00e1tica da Ang\u00fastia I<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><strong>\u00a0<\/strong>Romildo do R\u00eago Barros<\/h6>\n<p>Estamos come\u00e7ando a \u00faltima fase deste semin\u00e1rio, depois da boa experi\u00eancia com nossa amiga Nohem\u00ed Brown. Tivemos a ideia de dar este t\u00edtulo, <em>Pr\u00e1ticas da Ang\u00fastia<\/em>, que na verdade \u00e9 incomum. Eu nunca tinha usado antes a express\u00e3o \u201cpr\u00e1tica da ang\u00fastia\u201d, que soa como se esse afeto pudesse ser modulado, mexido para l\u00e1 e para c\u00e1, pois a ang\u00fastia se apresenta em geral como um fen\u00f4meno maci\u00e7o. Depois de escolhermos o t\u00edtulo, no entanto, vi que ele estava de acordo com o que pretend\u00edamos fazer. A pr\u00e1tica da ang\u00fastia nos orienta para uma discuss\u00e3o cl\u00ednica, sem deixar de ser, ao mesmo tempo, um tanto paradoxal.<\/p>\n<p>Existe um termo que Lacan usa para o objeto da ang\u00fastia &#8211; Marcos Andr\u00e9 o citou outro dia -, que \u00e9 <em>indeterminado<\/em>.A ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 sem objeto, mas este \u00e9 indeterminado. Com a express\u00e3o &#8220;n\u00e3o \u00e9 sem objeto&#8221;, talvez Lacan tenha se baseado na dupla nega\u00e7\u00e3o que existe em algumas l\u00ednguas, como por exemplo no latim. Em portugu\u00eas, pode-se dizer: &#8220;Eu n\u00e3o quero n\u00e3o!&#8221;. Em latim, n\u00e3o se pode dizer isso. Se algu\u00e9m disser em latim &#8220;eu n\u00e3o quero n\u00e3o&#8221;, vai estar est\u00e1 dizendo &#8220;Eu quero&#8221;, pois duas negativas equivalem a uma afirmativa. A frase de Lacan, &#8220;a ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 sem objeto&#8221; quer dizer, portanto, &#8220;tem objeto, mas n\u00e3o sabemos qual \u00e9&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Ang\u00fastia x medo<\/strong><\/p>\n<p>Nesta primeira discuss\u00e3o a primeira coisa que devemos tentar fazer \u00e9 distinguir clinicamente a ang\u00fastia do medo.<\/p>\n<p>Se sa\u00edmos da oposi\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica segundo a qual o medo tem um objeto preciso, um objeto claro, enquanto a ang\u00fastia n\u00e3o tem, vamos poder dizer que, na verdade, n\u00e3o \u00e9 tanto &#8220;ter&#8221; ou &#8220;n\u00e3o ter objeto&#8221; que distingue para Lacan medo de ang\u00fastia, mas \u00e9 muito mais a determina\u00e7\u00e3o ou a indetermina\u00e7\u00e3o desse objeto. No mesmo semin\u00e1rio, no Cap\u00edtulo 12, Lacan diz a um certo momento mais ou menos o seguinte: temos medo de um objeto desconhecido e nos\u00a0 angustiamos diante de um objeto indeterminado.<\/p>\n<p>Um objeto desconhecido quer dizer precisamente que o nosso medo n\u00e3o corresponde, n\u00e3o \u00e9 do mesmo tamanho do objeto. H\u00e1 uma discrep\u00e2ncia entre o sujeito e o objeto do medo, que transcende a forma do objeto. Ora, a mesma coisa acontece \u00e0 sua maneira com a ang\u00fastia. Enquanto a ang\u00fastia irrompe diante de um objeto que nos amea\u00e7a, o medo se d\u00e1 diante de um objeto cuja configura\u00e7\u00e3o nos escapa. Claro que isso tem que ser visto clinicamente ou literariamente para se ter uma ideia de qu\u00ea diferen\u00e7a se trata exatamente &#8211; por enquanto podemos guardar esta diferen\u00e7a: o medo ocorre diante de um objeto desconhecido ou, melhor dizendo, diante do que h\u00e1 de desconhecido no objeto conhecido &#8211; digamos alguma coisa que excede o objeto do medo, enquanto a ang\u00fastia, que &#8220;n\u00e3o \u00e9 sem objeto&#8221;, n\u00e3o tem a determina\u00e7\u00e3o do objeto.<\/p>\n<p>No Semin\u00e1rio 10, Lacan cita e discute uma narrativa de Anton Tchekhov, exatamente sobre o medo. Sobre os tr\u00eas maiores medos que o escritor tinha sofrido na vida. Como ele \u00e9 escritor e brilhante, a narrativa \u00e9 muito bonita, mas n\u00e3o \u00e9 exatamente um conto. \u00c9 mais um testemunho.<\/p>\n<p>Todas as tr\u00eas experi\u00eancias de medo se passam durante viagens noturnas. Na primeira, Tchekhov vai chegando num vilarejo, chega no alto de uma colina, e de l\u00e1 avista o vilarejo&#8230; V\u00ea a igreja, o campan\u00e1rio, e come\u00e7a a descer na dire\u00e7\u00e3o do vilarejo quando, de repente, v\u00ea que no campan\u00e1rio h\u00e1 uma luz que vacila um pouco. Isso chama sua aten\u00e7\u00e3o e ele se pergunta &#8220;Que luz \u00e9 aquela?&#8221;. Desce ent\u00e3o para o vilarejo, tenta olhar de v\u00e1rios \u00e2ngulos e de todos os \u00e2ngulos de onde avista o campan\u00e1rio, v\u00ea essa luz, como se viesse de um pequeno lampi\u00e3o ou de um pequeno candeeiro&#8230; Sai do vilarejo e, de repente, olha para tr\u00e1s e n\u00e3o v\u00ea mais a pequena luz.<\/p>\n<p>Ele est\u00e1 acompanhado de um garoto, filho de um empregado, que est\u00e1 dormindo. Ele acorda a crian\u00e7a para perguntar se ela tinha visto a mesma luz. A crian\u00e7a olha, v\u00ea a luz e diz: &#8220;Estou com medo!&#8221;. \u00c9 nesse momento que Tchekhov \u00e9 tomado por um medo intenso, que se dirige a um objeto que ele n\u00e3o pode definir qual \u00e9. O medo se refere a algo na lamparina, na luz ou no que quer que seja que excede\u00a0 a forma de uma luz.<\/p>\n<p>Em Franc\u00eas, l\u00edngua em que li por n\u00e3o ter encontrado ainda a tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, a narrativa se chama <em>Frayeurs<\/em>. Este termo n\u00e3o significa exatamente medo: <em>frayeur<\/em> \u00e9 susto, pavor. \u00c9 uma coisa que tem um car\u00e1ter mais s\u00fabito do que o medo. Eu n\u00e3o sei como se chama em Russo, mas d\u00e1 para sentir desde j\u00e1 que existe alguma dificuldade na defini\u00e7\u00e3o desse objeto.<\/p>\n<p>Ter encontrado essa diferen\u00e7a feita por Lacan dificulta por um lado a nossa tarefa, porque medo e ang\u00fastia se tornam muito mais pr\u00f3ximos do que a gente pensava. Mas, por outro lado, facilita, porque nos tira da armadilha da alternativa cl\u00e1ssica entre ter e n\u00e3o ter objeto.<\/p>\n<p>Lacan d\u00e1 uma defini\u00e7\u00e3o do medo tamb\u00e9m na confer\u00eancia <em>A Terceira<\/em>, de 1974. Ele se pergunta o seguinte: &#8220;Do que \u00e9 que n\u00f3s temos medo? Isso n\u00e3o quer dizer, simplesmente a partir de qu\u00ea temos medo, \u00e9 de que temos medo?&#8221;. E responde em seguida: &#8220;N\u00f3s temos medo do nosso corpo&#8221;. Ele faz aqui uma diferen\u00e7a entre ang\u00fastia e medo dizendo que a ang\u00fastia \u00e9 justamente alguma coisa que se situa em outro lugar do nosso corpo. \u00c9 um sentimento &#8211; no Cap\u00edtulo 12, no <em>Semin\u00e1rio 10<\/em>, Lacan j\u00e1 fala a respeito &#8211; que surge da suspeita que nos acomete de podermos nos reduzir ao nosso corpo.<\/p>\n<p>Para terminar a diferencia\u00e7\u00e3o entre ang\u00fastia e medo, Lacan vai dizer o seguinte: &#8220;N\u00f3s nos apercebemos que ang\u00fastia n\u00e3o \u00e9 o medo do que quer que seja, do qual o corpo pudesse se motivar&#8221;. E segue-se a frase que se tornou igualmente c\u00e9lebre: &#8220;A ang\u00fastia \u00e9 o medo do medo&#8221;. Ou seja, a duplica\u00e7\u00e3o do medo na ang\u00fastia \u00e9 o que indica a indetermina\u00e7\u00e3o do seu objeto.<\/p>\n<p>Encontrei no livro de Araceli Fuentes &#8211; nossa colega da AMP que esteve aqui conosco h\u00e1 algum tempo atr\u00e1s -, <em>Os mist\u00e9rios do corpo falante<\/em>, um bom esclarecimento da quest\u00e3o de termos medo do nosso corpo. Ela diz que certamente n\u00e3o \u00e9 do corpo configurado, do corpo imagin\u00e1rio, do corpo que a experi\u00eancia especular nos deu a cada um na inf\u00e2ncia que temos medo, mas de alguma coisa que ultrapassa o corpo na dire\u00e7\u00e3o do desconhecido. No medo h\u00e1 um corte nas rela\u00e7\u00f5es que existem entre o corpo e o mundo. \u00c9 exatamente no encontro entre Tchekhov e a pequena luz &#8211; que o autor vai terminar sem descobrir o que \u00e9 -, entre o corpo e algum objeto que ultrapassa a forma, que surge o medo.<\/p>\n<p>Araceli Fuentes escreve o seguinte: &#8220;n\u00f3s temos medo do nosso corpo porque o corpo goza&#8221;. E, mais adiante: &#8220;o corpo do qual temos medo, n\u00e3o \u00e9 o corpo da forma, mas o corpo habitado pela puls\u00e3o&#8221;. Podemos guardar esta explica\u00e7\u00e3o de Araceli.<\/p>\n<p>Parece-me que \u00e9 por a\u00ed que a gente pode tomar a express\u00e3o de Lacan para ang\u00fastia, &#8220;medo do medo&#8221;. O &#8220;medo do medo&#8221; &#8211; ou seja, o medo reduplicado &#8211; rompe com a boa rela\u00e7\u00e3o que existe entre o corpo da boa forma e o mundo. \u00c9 o medo diante de uma amea\u00e7a &#8211; isto \u00e9 um termo que Lacan usa para a ang\u00fastia, &#8211; de que algo possa escapar do corpo.<\/p>\n<p>Nesse mesmo cap\u00edtulo, Lacan utiliza os exemplos de Santa Luzia (+304 DC) e Santa \u00c1gata (+251 DC) \u2013 em cujas imagens est\u00e3o representadas duas mutila\u00e7\u00f5es. Ambas s\u00e3o m\u00e1rtires dos primeiros tempos do cristianismo: Santa Luzia tem uma esp\u00e9cie de bandeja na m\u00e3o onde est\u00e3o os seus olhos arrancados, enquanto ela tem olhos e est\u00e1 olhando os pr\u00f3prios olhos arrancados, e Santa \u00c1gata, por seu lado, \u00e9 retratada com seus dois seios retirados do corpo tamb\u00e9m numa bandeja. Lacan vai situar a ang\u00fastia exatamente nessa exterioriza\u00e7\u00e3o do objeto do corpo, que descompleta o corpo mas ao mesmo tempo n\u00e3o impede que se entre em rela\u00e7\u00e3o com o objeto ca\u00eddo. \u00c9 nesse intervalo a\u00ed que sobrev\u00e9m a ang\u00fastia.<\/p>\n<p>A frase de Lacan que aponta a diferen\u00e7a entre angustia e medo \u00e9 a seguinte: &#8220;O que ele (<em>Tchekhov<\/em>) teme n\u00e3o \u00e9 coisa alguma que o ameace, mas algo que tem a caracter\u00edstica de se referir ao desconhecido do que se manifesta\u201d. Acho que temos que considerar a express\u00e3o inteira: o desconhecido do que se manifesta, ou seja: n\u00e3o \u00e9 o desconhecimento geral, absoluto que provoca o medo, mas o entrechoque entre aquilo que se conhece e aquilo que leva o objeto na dire\u00e7\u00e3o do desconhecido.<\/p>\n<p>Clinicamente, sobretudo no que diz respeito \u00e0 cl\u00ednica das fobias, sabemos que a rela\u00e7\u00e3o entre o medo e a ang\u00fastia \u00e9 muito mais pr\u00f3xima do que parece. N\u00e3o s\u00f3 existe uma passagem do medo para a ang\u00fastia e da ang\u00fastia para o medo, como tamb\u00e9m existe alguma coisa que permanece como um fundo de ang\u00fastia em qualquer medo. Isso tem exatamente a ver, novamente, com o estatuto do objeto, indeterminado do lado da ang\u00fastia e desconhecido do lado do medo.<\/p>\n<p>Existe um <em>gap<\/em> ou intervalo, um corte, entre o desconhecido e o manifesto, e \u00e9 nesse intervalo &#8211; eu estou retomando aqui uma express\u00e3o que nos serviu no comecinho de semin\u00e1rio &#8211; neste intervalo, nesse <em>gap<\/em> &#8211; \u00e9 a\u00ed que o medo se situa ou talvez a gente possa dizer que ao inv\u00e9s de um <em>gap<\/em> existe algo que vai al\u00e9m do manifesto. \u00c9 a maneira que Lacan encontra neste cap\u00edtulo para falar desse al\u00e9m. Ele diz que: &#8220;o nosso medo n\u00e3o corresponde inteiramente ao objeto&#8221;. Ou seja, o nosso medo n\u00e3o \u00e9 do mesmo tamanho do objeto do qual n\u00f3s temos medo &#8211; isso me pareceu realmente uma explica\u00e7\u00e3o extremamente interessante.<\/p>\n<p>Eles t\u00eam algo em comum &#8211; com eu disse o medo e ang\u00fastia, e o interessante aqui esses dois afetos no n\u00edvel em que Lacan explica no Cap\u00edtulo 12 do Semin\u00e1rio 10 &#8211; ambos os afetos (o medo e a ang\u00fastia) sup\u00f5e o sujeito diante de um objeto que tem alguma maneira o ultrapassa. A partir deste ponto em comum, dessa ultrapassagem que h\u00e1 entre sujeito e objeto, que a gente pode pensar numa diferen\u00e7a entre os dois. Existe &#8211; como na luzinha l\u00e1 de Tchekhov &#8211; alguma coisa de desconhecido que est\u00e1 contida no conhecido &#8211; Tchekhov conhecia o que \u00e9 uma luz \u2013 o desconhecido est\u00e1 contido no conhecido, mas n\u00e3o revela o seu segredo. N\u00e3o \u00e9 um reflexo, porque n\u00e3o tem lua, n\u00e3o tem nenhuma janela, n\u00e3o tem nenhum espelho, nada que possa fazer a imagem revelada de uma luz. A narrativa termina s&#8230; em que Tchekhov possa dizer que finalmente descobriu. Nestes outros contos ele vai chegar a uma solu\u00e7\u00e3o. Nesse primeiro n\u00e3o. Segundo o que diz Tchekhov concluindo a narrativa, eie nunca p\u00f4de saber o que provocava aquele fen\u00f4meno que lhe deu tanto medo.[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5281&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5312&#8243; img_size=&#8221;500&#215;143&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"nohemi_brown\"><\/a>O que n\u00e3o se diz<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Por Nohem\u00ed Brown<\/em><\/h6>\n<p>O que se presentifica do que n\u00e3o se diz.<\/p>\n<p>Agrade\u00e7o a Se\u00e7\u00e3o RJ e, especialmente, o Romildo do Rego Barros e Marcus Andr\u00e9 Vieira pelo convite ao trabalho. Hoje \u00e9 a \u00faltima reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Aproveito essa oportunidade para trazer algumas coloca\u00e7\u00f5es e inquieta\u00e7\u00f5es de pontos que me interessam com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a do analista. Uma maneira de afinar este assunto que tem se destacado ultimamente.<\/p>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>\u201cO que n\u00e3o se diz\u201d pode nos dar a ideia de que n\u00e3o se diz, mas que poderia chegar a ser dito caso haja as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias. Neste sentido, a excelente obra de Machado de Assis, <em>Mem\u00f3rias p\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em>, nos d\u00e1 um belo exemplo. Br\u00e1s Cubas se autoriza a dizer, em sua condi\u00e7\u00e3o de morto, o que n\u00e3o se autorizava quando vivo. As mem\u00f3rias p\u00f3stumas ultrapassam um certo limite do dito. Mas \u00e9 disto do que se trata?<\/p>\n<p>Pensar nestes termos nos faz crer que \u00e9 poss\u00edvel dizer o que n\u00e3o se diz. Que seria uma quest\u00e3o de ultrapassar o silenciado, de enunciar o segredo ou de esclarecer o mist\u00e9rio. Contudo, o dizer que se trata n\u00e3o \u00e9 da ordem da confiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Podemos colocar como elementos separados: o que n\u00e3o se diz, o que n\u00e3o se quer dizer, e o que n\u00e3o se deve dizer. Cada um deles pertence a ordens diferentes.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o se diz nos interessa n\u00e3o porque n\u00e3o se queira dizer por falta de vontade. Sen\u00e3o porque \u00e9 da ordem do ileg\u00edvel, do incomunic\u00e1vel se queremos, mas que se faz presente de alguma maneira.<\/p>\n<p>Talvez convenha colocar em termos do que n\u00e3o se <em>pode<\/em> dizer, no sentido de que h\u00e1 algo da ordem do imposs\u00edvel de dizer em jogo nos ditos. O que n\u00e3o se diz, est\u00e1 na encruzilhada do \u00edntimo, est\u00e1 entre o que pode ser dito e o que n\u00e3o pode ser dito. Essa \u00e9 sua moldura.<\/p>\n<p>Colocado isto, podemos localizar que \u00e9 necess\u00e1rio que algo se diga para que apare\u00e7a a cara do que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Se colocamos a experi\u00eancia anal\u00edtica como uma experi\u00eancia onde a palavra e os ditos tem seu lugar, \u00e9 nela que <em>o que n\u00e3o se diz<\/em> encontra sua fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na pr\u00f3pria <em>regra fundamental<\/em> \u2013 dizer tudo o que vem \u00e0 cabe\u00e7a j\u00e1 implica algo do imposs\u00edvel de dizer. \u00c9 quase uma ironia, no melhor sentido do termo, uma l\u00f3gica do todo que em si mesma \u00e9 furada pela pr\u00f3pria regra. Enquanto imperativo \u00e9 imagin\u00e1rio, enquanto regra, sabe-se que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer tudo, mas obt\u00e9m-se um imposs\u00edvel ao submeter-se a ela.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>O analisante demanda um saber, o analista lhe responde \u201cfala\u201d! E fala do que est\u00e1 errado, do que incomoda, do que o angustia. Com os ditos, diz mais do que acredita dizer.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ser falante que n\u00e3o se encontre ligado aos tra\u00e7os, aos ditos e dizeres de uma hist\u00f3ria singular. Neste sentido, uma an\u00e1lise \u201cs\u00f3 progride pelo veio da l\u00f3gica, da extra\u00e7\u00e3o das articula\u00e7\u00f5es do que \u00e9 dito&#8230;\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. \u00c9 necess\u00e1rio que se diga para extrair a fun\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o se diz.<\/p>\n<p>Neste sentido, se d\u00e1 um lugar aos ditos, mas eles tamb\u00e9m se desvalorizam um pouco. Seu valor n\u00e3o est\u00e1 neles, somente.<\/p>\n<p>Dizer o que n\u00e3o se diz, significa acolher o que se pode ouvir do que \u00e9 dito entre as palavras. Dito de outro modo, esvaziar o sentido dos ditos do paciente, o que o preenche, o que o tampona. Contudo coloca-se uma certa contradi\u00e7\u00e3o: dizer o que n\u00e3o se diz, com a condi\u00e7\u00e3o de ser sob transfer\u00eancia. Destacam-se os efeitos do sil\u00eancio, que fixaram certas imagens, olhares, gestos ou frases.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>O impacto de uma l\u00edngua que n\u00e3o se sabe ler e escrever.<\/p>\n<p>Uma anedota: um guia tur\u00edstico em Berlim dizia \u2013 um pouco em tom de brincadeira\u2014mas que foi sancionado pelo riso de todos os que estavam\u2014que era importante seguir certas indica\u00e7\u00f5es muito atentamente, pois ser reprendido em alem\u00e3o \u00e9 bem mais impactante do que em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo que se diz, mas n\u00e3o passa pelo dito, contudo impacta. Algo ressoa, se equivoca, se evoca. Considero que n\u00e3o se trata s\u00f3 de equivocar o sentido, de brincar com o significante, em um deslizamento de sentido. Mas bem, de certo esvaziamento do sentido por essa dimens\u00e3o de impacto que presentifica o que n\u00e3o se diz nas palavras e excede o sentido.<\/p>\n<p>A resson\u00e2ncia \u00e9 uma propriedade da fala que consiste em fazer escutar o que ela n\u00e3o diz. \u00c9 uma propriedade meton\u00edmica da fala. A interpreta\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz, faz escutar, e a\u00ed \u00e9 barulhenta. E impacta.<\/p>\n<p>Presentificar o que n\u00e3o se diz, entre o que se diz e o que n\u00e3o se pode dizer. Entre o que se diz e o que se escuta. Presentificar, introduzir um barulho na comunica\u00e7\u00e3o para fazer ouvir outra coisa. Ou um sil\u00eancio eloquente do qual n\u00e3o se fica impune. O que n\u00e3o se diz evoca uma presen\u00e7a, sempre inc\u00f4moda e inquietante. Podemos pens\u00e1-lo como resson\u00e2ncia corporal da palavra.<\/p>\n<p>Lacan, quando escreve no <em>Semin\u00e1rio 19<\/em> \u201cque se diga, como fato, fica esquecido por tr\u00e1s do que \u00e9 dito\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, coloca justamente antes desta frase algo que chama a aten\u00e7\u00e3o: tudo o que \u00e9 <em>dito<\/em> \u00e9 semblante. Tudo o que \u00e9 <em>dito<\/em> \u00e9 verdade. Tudo o que se se <em>diz<\/em> faz gozar. O <em>dito<\/em> implica a ordem do semblante e da verdade. O <em>dizer<\/em> implica um corpo que goza. Talvez possamos considerar que: detr\u00e1s do que se diz, se esquece o dizer do que se goza.<\/p>\n<p>Esse estatuto do dizer \u00e9 paradoxal. Pois o que n\u00e3o se pode colocar em um dito, \u00e9 algo que ressoa, se evoca, se equivoca. O corpo, com sua satisfa\u00e7\u00e3o opaca diante da qual, atrav\u00e9s dos ditos, tenta dizer o que n\u00e3o se pode dizer.<\/p>\n<p><strong>IV <\/strong><\/p>\n<p>Pensar a fala, o falar em uma an\u00e1lise, em termos de ato de fala, desloca a ideia de pensar a fala \u2013 ditos e dizeres- s\u00f3 como palavras. O ato de fala implica um corpo que se coloca em jogo, em ato.<\/p>\n<p>Isto reverbera no lugar do analista como ato anal\u00edtico. Gostaria de tomar o ato do analista em seu la\u00e7o pontual com a presen\u00e7a real do analista. O ato anal\u00edtico \u00e9 disruptivo, n\u00e3o \u00e9 o tempo todo. Tem algo da ordem do que irrompe como Romildo indicava. Ele tem efeitos. O ato do analista implica uma interroga\u00e7\u00e3o sobre seu \u201cfazer\u201d. Como diz Pierre Gu\u00e9guen \u00e9 uma quest\u00e3o \u201csobre a operatividade da an\u00e1lise como ato de palavra- sob transfer\u00eancia.\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>O ato implica essa \u201creviravolta em que o sujeito v\u00ea so\u00e7obrar a seguran\u00e7a que extra\u00eda da fantasia em que se constitui, para cada um, sua janela para o real\u201d<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>. Achei interessante trazer a quest\u00e3o da janela e o ponto de vacila\u00e7\u00e3o que implica o ato. Desse ato se espera operar \u201csobre o vivo, ou seja, sobre o corpo\u201d, e esclarece a posi\u00e7\u00e3o do analista como objeto a, ou de semblante de objeto como Romildo tem pontuado.<\/p>\n<p>Por isso, gostaria de retomar a quest\u00e3o <em>do que n\u00e3o se diz<\/em> em rela\u00e7\u00e3o ao \u201cininterpret\u00e1vel\u201d que a presen\u00e7a do analista sustenta, como trouxe a vez passada a partir de Lacan no semin\u00e1rio 16<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Trata-se de uma fun\u00e7\u00e3o real \u2013uma presen\u00e7a da ordem do real, n\u00e3o s\u00f3 do encontro dos corpos f\u00edsicos, sen\u00e3o do encontro com algo da ordem do que n\u00e3o se v\u00ea, n\u00e3o se diz, mas que se presentifica \u2013 se pressente como indicava Marcus &#8211; esse objeto que est\u00e1 a\u00ed quando se faz vacilar a certeza que se obtinha do fantasma.<\/p>\n<p>Vou retomar um exemplo citado por M. Bassols, e bastante conhecido, de Hilda Doolittle. Esta poetiza e novelista se analisava com Freud, quando este j\u00e1 estava com uma idade bastante avan\u00e7ada. Ela relata uma situa\u00e7\u00e3o com Freud, seu analista, que a marcou.<\/p>\n<p>Ela relata esse encontro em seu texto \u201cPor amor a Freud. Memorias de minha an\u00e1lise com Sigmund Freud\u201d. Hilda tinha enviado um buqu\u00ea de flores para Freud no dia de seu anivers\u00e1rio. Ela teve este gesto at\u00e9 a morte dele. Mas numa ocasi\u00e3o, ela esqueceu de escrever o nome dela na pequena nota que acompanhava o buqu\u00ea. Freud marcou o esquecimento e respondeu com uma carta supondo que era ela quem tinha enviado o presente. Apesar de n\u00e3o estar seguro, acrescentou \u201cEm todo caso, afetuosamente seu&#8230; \u201c-e tamb\u00e9m n\u00e3o escreveu o nome. Hilda Doolittle em sua sess\u00e3o falou com certa indiferen\u00e7a, com pouca implica\u00e7\u00e3o at\u00e9 que Freud interrompeu batendo com a m\u00e3o no encosto do div\u00e3 dizendo: \u201cO problema \u00e9 que sou um idoso; voc\u00ea n\u00e3o acredita que vale a pena me amar\u201d. O impacto destas palavras foi terr\u00edvel para ela e n\u00e3o conseguiu dizer nada mais.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata do que diz, do que quis dizer, do que n\u00e3o se pode dizer, do que se silenciou. Sen\u00e3o do que n\u00e3o se diz e se coloca como limite do dito. Se presentifica, inclusive na nota escrita por Freud, como um ponto do que n\u00e3o se diz&#8230; e os efeitos de separa\u00e7\u00e3o entre o que se diz e o que n\u00e3o se pode dizer. Se tomamos como tinha colocado antes, implica o impacto&#8230; do que n\u00e3o se diz.<\/p>\n<p>Ela coloca em seu texto: \u201cFoi exatamente como se o Ser Supremo tivesse batido com sua m\u00e3o na parte posterior do div\u00e3 onde estava deitada\u201d. Entre o que se pode dizer e o que n\u00e3o se pode dizer. Com essas palavras, por\u00e9m, o Ser supremo que exerce certa sugest\u00e3o, fala desde esse lugar para dizer que ela n\u00e3o o considera um ser t\u00e3o ador\u00e1vel. Sempre h\u00e1, portanto, algo da ordem de uma mentira na idealiza\u00e7\u00e3o do objeto. A equivocidade que Miquel Bassols destaca \u00e9 que na l\u00edngua inglesa \u00e9 igual o ger\u00fandio deitando-se \u2013 <em>lying<\/em>&#8211; que mentindo \u2013 do verbo <em>to lie<\/em>.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> Neste sentido, se pode brincar com a equivocidade das palavras do sujeito e dizer que a interpreta\u00e7\u00e3o do Ser Supremo bate no div\u00e3 onde ela tem estado mentindo sobre o objeto de amor.<\/p>\n<p>Uma interpreta\u00e7\u00e3o que impacta o sujeito e o acorda da sugest\u00e3o, da demanda de ser amado. Abre a pergunta pelo objeto do desejo. Gosto da precis\u00e3o de Bassols: n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o da transfer\u00eancia, sen\u00e3o uma interpreta\u00e7\u00e3o que se apoia na transfer\u00eancia, com o fim de esclarecer os efeitos de sugest\u00e3o.<\/p>\n<p>Neste ponto, o analista sustenta, com sua presen\u00e7a e seu dizer, o limite do que se diz enquanto semblante desse objeto estranho e ininterpret\u00e1vel que perturba e inquieta. Neste sentido, o ato anal\u00edtico n\u00e3o \u00e9 correlato da significa\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o da puls\u00e3o, da qual o analista passa a ser semblante de objeto.<\/p>\n<p>O ato anal\u00edtico faz ressoar um dizer. Eco do dizer no corpo.<\/p>\n<p>O que nos interessa do que n\u00e3o se diz \u00e9 o que se decanta em seu estatuto de resto. N\u00e3o se trata de lembran\u00e7as das coisas ditas&#8230; mesmo que os exemplos que trouxe curiosamente s\u00e3o de textos que tem a palavra Mem\u00f3ria (Mem\u00f3rias p\u00f3stumas ou Mem\u00f3rias de uma an\u00e1lise). S\u00e3o restos <em>do que n\u00e3o se diz<\/em> que impacta, perturba e de certa maneira fica como resto e empuxa para a interpreta\u00e7\u00e3o ou a fazer algo com eles. Cernir e circunscrever esses restos implica o que se pode inventar com eles. Uma gambiarra? Uma bricolagem? Retomando o que Marcus trazia a \u00faltima vez. Talvez se faz uma vida com eles.<\/p>\n<p>6 de julho 2020<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio, livro 19. RJ: Zahar ed., 2012, p. 224.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio, livro 19, <em>Op. <\/em><em>Cit<\/em>., p. 221.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Gu\u00e9guen, P-G. Ato anal\u00edtico. In: <em>Scilicet: As psicoses ordin\u00e1rias e as outras-sob transfer\u00eancia<\/em>. SP: EBP, 2018, p. 60.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan, J. Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967. In: <em>Escritos<\/em>. RJ: Zahar, 2003, p. 259.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio, livro 16. RJ: Zahar, 2008, p. 338.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Bassols, M. <em>Las paradojas de la transferencia<\/em>. In: <em>Virtualia<\/em>, n. 29, novembro 2014.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><a id=\"maria\"><\/a>Coment\u00e1rio do Semin\u00e1rio Cl\u00ednico A Presen\u00e7a do Analista\u00a0 06\/07\/2020<\/span><\/h3>\n<p><strong>O que n\u00e3o se diz (sil\u00eancio? barulho?)<\/strong><\/p>\n<h6><em>Por Maria Corr\u00eaa de Oliveira<\/em><\/h6>\n<p>Compondo o Semin\u00e1rio Cl\u00ednico A presen\u00e7a do Analista, de Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do Rego Barros, a corajosa apresenta\u00e7\u00e3o de Nohem\u00ed Brown fechou o \u00faltimo encontro dessa s\u00e9rie de tr\u00eas.\u00a0 A cada encontro apresentador e debatedores permutaram seus lugares. Contar com a voz e com a presen\u00e7a \u00eaxtima de Nohem\u00ed em todos os encontros foi um presente que o plano virtual nos disponibilizou.\u00a0 Um diferencial e tanto em um Semin\u00e1rio reestabelecido a partir da conting\u00eancia pand\u00eamica que nos atravessou.<\/p>\n<p>Com precisas interven\u00e7\u00f5es dos debatedores nas reverbera\u00e7\u00f5es de uma l\u00edngua que insiste em leituras e escritas pr\u00f3prias, a palavra circulou de modos distintos. Similar a uma figura topol\u00f3gica, onde n\u00e3o se localiza uma ruptura na passagem de um lado a outro, o formato de conversa\u00e7\u00e3o se sustentou como fio condutor de apontamentos e indaga\u00e7\u00f5es em enunciados que fizeram barulho, impactaram e apontaram a opacidade presente na comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Subindo em um trem em movimento, como se refere \u00e0 sua participa\u00e7\u00e3o ao longo do Semin\u00e1rio, e com uma minuciosa precis\u00e3o na depura\u00e7\u00e3o de seu argumento, Nohem\u00ed apresentou algumas vias para expressar suas reflex\u00f5es. Elegi aquela que me pareceu atravessar de <em>fio a pavio <\/em>sua apresenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Valendo-se da \u00a0c\u00e9lebre passagem de Lacan, \u201cQue se diga, como fato, fica esquecido por tr\u00e1s do que \u00e9 dito, \/no que se ouve\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0 a apresentadora debru\u00e7ou-se sobre esse enunciado para tratar do que se apresenta no que se diz sem exatamente se apresentar no dito, ao que excede o sentido. \u00a0Algo dessa presen\u00e7a que se faz presente entre o que pode ser dito e o que n\u00e3o pode ser dito, \u201cuma encruzilhada do \u00edntimo\u201d, como denomina Nohem\u00ed, \u201cna delicada extra\u00e7\u00e3o do que n\u00e3o se diz, do que n\u00e3o se quer dizer, e do que n\u00e3o se deve dizer, cada um pertencendo a ordens diferenciadas\u201d.<\/p>\n<p>Para que se fa\u00e7a dizer e ouvir o que vibra, perturba e inquieta n\u00e3o se trata de ir em busca de segredos ou mesmo propiciar condi\u00e7\u00f5es para uma confiss\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o se est\u00e1 tratando de negativas, pois dizer que n\u00e3o \u00e9, j\u00e1 \u00e9 dizer alguma coisa, mas sim de alguma coisa como uma presen\u00e7a que se encontra e se decanta entre, entre um dizer e o dito, como sublinha Marcus Andr\u00e9.<\/p>\n<p>Algumas quest\u00f5es guiaram o debate em torno da extra\u00e7\u00e3o de um dizer e do fazer do analista a partir do ato e de seus efeitos. Apresento algumas delas: ser\u00e1 preciso introduzir algo da ordem de um barulho para que se evoque o que n\u00e3o se apresenta? Sem o esvaziamento do sentido, de sentidos, como ouvir o sil\u00eancio dos balbucios pressentidos?\u00a0 Que efeitos recolhemos do ato anal\u00edtico em sua fun\u00e7\u00e3o transgressora?<\/p>\n<p>Para atravessar tamanhas inquieta\u00e7\u00f5es, Nohem\u00ed traz \u00e0 cena a fun\u00e7\u00e3o de impacto presente na interpreta\u00e7\u00e3o como ato anal\u00edtico, a interven\u00e7\u00e3o do analista como um barulho disruptivo que rompe com a cadeia de associa\u00e7\u00f5es e possibilita o despertar do sujeito de seu sonho de ser amado, abertura para a via do desejo.\u00a0 Valendo-se do exemplo de um ato de Freud na condu\u00e7\u00e3o da an\u00e1lise da poetisa Hilda Doolittle, esmi\u00fa\u00e7a o coment\u00e1rio de Miquel Bassols<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> sobre essa passagem, descrevendo \u00a0\u00a0esse ato como um corte, um ato que faz vacilar a janela para o real. \u00a0O ato anal\u00edtico promove o analista em sua fun\u00e7\u00e3o de objeto a, ou mais precisamente, como semblante do objeto, como recorda Nohem\u00ed trazendo pontua\u00e7\u00f5es recentes de Romildo.\u00a0 Tratando do que n\u00e3o se diz, o analista se coloca como limite, borda do dito. Se presentifica como ponto do que n\u00e3o se diz, assinala Nohem\u00ed.<\/p>\n<p>A ruptura que o ato promove apresenta uma precipita\u00e7\u00e3o, o \u201carrepio da significa\u00e7\u00e3o presente na cadeia\u201d, e nesse regime, \u00e0s voltas com alguma coisa que se decanta entre o dito e o dizer. Estamos no regime da puls\u00e3o e n\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o, como indica Romildo em suas m\u00faltiplas contribui\u00e7\u00f5es para o debate. Na dire\u00e7\u00e3o do real, enfatiza.<\/p>\n<p>O coment\u00e1rio de Romildo me levou a uma entrevista feita com Lacan e transcrita no Triunfo da Religi\u00e3o. Em determinado trecho o jornalista afirma estar escutando atentamente o entrevistado.\u00a0 Lacan ironicamente interv\u00e9m, \u201cEst\u00e1 escutando sim. Mas ser\u00e1 que est\u00e1 agarrando da\u00ed um tantinho que se pare\u00e7a com o real?\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>E o que nos interessa agarrar? \u201cO que nos interessa do que n\u00e3o se diz \u00e9 o que se decanta em seu estatuto de resto\u201d, afirma Nohem\u00ed.<\/p>\n<p>O ensino de Lacan aposta nos restos; tra\u00e7os, marcas, peda\u00e7os de hist\u00f3rias<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> de cada ser falante que se esgueiram nos ditos contidos na palavra\/corpo e vibram, fazem vibrar, para que algo desse impens\u00e1vel possa ser pressentido.\u00a0 Esses ser\u00e3o decisivos nessa perspectiva de um dizer. Extra\u00eddos como fun\u00e7\u00e3o, podem vir a fazer valer a partida em jogo.<\/p>\n<p>A partir de Miller<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a> localizamos\u00a0 \u00a0justamente nessa salva\u00e7\u00e3o dos dejetos que se precipitam entre os ditos, a incorpora\u00e7\u00e3o da fun\u00e7\u00e3o de dejeto, o que pontualmente instaura a conting\u00eancia de uma poss\u00edvel escrita. O ato anal\u00edtico, de largo alcance, resgata a dignidade do analista ao marcar a oportunidade de trazer \u00e0 cena o que se apresenta como mero dejeto. A fun\u00e7\u00e3o do analista encontra seu cora\u00e7\u00e3o nesse movimento de resgate, nesse relan\u00e7amento para dentro da cena do que seria pura perda.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o restos do que n\u00e3o se diz que impactam e perturbam\u201d, mas sobretudo se recolocam como resto, para que se possa fazer, qui\u00e7\u00e1, uma vida com eles. Gambiarra, bricolagem, um empuxo ao fazer, como remete Nohem\u00ed a formula\u00e7\u00f5es anteriores de Marcus Andr\u00e9.<\/p>\n<p>Na introdu\u00e7\u00e3o de uma presen\u00e7a entre um n\u00e3o dizer e um dito, o analista \u00e9 aquele que se det\u00e9m a apreender o sil\u00eancio falante na borda do ru\u00eddo. Dos buracos presentes na trama dos barbantes sempre que se diz de uma rede, como exemplifica Marcus, citando Guimar\u00e3es Rosa, ao barulho silencioso do cabelo em crescimento, como canta Arnaldo Antunes, o fazer do analista traz para travessia o que fica esquecido, por tr\u00e1s do que \u00e9 dito, no que se escuta.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio, livro 19. RJ: Zahar ed., 2012, p. 213.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Bassols, M. <em>Las paradojas de la transferencia<\/em>. In: <em>Virtualia<\/em>, n. 29, novembro 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. O triunfo da religi\u00e3o. RJ: Zahar, 2005. P.68<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Vieira, M.A. Restos.\u00a0 RJ: Contra capa, 2008.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.A. Persperctivas dos Escritos e Outros Escritos de Lacan. RJ: Zahar, 2011.p 227<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5218&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5238&#8243; img_size=&#8221;500&#215;299&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"romildo\"><\/a>A presen\u00e7a do analista &#8211; o que n\u00e3o se v\u00ea da janela<a style=\"color: #993300;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a><\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Por Romildo do R\u00eago Barros<\/em><\/h6>\n<p>Ser\u00e1 que a presen\u00e7a do analista \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o mais ou menos fiel de outras presen\u00e7as que foram surgindo ao longo da hist\u00f3ria de um sujeito? Todos se lembram que Freud comparou o analista a v\u00e1rios personagens da hist\u00f3ria do analisante: pai, educador, cirurgi\u00e3o&#8230;, etc.<\/p>\n<p>Com Lacan, a express\u00e3o \u201cpresen\u00e7a do analista\u201d diz respeito ao que justamente escapa ou excede os personagens. Quando um analisante associa, por exemplo, o analista a um dos personagens da s\u00e9rie enumerada por Freud, est\u00e1 circunscrevendo alguma coisa do analista, claro, mas, sabendo ou n\u00e3o, est\u00e1 igualmente apontando para um al\u00e9m do personagem.<\/p>\n<p>Quando um analisante, por exemplo, diz que o analista parece ou mesmo repete tal tra\u00e7o do seu pai, n\u00e3o est\u00e1 simplesmente apontando uma correspond\u00eancia fechada, no sentido de que cada um dos dois personagens recobriria inteiramente o outro tra\u00e7o a tra\u00e7o, mas que h\u00e1 na verdade um elemento a mais. Neste caso, temos tr\u00eas elementos: temos o pai, o analista da compara\u00e7\u00e3o (\u201cvoc\u00ea \u00e9 igual ao meu pai\u201d) e, se posso chamar assim, o analista da fun\u00e7\u00e3o, que escapa a qualquer compara\u00e7\u00e3o. Digamos que este \u00faltimo, o analista da fun\u00e7\u00e3o, excede n\u00e3o somente o personagem como tamb\u00e9m o enquadramento da situa\u00e7\u00e3o na qual a compara\u00e7\u00e3o foi feita, e \u00e9 neste sentido que a ideia de um <em>setting<\/em> \u00e9 insuficiente para nomear o que se passa em uma an\u00e1lise, o seu enquadramento. O termo <em>discurso<\/em> \u00e9 bem mais apropriado, pois nomeia o dispositivo, o jogo de rela\u00e7\u00f5es que h\u00e1 numa an\u00e1lise, e mais aquilo que escapa ao dispositivo, mas que \u00e9 o motor do dispositivo.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>O nosso semin\u00e1rio cl\u00ednico deste ano, portanto, vai tratar da presen\u00e7a do analista, e esta nossa reuni\u00e3o de hoje, mesmo com os limites do virtual, s\u00e3o a sua abertura.<\/p>\n<p>E j\u00e1 que falei mais acima de enquadramento, achei que seria oportuno lembrar um quadro, ou alguns quadros de Ren\u00e9 Magritte que dilui a separa\u00e7\u00e3o entre o interior e o exterior, a partir de uma indecis\u00e3o \u2013 indecis\u00e3o nossa, os que olhamos o quadro &#8211; entre um quadro pintado e o exterior de uma janela, a tal ponto que n\u00e3o se sabe muito bem se se trata de um quadro emoldurado, ou da moldura de uma janela que d\u00e1 para a paisagem.<\/p>\n<p>Nas palavras do pr\u00f3prio Magritte,<\/p>\n<p>\u201cEu coloquei em frente de uma janela, vista do interior dum quarto, uma pintura representando exatamente a parte da paisagem oculta pela pr\u00f3pria pintura. Portanto, a \u00e1rvore representada na pintura escondia a \u00e1rvore localizada por tr\u00e1s dela, fora do quarto. Ela existia para o espectador, desta forma, ao mesmo tempo dentro do quarto na pintura e fora do quarto na paisagem real. Que \u00e9 como n\u00f3s vemos o mundo: n\u00f3s o vemos como existindo fora de n\u00f3s pr\u00f3prios, mesmo que seja apenas uma sua representa\u00e7\u00e3o mental o que n\u00f3s sentimos dentro de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>O que nos interessa nessa explica\u00e7\u00e3o dada por Magritte ao seu trabalho, \u00e9 que ele, com os recursos dados pelo ironia surrealista (que Paul Val\u00e9ry chamava criticamente de \u201csalva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d, express\u00e3o retomada por Jacques-Alain Miller em um artigo que trata, entre outras coisas, da sublima\u00e7\u00e3o e do dejeto), cria um espa\u00e7o de indecis\u00e3o que n\u00e3o somente dilui a separa\u00e7\u00e3o entre o dentro e o fora, como tamb\u00e9m nos mostra em que\u00a0 medida cada espa\u00e7o (a cena do quadro, ou o espa\u00e7o exterior \u00e0 janela&#8230;) depende do outro para se afirmar como realidade. Para n\u00f3s, esta \u00e9 precisamente a fun\u00e7\u00e3o da fantasia: considerar o ideal sem desconsiderar o res\u00edduo. A separa\u00e7\u00e3o entre o ideal e o res\u00edduo \u00e9, no sentido psicanal\u00edtico, uma interpreta\u00e7\u00e3o que, como dizia Lacan, deve visar o objeto.<\/p>\n<p>O quadro de Magritte esconde a paisagem, mas ao mesmo tempo s\u00f3 subsiste, como ironia surrealista, a partir daquilo que ele esconde. Entre o quadro e a paisagem que se v\u00ea da janela, precipita-se um res\u00edduo \u2013 que n\u00e3o \u00e9 nem o quadro, nem a paisagem e nem mesmo a correspond\u00eancia entre os dois -, um diferencial que \u00e9 a pr\u00f3pria causa do quadro.<\/p>\n<p><strong>III<\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Voltemos ao analista e \u00e0 sua presen\u00e7a. A primeira coisa que se pode dizer, me parece, \u00e9 que h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre a presen\u00e7a e o lugar. Enquanto este \u00faltimo reenvia ao simb\u00f3lico &#8211; o lugar, por defini\u00e7\u00e3o, est\u00e1 vazio -, a presen\u00e7a tem um peso de real.<\/p>\n<p>O lugar diz respeito a uma articula\u00e7\u00e3o mais ou menos est\u00e1vel, como, por exemplo, um organograma sociol\u00f3gico ou institucional. A presen\u00e7a, como a entendo, se d\u00e1 como irrup\u00e7\u00e3o, como uma exce\u00e7\u00e3o, quase como uma obje\u00e7\u00e3o ao lugar.<\/p>\n<p>Podemos citar como exemplo da presen\u00e7a como irrup\u00e7\u00e3o o que dizia Freud sobre o s\u00fabito sil\u00eancio feito por um analisante. Para Freud, esse sil\u00eancio era indica\u00e7\u00e3o de que o analisante estava pensando no analista. Freud, ali\u00e1s, n\u00e3o se privava de expressar essa sua interpreta\u00e7\u00e3o para o seu paciente. No caso, a presen\u00e7a surgia como ruptura da continuidade das associa\u00e7\u00f5es do analisante, e o analista irrompia no pensamento como um ponto de resist\u00eancia, ou traum\u00e1tico.<\/p>\n<p>Mas a presen\u00e7a do analista como irrup\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas um lado da quest\u00e3o. Al\u00e9m daquilo que a presen\u00e7a tem de s\u00fabito, existe a utilidade do analista dentro dos la\u00e7os e dos discursos. Eu queria terminar por hoje com um trecho do artigo de Jacques-Alain Miller chamado <em>A Salva\u00e7\u00e3o pelos Dejetos<\/em>, express\u00e3o com a qual Paul Val\u00e9ry criticava os surrealistas. Miller diz dos analistas<em>:<\/em><\/p>\n<p>\u201co que os salva mesmo assim \u2013 \u00e9 ter tido \u00eaxito em fazer de sua posi\u00e7\u00e3o de dejeto o princ\u00edpio de um novo discurso.\u201d<\/p>\n<p>O que tentei apresentar hoje n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica maneira de entender a presen\u00e7a do analista. Mas foi uma abordagem que me pareceu \u00fatil para iniciar o semin\u00e1rio cl\u00ednico da Se\u00e7\u00e3o Rio deste ano.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Semin\u00e1rio Cl\u00ednico da EBP-RJ, em 04\/05\/2020.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5180&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5177&#8243; img_size=&#8221;500&#215;299&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"marcus\"><\/a>O que n\u00e3o se v\u00ea da janela<\/strong><a style=\"color: #993300;\" href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>\u00a8<\/strong><\/a><\/span><\/h3>\n<p>(e que s\u00f3 se pressente do vizinho)<\/p>\n<h6><em>Por Marcus Andr\u00e9 Vieira <\/em><\/h6>\n<p><strong>I<\/strong><\/p>\n<p>O tema da janela tem longa hist\u00f3ria no ensino de Lacan.<\/p>\n<p>Um primeiro aspecto \u00e9 uma analogia, a de tomar a consci\u00eancia, a estrutura do ego, como a de uma janela. N\u00e3o no sentido de prote\u00e7\u00e3o ou barreira, mas de recorte.<\/p>\n<p>Assumimos que \u00e9 preciso, para suportar o excesso de est\u00edmulos do real, para sair do \u201csem recursos\u201d da crian\u00e7a freudiana, de \u00f3culos. N\u00e3o para ver melhor, mas para ver menos. A cultura, ou simb\u00f3lico como dizemos \u00e0s vezes, \u00e9 o enquadre que nos permite discernir coisas, colocar algumas sob nosso foco enquanto outras se perdem, fora de cena. Neste sentido a janela equivale a um par de \u00f3culos.<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>\u00c9 todo um modo de estar no mundo. Seria ele exclusividade do recalque, da estrutura\u00e7\u00e3o neur\u00f3tica da vida? A discutir. De toda forma, quando a realidade ps\u00edquica e a fantasia, no sentido que lhe d\u00e1 Lacan, s\u00e3o constitu\u00eddas por esse jogo, o do par janela x fora da janela \u00e9 quase imposs\u00edvel viver a vida sem ele.<\/p>\n<p>Nesse contexto, \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o pensar que uma an\u00e1lise se interessa pelo que n\u00e3o se v\u00ea da janela da consci\u00eancia, pelo que ficaria de fora. N\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n<p>A c\u00e9lebre defini\u00e7\u00e3o freudiana do inconsciente como <em>Outra cena <\/em>\u00e9 relida por Lacan para mostrar que, como tantas outras, n\u00e3o \u00e9 bem o que parece ser. O perigo \u00e9 entend\u00ea-la apenas como cena oculta. O analista se liga a alguma coisa que n\u00e3o se v\u00ea, n\u00e3o acess\u00edvel diretamente pelo esfor\u00e7o consciente, mas n\u00e3o a imagina como uma cena que, para ser vista, bastaria que se deslocasse o \u00e2ngulo da c\u00e2mera.<\/p>\n<p>Esse tipo de cena que promovem tantos famosos em suas <em>lives <\/em>em tempos de quarentena. Vemos o interior da casa, tudo alegre, limpo e fofo. Esse tipo de cena complementar, apaziguadora \u00e9 \u201coutra\u201d, mas n\u00e3o a que nos interessa.<\/p>\n<p>A Outra cena do inconsciente n\u00e3o \u00e9 nem mesmo quando algu\u00e9m abre para n\u00f3s seus arm\u00e1rios e vemos uma cena secreta, feita de objetos escondidos nos por\u00f5es da exist\u00eancia. A chave n\u00e3o \u00e9 tanto onde est\u00e3o os objetos, \u00e9 o regime de desrealiza\u00e7\u00e3o que instaura uma an\u00e1lise e n\u00e3o a realidade alternativa que ela desenterraria.<\/p>\n<p><strong>II<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 o espa\u00e7o da estranheza e seus objetos que contam.<\/p>\n<p>Para isso, n\u00e3o basta procurar o fora de cena, mas sim a desrealiza\u00e7\u00e3o que nos interessa e que acontece apenas em situa\u00e7\u00f5es especiais.<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>A mais comum ocorre quando duas cenas, duas realidades se contrap\u00f5em e torna-se indecid\u00edvel saber em qual cena estamos. Na indecis\u00e3o entre a paisagem comumente representada e a que nossos olhos apresentam, surge a estranheza.<\/p>\n<p>\u00c9 o que mostra a c\u00e9lebre situa\u00e7\u00e3o de Freud. No trem, caminhando no corredor buscando sua cabine, v\u00ea chegando um senhor antip\u00e1tico at\u00e9 descobrir que \u00e9 ele pr\u00f3prio refletido no vidro. Instaura-se um espa\u00e7o entre Freud e Freud, o da<\/p>\n<p>estranheza de Freud diante da antipatia dele mesmo para com ele mesmo.<\/p>\n<p>O que importa, por\u00e9m, \u00e9 que o a desrealiza\u00e7\u00e3o vem apresentar, neste exemplo a rabugice de Freud e que lhe traz um aspecto inesperado de si mesmo. De maneira an\u00e1loga, a perturba\u00e7\u00e3o da realidade sustentada pela presen\u00e7a \u201centre-dois\u201d do analista, esse t\u00e3o \u00edntimo e t\u00e3o estranho personagem, convoca lembran\u00e7as, representa\u00e7\u00f5es ao modo da antipatia de Freud. S\u00e3o coisas tamb\u00e9m feitas de elementos h\u00edbridos, colagens, fragmentos, tudo o que Lacan chamou de resto, dejetos a serem descartados, mas que n\u00e3o conseguimos jogar fora e que v\u00e3o morar no \u201centre-dois\u201d do recalque.<\/p>\n<p>Por seu poder desestabilizador da realidade, esses elementos produzem revolu\u00e7\u00f5es, for\u00e7ando reconfigura\u00e7\u00f5es do ego. Lacan re\u00fane todas as caracter\u00edsticas deste tipo de objeto em uma s\u00f3 letra ao denomin\u00e1-lo objeto \u201ca\u201d, estranho objeto da psican\u00e1lise.<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p><strong>III<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 ontem, a presen\u00e7a do analista, f\u00edsica quase sempre, quase sempre indefinida, instaurava esse espa\u00e7o de estranheza praticamente por si s\u00f3.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a> O que lhe acontece, por\u00e9m, quando precisamos prescindir do corpo no ambiente virtual?<\/p>\n<p>\u00c9 preciso primeiro notar o quanto a situa\u00e7\u00e3o especial e relativamente rara de Freud \u00e9 hoje nosso quotidiano. Vivemos na pandemia todo o tempo <em>entre<\/em> a janela da casa e a do computador ou do celular. J\u00e1 era nossa vida desde antes, mas o isolamento nos instaura radicalmente nesse \u201centre\u201d. N\u00e3o s\u00f3 entre janelas, mais ainda entre o antes e o depois da epidemia. Habitamos agora o espa\u00e7o perturbado, que at\u00e9 ent\u00e3o encontr\u00e1vamos apenas raramente, esse espa\u00e7o desrealizado tornou-se nossas vidas. N\u00e3o \u00e0 toa h\u00e1 tanta estranheza e ang\u00fastia nesses tempos.<\/p>\n<p>Como, j\u00e1 que a estranheza n\u00e3o \u00e9 mais uma opera\u00e7\u00e3o do analista, est\u00e1 em toda parte, fazer valer sua presen\u00e7a? A quest\u00e3o crucial da an\u00e1lise <em>on-line<\/em> me parece se concentrar nesse ponto, bem mais do que na presen\u00e7a ou n\u00e3o do corpo. Mesmo antes, n\u00e3o bastava estar fisicamente presente para que o estranho do corpo se apresentasse, no entanto, a presen\u00e7a do analista como coisa indefinida, parece ainda menos garantida, o que n\u00e3o significa que n\u00e3o possa haver an\u00e1lise <em>on-line<\/em>.<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p><strong>IV<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 outro objeto <strong><em>a<\/em><\/strong> fundamental, n\u00e3o mais no campo visual, a voz. Bem mais dif\u00edcil falar dele, mesmo assumindo que ele tamb\u00e9m se insinua no entre-dois da estranheza.<\/p>\n<p>Seguindo o mesmo racioc\u00ednio empreendido para o campo esc\u00f3pico, o de sua estrutura\u00e7\u00e3o ao modo cena x fora de cena, tendemos a pensar que haveria um jogo entre o que se ouve e o que n\u00e3o se ouve, mas que poderia ser acessado. Como se houvesse uma cena musicada, por exemplo a melodia, e um fora de cena, que se apresentaria como ru\u00eddo, ou ainda um detalhe oculto da entona\u00e7\u00e3o, pros\u00f3dia etc.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia auditiva resiste a este modo de estrutura\u00e7\u00e3o porque se estabelece n\u00e3o como descontinuidade, como o olhar, mas em um regime de continuidade. Sempre se ouve alguma coisa. N\u00e3o \u00e9 como na vis\u00e3o em que basta fechar os olhos para que a cena desapare\u00e7a. A paisagem sonora n\u00e3o desparece nem mesmo se tapamos os ouvidos.<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>A presen\u00e7a do Outro se objetaliza como olhar e voz, mas de modos distintos.<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a> Para o objeto voz, de Lacan, como apresenta\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a do analista e de seu poder de interpreta\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 preciso pensar menos em ternos de dentro e fora, vis\u00edvel e invis\u00edvel e mais de ritmo e intensidade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o objeto que nos interessa ganha outro aspecto. Melhor falar, em vez de objeto-mancha, de uma presen\u00e7a n\u00e3o exatamente ouvida, mas pressentida. Uma coisa que se insinua, que \u00e9 presen\u00e7a pressentida. Que melhor exemplo dessa presen\u00e7a pressentida que a do vizinho que faz sons estranho ao lado? Ou ainda no panela\u00e7o?<\/p>\n<p>Esse ser\u00e1 o tema de nosso pr\u00f3ximo semin\u00e1rio cl\u00ednico. Quero apenas, para concluir, interrogar a que ponto lidar com o que n\u00e3o se v\u00ea da janela ou s\u00f3 se pressente do vizinho, objetos da psican\u00e1lise, poderia participar de nosso momento coletivo.<\/p>\n<p><strong>V<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o vejo sentido retomarmos estes temas sem quebrarmos tamb\u00e9m a cabe\u00e7a sobre como e de que lugar eles podem participar de uma a\u00e7\u00e3o coletiva de mudan\u00e7a da situa\u00e7\u00e3o concreta do pa\u00eds. N\u00e3o porque ter\u00edamos certeza de uma contribui\u00e7\u00e3o v\u00e1lida, mas porque \u00e9 necessidade vital.<\/p>\n<p>Quando tudo que resiste a se definir ao modo \u201cp\u00e3o-p\u00e3o, queijo-queijo\u201d torna-se inimigo e ser destru\u00eddo ou massa a ser eliminada, como ainda sermos difusores ir\u00f4nicos de estranheza, catadores de objetos estranhos?<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Quase em contraponto com tudo o que foi dito at\u00e9 aqui, creio que precisamos defender a realidade. Sabemos que ela \u00e9 um sonho, nosso trabalho habitual \u00e9 o de desrealiz\u00e1-la, mas hoje, diante de tanta fragmenta\u00e7\u00e3o, talvez tenhamos que escolher ao menos uma e reafirm\u00e1-la.<\/p>\n<p>Qual seria, ent\u00e3o, o <em>comum<\/em> que nos apoie? Um <em>n\u00f3s<\/em> que nos re\u00fana?<\/p>\n<p>Entendo como o do humano tomado como podendo ser outra coisa do que \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de buscar Outra cena como realidade alternativa, mais ou menos ut\u00f3pica, mas sim a possibilidade das coisas, na distopia em que vivemos, sempre poderem ser Outra coisa. Na luta contra a necropol\u00edtica assim como na contram\u00e3o do identitarismo ao modo americano, \u00e9 preciso sustentar a todo instante, como em nossa cl\u00ednica, que um pobre possa ser outra coisa que n\u00e3o pobre, ou um negro, ou uma mulher.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">\u00a8<\/a> Esse texto re\u00fane o essencial de minha apresenta\u00e7\u00e3o no primeiro encontro virtual do Semin\u00e1rio Cl\u00ednico da EBP-Rio, com alguns acr\u00e9scimos da apresenta\u00e7\u00e3o do mesmo tema na atividade preparat\u00f3ria para o XXI Encontro Brasileiro do Campo Freudiano (dispon\u00edvel em <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tmSzVsMGd2k&amp;t=2196s\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=tmSzVsMGd2k&amp;t=2196s<\/a>). O que se ler\u00e1, deriva diretamente das conversas com Romildo do R\u00eago Barros na prepara\u00e7\u00e3o do semin\u00e1rio, assim como com Nohem\u00ed Brown a quem agrade\u00e7o.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Aqui vale o exemplo de Win Wenders no filme \u201cJanelas da alma\u201d v\u00e1rias vezes citado por Romildo e por mim mesmo. Ele lembra quando colocou lentes de contato e n\u00e3o suportou o excesso de vis\u00e3o, foi preciso voltar para o enquadramento de seus \u00f3culos de m\u00edope.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Por exemplo, como produz a s\u00e9rie de telas de Magritte denominadas \u201cA condi\u00e7\u00e3o humana\u201d, trabalhado por Romildo no semin\u00e1rio cl\u00ednico da EBP-Rio.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Para homenagear o grande Aldir Blanc, quero destacar um desses objetos no bolero, <em>Dois para l\u00e1, dois para c\u00e1<\/em>, inesquec\u00edvel na voz de Elis Regina. Um homem tira sua diva para dan\u00e7ar. No ambiente de realidade perturbada do sal\u00e3o da boite, \u201csentindo frio em minha alma\u201d, com a cabe\u00e7a \u201crodando mais que os casais\u201d, a descri\u00e7\u00e3o da musa, entre ideal e cafona, delimita com precis\u00e3o esse poder de estranheza do entre-dois, que atravessa toda a can\u00e7\u00e3o e se concentra no objeto que se introduz no cl\u00edmax de sua descri\u00e7\u00e3o: o seu perfume gard\u00eania, no dedo um falso brilhante, brincos iguais ao colar e a ponta de um torturante<em> band-aid no calcanhar.<\/em> Como em uma an\u00e1lise a estranheza precipita um objeto singular, que toca o inseguro dan\u00e7arino da can\u00e7\u00e3o analisante como nenhum outro e faz com que ele nunca mais seja o mesmo depois desse encontro.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> O analista se insinua como presen\u00e7a indecid\u00edvel. Isso pode ser feito pelo sil\u00eancio. Um sil\u00eancio que abra o espa\u00e7o do estranho. Parece dif\u00edcil, mas n\u00e3o \u00e9, basta que o analista n\u00e3o acredite a 100% que a realidade vivida no dia a dia \u00e9 o real que interessa, nem que o material inconsciente \u00e9 em si o real. Vale mais o que surge no entre-dois.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Al\u00e9m disso, a estranheza no isolamento se desloca para o que est\u00e1 entre mim e o pr\u00f3ximo. Entre mim e minha esposa ou filhos, ou o vizinho. \u00c9 preciso, na sess\u00e3o, online ou n\u00e3o, materializar o objeto estranho, que nos interpreta e nos reconfigura.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Por isso instaurar um fora de cena sonoro \u00e9 muito for\u00e7ado, quando durmo com o ar condicionado ligado crio um fora de cena, mergulho no meu quarto, mas aquele ronron el\u00e9trico n\u00e3o \u00e9 sil\u00eancio, vem for\u00e7ar um dentro fora que n\u00e3o h\u00e1 por si s\u00f3.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Em meu livro <em>A escrita do sil\u00eancio<\/em>, propus essa diferen\u00e7a em termos de objeto olhar \/ janela\/ fantasia de um lado, e voz \/ <em>sinthoma<\/em> \/ vizinhan\u00e7a, de outro.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Lacan, em \u201cLituraterra\u201d, j\u00e1 dizia que o ocidente (hoje dir\u00edamos o mundo euroc\u00eantrico) \u00e9 fundado no assassinato. Contrapunha a ele o oriente, em que um tra\u00e7o n\u00e3o \u00e9 rasura, apagamento, mas marca de gozo. Com A. Mbembe, dir\u00edamos de outro modo: se a p\u00f3lis euroc\u00eantrica se constr\u00f3i a partir de uma necropol\u00edtica, no Brasil, vemos como a necr\u00f3pole do capital, em sua vers\u00e3o paranoica, pode ser suicida.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator color=&#8221;juicy_pink&#8221; border_width=&#8221;4&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h2><span style=\"color: #993300;\">2019<\/span><\/h2>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Semin\u00e1rio Cl\u00ednico: sonho e tempo<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Coordena\u00e7\u00e3o:\u00a0<em>Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do R\u00eago Barros<\/em><\/h6>\n<p>Vamos nos apoiar em fragmentos de an\u00e1lise envolvendo a interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos para abordar o modo muito particular da presen\u00e7a do tempo no dispositivo anal\u00edtico e de seu uso por parte do analista. Duas hip\u00f3teses nos nortear\u00e3o: \u201cO inconsciente tem exist\u00eancia temporal e n\u00e3o espacial\u201d e \u201cO real do sonho \u00e9 o tempo\u201d.<\/p>\n<ul>\n<li>Sonho e tempo I (a via r\u00e9gia)\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/m9aDnGgTJjU\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/youtu.be\/m9aDnGgTJjU&amp;source=gmail&amp;ust=1565014975870000&amp;usg=AFQjCNGmuJHo1bfcuH_OFacsA43Vrxt77g\">https:\/\/youtu.be\/m9aDnGgTJjU<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo II (RSI)\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/0qMFkEVdIzo0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/youtu.be\/0qMFkEVdIzo0&amp;source=gmail&amp;ust=1565014975870000&amp;usg=AFQjCNGTIvHZiLmO0Kq2HsfWqlrdg6jOUQ\">https:\/\/youtu.be\/0qMFkEVdIzo0<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo III (o sonho do pai morto &#8211; primeira parte)\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/FTYQUDm3lmQ\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/youtu.be\/FTYQUDm3lmQ&amp;source=gmail&amp;ust=1565014975870000&amp;usg=AFQjCNEqwyHTwq75tCID-UJyBGGgTEM8Hg\">https:\/\/youtu.be\/FTYQUDm3lmQ<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo III (o sonho do pai morto &#8211; segunda parte)\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/N9tyjUjUUlY\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/youtu.be\/N9tyjUjUUlY&amp;source=gmail&amp;ust=1565014975870000&amp;usg=AFQjCNEPSZI8KUiIMJXI9IojXwXgygFfQg\">https:\/\/youtu.be\/N9tyjUjUUlY<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo IV (o sonho do filho morto)\u00a0<a href=\"https:\/\/youtu.be\/LqGPZLia-t0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-saferedirecturl=\"https:\/\/www.google.com\/url?q=https:\/\/youtu.be\/LqGPZLia-t0&amp;source=gmail&amp;ust=1565014975870000&amp;usg=AFQjCNHj-_2TMIbTBXSJFAUV21O-FCTeng\">https:\/\/youtu.be\/LqGPZLia-t0<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo V (Regress\u00e3o e significante) <a href=\"https:\/\/youtu.be\/ITrrlMQ6WTU\">https:\/\/youtu.be\/ITrrlMQ6WTU<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo VI (Sonhos de crian\u00e7as) <a href=\"https:\/\/youtu.be\/Pu-jQsVVyC8\">https:\/\/youtu.be\/Pu-jQsVVyC8<\/a><\/li>\n<li>Sonho e tempo VII (Terei sido e o imposs\u00edvel despertar) <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bd7McJW4u4Y&amp;feature=youtu.be\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=bd7McJW4u4Y&amp;feature=youtu.be<\/a><\/li>\n<li>VIII (Desejo de dormir, surpresa de desperta) <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AguBMSuBFbI&amp;feature=youtu.be\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=AguBMSuBFbI&amp;feature=youtu.be<\/a><\/li>\n<li>IX (O que desperta) <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YYXBA0df_pU&amp;feature=youtu.be\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=YYXBA0df_pU&amp;feature=youtu.be<\/a><\/li>\n<li>X (O sonho do filho morto) <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sitc7k-ym0Y&amp;feature=youtu.be\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sitc7k-ym0Y&amp;feature=youtu.be<\/a><\/li>\n<li>Tempo e sonho XI (Decifra-me ou devoro-te) <a href=\"https:\/\/youtu.be\/3sMStuDrLgY\">https:\/\/youtu.be\/3sMStuDrLgY<\/a><\/li>\n<li>Tempo e sonho XII.a (O sonho das roupas) <a href=\"https:\/\/youtu.be\/-TRJuD2Ut-Y\">https:\/\/youtu.be\/-TRJuD2Ut-Y<\/a><\/li>\n<li>Tempo e sonho XII.b (As roupas e a fantasia) <a href=\"https:\/\/youtu.be\/R6wyIsu4rCk\">https:\/\/youtu.be\/R6wyIsu4rCk<\/a><\/li>\n<li>Tempo e sonho XIII (O hipop\u00f3tamo e a polenta) <a href=\"https:\/\/youtu.be\/ov8rweOrk2w\">https:\/\/youtu.be\/ov8rweOrk2w<\/a><\/li>\n<\/ul>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5078&#8243; 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Coordena\u00e7\u00e3o: Marcus Andr\u00e9 Vieira e Romildo do R\u00eago Barros Trata-se de demonstrar como a atopia do psicanalista, solid\u00e1ria do real de uma an\u00e1lise, incide em suas inven\u00e7\u00f5es.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text] Desejo, ang\u00fastia, certeza A pr\u00e1tica da Ang\u00fastia II (19\/10\/20) Semin\u00e1rio Cl\u00ednico da EBP-Rio Coord: Marcus Andr\u00e9&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":1585,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-2074","page","type-page","status-publish","hentry","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2074","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2074"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2074\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6380,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/2074\/revisions\/6380"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2074"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}