{"id":2068,"date":"2019-07-25T08:48:24","date_gmt":"2019-07-25T11:48:24","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?page_id=2068"},"modified":"2023-09-22T08:15:01","modified_gmt":"2023-09-22T11:15:01","slug":"seminario-de-orientacao-lacaniana","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/ensino\/seminarios-4\/seminario-de-orientacao-lacaniana\/","title":{"rendered":"Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211; Bi\u00eanio 2019-2021"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h2><span style=\"color: #993300;\">2020<\/span><\/h2>\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>SEMIN\u00c1RIO DE ORIENTA\u00c7\u00c3O LACANIANA<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>Coordena\u00e7\u00e3o:<\/strong> Conselho da EBP Se\u00e7\u00e3o Rio[\/vc_column_text][vc_column_text]&#8221;Pr\u00e1tica da Psican\u00e1lise em tempos de pandemia&#8221; \u00e9 o t\u00edtulo geral do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, no qual o Conselho da Se\u00e7\u00e3o trabalhar\u00e1 o curso O Lugar e o La\u00e7o (2000-2001) de Jacques-Alain Miller.<br \/>\nO encontro do dia 25 de maio se dedicar\u00e1 ao tema \u201cReinven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e lugar anal\u00edtico\u201d. Tentaremos esclarecer por que a reinven\u00e7\u00e3o \u00e9 uma exig\u00eancia feita ao analista diante das transforma\u00e7\u00f5es ocorridas na cultura e como tal exig\u00eancia se apresenta em tempos de pandemia. S\u00e3o quest\u00f5es que envolvem uma abordagem pr\u00f3pria sobre a rela\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-tempo, sobre o lugar anal\u00edtico e sua possibilidade de fazer la\u00e7o.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sol_dezembro_001\"><\/a>O analista e a pr\u00e1tica da poesia<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Por: Maria Silvia G. F Hanna<br \/>\n<\/em><em><strong>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211; 07\/12 <\/strong><\/em><\/h6>\n<ol>\n<li><strong>Sobre O SOL e o ano pand\u00eamico.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Hoje caber\u00e1 a Ang\u00e9lica Bastos e a mim trazermos algo do que extra\u00edmos a partir da leitura do Curso de J.-A Miller: <em>El lugar y el la\u00e7o<\/em> (2000-2001),<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> cap\u00edtulo 20, intitulado: A pr\u00e1tica da poesia. Logo depois conversaremos com todos aqueles que se animem. Lembro que O semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana teve um primeiro encontro no m\u00eas de mar\u00e7o na sede da Se\u00e7\u00e3o sobre o curso de Miller: <em>Extimidade<strong>.<\/strong><\/em><strong> Logo veio o confinamento. <\/strong><\/p>\n<p>Mudamos nossa escolha de curso de Miller e passamos a trabalhar na leitura de alguns cap\u00edtulos do <em>El lugar y el lazo<\/em>, curso sugerido pelo conselho da EBP, como um modo de acolher os questionamentos que surgiram e ainda surgem na nossa pr\u00e1xis a partir do confinamento. Todos em casa, atendendo via on-line. Essa foi a forma poss\u00edvel de continuar o trabalho das an\u00e1lises que conduz\u00edamos ou faz\u00edamos.<\/p>\n<p>Os atendimentos online trouxeram uma serie de d\u00favidas e perguntas:<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel fazer an\u00e1lise atrav\u00e9s do telefone?<\/p>\n<p>O que nos autoriza a realizar essa pr\u00e1tica?<\/p>\n<p>Essa forma digital degrada a psican\u00e1lise e pode vir a transform\u00e1-la em uma psicoterapia?<\/p>\n<p>Creio que ainda tudo isto est\u00e1 vivo em n\u00f3s, nos fazendo pensar, elaborar.<\/p>\n<p>Alguns dias atr\u00e1s ouvi uma colega com muito percurso anal\u00edtico dizer: \u201cEra como se estivesse iniciando novamente\u201d.<\/p>\n<p>Certamente essa ideia tem sua pertin\u00eancia. O espa\u00e7o que habit\u00e1vamos desapareceu e outro surgiu no lugar. O espa\u00e7o f\u00edsico, o espa\u00e7o geogr\u00e1fico se transformou em um espa\u00e7o virtual, digital. Algo in\u00e9dito!<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>Algumas marcas do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana.<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Destaco a seguir alguns significantes que me tocaram e permitiram que fizesse um certo percorrido durante este ano de semin\u00e1rio. Esses significantes resultaram da leitura de alguns cap\u00edtulos do curso e fundamentalmente depois de ter ouvido as elabora\u00e7\u00f5es apresentadas por Ondina Machado, Ang\u00e9lica Bastos, Ana Tereza Groisman, Angela Batista e Rodrigo Lyra.<\/p>\n<p>Lembro aqui alguns:<\/p>\n<p>&#8211; A distin\u00e7\u00e3o entre lugar e posi\u00e7\u00e3o do analista, o la\u00e7o e discurso;<\/p>\n<p>&#8211; a experi\u00eancia anal\u00edtica e seus princ\u00edpios, a fun\u00e7\u00e3o do desejo do analista;<\/p>\n<p>&#8211; a import\u00e2ncia dos testemunhos do passe que encaminham a pergunta: como se faz um analista?<\/p>\n<p>&#8211; Os novos tempos, a pressa, a necessidade de ver resultados e a virtualidade como elementos a considerar para o estabelecimento de uma transfer\u00eancia anal\u00edtica;<\/p>\n<p>&#8211; A psican\u00e1lise carrega seu pr\u00f3prio antidoto. O Sentido e o fora-de-sentido.<\/p>\n<p>&#8211; Pensando com os p\u00e9s.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>Teoria e pr\u00e1tica: O ensino de J. Lacan<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Desejo apresentar alguns coment\u00e1rios de j. -A Miller que me parecem interessantes sobre o tema do ensino de J. Lacan que permitem situar algumas rela\u00e7\u00f5es entre teoria e pr\u00e1tica e pr\u00e1tica e teoria.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, J. Lacan n\u00e3o fez um tratado de sua obra; ao contr\u00e1rio encontramos v\u00e1rias constru\u00e7\u00f5es ao longo de sua caminhada. V\u00e1rias teorias, podemos dizer? Cada uma responde a um certo tempo onde a pr\u00e1tica do analista questiona a teoria.<\/p>\n<p>\u00c9 Freud quem d\u00e1 o passo inicial inaugurando uma nova disciplina que sofrer\u00e1 modifica\u00e7\u00f5es, dentre as quais citamos a primeira e segunda t\u00f3pica, a primeira e a segunda teoria das puls\u00f5es.<\/p>\n<p>J. Lacan, leitor de Freud, percebe que as elabora\u00e7\u00f5es mudam, que elas s\u00e3o um verdadeiro <em>work in progress<\/em> e passa a se referir a suas constru\u00e7\u00f5es, como \u201cSeu ensino\u201d. Ele se autoriza de si mesmo e com os outros. Ele diz: Meu ensino.<\/p>\n<p>Assim, seus alunos, seus leitores e comentadores dividiram seu ensino em tempos: primeiro ensino, segundo ensino, \u00faltimo ensino. Nesses tempos as elabora\u00e7\u00f5es mudam, mas n\u00e3o se superp\u00f5em. Elas respondem a quest\u00f5es diferentes. Esse fato permite afirmar que h\u00e1 algo entre teoria e pr\u00e1tica que n\u00e3o se adequa, algo frouxo entre o que se pensa e aquilo que est\u00e1 em jogo na psican\u00e1lise<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Cabe interrogar se a cada modifica\u00e7\u00e3o na teoria a pr\u00e1tica recebe seus efeitos. Certamente n\u00e3o fazemos hoje como se fazia na \u00e9poca de Freud, nem na \u00e9poca de Lacan. J. A Miller prefere n\u00e3o responder pelo sim ou pelo n\u00e3o, propondo deixar a resposta em aberto para gerar uma fenda na qual ele localiza <strong>uma des-amarra\u00e7\u00e3o entre teoria e pr\u00e1tica<\/strong>. <strong>Algo que resiste<\/strong> ao pensamento. Da\u00ed as teorias no campo da psican\u00e1lise levarem <strong>a marca do recalque<\/strong>. A marca do <strong>N\u00e3o quero pens\u00e1-lo.<\/strong> H\u00e1 uma permanente insatisfa\u00e7\u00e3o com as constru\u00e7\u00f5es que fazemos. Aus\u00eancia de harmonia; no fim h\u00e1 aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o sexual. Isto \u00e9 j\u00e1 algo que se apresenta como um fora-do-sentido. \u00c9 com isso que caminhamos. Esse fora-do-sentido gera a opacidade necess\u00e1ria para fazer os percursos, seja como analisantes ou como ensinantes.<\/p>\n<p>Assim J. Miller define o ensino de J. Lacan como uma modalidade de fala que faz eco e que responde \u00e0 fala analisante. <strong>Eco e fala analisante.<\/strong> Guardemos esses dois termos que me parecem interessantes para debater.<\/p>\n<p>A fala analisante \u00e9 correlata da fala interpretativa e da interpreta\u00e7\u00e3o na experi\u00eancia anal\u00edtica. J\u00e1 a fala ensinante se desprende dessas duas como uma terceira modalidade. A fala ensinante participa da fala analisante: lembremos que J. Lacan falava em <em>posi\u00e7\u00e3o de analisante<\/em>, isto \u00e9, uma fala que se produz dirigida ao sujeito suposto saber. Nesse sentido <strong>essa fala ensinante \u00e9 proferida desde uma posi\u00e7\u00e3o analisante, causada por um \u201ceu n\u00e3o sei\u201d.<\/strong> Seria uma fala apaixonada pelo seu n\u00e3o saber. Bonito!<\/p>\n<p>A fala ensinante tamb\u00e9m participa de uma fala interpretativa na medida em que revela ao sujeito suposto saber que ele n\u00e3o sabe o que diz. J. Lacan dizia isso aos praticantes que frequentavam seu semin\u00e1rio: \u201cVoc\u00eas n\u00e3o t\u00eam a menor ideia, devem ser mais verdadeiros mais aut\u00eanticos, mais realistas para poder extrair algo de sua pratica.\u201d<\/p>\n<p>Sobre o eco da fala&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><strong>E n\u00f3s conseguimos extrair algo de nossa pr\u00e1tica? \u00c0s vezes sim, \u00e0s vezes n\u00e3o. <\/strong><\/p>\n<ol start=\"4\">\n<li><strong>O analista e a pr\u00e1tica da poesia<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>No sentido geral, entendemos a pr\u00e1tica de poesia como aquela que realizam os poetas: fazem poesia. Mas a express\u00e3o n\u00e3o \u00e9 <strong>de<\/strong> poesia e sim <strong>da<\/strong> poesia. Esse pequeno detalhe nos coloca em uma posi\u00e7\u00e3o diferente dos poetas.<\/p>\n<p>Os poetas fazem poemas ou poesias e o analista conduz an\u00e1lise. O que permite que falemos em pratica da poesia? \u00a0Ambos est\u00e3o no campo da linguagem e da fala, e portanto fazem um uso do significante. Guardemos essa ideia. \u00c9 isso!<\/p>\n<p>O significante tal como foi elaborado por J. Lacan, nada significa. Para ele promover algum valor, algum sentido, precisa se articular com outros significantes (import\u00e2ncia do contexto). Al\u00e9m disso, o significante \u00e9 ve\u00edculo de gozo<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>O que se espera de uma psican\u00e1lise? Dificilmente algu\u00e9m vai a um psicanalista para fazer poesia. Pode ser que algu\u00e9m inibido que queira fazer poesia e n\u00e3o consiga procure um analista. O que encontramos com mais frequ\u00eancia no in\u00edcio de uma an\u00e1lise \u00e9 algu\u00e9m que goza de uma maneira que lhe traz muito sofrimento e frente a isto decida ir a um analista. Por isso o sujeito que procura espera algum alivio para seus sintomas ou ang\u00fastia que d\u00e3o testemunho de uma modalidade de gozar.<\/p>\n<p>Assim temos uma sequ\u00eancia \u2013 pr\u00e1tica da poesia: operar sobre o uso do significante, que incidir\u00e1 no gozo alojado ai.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito do significante, cabe incluir o que Miller relata sobre sua identifica\u00e7\u00e3o com um personagem de um conto de Borges, Pierre Menard. Trata-se de um escritor que reproduz palavra por palavra o Dom Quixote de Cervantes no s\u00e9culo XX e se consagra como um grande escritor.<\/p>\n<p>Esse exemplo serve para demonstrar que o mesmo texto se transforma em outro texto quando se desloca o significante para outro contexto, ganhando um novo sentido.<\/p>\n<p>J.-A. Miller, assim como Pierre Menard, se coloca como um repetidor: repete Lacan como um grande ensinante da psican\u00e1lise, e produz em torno de sua orienta\u00e7\u00e3o lacaniana um grande movimento no campo da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>O significante pode ser repetido, traduzido, perder o sentido, ecoar, reverberar em seu aspecto f\u00f4nico, ganhar um novo sentido. Sobre esse trabalho do significante, encontramos em Freud textos \u00a0important\u00edssimos, tais como: A Interpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos, A Psicopatologia da vida cotidiana, O Chiste e sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente. Mas J. Lacan Joyceano, em seu \u00faltimo ensino, levar\u00e1 isto at\u00e9 as ultimas consequ\u00eancias, produzindo explos\u00f5es com dinamite pura e soltando peda\u00e7os, que permitem ir al\u00e9m do inconsciente definido como uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber (inconsciente freudiano) para cernir um inconsciente real.<\/p>\n<p>J. -A Miller retoma o exemplo da dupla tradu\u00e7\u00e3o de J. Lacan do termo <em>Unbewust<\/em>, no n\u00edvel do sentido e no n\u00edvel do som. Nesse caso J. Lacan reconstitui um sentido em franc\u00eas a partir do som em alem\u00e3o. Parece um m\u00e9todo louco! Mistura de l\u00ednguas \u2013 J. Lacan se deixa ensinar por J. Joyce, especialmente por seu livro <em>Finnegans Wake.<\/em><\/p>\n<p>Isso permitir\u00e1 reafirmar com todas as letras que o inconsciente s\u00f3 se apreende no equ\u00edvoco, \u201cno pisar na bola\u201d, naquilo que escapa ao dom\u00ednio. Nesse sentido, a associa\u00e7\u00e3o livre, \u00fanica regra anal\u00edtica, propicia esse deixar de lado o dom\u00ednio, para dar lugar a \u00e0quilo que fala em cada um sem saber. Isso que \u00e9 o real.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o f\u00f4nica de <em>Unbewust<\/em> proposta por Lacan faz o exerc\u00edcio de equivocar o significante, for\u00e7ar uma ultrapassagem. \u00a0O mesmo sentido \u00e9 deslocado de uma l\u00edngua para outra gerando um sentido diferente.<\/p>\n<p>J.-A Miller diz que no \u00faltimo ensino h\u00e1 um privil\u00e9gio da poesia, que joga com o sentido sempre duplo do significante, sentido pr\u00f3prio e figurado, lexical e contextual, realizando uma viol\u00eancia sobre o uso comum da l\u00edngua. Esse \u00e9 o terreno da poesia.<\/p>\n<ol start=\"5\">\n<li><strong>Para concluir<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>No final de seu ensino J. Lacan n\u00e3o abandona a l\u00f3gica da psican\u00e1lise e sim promove uma relativiza\u00e7\u00e3o, na medida em que leva a s\u00e9rio a for\u00e7a da autonomia do significante pleno de gozo.<\/p>\n<p>O analista na pr\u00e1tica da poesia realiza uma certa viol\u00eancia sobre o significante que veicula o gozo do sujeito, torcendo-o, o retorcendo-o, ao ponto de faz\u00ea-lo dizer nada. Nesse ponto, o analisante poder\u00e1 experimentar um <em>flash<\/em> de seu inconsciente real. O sujeito, ao fazer a experi\u00eancia do \u201cfora-de-sentido\u201d, vai um pouco al\u00e9m do inconsciente definido como uma elucubra\u00e7\u00e3o de saber, tocando algo de sua <em>lalingua,<\/em> e operando o gozo dolorido e mort\u00edfero. Depois de percorrer muitas vezes esse circuito, sempre sincopado, poder\u00e1 se abrir para o analisante a possibilidade de inventar um outro significante, um significante novo ou renovado que veicule algo do gozo imposs\u00edvel de eliminar. Se assim acontecer ser\u00e1 uma Alegria!!!! Vamos para o debate.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Idem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan. J. O semin\u00e1rio, livro 20: Mais ainda (1972-1973). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sol_dezembro_002\"><\/a>Pr\u00e1tica e esfor\u00e7o de poesia.<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><em>Por Ang\u00e9lica Bastos<\/em><\/p>\n<p>Neste \u00faltimo encontro do ano de 2020 do <u>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/u>\u00a0 \u201c<em>Pr\u00e1tica da Psican\u00e1lise em tempos de Pandemia<\/em>\u201d, agrade\u00e7o especialmente a Maria S\u00edlvia, companheira de Conselho, interlocutora e parceira na apresenta\u00e7\u00e3o de hoje, e a Ruth Cohen, que gentilmente aceitou a incumb\u00eancia de coordenar a mesa.<\/p>\n<p>Transcorridos v\u00e1rios meses dos tempos pandemia, alguns pontos foram interrogados: o dispositivo, a presen\u00e7a do analista, o desejo do analista, o ensino, o sinthoma. Eles convergem para uma quest\u00e3o fundamental, bem viva, no cora\u00e7\u00e3o de qualquer outra de que tenhamos tratado: o que fazemos quando fazemos psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Por mais transit\u00f3rias, provis\u00f3rias que sejam as condi\u00e7\u00f5es em que a praticamos hoje, essa quest\u00e3o sempre viva se recoloca com a volta das sess\u00f5es aos consult\u00f3rios e cl\u00ednicas. Com o retorno das sess\u00f5es presenciais, com a retomada de an\u00e1lises que foram suspensas, com a continuidade das an\u00e1lises que se iniciaram on-line, etc, come\u00e7amos a recolher as consequ\u00eancias de um encontro com o real que se imp\u00f4s de forma irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Este \u00faltimo encontro do ano parte da li\u00e7\u00e3o <em>Uma pr\u00e1tica da poesia<\/em>, li\u00e7\u00e3o XXI do semin\u00e1rio de 2000-2001, <em>O lugar e o la\u00e7o<\/em>, de Jacques-Alain Miller<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>Aqui o termo \u2018pr\u00e1tica\u2019 recobre v\u00e1rias ideias exploradas ao longo do semin\u00e1rio: pr\u00e1tica no sentido de reunir psican\u00e1lise pura e psican\u00e1lise aplicada, pr\u00e1tica que se dessolidariza dos conceitos freudianos. Como n\u00e3o poderia enumerar todas, destaco pr\u00e1tica enquanto o fazer prevalece sobre o saber e, o que me parece mais decisivo para nosso trabalho de hoje, pr\u00e1tica que busca levar o inconsciente ao n\u00edvel do real fora-do-sentido.<\/p>\n<p>Pouco mais de um ano depois dessa li\u00e7\u00e3o XXI, Miller dedica um semin\u00e1rio inteiro ao tema: o semin\u00e1rio \u201c<em>Um esfor\u00e7o de poesia<\/em>\u201d, de 2002-2003.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> Primeiro \u2018pr\u00e1tica\u2019 e, em seguida, \u2018esfor\u00e7o\u2019 s\u00e3o os dois significantes \u2013 n\u00e3o sei se os \u00fanicos &#8211; a que o termo poesia vem se agregar. Para mim, esse termo \u2018esfor\u00e7o\u2019, em seguida \u00e0 \u2018pr\u00e1tica\u2019, foi importante e vou tentar dizer por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Conforme foi divulgado na chamada para esse encontro, nos termos de Miller, o que \u00e9 chamado de ensino de Lacan \u00e9 uma fala ensinante, portanto uma palavra em ato. Ela faz eco \u00e0 fala analisante e responde a ela. Lacan considerava que seu ensino <em>stricto sensu<\/em> era proferido nos semin\u00e1rios e que ali falava enquanto analisante. Seus escritos seriam partes caducas, res\u00edduos desse ensino. Na fala ensinante, portanto, \u201cum analista toma a palavra e o faz sob a forma de ensino: a\u00ed se inscreve o ensino de Lacan\u201d<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>A fala ensinante n\u00e3o \u00e9 a fala analisante \u2013 dizer o que vem \u00e0 cabe\u00e7a \u2013 mas retoma a fala analisante a partir da posi\u00e7\u00e3o de sujeito. Dessa posi\u00e7\u00e3o, a partir dela, a fala ensinante desdobra-se numa palavra movida, guiada por um <em>Eu n\u00e3o sei<\/em>, ao qual o sujeito barrado \u00e9 devolvido de forma recorrente. Miller fala disso de uma maneira interessante: essa fala se desenrola em rela\u00e7\u00e3o ao sujeito suposto saber, \u201cenamorada de seu n\u00e3o saber\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> Se tento articular o que leio a partir da experi\u00eancia e em torno do n\u00e3o-sabido, n\u00e3o poderia expor uma teoria ou uma sequ\u00eancia de teorias.<\/p>\n<p>Digo teorias, no plural, porque a pr\u00e1tica institu\u00edda pela concep\u00e7\u00e3o freudiana de inconsciente leva retroativamente a refundar a teoria de tempos em tempos. \u00a0A teoria se multiplica, at\u00e9 o ponto em que, ao inconsciente enquanto elucubra\u00e7\u00e3o freudiana e tamb\u00e9m ao inconsciente \u2018o nosso\u2019 (quer dizer, o de Lacan em 1964, j\u00e1 distinto do freudiano), acrescenta-se o inconsciente real. Lacan o introduz com a exig\u00eancia de n\u00e3o permanecermos no n\u00edvel das fic\u00e7\u00f5es, da hist\u00f3ria, o que s\u00f3 refor\u00e7a a necessidade de uma pr\u00e1tica que fa\u00e7a a partilha entre o sentido e o real que o exclui, sempre prontos \u00e0 nova mescla.<\/p>\n<p>O ensino de Lacan se distingue do que recebe este nome em outros campos e disciplinas. O ensinante fala a praticantes da psican\u00e1lise que sabem, pois est\u00e3o experimentados em mat\u00e9ria de transfer\u00eancia e interpreta\u00e7\u00e3o. Se o ensino se dirige aos que sabem, sua rela\u00e7\u00e3o com o saber n\u00e3o consiste em veicul\u00e1-lo, nem em fazer com que se translade de quem ensina a quem supostamente aprende.<\/p>\n<p>S\u00f3 que na experi\u00eancia anal\u00edtica h\u00e1 uma outra fala que tamb\u00e9m responde \u00e0 fala analisante e que \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o, a fala interpretativa<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p>Essa fala interpretativa, sabemos, n\u00e3o \u00e9 acionada como instrumento de bem-estar, assim como n\u00e3o se prop\u00f5e \u00e0 fala analisante que se coloque a servi\u00e7o da homeostase do princ\u00edpio do prazer. Isso subtrairia da fala sua fun\u00e7\u00e3o de verdade, eludiria sua fun\u00e7\u00e3o gozo, para convert\u00ea-la em fator de equil\u00edbrio ps\u00edquico. A compreens\u00e3o, o dom\u00ednio do gozo pelo saber, pelo ensino, ficam consequentemente descartados.<\/p>\n<p>Enquanto a fala ensinante participa da interpretativa, ela revela ao sujeito suposto saber n\u00e3o aquilo que ele n\u00e3o sabe, mas sim que ele n\u00e3o sabe o que diz. Nesse sentido, n\u00e3o substitui opacidade por transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>Logo de sa\u00edda, duas quest\u00f5es surgiram para mim.<\/p>\n<ul>\n<li>POR QUE poesia? A express\u00e3o \u201cuma pr\u00e1tica da poesia\u201d faz mais do que invoc\u00e1-la. Afirma a psican\u00e1lise como pr\u00e1tica da poesia.<\/li>\n<li>COMO a poesia participa da experi\u00eancia da an\u00e1lise? Como situar isso nas falas analisante e interpretativa?<\/li>\n<\/ul>\n<p>N\u00e3o viso responder a essas perguntas, mas explorar alguns caminhos e mant\u00ea-las abertas.<\/p>\n<p>Para a primeira pergunta &#8211; \u201cpor que poesia?\u201d &#8211; os semin\u00e1rios que mencionei (<em>O Lugar e o La\u00e7o<\/em> e <em>Um Esfor\u00e7o de Poesia<\/em>) esbo\u00e7am um panorama da modernidade para nele situar os destinos da poesia. N\u00e3o caberia retomar isso aqui. Limito-me a lembrar que a modernidade n\u00e3o se mostrou compat\u00edvel com a poesia, n\u00e3o se revelou afeita a ela. Os poetas v\u00e3o conclamar a um <u>esfor\u00e7o<\/u> de preserva\u00e7\u00e3o da poesia, recha\u00e7ada da vida moderna por obra do discurso da ci\u00eancia, que vem banir v\u00e1rios saberes e o que havia de po\u00e9tico nos saberes existentes no Renascimento.<\/p>\n<p>Baudelaire<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a> fala do poeta que se depara com um mundo chato, enfadonho, desencantado. Nesse mundo o poeta (de acordo com seu poema) entraria como uma esp\u00e9cie de sol, que acende e ilumina, uma chama que aquece a cidade.<\/p>\n<p>Bem, a psican\u00e1lise surge nesse contexto discursivo em que o imperativo de univocidade da linguagem proposto pela ci\u00eancia \u00e9 o que amea\u00e7a sua dimens\u00e3o po\u00e9tica. Em seu nascimento, a psican\u00e1lise renova, alimenta o jogo de palavras, o equ\u00edvoco, o gaio saber, que estavam em decl\u00ednio enquanto o imp\u00e9rio do \u00fatil adquiria cada vez mais hegemonia.<\/p>\n<p>Acontece que a fala na an\u00e1lise tamb\u00e9m tende a se tornar comum, banal.\u00a0 Nos termos de Miller<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, a interpreta\u00e7\u00e3o se torna prosaica, perde seu car\u00e1ter oracular.<\/p>\n<p>Eis o problema: a fala se torna pouco prop\u00edcia a fazer alvo no inconsciente, a produzir certo tipo de efeito, a dar lugar ao novo na an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Para a segunda pergunta &#8211; \u201ccomo a pr\u00e1tica da poesia participa da an\u00e1lise?\u201d &#8211; temos uma indica\u00e7\u00e3o, a de tomar a poesia pelo uso n\u00e3o un\u00edvoco e n\u00e3o \u00fatil que ela faz da linguagem. O equ\u00edvoco no lugar do un\u00edvoco, o jogo de palavras e o gaio saber ao inv\u00e9s da utilidade direta me parecem ser as condi\u00e7\u00f5es dessa pr\u00e1tica com a l\u00edngua, seja na escuta da fala analisante, seja na interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sobre a interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso considerar que a posi\u00e7\u00e3o enunciativa do analista repousa em um modo de dizer que escapa, evita o modo de dizer comum, sendo assim uma enuncia\u00e7\u00e3o terceira. Esse modo de dizer pr\u00f3prio \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o implica um car\u00e1ter l\u00fadico, capaz de reconduzir a linguagem a jogos poss\u00edveis na l\u00edngua. Da\u00ed o chiste, que traz uma satisfa\u00e7\u00e3o, um gozo que n\u00e3o est\u00e1 sob o imp\u00e9rio do \u00fatil.<\/p>\n<p>Tentando trabalhar o que seria essa pr\u00e1tica da poesia a partir da experi\u00eancia, o termo \u2018esfor\u00e7o\u2019 foi importante n\u00e3o tanto por parecer menos exigente, mais modesto, ou por remeter \u00e0 tarefa que o poeta assume de reencantar o mundo, mas sobretudo, por sugerir\u00a0 um movimento sustentado pelo desejo.<\/p>\n<p>Esse esfor\u00e7o se circunscreve na sess\u00e3o anal\u00edtica, nos par\u00eanteses que se abrem na vida de cada um &#8211; tenha ela um ritmo alucinado, moroso ou mesmo mon\u00f3tono. Em algum momento do dia, esses par\u00eanteses para vir falar ao analista se abrem para um esfor\u00e7o de falar a algu\u00e9m que \u00e9 aquele ou aquela, sem que se saiba, entretanto, muito bem o qu\u00ea e para qu\u00ea.<\/p>\n<p>Agora cito Miller<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>: \u201cQuando tem lugar sob a forma de sess\u00e3o anal\u00edtica, poesia significa n\u00e3o se preocupar com a exatid\u00e3o, com a concord\u00e2ncia entre o que digo e aquilo em que os outros cr\u00eaem, nem tampouco com o que posso transmitir-lhes\u201d.<\/p>\n<p>A sess\u00e3o de an\u00e1lise \u00e9, portanto, um intervalo que tem sua temporalidade espec\u00edfica em uma vida dominada pela utilidade direta. Ela busca escapar ao que \u00e9 ditado no la\u00e7o de discurso que prevalece fora da sess\u00e3o para oferecer \u00e0 escuta um trabalho com o significante e seu nonsense, um trabalho que toque o gozo e o real fora do sentido. Volto a Miller<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>: \u201cUma sess\u00e3o de an\u00e1lise \u00e9 sempre um esfor\u00e7o de poesia, um espa\u00e7o de poesia que o sujeito se reserva \u2026\u201d.<\/p>\n<p>Poesia para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9, portanto, uma quest\u00e3o de talento com as letras e nem de beleza. A pr\u00e1tica da poesia n\u00e3o coloca o analista no lugar do poeta, tampouco coloca o analisante nesse lugar, embora alguns analisantes o sejam e outros cheguem eventualmente a fazer poesia, em alguns casos a partir da pr\u00f3pria an\u00e1lise. Miller<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> usa a express\u00e3o: \u201chabitar a psican\u00e1lise como poeta\u201d, o que n\u00e3o se confunde com habitar a literatura enquanto poeta.<\/p>\n<p>Lacan \u00e9 bem expl\u00edcito em rela\u00e7\u00e3o a isso: \u201cN\u00e3o temos nada de belo para dizer. Trata-se de uma outra resson\u00e2ncia, a ser fundada sobre o dito espirituoso. O chiste n\u00e3o \u00e9 bonito, ele se sustenta por um equ\u00edvoco\u201d<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Como extrair essa outra resson\u00e2nca? Trata-se de servir-se da palavra para um outro uso, que n\u00e3o aquele para o qual ela est\u00e1 designada, de propiciar isso, apesar de as palavras serem recebidas e n\u00e3o forjadas por n\u00f3s. Essa outra resson\u00e2ncia faz surgir \u201cum significante, por exemplo, que n\u00e3o teria, como o real, nenhuma esp\u00e9cie de sentido [\u2026] nisso consiste o dito espirituoso\u201d<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. H\u00e1 uma forma de chiste, ou aproxima\u00e7\u00e3o a ele \u2013 assim entendo \u2013 quando se joga com o n\u00e3o-sentido fundamental de todo uso do significante.<\/p>\n<p>Lacan<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> evoca o <em>familion\u00e1rio<\/em>, que envolve o n\u00e3o-sentido, aboli\u00e7\u00e3o de sentido, para \u00a0um passo de sentido, acrescentando que no chiste a palavra \u00e9 um pouco amassada, amarrotada. Esse termo foi comentado pelo pr\u00f3prio Lacan vinte anos antes a prop\u00f3sito da girafa amassada do pequeno Hans. Nessa ocasi\u00e3o, ele adverte contra fazer a pequena girafa amassada corresponder univocamente \u00e0 m\u00e3e. N\u00e3o, ela \u00e9 sucessivamente a m\u00e3e, a crian\u00e7a, o falo da m\u00e3e, o que evidencia que \u00e9 um significante. Mas \u00e9 bem nesse amasso, nesse amarfanhado, que reside o efeito operat\u00f3rio do significante, que mostra como a psican\u00e1lise, do ponto de vista do uso do significante, pode estar no mesmo <em>phylum<\/em>, proceder do mesmo tronco, que a poesia ou a literatura.<\/p>\n<p>Da poesia interessa, portanto, o duplo efeito de sentido e de furo. Menciono uma fala analisante: \u201cTentou fugir do Caio e caiu\u201d, que brinca com as palavras, com o efeito de sentido e de furo em seu uso l\u00fadico, de modo pr\u00f3ximo ao chiste.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da poesia prioriza a resson\u00e2ncia, aquilo de que se serve uma an\u00e1lise, n\u00e3o prioriza para que serve uma an\u00e1lise. A cura vem por acr\u00e9scimo, tal como a utilidade da poesia, que \u00e9 sempre secund\u00e1ria.<\/p>\n<p>Que a psican\u00e1lise seja uma pr\u00e1tica da poesia torna, de um lado, ainda mais delicada a tarefa ensinante, e de outro, aponta para inadequa\u00e7\u00e3o entre o pensamento e aquilo que est\u00e1 em jogo no fazer do analista, pois nele h\u00e1 algo que resiste a ser pensado, justamente o real.<\/p>\n<p>Recorro a um fragmento m\u00ednimo de relato de passe.<\/p>\n<p>Debora Rabinovich traz um significante que me pareceu amassado, amarrotado, sen\u00e3o triturado: o rinoceronte com o qual ela sonha.<\/p>\n<p>Serviu-se do rinoceronte para dizer: Ri \u2013 no s\u00e9 \u2013 zero honte. Com esse significante, alojou seu n\u00e3o saber sintom\u00e1tico, o \u201cno s\u00e9\u201d, entre o riso, \u201cri\u201d, e o \u201c<em>zero honte\u201d<\/em>, a vergonha. O sonho n\u00e3o \u00e9 interpretado, mas esse significante \u00e9 lido por ela com as resson\u00e2ncias de <em>lal\u00edngua<\/em> feita de espanhol e franc\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J. A. Un esfuerzo de poesia. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. El lugar y el lazo. Op. Cit., p. 403.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, ibidem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Cf. Idem, ibidem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Baudelaire, C.. Les fleurs du mal. Paris: \u00c9ditions Jean-Claude Latt\u00e8s, [1857]1987.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Cf. Miller, J.-A. Un esfuerzo de poesia, Op.Cit.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Idem, p. 160.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Idem, Ibidem.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Miller, J.-A. El lugar y el lazo, Op.Cit., p.415.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Lacan, J. Semin\u00e1rio 24: L\u00ednsu que sait de l\u2019une b\u00e9vue s\u2019aile \u00e0 mourre (1976-1977), (semin\u00e1rio in\u00e9dito), li\u00e7\u00e3o de 19 de abril de 1977.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> Idem, li\u00e7\u00e3o de 17 de maio de 1977.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Idem, Ibidem.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5406&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5407&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5408&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5409&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sol_outubro_001\"><\/a>O Passo do passe: Do desejo \u00e0 inven\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Por Ana Tereza Groisman<br \/>\n<\/em><em><strong>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211; 05\/10<\/strong><\/em><\/h6>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Continuamos com nossa leitura do curso de Miller: O lugar e o la\u00e7o, de 2000. Dessa vez nos dedicamos apenas a uma li\u00e7\u00e3o do curso: a aula XIX: \u201cAs tr\u00eas vers\u00f5es do passe\u201d que, como voc\u00eas puderam ler, d\u00e1 margem a in\u00fameras abordagens e leituras, Angela escolheu se dedicar a falar do passe do falasser e do entusiasmo que se espera ao final da an\u00e1lise. Eu, a partir da leitura, fui fisgada pela pergunta que inspirou o t\u00edtulo da nossa atividade de hoje: \u201cEm que medida a Escola, como conceito, segue o passo do passe?\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> Na tradu\u00e7\u00e3o em portugu\u00eas, me parece que o jogo de palavras entre passo e passe foi perdido, sendo traduzido por: \u201cestaria \u00e0 altura do passe\u201d. Decidi manter o jogo proposto na vers\u00e3o em espanhol por considerar importante esse passo que constitui um ato que define um novo horizonte para a psican\u00e1lise desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse texto, Miller vai priorizar sobretudo dois momentos de virada que o passe produz na Escola, primeiro quando foi proposto, em 1967, e depois a partir de sua experi\u00eancia nove anos depois. Uma primeira quest\u00e3o se coloca: em que cada um desses momentos interferiu na Escola e na forma\u00e7\u00e3o que ela dispensa?<\/p>\n<p>Essa pergunta pode ser mais facilmente respondida se estamos apoiados no que Miller chamou de primeira vers\u00e3o do passe, a proposi\u00e7\u00e3o de Lacan sobre o psicanalista da Escola de 1967. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ultima vers\u00e3o de 1976 (a segunda para Miller ou a terceira para Marie H\u00e9l\u00e8ne Roch), no entanto, me pareceu mais dif\u00edcil entender sua incid\u00eancia no conceito Escola. \u201cA inven\u00e7\u00e3o do passe de Lacan vetorializa grande parte de seu ensino.\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0 E eu parto do principio de que desde sua cria\u00e7\u00e3o interv\u00e9m na Escola e na orienta\u00e7\u00e3o de seu ensino, mas nem sempre \u00e9 poss\u00edvel circunscrever como isso se d\u00e1. Contarei ent\u00e3o com a contribui\u00e7\u00e3o de voc\u00eas para avan\u00e7armos em rela\u00e7\u00e3o a isso&#8230;<\/p>\n<p>No in\u00edcio da li\u00e7\u00e3o, Miller estabelece um di\u00e1logo com Marie H\u00e9l\u00e8ne Roch, analista da Escola rec\u00e9m nomeada, que retoma um texto intitulado \u201cas duas vers\u00f5es do passe\u201d. A partir dele, ela prop\u00f5e uma terceira vers\u00e3o baseada no texto de Lacan de 1973 intitulado \u201cA nota Italiana\u201d. A primeira vers\u00e3o se baseia na proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista na Escola e a segunda (ou terceira) se apoia no escrito: \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio XI\u201d, quando Lacan prop\u00f5e o inconsciente real e o passe como a Histoeria de uma an\u00e1lise. Duas vers\u00f5es que incidem diretamente na orienta\u00e7\u00e3o do ensino e da transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise na Escola de Lacan.<\/p>\n<p>Miller j\u00e1 nomeou de diferentes formas estas duas vers\u00f5es do passe: passe saber e passe verdade, travessia da fantasia e identifica\u00e7\u00e3o ao Sinthoma, passe do sujeito e passe do falasser, etc.<\/p>\n<p>Aqui, ele retoma estas duas vers\u00f5es, interpondo entre elas a que Marie H\u00e9l\u00e8ne nomeia como a terceira vers\u00e3o do passe de 1973. Da dita terceira vers\u00e3o, nos interessa destacar que Lacan localiza o analista como o rebotalho da humanidade: ele carrega essa marca que pode ser reconhecida por seus cong\u00eaneres. Desse lugar, ele \u00e9 animado por um desejo de saber in\u00e9dito. H\u00e1 tamb\u00e9m um deslocamento no que diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o com o saber, que ser\u00e1 melhor definido nos textos posteriores, mas j\u00e1 ali Lacan enuncia que o analista que terminou sua an\u00e1lise deve ter circunscrito a causa de seu horror ao saber, e prop\u00f5e pela primeira vez que em rela\u00e7\u00e3o ao Real n\u00e3o h\u00e1 saber a ser descoberto, h\u00e1 que invent\u00e1-lo. Marie H\u00e9l\u00e8ne considera esse texto o pren\u00fancio da vers\u00e3o do passe escrito no texto de 1976.<\/p>\n<p>Primeiro passo: A primeira vers\u00e3o do passe traz uma proposta de ruptura com as \u201cpretensas sociedades\u201d psicanal\u00edticas.<\/p>\n<p>Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola: neste texto, 3 anos ap\u00f3s o ato de funda\u00e7\u00e3o da Escola freudiana de Paris, Lacan prop\u00f5e a revolu\u00e7\u00e3o \u201cPasse\u201d, um ato que ter\u00e1 consequ\u00eancias fundamentais para a orienta\u00e7\u00e3o da Escola de Lacan at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A subvers\u00e3o proposta: admitir o analista a partir de sua experi\u00eancia de an\u00e1lise e n\u00e3o de sua experi\u00eancia como analista traz consequ\u00eancias diretas para a rela\u00e7\u00e3o com o saber e com a transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. Miller nos lembra que a primeira vers\u00e3o do passe \u00e9 uma proposi\u00e7\u00e3o, que ainda n\u00e3o havia passado pela prova da experi\u00eancia. Ela \u00e9 inventada no bojo de uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica consistente: dois semin\u00e1rios e um escrito d\u00e3o subs\u00eddios \u00e0 aposta de Lacan num dispositivo que subverte a l\u00f3gica de admiss\u00e3o das sociedades em funcionamento na \u00e9poca, inclusive a que ajudou a fundar. O passe \u00e9 concebido como um projeto que se alinha com sua proposta de Escola: fazer vigorar para os analistas o que funciona para a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>At\u00e9 1967 o analista era qualificado por sua pr\u00e1tica enquanto analista; a partir da proposi\u00e7\u00e3o ele passa a ser qualificado sobretudo por sua experi\u00eancia de analise pessoal.<\/p>\n<p>O passe introduz uma via nova para receber o titulo de analista. Para al\u00e9m da sigla ir\u00f4nica reservada \u00e0queles que s\u00e3o reconhecidos pela Escola, o AE \u00e9 nomeado por testemunhar seu percurso analisante, independente de sua pr\u00e1tica enquanto analista. Em outro texto, Miller lembra que n\u00e3o \u00e9 nem mesmo necess\u00e1rio que ele a tenha. O AE \u00e9 o resultado de uma aposta radical de que \u00e9 nas an\u00e1lises que se formam os analistas e n\u00e3o no saber clinico ou epist\u00eamico que se presta \u00e0 aprecia\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O passe enquanto projeto e enquanto pr\u00e1tica produz uma ruptura, algo novo que n\u00e3o est\u00e1 em continuidade com o que se propunha at\u00e9 ent\u00e3o. A cria\u00e7\u00e3o do passe \u00e9 atualizada a cada vez pela inven\u00e7\u00e3o no passe.<\/p>\n<p>O passe em sua primeira vers\u00e3o supunha reconhecer um sabido, o analisado seria aquele capaz de reconhecer a causa de seu desejo. \u00c9 um saber sobre a causa de seu desejo, orientado pela via da fantasia como resposta ao enigma do desejo. Mas o analisado est\u00e1 um passo a frente em rela\u00e7\u00e3o a esse saber constru\u00eddo, pois \u00e9 de fora da teia fantasm\u00e1tica que num retorno \u00e9 poss\u00edvel decifr\u00e1-la. O que animava sua vida j\u00e1 n\u00e3o cabe mais em si: constitui-se ent\u00e3o o que Lacan chamou de \u201cUm saber v\u00e3o sobre um ser que se subtrai\u201d: o sujeito analisado sabe o que \u00e9, mas sabe que j\u00e1 n\u00e3o o \u00e9. O passe \u00e9 ent\u00e3o o luto desse ser que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9, desse ser anterior que n\u00e3o se sabia a causa. Para Miller, o passe o captura antes de seu completo desaparecimento, por isso a import\u00e2ncia do frescor do testemunho e do limite temporal da nomea\u00e7\u00e3o de AE.<\/p>\n<p>Segundo passo: Passada a prova da experi\u00eancia, o passe muda e a psican\u00e1lise muda com ele, embora a proposta de partir do analisante\/analisado para dali recolher o analista como o substrato de seu ato permane\u00e7a com for\u00e7a e siga sendo o fio condutor do ensino de Lacan.<\/p>\n<p>A segunda vers\u00e3o do passe, destacada por Miller, se ap\u00f3ia no texto: o pref\u00e1cio a edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio XI de 1976. Se a primeira vers\u00e3o era acompanhada por um arcabou\u00e7o te\u00f3rico consistente, essa se escreve em 3 folhas. J\u00e1 n\u00e3o se trata mais do passe como proposta e sim como fato. Que consequ\u00eancias podemos extrair da experi\u00eancia passe para a escola de Lacan?<\/p>\n<p>Se a primeira vers\u00e3o se baseava na falha do SsS, a segunda aponta para os limites da magia da palavra e da pot\u00eancia do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>O deslocamento que se efetua entre as primeiras vers\u00f5es do passe e a \u00faltima vers\u00e3o diz respeito a tirar definitivamente o real do campo do sentido; n\u00e3o h\u00e1 verdade sobre o real.<\/p>\n<p>O \u00fanico saber sobre a verdade consiste em saber desembara\u00e7ar-se dela, o que abre caminho para a inven\u00e7\u00e3o de saber. Miller sinaliza que n\u00e3o teria nenhum sentido falar em inven\u00e7\u00e3o de saber se segu\u00edssemos acreditando na verdade. O que d\u00e1 sentido \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de saber \u00e9 deixarmos de estar capturados nas armadilhas da verdade. Se a verdade existe \u00e9 quest\u00e3o de descobri-la, mas se o assunto \u00e9 inventar um saber, j\u00e1 n\u00e3o estamos no regime do descobrimento da verdade.<\/p>\n<p>O passe \u00e9 o momento oportuno de converter a busca da verdade numa hist\u00f3ria que se conta, nossa histoeria ou para retomar o final da aula IX desse curso, o passe \u00e9 a \u00faltima hist\u00f3ria que contamos sobre o real.\u00a0 Mas ao contr\u00e1rio do que poder\u00edamos supor, ele n\u00e3o \u00e9 o triunfo da fic\u00e7\u00e3o, mas antes o que atesta seus limites, O real resiste ao sentido da histoeria.<\/p>\n<p>Uma conclus\u00e3o provis\u00f3ria e uma quest\u00e3o que persiste:<\/p>\n<p>Em 2008, Miller<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a> \u00e9 ainda mais radical em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 import\u00e2ncia do passe para a Escola de Lacan e para a forma\u00e7\u00e3o do analista: ele fala de um retorno \u00e0 singularidade em oposi\u00e7\u00e3o a um retorno \u00e0 cl\u00ednica. O desejo de saber e a inven\u00e7\u00e3o de saber sobre o real desfazem o ideal do cl\u00ednico experiente que se assegura num saber fazer que n\u00e3o inclui o real em jogo na experi\u00eancia de an\u00e1lise.<\/p>\n<p>E hoje, em que ponto estamos em rela\u00e7\u00e3o ao passe e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do analista?<\/p>\n<p>Nesse mesmo texto, ao falar da an\u00e1lise finita e infinita, Miller<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> diz que: <em>se Lacan quis que o passe levasse \u00e0 obten\u00e7\u00e3o n\u00e3o do titulo de analisante, mas de analista da Escola, foi justamente para marcar que n\u00e3o \u00e9 analisando os outros que algu\u00e9m se torna analista, e sim se analisando a si mesmo, se assim posso dizer, pois \u00e9 justamente o s\u00ed (soi) que assim se abala.<\/em> No fundo, a qualidade de psicanalista nada tem a ver com a profiss\u00e3o de psicanalista.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, um pouco inspirada pelo tema de nosso pr\u00f3ximo encontro de membros: <em>Psican\u00e1lise: os fins, os princ\u00edpios e os meios&#8230;,<\/em> pergunto-me se o passe ser\u00e1 suficiente para balizar seus princ\u00edpios e seus fins quando os meios para tal foram t\u00e3o afetados pelo cont\u00e1gio pand\u00eamico que nos assola. N\u00e3o estar\u00edamos de novo em posi\u00e7\u00e3o de atualizar os conceitos fundamentais da psican\u00e1lise a partir de nossa pr\u00e1tica como analistas? Podemos extrair consequ\u00eancias da experi\u00eancia que atravessamos e que ainda n\u00e3o sabemos onde nos levar\u00e1?<\/p>\n<p>Boa Noite!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013, p. 369.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J.-A. Coisas de Fineza em Psican\u00e1lise, 2009, 8a li\u00e7\u00e3o, p. 112.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. \u201cComo algu\u00e9m se torna psicanalista na orla do s\u00e9culo XXI\u201d (2008). Em: Aposta no passe, Op\u00e7\u00e3o lacaniana n.\u00ba 14. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2018, p.81.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Idem, p. 82.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sol_outubro_002\"><\/a>\u201cVers\u00e3o do Passe na perspectiva do Sinthoma\u201d<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Angela Batista<\/em><\/h6>\n<blockquote><p>\u201cCom o \u00faltimo ensino, trata-se de inventar um escrito que possa servir.\u201d Miller<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p>\u201cO Tango \u00e9 um pensamento triste que se pode\u00a0 dan\u00e7ar\u201d Disc\u00e9polo Deluchi<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Inicialmente tomo essas duas frases para pensar o que \u00e9 um psicanalista a partir da vers\u00e3o do Passe no \u00daltimo ensino de Lacan.<\/p>\n<p>Pergunto, ent\u00e3o, sobre o parceiro do psicanalista, com quem ele joga uma partida chamada psican\u00e1lise. Nesse sentido, o que chamamos de cl\u00ednica \u00e9 o real como imposs\u00edvel de suportar<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>O tema do final de an\u00e1lise foi de grande import\u00e2ncia para a comunidade anal\u00edtica &#8211; termin\u00e1vel ou intermin\u00e1vel, finita ou infinita, com Freud e com Lacan, as an\u00e1lises t\u00eam um destino.<\/p>\n<p>Freud se preocupou com essa quest\u00e3o desde o in\u00edcio de sua obra, j\u00e1 que os obst\u00e1culos \u00e0 conclus\u00e3o sempre indicavam um trope\u00e7o irredut\u00edvel<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>, que chamou de rochedo de castra\u00e7\u00e3o, compuls\u00e3o \u00e1 repeti\u00e7\u00e3o, masoquismo, supereu, rea\u00e7\u00e3o terap\u00eautica negativa, ou seja, os limites do analis\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para Lacan, esse tema adquiriu especial interesse a partir do momento em que ele prop\u00f4s um novo dispositivo de transmiss\u00e3o a fim de que os analistas testemunhassem a passagem de analisante a analista. Trata-se de um retorno \u00e0 quest\u00e3o do fim de an\u00e1lise, ao que Lacan chamou de Passe, apresentando o percurso em sua forma\u00e7\u00e3o pela travessia da fantasia e pela identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma. Lacan, assim, prop\u00f5e em uma doutrina do final de an\u00e1lise na aposta pelo Passe.<\/p>\n<p>Assim, dos dispositivos institu\u00eddos na Escola, o do Passe \u00e9 um modo de dar uma forma de elabora\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o do que foi o percurso de uma an\u00e1lise em duas perspectivas diferentes: a do sujeito suposto saber, no\u00a0 campo de desejo e a de uma elucubra\u00e7\u00e3o sobre a doutrina do gozo. Cl\u00ednica do sinthoma.<\/p>\n<p>Em sua Proposi\u00e7\u00e3o de 9 de outubro de 1967, Lacan, o Passe foi proposto\u00a0 com a finalidade de\u00a0 teorizar sobre o final de an\u00e1lise e a produ\u00e7\u00e3o de um analista.<\/p>\n<p>A Escola ser\u00e1 testemunha de uma garantia, ou seja, a psican\u00e1lise em intens\u00e3o dever\u00e1 ser verificada pela Escola em sua fun\u00e7\u00e3o de extens\u00e3o, quer dizer transmiss\u00e3o.\u00a0 Assim a garantia da Escola n\u00e3o est\u00e1 exclu\u00edda, por\u00e9m Lacan diz que n\u00e3o \u00e9 com essa garantia que o analista opera.\u00a0 Penso ser esse o sentido do Passe como transmiss\u00e3o daquilo que se tornou incur\u00e1vel \u00a0e que possibilitou um novo modo de la\u00e7o com a vida e com a psican\u00e1lise.<\/p>\n<p>O Passe nesse sentido \u00e9 mais um corte com a verdade como hist\u00f3ria e mais uma inven\u00e7\u00e3o que possibilitou uma transmiss\u00e3o (continuidade).\u00a0 O Passe ent\u00e3o tem a estrutura de corte e continuidade.<\/p>\n<p>Com a leitura da li\u00e7\u00e3o XIX de Miller destaco um ponto importante: O que \u00e9 um psicanalista na vers\u00e3o do Passe no \u00faltimo ensino?<\/p>\n<p>Como dar lugar ao que n\u00e3o muda, com o limite da interpreta\u00e7\u00e3o no final de uma an\u00e1lise?<\/p>\n<p>Dois modos de concluir se apresentam: a travessia da fantasia e identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma, entre a travessia(fratura) da fantasia, Inconsist\u00eancia do Outro, e a inven\u00e7\u00e3o sinthom\u00e1tica.<\/p>\n<p>Para seguir essas perguntas penso ser importante situar as vers\u00f5es do Passe propostas por Miller no Semin\u00e1rio \u201cO lugar e o la\u00e7o\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>O Passe \u00e9 o dispositivo para verificar o que pode o analisante inventar com o que \u201cfracassou\u201d, ou seja, com aquilo que\u00a0 \u00e9 seu modo singular de viver a puls\u00e3o e como isso pode encontrar um destino de bem dizer seu sinthoma.<\/p>\n<p>Acho importante sublinhar que Lacan coloca o Passe como princ\u00edpio de uma transforma\u00e7\u00e3o na Escola Freudiana de Paris \u2013 EFP, primeiro com a Proposi\u00e7\u00e3o em 1967, depois em 1973, em sua\u201d Nota Italiana\u201d, onde afirma que se trata de uma ruptura e uma nova formaliza\u00e7\u00e3o do que \u00e9 um psicanalista. O psicanalista a partir da proposi\u00e7\u00e3o est\u00e1 concernido a uma Escola<\/p>\n<p>A primeira vers\u00e3o de 1967 foi concebida por Lacan como produto de seu Semin\u00e1rio \u201cA l\u00f3gica da fantasia\u201d e antes de come\u00e7ar o Semin\u00e1rio sobre o \u201dAto anal\u00edtico\u201d.<\/p>\n<p>O primeiro ensino de Lacan, seus primeiros 10 Semin\u00e1rios, celebra a domin\u00e2ncia do Outro; o segundo, O Outro e o objeto a; e o \u00faltimo ensino, o singular do sinthoma.<\/p>\n<p>O Passe na primeira vers\u00e3o \u00e9 um saber referido ao desejo que tem uma solu\u00e7\u00e3o. No final de an\u00e1lise h\u00e1 um saber e esse saber se refere ao desejo, o sintoma como um problema a ser solucionado; quer dizer sobre seu impasse que considera um problema e sua solu\u00e7\u00e3o a n\u00edvel do desejo. Quem sou? O que quer o Outro de mim? Com isso introduz o -fi da castra\u00e7\u00e3o e o objeto a. Retifica\u00e7\u00e3o subjetiva, destitui\u00e7\u00e3o enfim. O Passe \u00e9 um luto por quem fomos no sentido do desejo.<\/p>\n<p>A segunda vers\u00e3o do Passe em 1973 introduz a ex-ist\u00eancia do objeto a correlativa \u00e0 n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. Aqui o saber que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas um saber do desconhecimento da verdade do seu desejo, mas um saber situado no registro do real. Ha uma desvaloriza\u00e7\u00e3o dos amores para com o saber enquanto verdade revelada. O final de an\u00e1lise estaria referido ao real. Uma ruptura entre verdade e real, o real exclui o sentido e assim passamos ao campo da inven\u00e7\u00e3o, o saber que se inventa.<\/p>\n<p>Nesse ponto, destaco o texto de Lacan \u201cNota aos Italianos\u201d (1973) para recuperar os termos verdade e inven\u00e7\u00e3o. Trata-se nele do acento posto na transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise. Nesse texto, Lacan situa uma articula\u00e7\u00e3o entre saber e real e sublinha que o saber de que se trata na psican\u00e1lise \u00e9 preciso invent\u00e1-lo, j\u00e1 que n\u00e3o passa pela dimens\u00e3o da verdade. H\u00e1 uma grande desvaloriza\u00e7\u00e3o da verdade.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ensino de Lacan se posiciona a partir de deslocamentos importantes que v\u00e3o do Outro ao Um, do Ser \u00e0 Exist\u00eancia, do simb\u00f3lico ao Real. Assim seguimos uma cl\u00ednica diferencial apoiada no n\u00f3 borromeano.<\/p>\n<p>A terceira vers\u00e3o de 1976 refere-se ao pref\u00e1cio da edi\u00e7\u00e3o inglesa e aborda o fim de an\u00e1lise n\u00e3o mais referido \u00e0 verdade, mas \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o, quando estamos no sem sentido da interpreta\u00e7\u00e3o, no inconsciente real.<\/p>\n<p>Lacan, em seu Semin\u00e1rio RSI, modifica o sentido do sintoma, como mensagem cifrada articulada \u00e0 cadeia significante, dando uma nova vers\u00e3o tamb\u00e9m ao Pai. O pai n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica garantia dessa refer\u00eancia advinda da cl\u00ednica estrutural quanto ao enigma do desejo da m\u00e3e. Ser Pai \u00e9 ter um desejo orientado para uma mulher-causa. Nesse sentido \u00e9 que o Nome do-Pai se desloca para o m\u00faltiplo. Nesse sentido, o que \u00e9 destacado no Passe seria um real distinto das fic\u00e7\u00f5es do inconsciente, do campo da fantasia referida ao desejo do Outro.<\/p>\n<p>O n\u00f3 borromeano,\u00a0 com o efeito de amarra\u00e7\u00e3o das consist\u00eancias RSI, est\u00e1 a servi\u00e7o de uma vers\u00e3o do Passe, diferente do Passe que considera as\u00a0 identifica\u00e7\u00f5es\u00a0 da fantasia e segue a dire\u00e7\u00e3o de uma nova pr\u00e1tica que pensa o sintoma de outra maneira.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a travessia da fantasia \u00e9, no passe, a descri\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios momentos onde se evidencia a fratura da consist\u00eancia do Outro e o testemunho de como se p\u00f4de viver a separa\u00e7\u00e3o do que sup\u00f4s ser como objeto, no desejo do Outro. O passe referido \u00e1 dimens\u00e3o do saber.<\/p>\n<p>Com a cl\u00ednica borromeana, a verdade \u00e9 um sonho de Freud e o final de an\u00e1lise ser\u00e1 definido como o Passe satisfa\u00e7\u00e3o.\u00a0 Miller desenvolve essa passagem muito bem no curso de 2011, \u201cO SER e o UM\u201d. Miller comenta duas vers\u00f5es distintas de an\u00e1lise e sublinha que, em 1976, Lacan se desprende da magia das palavras e da pot\u00eancia do simb\u00f3lico. Demonstra a passagem do inconsciente como saber transferencial e do inconsciente como gozo sem sentido \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do sinthoma (inconsciente real).<\/p>\n<p>O Sinthoma \u00e9 a forma civilizada que cada AE encontra para permanecer no la\u00e7o social, no coletivo da\u00a0 Escola. Nesse sentido a experi\u00eancia anal\u00edtica conduz aos limites do simb\u00f3lico.<\/p>\n<p>Romulo Ferreira da Silva, em sua apresenta\u00e7\u00e3o recente na noite do Conselho da EBP-S\u00e3o Paulo, nos disse algo muito importante sobre o trajeto de uma analise que \u00e9 o de deixar de ser analisante para se tornar analista de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia, ao demonstrar como pode se \u201cvirar\u201d com os elementos heterog\u00eaneos que constituem o falasser na vida e na pratica cl\u00ednica desde a sua deslocaliza\u00e7\u00e3o (fratura na fantasia) no mundo dos semblantes. Se tem algo que \u00e9 incur\u00e1vel, o passe demonstra um certo fracasso que fala de um gozo imposs\u00edvel de negativar e que, ainda assim, faz la\u00e7o. Lacan d\u00e1 ao Sinthoma um outro nome para o inconsciente irredut\u00edvel inanalis\u00e1vel, inconsciente real.<\/p>\n<p>Assim, o passe est\u00e1 vinculado ao corpo e \u00e0 puls\u00e3o. Enquanto o passe transferencial permite demarcar o objeto da puls\u00e3o e nomear o sintoma, o passe real \u00e9 extra\u00eddo do Um -Corps- de peda\u00e7os de real, de buracos no saber e no corpo que correspondem \u00e0 nomea\u00e7\u00e3o do sinthoma. O sinthoma como gozo nos remete para uma maneira de viver a puls\u00e3o como avesso do trauma, pois implica em ter acesso a um gozo-satisfa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, que n\u00e3o pode ser demonstrado, gozo no corpo, um afeto que ressoa al\u00e9m do sentido.<\/p>\n<p>Se Lacan faz do sinthoma de Joyce um paradigma do final de an\u00e1lise, \u00e9 porque para o falasser o corpo \u00e9 sempre estranho. Um corpo que equivale \u00e1 puls\u00e3o obedecendo a uma l\u00f3gica diferente S1-S2 do primeiro ensino, demonstrando que a an\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia com o corpo.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente a partir de Joyce que Lacan vai separar sinthoma e inconsciente, ao formular o sinthoma como um real n\u00e3o analis\u00e1vel, como resto.\u00a0 Miller, em sua elabora\u00e7\u00e3o da disjun\u00e7\u00e3o entre saber e gozo, \u00e9 levado a pensar a palavra n\u00e3o enquanto ela se endere\u00e7a ao Outro, como ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, mas enquanto ve\u00edculo de gozo.<\/p>\n<p>O Sinthoma s\u00f3 se pode apreender pelo que se revela de gozo, de um gozo distinto da linguagem, \u201cGozo Opaco\u201d que exclui o sentido. Gozo que demonstra o que o sujeito tem de mais singular. A identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma \u00e9 a perspectiva de um final de an\u00e1lise, que \u00e9 identificar-se ao seu sinthoma, seu ser de gozo, quer dizer ao que ele tem de mais real e pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>Da Proposi\u00e7\u00e3o de 1967 ao \u00faltimo ensino, mais especificamente ao texto \u201cPref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o inglesa do Semin\u00e1rio 11\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup>[6]<\/sup><\/a>, Lacan oferece outra perspectiva sobre o passe e o final de an\u00e1lise. Inicialmente o conceito de saber \u00e9 posto \u00e0 prova.\u00a0 O saber n\u00e3o est\u00e1 mais na ordem da verdade, mas de elucubra\u00e7\u00e3o sobre lal\u00edngua, dos efeitos de real sobre o simb\u00f3lico. Nesse sentido, o Passe pode ser uma demonstra\u00e7\u00e3o de como a transfer\u00eancia produz um novo la\u00e7o com o Outro n\u00e3o mais restrito \u00e0 fantasia.<\/p>\n<p>Sendo assim o analista da doutrina cl\u00e1ssica \u00e9 suposto dar um testemunho de um saber, ao passo que quando est\u00e1 elaborando o conceito de sinthoma, o campo do gozo demonstra um saber sobre a verdade mentirosa.<\/p>\n<p>O sinthoma como um gozo n\u00e3o recoberto pela estrutura da fantasia, contingente, n\u00e3o previsto. O inconsciente se modifica abrindo espa\u00e7o para o acontecimento de corpo distinto do acontecimento verdade. Acontecimento fora do sentido equivalente ao \u201cgozo feminino\u201d, gozo do Um, opaco, que vem de uma mudan\u00e7a no falasser da sua rela\u00e7\u00e3o com o inconsciente depois de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>O conceito de sinthoma muda a perspectiva de um final de an\u00e1lise, pela identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma, pois o sinthoma \u201cfunciona\u201d a partir de uma travessia onde podemos destacar uma satisfa\u00e7\u00e3o. Assim, temos o inconsciente na primeira cl\u00ednica como enigma e na segunda como modo de gozo. O inconsciente se articula ao pulsional, inconsciente real.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma psican\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia que consiste em construir uma fic\u00e7\u00e3o e depois sua desconstru\u00e7\u00e3o. Um analista na perspectiva do sinthoma teria conseguido de demonstrar a impossibilidade da \u201chystoriza\u00e7\u00e3o\u201d quando demonstra a defasagem entre a verdade e o real.<\/p>\n<p>O passe do falasser n\u00e3o \u00e9 o testemunho de um sucesso, mas o testemunho de um certo modo de fracassar que pode levar a uma inven\u00e7\u00e3o para o que resta e insiste de incur\u00e1vel no seu sinthoma.<\/p>\n<p>Como situar o incur\u00e1vel no final de an\u00e1lise? O que conduziu um sujeito \u00e1 destitui\u00e7\u00e3o subjetiva e o desejo de transmitir no passe esse percurso?<\/p>\n<p>Lacan qualifica esse desejo de advertido, de assumir um resto sintom\u00e1tico para si mesmo e depois transmiti-lo para um Outro. Essa seria a forma de identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma, que pode ser resumida assim: \u201do que mais repeles em ti, tu o \u00e9s, e tem sido sempre\u201d. Cada vez que um tratamento termina (de boa maneira), o analista vai se encontrar com o seu pr\u00f3prio imposs\u00edvel, seu incur\u00e1vel.<\/p>\n<p>O \u00faltimo ensino de Lacan se orienta com outra bussola que chamamos sinthoma, com o enunciado, existe o UM. Aqui ele rompe os amores com a verdade do inconsciente interpret\u00e1vel mas regido por uma letra equivalente ao que n\u00e3o se inscreve, dos restos sintom\u00e1ticos. Podemos pensar que esse gozo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de ser eliminado, mas que, com o Passe do falasser, possa ter valor de transmiss\u00e3o.\u00a0 O entusiasmo \u00e9 um afeto digno do fim de an\u00e1lise, equivalente a uma satisfa\u00e7\u00e3o\u00a0 alcan\u00e7ada\u00a0 ao incluir um real que se torna parceiro de vida.<\/p>\n<p>O psicanalista \u00e9 com quem se joga a partida atrav\u00e9s de sua paradoxal posi\u00e7\u00e3o no sentido que Lacan lhe d\u00e1: ele s\u00f3 pode ganhar a partida com a condi\u00e7\u00e3o de perd\u00ea-la, de fazer o parceiro-sujeito ganh\u00e1-la. Autorizar-se n\u00e3o \u00e9 auto ritualizar-se. O inconsciente \u00e9 menos um saber que n\u00e3o se sabe e mais um saber-fazer com, como efeito da inexist\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p>Primeiro a fantasia, como cena da vida feita dos encontros e desencontros com o Outro, as marcas que tecem uma fic\u00e7\u00e3o \u2013 fixidez, a verdade mentirosa; depois,\u00a0\u00a0 Lacan chamou de \u201dacontecimento de corpo\u201d,\u00a0 o gozo do sinthoma, uma maneira de arrumar o traum\u00e1tico da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma passagem do Nome do Pai \u00fanico para os nomes m\u00faltiplos como alingua, corpo e falasser. O inconsciente como Corpo falante \u00e9 quando o falasser se depara com o acontecimento fora do sentido. Em Psican\u00e1lise dizemos que o corpo sintomatiza porque est\u00e1 submetido \u00e0 linguagem, escrita do significante, marcas que representam o corpo sintoma, assim como tamb\u00e9m marca do gozo.<\/p>\n<p>Podemos ver o percurso de Lacan da instancia da letra \u00e0 escrita da fantasia. Nos dois momentos do ensino de Lacan o sintoma sempre est\u00e1 referido ao corpo, variando apenas o conceito de conex\u00e3o: sintoma como met\u00e1fora, como gozo e como letra. Tr\u00eas vers\u00f5es do sinthoma no Passe.<\/p>\n<p>\u201cUm tango \u00e9 um pensamento triste que se pode dan\u00e7ar\u201d. Uma an\u00e1lise tem na sua conclus\u00e3o uma solid\u00e3o que diz respeito a uma mudan\u00e7a na consist\u00eancia do Outro (fratura da fantasia) abrindo caminho para a identifica\u00e7\u00e3o ao sinthoma frente ao gozo imposs\u00edvel de negativar. Um trabalho que considera a pragm\u00e1tica do sinthoma e o manejo da pr\u00e1tica. Cito Bassols, para concluir: Quando o Outro se esvazia do gozo sentido, o que fica \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do objeto em que o outro se reduziu e que \u00e9 id\u00eantico ao ser do sujeito mesmo.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p>O sinthoma \u00e9 o produto de uma an\u00e1lise; com ele inventamos uma dan\u00e7a para o que se repete com a letra da m\u00fasica de cantor, ao dizer que o que \u201dmata e o que cura est\u00e1 fora da lei\u201d. N\u00e3o seria essa a dire\u00e7\u00e3o de um saber, fazer com aquilo que resta de incur\u00e1vel e que \u00e9 mais singular? N\u00e3o seria essa satisfa\u00e7\u00e3o produto de uma nova alian\u00e7a com o gozo que faz a vida mais nobre e o amor mais digno?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller-J A. Perspectivas dos escritos e outros escritos de Lacan.\u00a0 Rio de Janeiro: Zahar, 2011.\u00a0 Li\u00e7\u00e3o 7.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Enrique Santos Disc\u00e9polo Deluchi \u2013 Cambalache-Compositor de tango argentino conhecido como \u201cfilosofo do tango\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller,j-A. Os circuitos de desejo na vida e na an\u00e1lise. Rio de Janeiro: Contra capa, 2000, p. 161.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller -J-A. \u201cA favor do Passe ou dial\u00e9tica do desejo e fixidez da fantasia\u201d. Em: Aposta no Passe: seguido de 15 testemunhos de an\u00e1lises da Escola, membros da EBP. Rio de Janeiro: Contracapa, 2019, p.13.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. El lugar y el lazo. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2013, Li\u00e7\u00e3o XIX, p. 361.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> LACAN, J-. \u201cPrefacio \u00e1 Edi\u00e7\u00e3o inglesa do semin\u00e1rio 11\u201d (1976). Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> BASSOLS, M. O Sintoma-Charlat\u00e3o. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 136<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5410&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5411&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5412&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sol_agosto\"><\/a>\u201cRepeti\u00e7\u00e3o e morosidade na pr\u00e1tica anal\u00edtica\u201d<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Angela Batista<\/h6>\n<p>Inicialmente gostaria de localizar os pontos que pretendo abordar: A partir do curso de Miller \u201cO Lugar e o la\u00e7o,\u201d <a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>pretendo conversar com\u00a0 voc\u00eas sobre\u00a0 algumas quest\u00f5es sobre o final das an\u00e1lises em Freud e em Lacan, para situar \u00a0um novo manejo do lugar da transfer\u00eancia e de um saber -fazer com o traum\u00e1tico do real pulsional que surpreende sempre.<\/p>\n<p>Nesse sentido, uma sess\u00e3o anal\u00edtica sempre\u00a0 acontece entre o esperado e a surpresa, podemos dizer que algo est\u00e1 em espera da oportunidade, porque n\u00e3o dizer da boa conting\u00eancia. Uma sess\u00e3o \u00e9 \u00fanica, e nela podemos ver diferentes tempos de uma an\u00e1lise. Uma trajet\u00f3ria que vai do Sintoma ao Sinthoma, \u00a0sempre no horizonte do real que escapa ao la\u00e7o.<\/p>\n<p>O tema da repeti\u00e7\u00e3o do sintoma \u00e9 um tema da nossa pr\u00e1tica, do cotidiano da cl\u00ednica e que nos implica como analistas, sempre. Desde Freud\u00a0 temos um Rochedo a atravessar quando se trata de concluir uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Com essas considera\u00e7\u00f5es iniciais, pergunto:<\/p>\n<p>1- Em que a repeti\u00e7\u00e3o do Sintoma em Freud (compuls\u00e3o a repeti\u00e7\u00e3o), se assemelha ao Incur\u00e1vel do sinthoma em Lacan?<\/p>\n<p>2- <em>\u00a0A repeti\u00e7\u00e3o em uma an\u00e1lise depende do que o analista faz com a \u201cmorosidade do sintoma\u201d?\u00a0 Vejamos:<\/em><\/p>\n<p>Miller em seu curso\u201c O lugar e o la\u00e7o\u201d,\u00a0 abre uma nova \u00e9poca na orienta\u00e7\u00e3o lacaniana que tem consequ\u00eancias na nossa pr\u00e1tica sinalizando um novo modo de tratamento dado ao real. Quero tamb\u00e9m ressaltar a import\u00e2ncia dos cursos de Miller, pois eles sustentam a transfer\u00eancia no Campo Freudiano assim como a psican\u00e1lise, como uma experiencia. Esse curso faz parte de uma trilogia: Donc, Sutilezas, e Lugar e o La\u00e7o, que tratam a quest\u00e3o do Passe e do final de an\u00e1lise, orientados pelo \u00faltimo ensino de Lacan. N\u00e3o por acaso, a capa do semin\u00e1rio, vemos o desenho de Palas Atena, indicando o N\u00f3 Borromeu de Botitteli, que responde a \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0 com o la\u00e7o\u00a0 que une RSI, \u00a0que faz n\u00f3 . O curso tenta elucidar qual o real da psican\u00e1lise no in\u00edcio do sec. XXI.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do Curso, sinaliza v\u00e1rios axiomas que prop\u00f5e trabalhar. O ponto de partida \u00e9 o parceiro \u2013 psican\u00e1lise, que se diferencia das psicoterapias por rela\u00e7\u00e3o ao axioma \u201cn\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d, ou seja, uma elucida\u00e7\u00e3o do lugar do analista\u00a0 diante do sintoma como satisfa\u00e7\u00e3o , enquanto fora do sentido, no campo do real.\u00a0 Essas li\u00e7\u00f5es portanto, trabalham o \u00faltimo ensino de Lacan , a dissolu\u00e7\u00e3o dos conceitos freudianos, a desordem simb\u00f3lica e a trajet\u00f3ria de Lacan.<\/p>\n<p>A partir da li\u00e7\u00e3o IX e XV, resumo tr\u00eas momentos do ensino de Lacan: O primeiro a autonomia do simb\u00f3lico, e o inconsciente \u00e9 o discurso do Outro; o segundo ensino dedicado \u00e0 articula\u00e7\u00e3o entre o Outro e o objeto a; e o \u00faltimo ensino, parte do Inconsciente real nomeando o singular do falasser.<\/p>\n<p>Ao retornar aos fundamentos da cl\u00ednica, destaca o real sem lei, um real desatado do saber e do sentido. \u00a0Importante destacar essa passagem da ordena\u00e7\u00e3o estruturalista, da ordem simb\u00f3lica para confrontar com o que a linguagem produz no corpo, os efeitos de discurso que afeta o corpo, onde temos o paradigma do gozo do UM que n\u00e3o se reporta ao Outro. O significante n\u00e3o tem apenas efeito de\u00a0 significado, mas efeitos sobre o corpo. Aqui a refer\u00eancia aos quatros discursos se desloca para dar lugar ao que n\u00e3o \u00e9 articul\u00e1vel na cadeia significante.\u00a0 Se o sintoma freudiano \u00e9 interpret\u00e1vel, mesmo quando esbarra no limite, com o conceito de sinthoma, o sinthoma \u00e9 gozo, que tem a fixidez fantasm\u00e1tica tribut\u00e1ria de uma in\u00e9rcia imaginaria ilimitada.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o da verdade, pelo gozo, no Semin\u00e1rio \u201cMais ainda\u201d<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, faz deslocar a linguagem enquanto comunica\u00e7\u00e3o, e temos o gozo de lalingua. Nesse sentido temos que diferenciar o inconsciente. O Inconsciente da articula\u00e7\u00e3o transferencial e o \u201dda letra\u201d que n\u00e3o faz cadeia, Inconsciente real.\u00a0 Aqui destaca-se a disjun\u00e7\u00e3o entre inconsciente e interpreta\u00e7\u00e3o. O que se acredita saber da articula\u00e7\u00e3o do inconsciente \u00e9 posto em d\u00favida pela letra sem sentido do gozo.<\/p>\n<p>Gostaria de sublinhar que o \u201clugar e o la\u00e7o anal\u00edtico\u201d depende do la\u00e7o do analista com a psican\u00e1lise. A import\u00e2ncia dos testemunhos de Passe s\u00e3o modos de la\u00e7o e que mostram como cada um pode fazer la\u00e7o, no caminho do sintoma ao sinthoma.<\/p>\n<p>Nesse sentido \u00e9 que uma an\u00e1lise pode ajudar a tecer esse quarto elo, que mant\u00e9m os demais unidos. Nesse sentido, os arranjos sinthom\u00e1ticos s\u00e3o inven\u00e7\u00f5es que permitem uma nova maneira do sujeito viver a puls\u00e3o. \u00a0Uma dire\u00e7\u00e3o para bom uso de uma pragm\u00e1tica, quer dizer h\u00e1 que manejar o indom\u00e1vel pulsional.<\/p>\n<p>Lacan situa seu \u00faltimo ensino com um dizer que equivoca e que sugere \u201cPensar com os p\u00eas\u201d quer dizer com a escrita borromeana. Temos que pensar de outro modo quando \u00a0esbarramos com o estancamento da fixidez pulsional. Nesse sentido , o inconsciente real \u00e9 o sinthoma, e o N\u00f3 borromeano \u00e9 a consequ\u00eancia te\u00f3rica do que chamou de \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d. O sinthoma \u00e9 o resultado desse percurso.<\/p>\n<p>Dessa forma, o parceiro sintoma n\u00e3o \u00e9 o Outro, mas o Um do gozo. N\u00e3o h\u00e1 Outro e o sintoma \u201cgira em c\u00edrculos\u201d. Disso resulta que\u00a0 em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00f3 borromeano a refer\u00eancia n\u00e3o \u00e9 o sujeito do\u00a0 inconsciente \u00a0que inclui o Outro, mas o falasser.\u00a0 Entre as voltas do sintoma enquanto mensagem endere\u00e7ada ao analista (sintoma \u2013 recalque) e a repeti\u00e7\u00e3o do mesmo (sintoma modo de gozo), uma an\u00e1lise acontece.<\/p>\n<p>Miller ent\u00e3o, em sua trajet\u00f3ria, observa que a repeti\u00e7\u00e3o da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional\u00a0 traz dificuldade no manejo da transfer\u00eancia que oscila entre interpretar e perturbar as defesas.<\/p>\n<p>Chama de \u201cmorosidade\u201d o afeto que se op\u00f5e ao deciframento e que pode levar o analista a\u00a0 fazer uma parceria com o analisando em \u00a0uma zona \u00a0de uma \u201cintimidade indecente\u201d. Trata-se de uma certa in\u00e9rcia que nomeou de \u201cestancamento\u201d do sintoma , daquilo que n\u00e3o muda que gira em c\u00edrculos. (n\u00e3o h\u00e1 conflito). O sintoma nesse aspeto comporta em si um gozo que satisfaz e n\u00e3o apela ao Outro.<\/p>\n<p>Como ent\u00e3o \u201cmudar \u201c esse ponto de fixidez que n\u00e3o demanda interpreta\u00e7\u00e3o, nem Outro?<\/p>\n<p>Destaco uma passagem importante nesse Semin\u00e1rio, na li\u00e7\u00e3o XV, quanto a desordem do simb\u00f3lico, descentrando o sonho estruturalista, do \u201cUniverso das regras\u201d, de Levi Strauss, do simb\u00f3lico como ordem, para a ideia do simb\u00f3lico como desordem.<\/p>\n<p>Miller destaca que, a partir do \u00faltimo ensino, o simb\u00f3lico \u00e9 rebaixado \u00e0 uma pot\u00eancia da desordem. \u00a0Sendo assim, observamos uma ruptura na maneira de enla\u00e7ar RSI. O simb\u00f3lico se desloca para o corpo vivo, para o corpo que fala, uma substitui\u00e7\u00e3o da refer\u00eancia \u00e0 sociologia por uma refer\u00eancia \u00e0 biologia. No lugar da ordem, o Traumatismo. O que leva Miller acrescentar que uma an\u00e1lise \u00e9 uma experi\u00eancia com o corpo.<\/p>\n<p>Gostaria de pensar esse ponto quanto ao que muda no ensino de Lacan, que permite rearrumar <em>o lugar<\/em> da Psican\u00e1lise oferecendo novas possibilidades de leitura em dire\u00e7\u00e3o aquilo que n\u00e3o se deixa significantizar.<\/p>\n<p>Com a epidemia do Covid 19 estamos diante de um real sem precedentes, desalojando o sujeito do <em>seu Lugar<\/em> no Outro e alterando seu <em>la\u00e7o<\/em>. Penso que o atendimento on line n\u00e3o modifica o sentido dos sintomas e o caminho de\u00a0 sua forma\u00e7\u00e3o , lembrando Freud. H\u00e1 algo do sintoma que estanca , que \u00e9 um obst\u00e1culo e que no atendimento on line , temos o mesmo sujeito. Mas podemos nos indagar sobre a\u201d morosidade do sintoma\u201d no atendimento on line.<\/p>\n<p>Esse curso renova a quest\u00e3o do Passe de Lacan em 1967, que produz uma mudan\u00e7a do Passe como verdade relacionada ao saber, para o Passe do \u00faltimo ensino de Lacan , \u00a0renovado por Miller como satisfa\u00e7\u00e3o , de um saber-fazer como Sinthoma. Penso ser diferente a satisfa\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o, como gozo ,da\u00a0 satisfa\u00e7\u00e3o, quando podemos concluir uma an\u00e1lise, que implica em um <em>saber- fazer<\/em> com aquilo que n\u00e3o muda em uma vida.<\/p>\n<p>Um salto importante, pois muda o sentido do sintoma, visto n\u00e3o mais como mensagem cifrada articulada \u00e0 cadeia significante.\u00a0 O sintoma se torna desarticulado da cadeia significante, repeti\u00e7\u00e3o de uma satisfa\u00e7\u00e3o pulsional \u2013 gozo. Nesse sentido o que muda \u00e9 o sentido do sintoma a partir da leitura daquilo que n\u00e3o faz cadeia, pensado a partir do que est\u00e1 fora da cadeia do sentido significante, mais al\u00e9m da repeti\u00e7\u00e3o significante. O Inconsciente \u00a0real aparece como sem sentido e opaco . O essencial \u00e9 que nesse n\u00edvel n\u00e3o h\u00e1 conflito. H\u00e1 sofrimento, mas n\u00e3o conflito propriamente dito. O \u00faltimo ensino subtrai de certa forma essa perspectiva e privilegia o real da satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O real sem lei ganha destaque por ser um real fora do sentido e tamb\u00e9m fora do saber. O n\u00f3 borromeano \u00e9 ent\u00e3o o paradigma do \u201csaber \u2013 fazer\u201d, sublinhando mais o\u201d fazer\u201d do que o \u201csaber\u201d. O neologismo sinthoma vai se referir a uma nova forma de gozar do inconsciente e a supl\u00eancia ser\u00e1 a uma maneira singular constru\u00edda em an\u00e1lise que possa alojar a \u201cestranheza\u201d singular de cada um.<\/p>\n<p>Uma passagem que vai da ordem simb\u00f3lica ao modo de gozo. Deslocamento que modifica o lugar do psicanalista quanto a interpreta\u00e7\u00e3o, o pois o que era dado como recalque \u00e9 substitu\u00eddo pelo conceito de defesa. Uma cl\u00ednica orientada para o traum\u00e1tico da \u201cn\u00e3o- rela\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Em lugar da ordem, o traumatismo . No lugar da\u201d n\u00e3o- rela\u00e7\u00e3o\u201d, o la\u00e7o, como inven\u00e7\u00e3o. Nesse contexto surge a import\u00e2ncia do Passe, como um dispositivo que verifica o final de an\u00e1lise. A psican\u00e1lise para se manter viva precisa\u00a0 ter uma transmiss\u00e3o de como as an\u00e1lises foram conclu\u00eddas, como \u00a0\u00a0cada um pode chegar ao seu ponto de \u00a0incur\u00e1vel.<\/p>\n<p>Com a cl\u00ednica borromena, \u00a0podemos aprender enla\u00e7ar os tr\u00eas registros, articular elementos dispersos e opostos, sem articula\u00e7\u00e3o, pe\u00e7as \u2013 soltas. <em>Dar lugar para o sem nome pulsional onde o<strong> objeto<\/strong> pode aparecer como uma inven\u00e7\u00e3o do sujeito onde psicanalista ocupa um lugar de semblante necess\u00e1rio \u00e0 desordem do real.<\/em><\/p>\n<p><em>Podemos pensar que a\u201d repeti\u00e7\u00e3o morosa do sintoma\u201d\u00a0 do lado do analista? \u00a0\u00a0Talvez aqui seja v\u00e1lida a sugest\u00e3o de Lacan para se orientar :\u201d Pensar com os p\u00eas\u201d\u00a0 Lacan disse que o discurso anal\u00edtico devia trazer a novidade, e que \u00a0s\u00f3 assim podemos dizer que mudamos de discurso.<\/em><\/p>\n<p>Lacan diz: \u201cO inconsciente \u00e9 que, em suma, se fala (\u2026) sozinho. Fala-se sozinho, porque fala-se apenas uma \u00fanica e mesma coisa \u2013 exceto se nos abrirmos para dialogar com um psicanalista. N\u00e3o h\u00e1 meios de se fazer diferente, a n\u00e3o ser ao receber de um psicanalista o que perturba sua defesa\u201d.<\/p>\n<p>Com o \u00faltimo ensino n\u00e3o somos os mesmos analistas; cl\u00ednica se renova e giramos diferentes. Aprendemos a ser menos ing\u00eanuos a desapegarmos da rotina e estamos mais espertos por rela\u00e7\u00e3o ao que nos adormece. Isso tem consequ\u00eancia na dire\u00e7\u00e3o do tratamento, nas an\u00e1lises que conduzimos e em nossas vidas. Aprendemos com Freud Algo sobre o \u201cKairos\u201d da interpreta\u00e7\u00e3o: o le\u00e3o s\u00f3 salta uma vez.<\/p>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Miller, J-Alain- El lugar Y El La\u00e7o- Ed. Paid\u00f3s \u2013 2013.<\/h6>\n<h6>\u00a0Lacan ,J- O Semin\u00e1rio livro 20 ,\u201cMais ainda\u201d ( 1972-73) Ed Zahaar.<a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\"><\/a><\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"sol_comentario\"><\/a>Encontro Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>\u00a0\u201cRepeti\u00e7\u00e3o e morosidade na pratica anal\u00edtica\u201d<\/strong><\/p>\n<h6>Coment\u00e1rios sobre o debate<\/h6>\n<h6>Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna<\/h6>\n<p>O trabalhos apresentados por Angela Batista e Rodrigo Lyra durante o \u00faltimo encontro do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana tiveram como ponto de partida, a leitura das li\u00e7\u00f5es IX e XV do Curso de J. A Miller, O Lugar e o la\u00e7o, a partir da qual cada um destacou o aspecto que o interroga.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo escolhido: A repeti\u00e7\u00e3o e a morosidade na pr\u00e1tica anal\u00edtica, versa sobre a temporalidade do sintoma. Esses dois aspectos fazem parte da an\u00e1lise, imposs\u00edveis de serem esquecidos pelo analista porque est\u00e3o presentes em seu cotidiano e apelam a um saber fazer que n\u00e3o se contamine com a exig\u00eancia de acelera\u00e7\u00e3o, muito presente no discurso de hoje.<\/p>\n<p>Angela e Rodrigo tomaram como ponto de partida a chave de leitura oferecida por J. A Miller, distinguindo as diferentes elabora\u00e7\u00f5es ao longo do ensino de J. Lacan, &#8211; da ordem simb\u00f3lica ao real sem lei-, apresentando as quest\u00f5es pr\u00f3prias que os colocam a trabalhar.<\/p>\n<p>Angela situou seu ponto de interroga\u00e7\u00e3o sobre o final da an\u00e1lise, especialmente sobre o caminho que vai do sintoma ao sinthoma se perguntando por essa temporalidade da morosidade do sintoma e a resposta do analista frente a isso. Ela prop\u00f5e o analista <em>suprendedor<\/em> como aquele que acolhe a conting\u00eancia em sua opera\u00e7\u00e3o, para manejar o que anda em c\u00edrculos, ou seja, o gozo.<\/p>\n<p>Rodrigo recortou seu ponto de interesse na morosidade do sintoma e sua rela\u00e7\u00e3o com os tempos atuais, com um discurso no qual regem os ideais de acelera\u00e7\u00e3o, de transpar\u00eancia entre outros. Incluiu tamb\u00e9m o tema da morosidade do sintoma no atendimento on-line.<\/p>\n<p>O debate tocou em v\u00e1rios pontos:<\/p>\n<ol>\n<li>Como a posi\u00e7\u00e3o do analista \u00e9 afetada pela morosidade do sintoma j\u00e1 que o analista faz parte do sintoma?<\/li>\n<li>Foi apresentado um dos riscos que o analista corre, que \u00e9 de ficar em um posi\u00e7\u00e3o de intimidade indecente frente a aquilo que n\u00e3o muda, ou demora a mudar.<\/li>\n<li>A orienta\u00e7\u00e3o de J. Lacan de que o analista deve \u201cpensar com os p\u00e9s\u201d, frase enigm\u00e1tica que introduz algo de um imposs\u00edvel. Seria essa uma orienta\u00e7\u00e3o para o analista se situar frente ao gozo do sintoma?<\/li>\n<li>O que ancora a resposta do analista ? O desejo do analista e os princ\u00edpios da an\u00e1lise seriam as balizas?<\/li>\n<li>O exemplo trazido por Rodrigo, relatou uma situa\u00e7\u00e3o que se repete atualmente nos atendimentos online, quando o analisante pergunta: Voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed? Isto permitiu conversar um pouco mais sobre como o sintoma emerge em sua dimens\u00e3o morosa, sua dimens\u00e3o opaca.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Para concluir, posso dizer que os dois trabalhos trazidos pelos colegas foram muito ricos e permitiram elucidar um pouco mais sobre a repeti\u00e7\u00e3o e a morosidade, duas vers\u00f5es do mesmo que denominamos de gozo.[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5280&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5322&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5321&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;2967&#8243; img_size=&#8221;500&#215;280&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>O que ancora o fazer do analista?<\/strong><\/p>\n<h6>Maria Silvia G. F Hanna<\/h6>\n<p>Agrade\u00e7o hoje a presen\u00e7a de todos: aos colegas da Diretoria pela organiza\u00e7\u00e3o, e do Conselho, com quem divido a tarefa de organizar este semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. Especialmente agrade\u00e7o a Ana Teresa com quem tive uma troca muito rica durante esta prepara\u00e7\u00e3o e a Rodrigo Lyra por coordenar este encontro.<\/p>\n<p>Hoje \u00e9 o segundo encontro do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana via online.<\/p>\n<p>Para aqueles que est\u00e3o conosco pela primeira vez lembro que o trabalho do Semin\u00e1rio tem como texto de orienta\u00e7\u00e3o o Curso de Miller: <em>El lugar y el lazo (2000-2001)<\/em>. Retomarei alguns elementos presentes na li\u00e7\u00e3o 6 para abrir uma troca de ideias com voc\u00eas. A seguir ouvir\u00e3o um trabalho <em>in progress <\/em>e ser\u00e1 necess\u00e1ria a contribui\u00e7\u00e3o de voc\u00eas para continu\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Creio que temos uma boa pergunta: O que ancora o fazer do analista?<\/p>\n<p>Nela encontro a ideia de <strong>ancoragem, de sustenta\u00e7\u00e3o<\/strong> e o <strong>fazer <\/strong>do analista. Ela permitir\u00e1 indagar: onde o fazer se ancora? Isto nos situa no tema do lugar. Cabe lembrar que o desdobramento de uma an\u00e1lise depende n\u00e3o s\u00f3, mas primordialmente de como se ocupa o lugar de ouvinte, de deposit\u00e1rio da linguagem e da palavra.<\/p>\n<p><strong>O analista em sua pr\u00e1tica cl\u00ednica<\/strong>.<\/p>\n<p>Considero que esta pergunta e sua resposta\u00a0 podem servir de b\u00fassola para orientar nosso trabalho de analistas, hoje, justamente em um tempo de pandemia, onde se faz necess\u00e1rio o confinamento como freio para a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Covid 19, durante o qual fomos\u00a0 obrigados a nos deslocar de nossos consult\u00f3rios para o celular.<\/p>\n<p>O celular e todas as tecnologias que se desprendem da\u00ed ofereceram um espa\u00e7o para dar continuidade a nossa pr\u00e1tica de analistas e de ensinantes\/docentes.<\/p>\n<p>Nesse sentido percebemos que as barreiras impostas pela geografia (bairros, cidades, pa\u00edses) foram ultrapassadas. O espa\u00e7o f\u00edsico se transformou! Habitamos em um espa\u00e7o digital! Algo in\u00e9dito. N\u00e3o nos encontramos fisicamente, o m\u00e1ximo que podemos fazer \u00e9 ouvir a voz do outro e ver sua imagem. Os cheiros, os pequenos gestos, os movimentos corporais, entre outros ficaram de fora ou muito apagados. Mas tamb\u00e9m apareceram outros fen\u00f4menos, novos ru\u00eddos (dos microfones, dos fios), sil\u00eancios que fazem duvidar se o outro continua a\u00ed ou n\u00e3o, comunica\u00e7\u00f5es que se interrompem por falta de internet, presen\u00e7a de elementos dos ambientes onde estamos, crian\u00e7as que falam, animais dom\u00e9sticos e outros, compondo novos cen\u00e1rios.<\/p>\n<p>Tudo bastante estranho em um primeiro momento, o que levou a muitos colegas a dizerem \u201cn\u00e3o, n\u00e3o vai ser poss\u00edvel fazer psicanalise assim\u201d. Aqueles que aceitaram o desafio, o fizeram com muita cautela. Nos perguntamos: Essa forma digital degrada a psican\u00e1lise? Ser\u00e1 que a psican\u00e1lise corre o risco de ser transformada em uma psicoterapia? \u00c9 poss\u00edvel fazer an\u00e1lise sob essas condi\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>Nessa conjuntura penso que a elabora\u00e7\u00e3o proposta na li\u00e7\u00e3o 6 do curso de J. -A Miller, onde diferencia a psicanalise pura, a psicanalise aplicada \u00e0 terap\u00eautica e a psicoterapia, pode ser bastante propiciadora para elencar alguns aspectos de nosso cotidiano de hoje.\u00a0 Nos serviremos desses elementos acrescentando outros e fazendo nossa caminhada.<\/p>\n<p>Lembro aqui o t\u00edtulo do escrito de J. Lacan: <em>A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder<\/em>,<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> onde a pr\u00e1tica da psicanalise se relaciona com os princ\u00edpios que esclarecem e dirigem os procedimentos.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Sabemos que Lacan foi contra qualquer <em>standard<\/em> para definir a psican\u00e1lise e sua elabora\u00e7\u00e3o deu lugar \u00e0 formula\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios da psicanalise. \u00c9 com eles que podemos contar para nos orientar. Essa seria uma primeira pontua\u00e7\u00e3o que deixo aqui feita para ser retomada na conversa com voc\u00eas.<\/p>\n<p><strong>Psican\u00e1lise e psicoterapia<\/strong><\/p>\n<p>Encontramos na li\u00e7\u00e3o 6 uma proposta de J. -A Miller para tratar o tema da diferen\u00e7a entre a psican\u00e1lise pura e aplicada \u00e0 terap\u00eautica visando ultrapassar as classifica\u00e7\u00f5es, colocando o foco na pr\u00e1tica da psican\u00e1lise<strong>.<\/strong> A abordagem permite sair da oposi\u00e7\u00e3o entre puro e o aplicado, que segundo o autor comenta tinha gerado \u201cfalsos problemas e falsas solu\u00e7\u00f5es\u201d. Dessa maneira encaminha sua elabora\u00e7\u00e3o para a distin\u00e7\u00e3o entre a psicanalise enquanto pr\u00e1tica, quer dizer, sempre impura &#8211; lembremos que o puro na filosofia quer dizer um <em>a priori,<\/em> e na ci\u00eancia, teoria-especula\u00e7\u00e3o -, e a psicoterapia.<\/p>\n<p>Ao longo da li\u00e7\u00e3o 6 encontramos duas respostas para construir essa diferen\u00e7a de autoria de J. A Miller e a terceira que \u00e9 uma retomada da resposta de J. Lacan presente no escrito <em>Televis\u00e3o<\/em>.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Escolho iniciar pela resposta de J. Lacan para em um segundo momento articul\u00e1-la com as constru\u00eddas por J. A Miller que s\u00e3o muito interessantes. Minha hip\u00f3tese \u00e9 que a partir da resposta de J. Lacan podemos entender melhor as propostas por J. A Miller. Se bem n\u00e3o \u00e9 essa sequ\u00eancia que ele faz na aula. Ele inicia com as suas para no final retomar a de J. Lacan.<\/p>\n<p>A pergunta no escrito <em>Televis\u00e3o<\/em> \u00e9: \u201c&#8230;Permita-me formular assim a pergunta: psicanalise e psicoterapia, as duas s\u00f3 agem por meio de palavras. No entanto, elas se op\u00f5em. Em que?\u201d<\/p>\n<p>Sua resposta n\u00e3o demora e aponta que na psicoterapia \u00e9 privilegiada a vertente do sentido. Acrescentando que o patente, o que grita \u00e9 que o sentido se situa a\u00ed onde n\u00e3o h\u00e1 sentido nenhum, onde n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o. Dessa forma o sentido funciona como aquilo que vela a aus\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o, de rela\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>A psicoterapia se mant\u00e9m nesse registro que podemos denominar como o registro da realidade coletiva, do senso comum, do campo dos ideais. A psicoterapia utiliza a palavra no registro do sentido.<\/p>\n<p>A psicanalise, sendo tamb\u00e9m uma disciplina que se insere no campo da palavra e da linguagem, tem outro ponto de mira: ela introduz o real como o nome positivo do fora-de-sentido<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Para elucidar um pouco mais essa resposta sobre a distin\u00e7\u00e3o entre o campo da psican\u00e1lise e da psicoterapia, J. A. Miller se serve do grafo do desejo, indicando que a psicoterapia se reduz ao primeiro andar do mesmo, ficando aprisionada no campo das significa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A abertura para o segundo andar \u00e9 operada pela presen\u00e7a do desejo do analista. Nesse sentido podemos dizer com todas as letras que a psican\u00e1lise depende de que o analista ocupe seu lugar e promova um trabalho a partir do desejo. Mas n\u00e3o \u00e9 qualquer desejo.<\/p>\n<p>A instancia do desejo do analista se baseia na abstin\u00eancia a utilizar a onipot\u00eancia que o lugar de ouvinte lhe oferece. Essa absten\u00e7\u00e3o mesma \u00e9 o desejo do analista que abre um trajeto mais al\u00e9m, que ter\u00e1 como efeito a queda de algumas identifica\u00e7\u00f5es e o surgimento de outras, permitindo articular palavra e puls\u00e3o, ou seja, incluindo a problem\u00e1tica do gozo. Assim o desejo do analista tem como resultado a emerg\u00eancia de um Outro inconsistente \u00e0 diferen\u00e7a da psicoterapia, que preserva a onipot\u00eancia do Outro.<\/p>\n<p>H\u00e1 um outro encaminhamento oferecido por J. A Miller para responder \u00e0 pergunta pela diferencia entre psicoterapia e psicanalise, inserindo a primeira no predom\u00ednio do discurso do mestre.<\/p>\n<p>Frente a ang\u00fastia do sujeito que procura a psicoterapia, o psicoterapeuta oferece, de forma imediata e permanente, um significante para se estabilizar. Isto provoca um aborto da fantasia, j\u00e1 que no discurso do mestre o sujeito dividido e o objeto ficam impossibilitados de se relacionar. Nesse sentido a psicoterapia fica como o reverso da psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>Voltando sobre o desejo do analista<\/strong>.<\/p>\n<p>Penso que a\u00ed temos a chave para encaminhar, ainda que de maneira fragmentaria, a resposta \u00e0 nossa pergunta inicial: O que ancora o fazer do analista?<\/p>\n<p>Dissemos que o desejo do analista implica que o analista se abstenha de ocupar o lugar do mestre, o lugar da dire\u00e7\u00e3o e assim se deixe habitar pelo furo que implica fazer o semblante de objeto pequeno a.<\/p>\n<ol>\n<li>Lacan diz que o desejo do analista n\u00e3o \u00e9 um desejo puro. Entendo assim: que n\u00e3o se trata de algo te\u00f3rico nem especulativo, nem um <em>a priori <\/em>e sim o resultado de uma rela\u00e7\u00e3o muito especial com a causa, com aquilo que falta, que faz furo, com aquilo que manca, encarnada na psicanalise. Esse desejo \u00e9 de obter algo. O qu\u00ea? Uma diferen\u00e7a absoluta, destaco o termo diferen\u00e7a, que por um lado remete ao significante e seu funcionamento, e por outro o termo absoluto, que indica que n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual onde se o fora-do-sentido.<\/li>\n<\/ol>\n<p>O analista, para ancorar seu fazer, precisa dos princ\u00edpios que lhe orientem na sua opera\u00e7\u00e3o e de uma rela\u00e7\u00e3o com a causa, a causa do inconsciente, a causa da psicanalise. Nesse sentido o fazer do analista pode vir a gerar algo novo, algo in\u00e9dito, que acolhe tr\u00eas elementos anormais, muito anormais que denominamos a verdade, o desejo e o gozo. A\u00ed voc\u00eas t\u00eam algo do ponto onde cheguei para retomar do ponto onde voc\u00eas est\u00e3o. Aguardo.<\/p>\n<p>Obrigada<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. (1958b) A dire\u00e7\u00e3o do tratamento e os princ\u00edpios de seu poder. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1988.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Brodsky, Graciela. A solu\u00e7\u00e3o do Sintoma. In Op\u00e7\u00e3o Lacaniana 34. SP. Edi\u00e7\u00f5es E\u00f3lia. Outubro 2002.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Lacan, J. Televis\u00e3o. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Ed.,2003. P.508.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Miller, J. A El lugar y el lazo. Buenos Aires: Buenos Aires. 2001. P.116.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"ana_tereza\"><\/a>Onde se ancora o fazer do analista? A psican\u00e1lise e seu ensino.<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Ana Tereza Groisman<\/h6>\n<blockquote><p>\u201cLer o que escrevi mesmo sem compreender muito bem faz efeito, prende, interessa. N\u00e3o se tem tanto a impress\u00e3o de se estar lendo um escrito premido por algo urgente e dirigido a pessoas que t\u00eam alguma coisa para fazer, alguma coisa que n\u00e3o \u00e9 c\u00f4moda de fazer.\u201d (Lacan, 2006) <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p>Quando come\u00e7amos a trabalhar no curso de Miller \u201co lugar e o la\u00e7o\u201d, encontramos diversas passagens que nos ajudaram a pensar sobre a psican\u00e1lise em tempos de Pandemia, tema que tem orientado nosso estudo.<\/p>\n<p>A tarefa desse semin\u00e1rio \u00e9 fazer ressoar as p\u00e9rolas que encontramos ao longo do texto. Por isso n\u00e3o seguimos os cap\u00edtulos em sua ordem, nem pretendemos dar uma aula sobre o texto de Miller. Mas me parece importante situar o porqu\u00ea de eu escolher comentar essa aula: no final da 7, Miller localiza no \u00faltimo ensino de Lacan uma disjun\u00e7\u00e3o radical entre o simb\u00f3lico e o real, uma disjun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o ser\u00e1 abarcada pela constru\u00e7\u00e3o da fantasia. H\u00e1 uma possibilidade de articula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o pela via do sentido da fantasia e sim pela via do artif\u00edcio do Sinthoma. \u00c9 pelo mal-entendido que o real se apresenta. Trata-se ent\u00e3o de fazer ressoar os efeitos desse mal-entendido, e n\u00e3o apenas ficcion\u00e1-lo pela constru\u00e7\u00e3o fantasm\u00e1tica.<\/p>\n<p>Ele termina a aula 7 assim: \u201cO m\u00e9todo do qual se trata consiste em buscar o real em tudo. Procurar o real, tentar passar sob o sentido, tentar dispersar as constru\u00e7\u00f5es, mesmo elegantes, mesmo convincentes, sobretudo se s\u00e3o elegantes. \u00c9 isso que Lacan assume e demonstra em seu ensino. Trata-se de um certo \u201cnada de eleg\u00e2ncia\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o seguinte, Miller retoma essa passagem, lembrando que o \u00faltimo ensino de Lacan nos obriga a desaprender, ou seja: a se desprender um pouco do que antes balizava nossa cl\u00ednica para se abrir a um certo \u201cnada entender\u201d. Um ensino que desorienta, mas desbrava novos mares a navegar.<\/p>\n<p>Ao ler a aula \u201cO \u00faltimo ensino de Lacan\u201d, fui fisgada pelo desejo de tentar trabalhar um pouco sobre a quest\u00e3o do ensino como um dos ancoradouros necess\u00e1rios ao fazer do analista. Buscando o significado da palavra \u201censino\u201d, aprendi que ensinar vem do latim <em>in+signare<\/em> o que significa p\u00f4r marcas ou sinais. Quando o ensino acontece, uma marca \u00e9 deixada. Como nos diz Lacan, mesmo sem compreender muito bem, algo nos prende, nos interessa. Creio que podemos acrescentar que algo tamb\u00e9m se transmite. Estudar psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil! O ensino e seu aprendizado incluem um vazio central de saber, marca do real em jogo na experi\u00eancia com o inconsciente.<\/p>\n<p>O que marca o ensino de Lacan, sobretudo seu \u00faltimo ensino? Que marca buscamos imprimir com o ensino da psican\u00e1lise e de onde elas surgem?<\/p>\n<p>Quando entramos no terreno do ensino e da transmiss\u00e3o, vemos o analista se deslocar de seu lugar para o de analisante. S\u00e3o in\u00fameras as passagens ao longo dos cursos de Miller em que ele explicita isso: colocar seu desejo de saber a trabalho a partir de uma quest\u00e3o que o atravessa e desassossega. Lacan tamb\u00e9m insiste nesse ponto em diversos momentos, seus semin\u00e1rios guiaram sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o. O ensino e o estudo, sobretudo o chamado \u00faltimo ensino de Lacan, nos for\u00e7am a esse lugar, por isso, tamb\u00e9m do lado do analista, mesmo que em posi\u00e7\u00e3o analisante, em tempos de pandemia, \u00e9 preciso reinventar. Como seguir com o ensino, com a orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, sem nossa \u201cc\u00e2mara de eco\u201d <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. A pandemia nos for\u00e7ou ao confinamento dos corpos, as an\u00e1lises seguiram, isso \u00e9 fato. E o estudo, o ensino, que consequ\u00eancias poderemos recolher dessa experi\u00eancia de semin\u00e1rios via computador?<\/p>\n<p>Se por um lado podemos perceber uma amplifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio Escola, que n\u00e3o se reduz mais as fronteiras determinadas pelo tempo e espa\u00e7o. Devemos a isso um aumento significativo de pessoas que assistem as atividades propostas. Na maioria delas duplicamos o n\u00famero de \u201cacessos\u201d. Por outro lado, me parece que perdemos na dimens\u00e3o do efeito de retorno do que suscitamos. A escola como c\u00e2mara de ecos (\u00e9cho-le), sup\u00f5e, salvo engano, um acontecimento delimitado no tempo e no espa\u00e7o que nos possibilita recolher os efeitos que nossas falas suscitam nos que est\u00e3o presentes, seja sob a forma de perguntas, coment\u00e1rios, aplausos, ou at\u00e9 sob a forma do burburinho, risadas, resmungos e olhares. Isso perdemos, mas o que perdemos com isso? N\u00e3o sei&#8230; O que sei \u00e9 que fazer um semin\u00e1rio pelo computador, seja como aquele que fala, seja como aquele que escuta, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa! Brincando um pouco com os significantes, o eco, quando aparece, logo deve ser suprimido, sinal de que algu\u00e9m deixou seu microfone ligado! Mas e o eco como presen\u00e7a t\u00e3o fundamental do real que nos atravessa o corpo quando acompanhamos um semin\u00e1rio, ainda tem lugar?<\/p>\n<p>A marca que o ensino produz n\u00e3o est\u00e1 inteiramente no campo daquele que emite uma fala, daquele que prepara alguma coisa para trazer, mas est\u00e1 tamb\u00e9m no campo daquele que escuta e que ser\u00e1 tocado a partir de suas quest\u00f5es singulares. \u00c9 da\u00ed que ele poder\u00e1 se enla\u00e7ar ao ensino. N\u00e3o h\u00e1 lugar para a passividade aqui. Cada um que se prop\u00f5e a estudar a psican\u00e1lise s\u00f3 seguir\u00e1 no seu intuito se puder dar de si, malhar em cima dos textos e se deixar atravessar pela experi\u00eancia do ensino de Lacan. Cada um ser\u00e1 respons\u00e1vel por sua forma\u00e7\u00e3o na medida em que a Escola se responsabiliza por orient\u00e1-la. Al\u00e9m dos semin\u00e1rios, temos numa ponta as confer\u00eancias e os v\u00eddeos gravados &#8211; que poder\u00e3o ser infinitamente assistidos &#8211; e na outra os cart\u00e9is, que talvez guardem melhor esse car\u00e1ter de acontecimento, de encontro, um grupo menor que pode falar ao mesmo tempo, dispensando o cerimonial imposto pelos dispositivos digitais. Todos \u201cmutados\u201d, a sinalizar pelo aparelho o desejo de falar, ou fazer caber em poucos caracteres as considera\u00e7\u00f5es que gostariam de compartilhar com o grupo.<\/p>\n<p>Enviamos previamente as aulas de Miller, apostando que cada um, ao l\u00ea-las, poder\u00e1 fazer de si um campo de resson\u00e2ncia ao texto.<\/p>\n<p>\u201cO \u00faltimo ensino de Lacan\u201d propicia essa resson\u00e2ncia por conservar uma abertura, um \u201ccar\u00e1ter apor\u00e9tico\u201d, que nos leva a trope\u00e7ar a todo momento num imposs\u00edvel de concluir. Ele n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima palavra. Nem no sentido da mais moderna, nem no sentido de palavra final: Miller ressalta que n\u00e3o h\u00e1 ponto de basta! Seu car\u00e1ter inacabado, longe de ser um defeito, \u00e9 lido como um efeito de real.<\/p>\n<p>Vou retomar um pouco algumas passagens dessa aula que nos servir\u00e3o de guia na conversa que espero, interesse a todos. Miller inicia sua aula dizendo que o \u00faltimo ensino de Lacan nos obriga a desaprender. N\u00e3o \u00e9 o caso de elogiar o fato de que n\u00e3o se compreende nada, mas se cairmos no engodo de compreender tudo, \u00e9 necess\u00e1rio dar lugar ao mal-entendido.<\/p>\n<p>Podemos sintetizar o percurso dessa aula da seguinte maneira: ele retoma Lacan percorrendo um fio de seu ensino que vai do \u201cfazer compreender\u201d ao \u201csaber fazer\u201d. \u00c9 preciso lembrar que o ensino acompanha o fazer cl\u00ednico. Ele destaca duas orienta\u00e7\u00f5es: uma de Lacan tradutor de Freud, onde a pr\u00e1tica cl\u00ednica se orientava pela via da significantiza\u00e7\u00e3o. E outra, mais para o final de seu ensino, quando se produz uma dissolu\u00e7\u00e3o dos conceitos freudianos, nem mesmo o inconsciente sair\u00e1 ileso do que Miller chamou como \u201cm\u00e1quina de triturar conceitos\u201d. Temos aqui um vetor: da tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o dos conceitos freudianos.<\/p>\n<p>Nesse texto, Miller localiza na confer\u00eancia \u201ca terceira\u201d (Roma-1974)<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> o in\u00edcio do chamado \u201c\u00faltimo ensino\u201d. \u00c9 nessa confer\u00eancia que aparece o n\u00f3 borromeano, com seus campos de gozo e o enlace de suas consist\u00eancias, o corpo, a vida e a morte (l\u00edngua). \u201cEsse n\u00f3, \u00e9 preciso s\u00ea-lo\u201d diz Lacan aos analistas, na medida em que ser\u00e1 as suas custas que o <em>objeto a<\/em> funcionar\u00e1 como causa de desejo, \u201ccomo causa de desejo de seus analisantes\u201d, essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do analista, e o lugar de furo que o n\u00f3 apreende. Essa confer\u00eancia \u00e9 enorme, n\u00e3o tanto em tamanho, mas em abrang\u00eancia. Ela reorienta o ensino de Lacan em dire\u00e7\u00e3o ao real que, sem ele, faria a psican\u00e1lise desaparecer: \u201c<em>\u00e9 do real que depende o analista e n\u00e3o ao contr\u00e1rio<\/em>\u201d. \u00c9 nesse texto tamb\u00e9m que Lacan afirma que se a psican\u00e1lise tiver \u00eaxito em rela\u00e7\u00e3o ao que lhe \u00e9 demandado (extinguir o sintoma e o real) ela mesma ser\u00e1 extinta, como um sintoma esquecido. \u00c9 no fracasso frente ao real que a psican\u00e1lise poder\u00e1 prosseguir.<\/p>\n<p>Miller identifica a\u00ed uma ruptura em termos l\u00f3gicos, um deslocamento dos registros que antes se constitu\u00edam como conjunto de elementos, ao ponto de haver uma distribui\u00e7\u00e3o dos conceitos entre eles, (os quadros apresentados nos semin\u00e1rios IV e X s\u00e3o bons exemplos disso), e que passam a ser contados, eles pr\u00f3prios, como elementos do conjunto n\u00f3. Nesse conjunto (n\u00f3) cada elemento \u00e9 Uno. Est\u00e3o todos separados e enla\u00e7ados \u00e0 tr\u00eas, ou posteriormente a quatro, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o dois a dois, ou seja: um n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com o outro; vida e morte precisam do corpo para enla\u00e7arem-se, assim como corpo e vida precisam da morte (l\u00edngua) e etc. O n\u00f3 desfaz de vez a supremacia do simb\u00f3lico. Isso \u00e9 not\u00f3rio quando se trata, por exemplo, da fala. Ela deixaria de ser tomada na via da salva\u00e7\u00e3o e passaria no \u00faltimo ensino a ser lida como parasit\u00e1ria, epid\u00eamica, quase um c\u00e2ncer. Assim, entendo a Morte colocada no registro do simb\u00f3lico. O ensino prossegue na via de um rebaixamento do sentido e como salienta JAM, desemboca num rebaixamento do saber e do significante. O saber que se extrai do n\u00f3 \u00e9 contingencial, n\u00e3o deve ser ritualizado. O manuseio do n\u00f3 nos coloca a trabalho, tirando consequ\u00eancias de sua escrita.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia direta que podemos extrair da\u00ed \u00e9 poder trabalhar com um saber fora do campo do sentido. Um saber que se extrai no fazer, a cada vez. Um saber que se aproxima do saber do artista, cheio de inspira\u00e7\u00e3o, mas sem previsibilidade. Da\u00ed a passagem do <em>saber<\/em> para o <em>saber fazer com o real<\/em>, onde o que vigora \u00e9 a consequ\u00eancia que extra\u00edmos do ato, um saber que se alia ao fazer, e que sem ele, n\u00e3o existe.\u00a0 Um saber que se transmite pelas vias da resson\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Esse real sem lei, \u00e9 em si puro mal-entendido. Murm\u00fario indefin\u00edvel que persiste como um barulho a nos perturbar. Uma fonte inesgot\u00e1vel de desassossego, que nos mant\u00e9m vivos e n\u00e3o se dobra ao sentido.<\/p>\n<p>O que muda em rela\u00e7\u00e3o ao ensino?<\/p>\n<p>Miller, em outro curso, diz que no \u00faltimo ensino Lacan solta a m\u00e3o de Freud para pegar a m\u00e3o de Joyce. O que nos obriga a seguir por um terreno desorientado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s balizas nas quais nos assegur\u00e1vamos. N\u00e3o nos fixamos mais no porto seguro da fantasia, mas seguimos com nossas \u00e2ncoras, que nos servir\u00e3o para n\u00e3o seguirmos completamente \u00e0 deriva, nos arriscamos a explorar novas rotas, e nos deixarmos ensinar pelas vicissitudes do percurso, sem pressa em concluir.<\/p>\n<p>Obrigada.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lacan, J. 1967. Meu ensino, sua natureza e seus fins in: Meu ensino, RJ, Jorge Zahar Ed. 2006, p.71<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Miller, J,-A. 2001. El lugar y el lazo, BsAs, Paid\u00f3s, 2013, p.135<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Miller, J.-A. 2010. \u00c9 Passe? In: Aposta no passe: seguido de 15 testemunhos de Analistas da escola, membros da Escola brasileira de psican\u00e1lise, organiza\u00e7\u00e3o de Ana Lydia Santiago-Rio de Janeiro: Contra Capa, 2018.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Lacan,J. Confer\u00eancia A Terceira (1974). Cadernos Lacan. Porto Alegre: APPOA, 2002. V.2.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5219&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5239&#8243; img_size=&#8221;500&#215;299&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5240&#8243; img_size=&#8221;500&#215;299&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5241&#8243; img_size=&#8221;500&#215;299&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2682 aligncenter\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/25-Semina\u0301rio-de-Orientac\u0327a\u0303o-Lacaniana_Prancheta-1-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Para obter a Sugest\u00e3o bibliogr\u00e1fica (apenas para fins de estudo), clique nos links abaixo:<br \/>\n<a href=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/sugestao_bibliografia_001.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-cke-saved-href=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/sugestao_bibliografia_001.pdf\">Sugest\u00e3o Bibliogr\u00e1fica 001<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/sugestao_bibliografia_002.pdf.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\" data-cke-saved-href=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/sugestao_bibliografia_002.pdf.pdf\">Sugest\u00e3o Bibliogr\u00e1fica 002<\/a><\/p>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2702 size-full\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sol_001.png\" alt=\"\" width=\"196\" height=\"107\" \/>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2704 aligncenter\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sol_003.png\" alt=\"\" width=\"189\" height=\"104\" \/>[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/4&#8243;][vc_column_text]<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2703 aligncenter\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2020\/06\/sol_002.png\" alt=\"\" width=\"187\" height=\"104\" \/>[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><em><a id=\"ondina\"><\/a>Reinven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e lugar anal\u00edtico<\/em><\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Por Ondina Machado<\/em><\/h6>\n<p>Farei uma leitura comentada do primeiro cap\u00edtulo \u2013 \u201cA tenta\u00e7\u00e3o do analista\u201d, acrescida de algumas considera\u00e7\u00f5es presentes no segundo \u2013 \u201cA n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>No primeiro, Jacques-Alain Miller se movimenta em torno do que considera sua mania ou sua preocupa\u00e7\u00e3o: <strong>\u00e9 preciso fazer a psican\u00e1lise existir para que se possa fazer psican\u00e1lise<\/strong>. Parece redundante e \u00e9, mas os desenvolvimentos seguintes mostram a o rigor da afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 uma linda li\u00e7\u00e3o na qual Miller introduz o tema do curso e justifica a escolha do t\u00edtulo: O lugar e o la\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>De lugares e la\u00e7os:<\/strong><\/p>\n<p>Come\u00e7a fazendo a diferen\u00e7a entre <em>place<\/em> e <em>lieu<\/em> (fr.) ou <em>sitio<\/em> e <em>lugar<\/em> (es.). Ambos s\u00e3o traduzidos por lugar, por\u00e9m <em>sitio <\/em>(es.) tamb\u00e9m pode ser utilizado para ponto (ponto de t\u00e1xi) ou para posi\u00e7\u00e3o, coloca\u00e7\u00e3o, ordem de chegada. O importante \u00e9 que <em>sitio<\/em> se vincula a um (Um) elemento, apenas um pode ocupar o <em>sitio<\/em>. Lugar, no entanto, se refere a uma multiplicidade, ou seja, v\u00e1rios elementos podem ocupar o mesmo lugar, por exemplo, uma multid\u00e3o ocupa uma pra\u00e7a, uma avenida, n\u00e3o uma posi\u00e7\u00e3o. Desse modo, no <em>sitio<\/em>, \u00e9 pass\u00edvel de haver substitui\u00e7\u00e3o, mas sempre por sucess\u00e3o, ou seja, um ap\u00f3s o outro excluindo os demais. J\u00e1 no lugar podem coexistir diferentes elementos coordenados formando um sistema ou uma estrutura, com diferentes <em>s\u00edtios. <\/em>Os 4 discursos de Lacan t\u00eam essa caracter\u00edstica, pois o lugar do agente pode ser ocupado pelo S1, o $, S2 ou o objeto \u2018a\u2019, dependendo de qual discurso se trate.<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller explica que o espa\u00e7o importa para a psican\u00e1lise, n\u00e3o como extens\u00e3o, mas sim como lugar. O espa\u00e7o como lugar estabelece rela\u00e7\u00f5es, e as rela\u00e7\u00f5es se traduzem em la\u00e7os. A articula\u00e7\u00e3o entre rela\u00e7\u00e3o e la\u00e7o n\u00e3o \u00e9 simples, como veremos mais adiante.<\/p>\n<p>Agora quero enfatizar o espa\u00e7o como lugar. Esta concep\u00e7\u00e3o cria um modo novo de rela\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o e tempo, deduzida do Semin\u00e1rio 26 de Lacan &#8211; \u201cA topologia e tempo\u201d (1978-1979) e que aparece tamb\u00e9m no livro \u201cA er\u00f3tica do tempo\u201d de Miller.<\/p>\n<p>Na psican\u00e1lise o tempo tamb\u00e9m tem uma inscri\u00e7\u00e3o peculiar. Miller considera que uma articula\u00e7\u00e3o significante (S<sub>1<\/sub>&#8211; S<sub>2<\/sub>) demonstra como o tempo pode ser significado pelo sujeito em fun\u00e7\u00e3o da estrutura significante que o determine. Por exemplo: o efeito retroativo de S<sub>2<\/sub> sobre S<sub>1<\/sub>, ou uma interpreta\u00e7\u00e3o que venha a ganhar uma significa\u00e7\u00e3o ou outra dependendo do contexto, do momento em que ela \u00e9 enunciada. Assim, ele distingue tempo epist\u00eamico ou tempo do saber que pode evocar o tempo de para compreender, do tempo er\u00f3tico que por sua vez nos lembra o tempo de concluir. \u00c9 justamente neste \u00faltimo que Lacan reconhece um la\u00e7o com o objeto \u2018a\u2019. Poder\u00edamos dizer, resumidamente, que Lacan inclui a libido na considera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o espa\u00e7o-tempo.<\/p>\n<p><strong>O cl\u00ednico<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Miller, <strong>a grande tenta\u00e7\u00e3o do psicanalista<\/strong> \u00e9 se tornar um cl\u00ednico. O psicanalista n\u00e3o \u00e9 um cl\u00ednico na medida em que o cl\u00ednico \u00e9 aquele que se separa do que v\u00ea, do que observa. J\u00e1 o psicanalista, ao contr\u00e1rio, faz parte, vivamente, da experi\u00eancia de uma an\u00e1lise como o operador da experi\u00eancia. Mas esta opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se d\u00e1 com a sua pessoa, e sim com o lugar que ele ocupa na experi\u00eancia. Se o espa\u00e7o como lugar faz Miller deduzir o la\u00e7o, podemos dizer que o lugar ocupado pelo analista na transfer\u00eancia, como sujeito suposto saber, \u00e9 um lugar que condiciona um la\u00e7o. Causa certo estranhamento imaginar que o analista \u00e9 um elemento da rela\u00e7\u00e3o que comp\u00f5e o la\u00e7o e, ao mesmo tempo, \u00e9 o lugar no qual o la\u00e7o se d\u00e1. Aqui est\u00e1 a dificuldade que mencionei anteriormente sobre a articula\u00e7\u00e3o entre la\u00e7o e rela\u00e7\u00e3o. Me parece que \u00e9 neste ponto que a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o faz furo na concep\u00e7\u00e3o de la\u00e7o porque n\u00e3o se trata propriamente de uma rela\u00e7\u00e3o, mas de uma fun\u00e7\u00e3o, sobre a qual a Ang\u00e9lica vai tratar. Suponho que o furo esteja na suposi\u00e7\u00e3o de um saber, mas mais ainda na suposi\u00e7\u00e3o de um sujeito, pois n\u00e3o \u00e9 com seu saber que um analista opera, tampouco como sujeito. A transfer\u00eancia seria mais a suposi\u00e7\u00e3o de um saber inconsciente depositada em um sujeito suposto. Esta seria a situa\u00e7\u00e3o \u201cexperimental\u201d de uma an\u00e1lise.<\/p>\n<p>Talvez possamos pensar que se a n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o faz furo na concep\u00e7\u00e3o de la\u00e7o, isso nos levaria a considerar a temporalidade implicada no enla\u00e7amento: atar e desatar \u00e9 um dos movimentos apontados por Lacan como pr\u00f3prios de uma an\u00e1lise, por exemplo.<\/p>\n<p><strong>A exist\u00eancia da psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>Vou retomar a preocupa\u00e7\u00e3o de Miller com a qual iniciei esta apresenta\u00e7\u00e3o e tentar desenvolv\u00ea-la. Ele diz: <strong>\u00e9 preciso fazer a psican\u00e1lise existir para que se possa fazer psican\u00e1lise<\/strong>. Ora, se a psican\u00e1lise n\u00e3o existe, n\u00e3o se pode fazer psican\u00e1lise. Simples assim. Mas esclarece: \u201cEsta \u00e9 outra forma de dizer que o lugar e o la\u00e7o anal\u00edtico dependem do la\u00e7o do analista com a psican\u00e1lise\u201d (p.17). Que la\u00e7o \u00e9 este? Poder\u00edamos pensar tanto na transfer\u00eancia de trabalho como na pr\u00f3pria transfer\u00eancia de an\u00e1lise do analista. Seria o passe o \u00e1pice da conjun\u00e7\u00e3o destas transfer\u00eancias?<\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller admite que ao dizer que \u00e9 preciso que a psican\u00e1lise exista abre a quest\u00e3o sobre se a psican\u00e1lise existe. De certa forma ele afirma a exist\u00eancia da psican\u00e1lise, mas a compara com a modalidade de exist\u00eancia de <strong>A M<\/strong>ulher. <strong>A M<\/strong>ulher n\u00e3o existe, como diz Lacan, mas isso n\u00e3o elimina o fato de que as mulheres continuam existindo, s\u00f3 que n\u00e3o como conjunto, mas uma a uma. O mesmo pode ocorrer com os psicanalistas. A psican\u00e1lise pode n\u00e3o existir, mesmo assim existiriam os psicanalistas. Por\u00e9m, sem a exist\u00eancia de psican\u00e1lise, ter\u00edamos psicanalistas \u201cdispersos e descabelados\u201d (Lacan).<\/p>\n<p>At\u00e9 ent\u00e3o, o que fazia a psican\u00e1lise existir era Freud e tudo que partiu dele: institui\u00e7\u00e3o, disc\u00edpulos. Era em torno de Freud que a psican\u00e1lise tinha exist\u00eancia. E isso levou a enormes desvios, talvez o maior deles seja a confus\u00e3o com as chamadas \u201cterapias da fala e\/ou da escuta\u201d. A segunda apresenta\u00e7\u00e3o do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, dia 20 de julho, vai tratar das diferen\u00e7as entre psican\u00e1lise e psicoterapia, por isso n\u00e3o me estenderei nessa quest\u00e3o e passarei direto \u00e0 chamada \u201csolu\u00e7\u00e3o Lacan\u201d.<\/p>\n<p>Para Miller o retorno a Freud, proposto por Lacan, foi um truque, pois ele n\u00e3o passou exatamente pelos caminhos freudianos. Para Lacan a psican\u00e1lise n\u00e3o poderia existir apenas como hist\u00f3ria, pela tradi\u00e7\u00e3o. A \u201csolu\u00e7\u00e3o Lacan\u201d para fazer a psican\u00e1lise existir passou pela l\u00f3gica e suas categorias: o necess\u00e1rio e o imposs\u00edvel, o poss\u00edvel e o contingente. Miller ressalta que h\u00e1 um necess\u00e1rio \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, que mesmo n\u00e3o visando a cura, conduz a algum lugar, pois \u201cse come\u00e7a como \u00e9 devido, tamb\u00e9m pode terminar como \u00e9 devido\u201d. (p.20)<\/p>\n<p>Miller ressalta que h\u00e1 um necess\u00e1rio \u00e0 pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, ela \u201cconduz a um lado, que, se come\u00e7a como \u00e9 devido, tamb\u00e9m pode terminar como \u00e9 devido, e que h\u00e1 uma determina\u00e7\u00e3o essencial da experi\u00eancia anal\u00edtica\u201d (p.20). Lacan se interessou por \u201cfazer ex-sistir a psican\u00e1lise pela l\u00f3gica, por seu necess\u00e1rio, esclarecer sua ess\u00eancia, pois aqui a ex-sist\u00eancia da an\u00e1lise depende de sua ess\u00eancia\u201d (p.20).<\/p>\n<p><strong>A reinven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise<\/strong><\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o da psican\u00e1lise se d\u00e1, n\u00e3o pela via da aprendizagem, da t\u00e9cnica. A psican\u00e1lise se transmite, mas n\u00e3o se ensina. Tamb\u00e9m n\u00e3o basta fazer an\u00e1lise, como muitos pensam. Uma an\u00e1lise n\u00e3o transmite a psican\u00e1lise, sem d\u00favida cria condi\u00e7\u00f5es para uma \u201cboa\u201d pr\u00e1tica da psican\u00e1lise, pois \u201co sujeito \u00e9 o que se transmite e se transforma em sua transmiss\u00e3o\u201d. (p.21)<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise n\u00e3o se ensina, o que n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja ensino da psican\u00e1lise, como o fez Lacan. Vejam que Jacques-Alain Miller s\u00f3 usa o termo ensino para Lacan, n\u00e3o para a sua transmiss\u00e3o, para isso usa, e todos n\u00f3s usamos, Orienta\u00e7\u00e3o &#8211; Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. O ensino de Lacan tem uma marca, seus ditos ensinantes deixam sempre um espa\u00e7o para que o leitor coloque ali algo de seu: uma pontua\u00e7\u00e3o, um acento, uma deriva\u00e7\u00e3o, uma cadeia. N\u00e3o se trata de um dito que se pretenda verdadeiro, coerente, acabado. Eles costumam ter certa imprecis\u00e3o que transmite o principal: o furo no saber. \u00a0O que uma an\u00e1lise produz s\u00e3o efeitos de verdade dispersos. Fazer com eles la\u00e7os constituem o almejado bem-dizer. Assim, podemos entender que \u201ca verdade \u00e9 um lugar, mas o saber \u00e9 um la\u00e7o.\u201d (p. 22) Cada um faz o <strong>seu<\/strong> la\u00e7o, a <strong>sua<\/strong> articula\u00e7\u00e3o, com <strong>seus<\/strong> pr\u00f3prios furos no saber.<\/p>\n<p>Deste modo o la\u00e7o vai na dire\u00e7\u00e3o de uma reinven\u00e7\u00e3o. Pensar, como diz Freud e Lacan, a psican\u00e1lise como sendo reinventada a cada an\u00e1lise imp\u00f5e que se tenha claro que ela j\u00e1 foi inventada, que ela j\u00e1 existe. N\u00e3o se trata de inventar novamente a psican\u00e1lise; uma outra inven\u00e7\u00e3o inventaria outra coisa que n\u00e3o a psican\u00e1lise. Por\u00e9m, \u00e9 muito importante que se possa reinvent\u00e1-la a cada an\u00e1lise, a cada momento do mundo, porque cada an\u00e1lise e cada momento da cultura e do mundo exigir\u00e1 da psican\u00e1lise sua reinven\u00e7\u00e3o. Ressalto, por\u00e9m, que essa reinven\u00e7\u00e3o seja, ainda assim, psican\u00e1lise.<\/p>\n<p><strong>O real e a pr\u00e1tica<\/strong><\/p>\n<p><strong>O R<\/strong>eal, assim como <strong>A M<\/strong>ullher, n\u00e3o existe, mas existem reais, peda\u00e7os de real. Diferente de um discurso sobre o ser (daquilo que existe), o real n\u00e3o existe, ele \u00e9 produto de uma an\u00e1lise. Neste sentido podemos dizer que a psican\u00e1lise \u00e9 um discurso do que \u201cn\u00e3o h\u00e1\u201d, um discurso das coisas que n\u00e3o existem. Por isso \u00e9 um discurso aberto \u00e0 pr\u00e1tica, ou no dizer de Lacan, \u201co inconsciente \u00e9 um fato na medida em que encontra seu suporte no pr\u00f3prio discurso que o estabelece\u201d (<em>apud<\/em> Miller, p.24). Agora podemos retomar ideias que nos s\u00e3o t\u00e3o caras, algumas j\u00e1 mencionadas (lugar, la\u00e7o, fun\u00e7\u00e3o) para tratar de uma quest\u00e3o da pr\u00e1tica em nossos dias pand\u00eamicos \u2013 a presen\u00e7a do analista.<\/p>\n<p>O pensamento, ou seja, a teoria, n\u00e3o apreende o singular. Pensar est\u00e1 muito distante daquilo que acontece, por isso para Lacan o analista n\u00e3o pensa, ele faz. O ato anal\u00edtico apaga o psicanalista, apaga seu pensamento, <strong><u>o que fica \u00e9 a sua presen\u00e7a<\/u><\/strong>. O pensamento est\u00e1 muito pr\u00f3ximo da fantasia, ou do del\u00edrio, como se queira.<\/p>\n<p>Dizer que a psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica quer dizer que ela n\u00e3o \u00e9 uma teoria, \u00e9 da pr\u00e1tica que emana sua teoria. A psican\u00e1lise \u00e9 uma pr\u00e1tica porque implica em por em ato, fazer uma aposta na qual o ato ultrapassa o pensamento e faz do analista uma presen\u00e7a.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong><a id=\"angelica\"><\/a>Curso <em>O lugar e o la\u00e7o<br \/>\n<\/em><\/strong><\/span><span style=\"color: #993300;\">Jacques-Alain Miller<\/span><\/h3>\n<h6><em>Por Ang\u00e9lica Bastos<\/em><\/h6>\n<p>Neste momento, imagens espaciais como a janela, a tela e o t\u00fanel s\u00e3o invocadas em refer\u00eancia ao espa\u00e7o, assim como ao tempo. S\u00e3o imagens que nos s\u00e3o familiares do espa\u00e7o-extens\u00e3o e tambem de escritos, textos psicanal\u00edticos e liter\u00e1rios. Assim como o consult\u00f3rio, a poltrona e o div\u00e3 s\u00e3o significantes. O semin\u00e1rio <em>Pr\u00e1tica da psican\u00e1lise em tempos de pandemia<\/em> se inicia com o tema da <em>Reiven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise e lugar anal\u00edtico<\/em>. Como entender o que foi denominado lugar anal\u00edtico e como se servir dele na reinven\u00e7\u00e3o da Psican\u00e1lise?<\/p>\n<p>Se o lugar anal\u00edtico n\u00e3o se define pelo espa\u00e7o enquanto extens\u00e3o (tampouco \u00e9 o local da sess\u00e3o), isso n\u00e3o significa que div\u00e3 e consult\u00f3rio n\u00e3o tenham nele import\u00e2ncia, de acordo com os diferentes momentos de cada an\u00e1lise. Remetem ao espa\u00e7o extens\u00e3o, mas no tocante \u00e0 nossa experi\u00eancia, por serem significantes, circulam.<\/p>\n<p>Para o psicanalista, sempre se tratou de lugar. Desde o ponto de vista topogr\u00e1fico de Freud at\u00e9 a topolog\u00eda de Lacan, o \u2018onde\u2019 esteve no \u00e2mago da experi\u00eancia: \u201cOnde isso estava, devo advir como sujeito\u201d. Essa frase foi lida, relida e reformulada por Lacan para situar o analista: \u201cOnde estava o mais gozar, deve advir o analista \u2026\u201d enquanto aquele que profere o ato, como objeto-causa ou semblante de objeto. O advento, seja do sujeito, seja do analista como fun\u00e7\u00e3o, encontra-se na depend\u00eancia do lugar.<\/p>\n<p>Se o analista \u00e9 uma fun\u00e7\u00e3o, que vem a ser preenchida &#8211;\u00a0 aqui ou ali; h\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s, mas n\u00e3o necesariamente daqui a pouco &#8211; essa fun\u00e7\u00e3o tem v\u00e1rias dimens\u00f5es. O lugar anal\u00edtico depende da transfer\u00eancia e permite discernir dimens\u00f5es distintas na fun\u00e7\u00e3o que o analista \u00e9 chamado a assumir a cada vez.<\/p>\n<p>A <em>Pr\u00e1tica da psican\u00e1lise em tempos de pandemia<\/em> n\u00e3o \u00e9 relativa ao momento da pandemia ou da quarentena, pois n\u00e3o h\u00e1 psican\u00e1lise relativa. A express\u00e3o de Jacques-Alain-Miller <em>psican\u00e1lise absoluta<\/em> aponta para o que surge da pr\u00f3pria psican\u00e1lise, emerge de sua pr\u00e1tica, ou seja, da psican\u00e1lise desacompanhada de um cortejo de disciplinas, aquela que n\u00e3o se vale de recursos extr\u00ednsecos, de apropria\u00e7\u00f5es ou empr\u00e9stimos vindo de outro campo de experi\u00eancia ou discurso. Psican\u00e1lise como pr\u00e1tica \u00e9 considerada no semin\u00e1rio aqui trabalhado a boa maneira de abordar a psican\u00e1lise pura e a psican\u00e1lise aplicada (\u00e0 terap\u00eautica), n\u00e3o colocando dualidade e menos ainda oposi\u00e7\u00e3o entre ambas, j\u00e1 que a diferen\u00e7a que importa \u00e9 aquela entre, de um lado, a psican\u00e1lise simplesmente, a pr\u00e1tica psicanal\u00edtica, e, de outro, a psicoterapia<\/p>\n<p>A escolha do termo \u2018reinven\u00e7\u00e3o\u2019 por Lacan e, em seguida, por Miller, \u00e9 criteriosa. Reinventar a psican\u00e1lise \u00e9 diferente refaz\u00ea-la ou inovar, porque em nossa experi\u00eancia, do inconsciente, o novo n\u00e3o \u00e9 o mais recente, o <em>up to date<\/em>, a novidade que acaba de surgir ou existe h\u00e1 pouco tempo. Este tipo de novo em nossos dias \u00e9 cada vez mais provis\u00f3rio e descart\u00e1vel. Lacan chegou a dizer que o verdadeiro \u00e9 sempre novo. Na an\u00e1lise, novo \u00e9 ver surgir o sujeito, \u00e9 abrir-se um circuito de desejo, \u00e9 produzir-se o sintoma. No que diz respeito ao que nos interessa aqui &#8211; o lugar anal\u00edtico -, o novo est\u00e1 condicionado por um lugar do qual dependem os efeitos da interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algumas das dificuldades da psican\u00e1lise no momento desse semin\u00e1rio, de 2000-2001, s\u00e3o apresentadas no cap\u00edtulo V, intitulado \u2018A trajet\u00f3ria anal\u00edtica\u2019. S\u00e3o pertinentes aos dias atuais e a elas agregam-se outras mais recentes. Se falamos em 2000-2001 e tamb\u00e9m agora de reinven\u00e7\u00e3o \u00e9 porque partimos do fato de que algo mudou ou que v\u00e1rias coisas se encontram em muta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A psican\u00e1lise se inscreveu no mundo e se infiltrou na vida cotidiana. Se entendemos o mundo como uma esp\u00e9cie de parceiro, admitimos que alguns axiomas &#8211; na acep\u00e7\u00e3o de \u201cevid\u00eancias n\u00e3o discutidas\u201d &#8211; podem ser formuladas em nosso parceiro-mundo. Com base nesses axiomas, o desejo, o gozo, a palavra s\u00e3o interpretados pelo mundo. Miller destaca cinco axiomas, mas vou me deter no desejo, na palavra e na contraposi\u00e7\u00e3o do sentido ao real, para destacar tr\u00eas deles e assim discutir a tarefa de reinventar a psican\u00e1lise (os outros dois s\u00e3o o direito ao gozo e a absten\u00e7\u00e3o de julgar).<\/p>\n<p>Essas interpreta\u00e7\u00f5es <em>pr\u00eat-\u00e0-porter<\/em> n\u00e3o s\u00e3o interpreta\u00e7\u00f5es no sentido psicanal\u00edtico, s\u00e3o \u201cinterpreta\u00e7\u00f5es\u201d com as quais o mundo nos responde, como se se tratasse de evid\u00eancias, e ele nos responde antes mesmo que uma pergunta seja colocada.<\/p>\n<p>(1) <em>O desejo \u00e9 destinado a ser manipulado no sentido da demanda.<\/em> A condi\u00e7\u00e3o de reconhecimento do desejo \u00e9 sua redu\u00e7\u00e3o \u00e0 demanda, sua recondu\u00e7\u00e3o a uma demanda para a qual se determina uma oferta. A produ\u00e7\u00e3o intensiva de novos objetos pela tecno-ci\u00eancia est\u00e1 cada vez mais determinada pela capacidade de esses objetos causarem desejo. Gra\u00e7as \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o do mundo, o desejo transmuta-se em fator de economia.<\/p>\n<p>(2) <em>A palavra concebida como instrumento de bem-estar<\/em>. Isso subtrai da palavra sua fun\u00e7\u00e3o de verdade (e gozo) para convert\u00ea-la em fator de equil\u00edbio ps\u00edquico. Teria havido, segundo a express\u00e3o de Miller, um <em>roubo da palabra<\/em>, uma oferta de escuta e de fala a servi\u00e7o da homeostase.<\/p>\n<p>(3) <em>O sentido \u00e9 convidado a jogar contra o real, <\/em>a contrapor-se ao real. Chega-se a ignorar e excluir o real. O real j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 fundamento.<\/p>\n<p>Quando a psican\u00e1lise foi inventada, Freud se deparou com o \u2018n\u00e3o\u2019, o mundo dizia \u2018n\u00e3o\u2019 (ao inconsciente, \u00e0 sexualidade infantil, \u00e0 puls\u00e3o de morte)<em>,<\/em> enquanto hoje o mundo diz \u2018sim\u2019, ao desejo, \u00e0 palavra, ao sentido. O mundo se vacinou. Ele se imunizou interpretando a psican\u00e1lise \u00e0 sua maneira, oferecendo interpreta\u00e7\u00f5es <em>lato sensu<\/em> que doam sentido.<\/p>\n<p>Em resumo, se o parceiro mundo desatou o la\u00e7o da palavra com a verdade, em prol de um relativismo, nele o uso contempor\u00e2neo da palavra recorre \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o do sentido.<\/p>\n<p>O mundo se apoderou da satisfa\u00e7\u00e3o por meio da palavra, encampou a satisfa\u00e7\u00e3o de falar, de fazer falar e escutar. Com a express\u00e3o<em> roubo da palavra<\/em> nos referimos tanto \u00e0 cl\u00ednica das psicoterapias quanto \u00e0 escuta ampla, geral e irrestrita. A escuta assume as mais variadas formas de oitivas, ouvidorias, audi\u00eancias e audi\u00e7\u00f5es que acionam o aparato interpretativo do mundo contempor\u00e2neo at\u00e9 o acolhimento da demanda do sofredor mediante a fala e a escuta.<\/p>\n<p>Enquanto essas interpreta\u00e7\u00f5es em sentido amplo se imp\u00f5em e imp\u00f5em sentidos, o lugar anal\u00edtico \u00e9 um lugar que, ao inv\u00e9s de conter interpreta\u00e7\u00f5es, \u00e9 um lugar de pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o \u00e9 interpreta\u00e7\u00e3o <em>a priori<\/em>, pr\u00e9via ou pronta. O lugar anal\u00edtico d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es a que um dito do analista tenha efeito de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao lugar anal\u00edtico \u00e9, segundo Miller, origin\u00e1ria e condiciona o que se apresentar\u00e1 de fato como interpreta\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um lugar de pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o porque:<\/p>\n<p>(1) Nele a palavra ser\u00e1 interpretada em termos de verdade. O dispositivo da an\u00e1lise faz um for\u00e7amento na dire\u00e7\u00e3o da verdade. Lacan diz \u201cdesencadeamento da verdade\u201d &#8211; em sua estrutura de fic\u00e7\u00e3o, de verdade mentirosa. Miller lembra que <em>mensonge<\/em>, mentira, cont\u00e9m songe, sonho, a verdade tem algo de sonho. Dizer que a palavra \u00e9 interpretada como verdade n\u00e3o equivale a superpor verdade e real, at\u00e9 porque ela pode ser um obst\u00e1culo na via do real.<\/p>\n<p>(2) No lugar anal\u00edtico, a pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o implica que a verdade seja interpretada como saber. \u00c9 um lugar onde se coloca e se denuncia um saber, nunca pronto, mas a ser inventado sobre o real da n\u00e3o-rela\u00e7\u00e3o sexual. N\u00e3o um saber sobre a verdade, porque o real enquanto imposs\u00edvel, impossibilidade da rela\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 d\u00f3cil, n\u00e3o se deixa apreender como verdade, sobre ele n\u00e3o h\u00e1 verdade.<\/p>\n<p>(3) E, j\u00e1 que n\u00e3o levamos longe demais a verdade, \u00e9 preciso acrescentar que no lugar anal\u00edtico o sentido da verdade \u00e9 interpretado como gozo. Para al\u00e9m de um querer dizer, interpretar a verdade como gozo implica interrogar o que isso quer, ao dizer o que diz.<\/p>\n<p>O lugar anal\u00edtico \u00e9 um lugar a ser fundado pelo fato de algu\u00e9m &#8211; na solid\u00e3o de seu gozo, de seu ex\u00edlio &#8211; vir falar a algu\u00e9m. O Outro enquanto lugar colocado pela fala ainda n\u00e3o \u00e9 o lugar anal\u00edtico, conforme constatamos quando come\u00e7amos a escutar algu\u00e9m. Cabe ao desejo do analista \u2013 que talvez possamos considerar como uma dimens\u00e3o dessa fun\u00e7\u00e3o \u2013 nas condi\u00e7\u00f5es da transfer\u00eancia, ultrapassar o n\u00edvel da palavra como demanda e da satisfa\u00e7\u00e3o semantof\u00edlica na dire\u00e7\u00e3o desse lugar de pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 a\u00ed, em ato, pode tomar lugar uma interpreta\u00e7\u00e3o efetiva na via de acesso ao gozo e ao desejo. Esse lugar de pr\u00e9-interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o efetivo que a partir dele o sil\u00eancio do analista pode ganhar valor de interpreta\u00e7\u00e3o, o analisante atribui interpreta\u00e7\u00f5es ao analista e se d\u00e1 interpreta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desse lugar, a interpreta\u00e7\u00e3o produz ondas, que movimentam os significantes do gozo. Essas ondas perturbam a repeti\u00e7\u00e3o sem aliment\u00e1-la com o sentido, movimentam n\u00e3o \u2013 \u00e9 preciso sublinhar &#8211; n\u00e3o tanto quanto poss\u00edvel, mas tanto quanto o imposs\u00edvel do real, tanto quanto o imposs\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria anal\u00edtica assegura um advento do sujeito distinto da identifica\u00e7\u00e3o. O \u201c<em>Wo es war, soll Ich werden\u201d<\/em> coloca a psican\u00e1lise como uma trajet\u00f3ria. Segundo um<em> modelo linear<\/em> da cura, ela se expressa em termos de \u201cH\u00e1 um problema que, mediante um n\u00famero finito de etapas, encontra uma solu\u00e7\u00e3o\u201d. Esse esquematismo linear \u00e9 abandonado em proveito do n\u00f3, que n\u00e3o implica come\u00e7o e fim, mas deslocamentos. Os movimentos e deslocamentos, embora tenham um final no horizonte, de modo algum se apresentam como um processo cujo fim estaria prescrito no come\u00e7o. Tal como entendo, reservam \u00e0 conting\u00eancia uma margem maior, deixando o analista em posi\u00e7\u00e3o de, conforme formulou Lacan, aguardar sem esperar, isto \u00e9, aguardar em uma expectativa sem esperan\u00e7a ou antecipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que seria o lugar anal\u00edtico no regime n\u00e3o linear do n\u00f3? O fora-do-sentido \u00e9 uma aposta decisiva e, a partir dela, uma aposta no n\u00f3 borromeano no \u00faltimo ensino. A dimens\u00e3o fora-do-sentido, com apoio no n\u00f3 entre elementos sem rela\u00e7\u00e3o direta entre si, mas apenas por interm\u00e9dio de um terceiro, n\u00e3o destaca um termo final, de retrocesso, a partir do qual uma trajet\u00f3ria se ordena, se ressignifica. O real (real da psican\u00e1lise, real de cada um,) \u00e9 um nome positivo do fora-do-sentido, ainda que dar nome tenha efeitos de sentido.<\/p>\n<p>O regime do n\u00f3, n\u00e3o linear, tem consequ\u00eancias sobre o final de an\u00e1lise e o passe. Ao inv\u00e9s de uma hist\u00f3ria que se conta e se ressignifica, com um ponto de basta que real\u00e7a os fen\u00f4menos de sentido, o passe corresponde antes a uma elucubra\u00e7\u00e3o &#8211; termo fundamental nesse regime. A rela\u00e7\u00e3o entre fora-do-sentido e sentido enquanto artif\u00edcio situa vizinhan\u00e7as e localiza deslocamentos entre um e outro.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator color=&#8221;juicy_pink&#8221; border_width=&#8221;4&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>SEMIN\u00c1RIO DE ORIENTA\u00c7\u00c3O LACANIANA<\/strong><\/span><\/h3>\n<p><strong>Coordena\u00e7\u00e3o:<\/strong> Conselho da EBP Se\u00e7\u00e3o Rio<\/p>\n<p>Em 2020, o Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana trabalhar\u00e1 o curso de J.-A. Miller intitulado <em>Extimidad<\/em> articulando-o com o tema da se\u00e7\u00e3o Rio &#8211; <em>Ex\u00edlio<\/em>, e com o tema do Encontro Brasileiro \u2013 <em>Infamiliar<\/em>. A proposta \u00e9 partir do texto e, atrav\u00e9s da leitura e dos coment\u00e1rios de alguns cap\u00edtulos, pensar as diferentes formas pelas quais o ex\u00edlio, o estranho e a segrega\u00e7\u00e3o aparecem tanto na cl\u00ednica quanto no social.<\/p>\n<p>Cada encontro ser\u00e1 dedicado a um ou mais cap\u00edtulos com a apresenta\u00e7\u00e3o de um ponto de interesse do comentador, com o intuito de elucidar aquilo que nos inquieta a prop\u00f3sito da psican\u00e1lise e seu lugar na civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No primeiro encontro nos dedicaremos ao termo <em>extimidade<\/em>, neologismo introduzido por J. Lacan no <em>Semin\u00e1rio, livro 7: a \u00e9tica da psican\u00e1lise<\/em>, levantando suas significa\u00e7\u00f5es e demonstrando sua estrutura. Esse trabalho permitir\u00e1 interrogar o sujeito, o objeto e o Outro.<\/p>\n<h6><em>Maria Silvia Garcia Fern\u00e1ndez Hanna<\/em><br \/>\n<em>Presidente do Conselho da EBP-Rio<\/em><\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator color=&#8221;juicy_pink&#8221; border_width=&#8221;4&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h2><span style=\"color: #993300;\">2019<\/span><\/h2>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Maria Silvia Hanna (presidente do Conselho da Se\u00e7\u00e3o Rio)<\/h6>\n<p>O Conselho da EBP-Rio escolheu alguns cap\u00edtulos do curso de J.-A. Miller intitulado Los divinos detalles[1] a partir dos quais ser\u00e3o apresentados alguns aspectos que visam cernir o estatuto do gozo no ensino de J. Lacan. O ponto de partida \u00e9 o detalhe que acolhe o gozo e se coloca como uma condi\u00e7\u00e3o para a escolha do objeto amoroso e sexual.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>O alcance pol\u00edtico da psican\u00e1lise e sua incid\u00eancia na cl\u00ednica<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><span style=\"color: #993300;\">Paula Borsoi<\/span><br \/>\n<span style=\"color: #993300;\">Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana \u2013 04\/11\/2019<\/span><\/h6>\n<p>No final do cap\u00edtulo X, \u201cLacan, o discurso e a pol\u00edtica\u201d, deste curso intitulado <em>Divinos detalhes<\/em><sup>1<\/sup>, Miller lan\u00e7a uma quest\u00e3o motivadora de meu coment\u00e1rio. A quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: \u201co n\u00f3 em quest\u00e3o \u00e9 saber em que medida a exig\u00eancia do dever se op\u00f5e \u00e0s puls\u00f5es, em que medida precisamente o dever \u00e9 um n\u00e3o ao gozo\u201d.<\/p>\n<p>Miller retoma Freud, no texto \u201cMal estar na cultura\u201d, lembrando que Freud colocava o objeto no lugar do Ideal e n\u00e3o simplesmente um tra\u00e7o significante nesse lugar. A partir disso, Miller diz que \u201co la\u00e7o social \u00e9 impens\u00e1vel se n\u00e3o h\u00e1 transfer\u00eancia de libido para o ideal. N\u00e3o basta dizer que o la\u00e7o social se fundamenta do sacrif\u00edcio do gozo, h\u00e1 que se dizer para onde vai a mais-valia, que \u00e9 no fundo um problema politico\u201d. Ou seja, h\u00e1 uma parte do gozo que n\u00e3o pode ser negativizada, que fica fora do discurso e, portanto, do la\u00e7o, levando Miller a dizer: \u201cdo mesmo lugar que se enuncia o dever, se acumula o gozo\u201d. &#8220;Um dos efeitos desse ac\u00famulo \u00e9 o efeito paradoxal de que algo foi subtra\u00eddo, transformando a revolta, em leg\u00edtima\u201d. E prossegue: \u201ca mais-valia \u00e9 o que vai engendrar o que foi perdido, com sua recupera\u00e7\u00e3o. Essa concentra\u00e7\u00e3o de gozo est\u00e1 no ponto de Ideal. N\u00e3o se trata do ideal do eu pacificante, mas o que Freud nomeou de supereu\u201d. O supereu, ent\u00e3o, \u201cn\u00e3o \u00e9 somente o que exige ren\u00fancia do gozo, mas o lugar onde o gozo se acumula\u201d. E Miller termina o cap\u00edtulo retomando Freud: \u201cquanto mais rigoroso for o dever, mais encontramos, precisamente nesse lugar, o que se chama corrup\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O termo \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d tem como defini\u00e7\u00e3o uma a\u00e7\u00e3o ou efeito de adulterar, corromper o conte\u00fado original de algo. No nosso caso, me parece mais oportuno pensar corrup\u00e7\u00e3o como decl\u00ednio, decad\u00eancia, pois o que est\u00e1 em jogo a\u00ed \u00e9 a economia do gozo. \u00c9 nessa perspectiva que busquei tomar o Impasse do supereu, que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 aula. Trago algumas formula\u00e7\u00f5es de Miller que podem nos orientar sobre os efeitos nos dias atuais da a\u00e7\u00e3o poss\u00edvel da psican\u00e1lise. Qual a incid\u00eancia efetiva desse impasse na atualidade da experi\u00eancia anal\u00edtica?<\/p>\n<p>O impasse, definido como uma situa\u00e7\u00e3o sem solu\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel, implica um paradoxo muito atual: como consentir com a perda de gozo, apesar dos efeitos devastadores dessa acumula\u00e7\u00e3o? O movimento pulsional est\u00e1 permanentemente em busca de satisfa\u00e7\u00e3o, tornando-se necess\u00e1rio corromper, alterar, consentir com o imposs\u00edvel dessa realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lacan agrega dois adjetivos ao supereu freudiano: obsceno e feroz. A crueldade s\u00e1dica do supereu revela que as exig\u00eancias da moral tem a mesma for\u00e7a que as puls\u00f5es, sendo apenas um deslocamento dessas.<\/p>\n<p>Miller d\u00e1 v\u00e1rios exemplos de massacres, como os eventos precursores da revolu\u00e7\u00e3o russa, para afirmar que n\u00e3o devemos manter nossos ouvidos surdos para o que acontece, porque isso produz uma incid\u00eancia efetiva, determinante, na atualidade da experi\u00eancia freudiana. Essa me parece uma afirma\u00e7\u00e3o importante pois ressalta como o psicanalista n\u00e3o deve perder de vista o modo de estar \u00e0 altura de \u201cresponder \u00e0 subjetividade de sua \u00e9poca\u201d. Isso deve ser feito com as ferramentas da psican\u00e1lise, sem adapt\u00e1-la, apostando na sua radicalidade, naquilo que \u00e9 o impasse pr\u00f3prio do sujeito contempor\u00e2neo: como consentir com a perda de gozo, recusando a proposta obscena e feroz do imperativo supereg\u00f3ico: goza.<\/p>\n<p>Miller dedica v\u00e1rias observa\u00e7\u00f5es ao texto de Freud referido acima, e destaca tr\u00eas elementos para tratar da quest\u00e3o do lugar do Ideal no grupo. Dos tr\u00eas vou trabalhar apenas o terceiro elemento. E o objeto <em>a<\/em> no lugar do Ideal, que \u00e9 sobre o qual vou me deter.<\/p>\n<p>A problem\u00e1tica do gozo, nesse impasse, decorre do fato do objeto <em>a<\/em> estar como mais- de-gozar no lugar do Ideal. Essa dupla dimens\u00e3o do objeto <em>a<\/em> como causa e como mais- de-gozar fica borrada, destacando a dimens\u00e3o do mais-de-gozar nesse lugar, devastando o sujeito, deixa-o \u00e0 deriva em busca de mais e mais, algo que ele possa recuperar, simultaneamente, o que \u00e9 experimentado como perda. \u201cA subida do objeto <em>a<\/em> ao z\u00eanite social\u201d, antecipado por Lacan, empurra o sujeito para formas de identifica\u00e7\u00e3o ao objeto, deixando o sujeito como resto, tendendo \u00e0 melancoliza\u00e7\u00e3o e \u00e0 passagem ao ato. A presen\u00e7a do objeto mais-de-gozar serve \u00e0s mais diversas formas de segrega\u00e7\u00e3o, gerando um efeito de ang\u00fastia generalizada.<\/p>\n<p>Miller enfatiza que esse lugar ocupado pelo <em>a<\/em> transcreve, na atualidade, o supereu. O supereu traduz a divis\u00e3o do sujeito, dado que o sujeito n\u00e3o quer seu bem. Ele segue Freud, que escreveu o supereu solid\u00e1rio \u00e0 puls\u00e3o de morte, como empuxo fundamental do sujeito.<\/p>\n<p><strong>G\u00eanese do supereu<\/strong><\/p>\n<p>Sob o aspecto da identifica\u00e7\u00e3o, o supereu \u00e9 uma tentativa de resposta de como se pode civilizar a puls\u00e3o de morte. Como a agressividade, nome da puls\u00e3o de morte em suas rela\u00e7\u00f5es sociais, pode ser temperada.<\/p>\n<p>Em termos pol\u00edticos, o que vigora hoje \u00e9 a autoriza\u00e7\u00e3o para matar, maltratar, segregar. O que vigora \u00e9 o \u00f3dio pela diferen\u00e7a sintom\u00e1tica dos sujeitos, que se manifesta num excesso de gozo sem sentido, porque o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a for\u00e7a destrutiva da puls\u00e3o de morte. O efeito desse excesso de gozo, produzido por essa identifica\u00e7\u00e3o, \u00e9 mort\u00edfero. Aquilo de que o sujeito tenta se defender portando uma arma, por exemplo, faz com que, no momento seguinte, ele seja o baleado. A identifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o alcan\u00e7a esse ponto, porque para que uma identifica\u00e7\u00e3o ao sintoma possa ser cernida ser\u00e1 preciso um percurso de se desembara\u00e7ar do aspecto singular do gozo, num saber fazer a\u00ed. N\u00e3o se trata, portanto, somente de \u00f3dio, pois sabemos que amor e \u00f3dio est\u00e3o do lado de Eros, sendo o seu oposto a puls\u00e3o de morte, como pontuou E. Laurent no texto de orienta\u00e7\u00e3o do XII Congresso da AMP.<\/p>\n<p><strong>Sob o \u00e2ngulo do gozo<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Miller, \u201cquanto mais renuncia ao gozo pulsional, mais exigente se torna o supereu. Isto quer dizer que o supereu n\u00e3o faz mais do que alimentar-se da satisfa\u00e7\u00e3o pulsional, quer dizer a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que se renuncia retorna exatamente como exig\u00eancia do supereu\u201d. Essa \u00e9 a subst\u00e2ncia do supereu: est\u00e1 feita de gozo e de satisfa\u00e7\u00e3o pulsional. Lacan sustenta que a \u00e9tica da psican\u00e1lise est\u00e1 fundada sobre a no\u00e7\u00e3o de impasse do supereu. O supereu n\u00e3o leva a nenhuma outra coisa, al\u00e9m de exigir mais e mais.<\/p>\n<p>Lacan destaca o conjunto do paradoxo que est\u00e1 em quest\u00e3o. O gozo \u00e9 indistintamente libidinal e agressivo, e est\u00e1 ligado \u00e0 opera\u00e7\u00e3o de entrada no campo do Outro, mas tamb\u00e9m como resultado do que n\u00e3o \u00e9 d\u00f3cil \u00e0 determina\u00e7\u00e3o da linguagem. Ou seja, resta sempre algo heterog\u00eaneo que nenhum v\u00ednculo social \u00e9 capaz de reabsorver totalmente. Isto \u00e9, vontade de gozo desenfreada, esse modo desmedido, que destr\u00f3i o sujeito e todo o resto em volta, produzindo as mais diversas formas de segrega\u00e7\u00e3o, colocando em quest\u00e3o o ponto opaco do \u00f3dio ao seu pr\u00f3prio gozo<sup>2<\/sup>.<\/p>\n<p>Para concluir, tentando encaminhar o que pode nos orientar<\/p>\n<p>Um violento imperativo supereg\u00f3ico obsceno e feroz \u00e9 um elemento que confronta a psican\u00e1lise e os analistas de um modo in\u00e9dito. Este fato cria as condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o de modalidades frequentes de racismo, representante de todas as formas de segrega\u00e7\u00e3o. Como analistas, n\u00e3o estamos fora disso, n\u00e3o somos indiferentes ao momento atual, mas temos dificuldades. S\u00f3 podemos falar em nome pr\u00f3prio, nome singular, n\u00e3o temos grupo, porque, justamente, n\u00e3o temos nenhum universal. A transmiss\u00e3o\u00a0 dessa quest\u00e3o me parece ser muito dif\u00edcil, mas essencial.<\/p>\n<p>A face de uma vontade de gozo desmedida, destrutiva, sem objetivo, a n\u00e3o ser colocar a guerra, numa disputa sem limites, onde o campo de batalha transborda atingindo a vida e a natureza em v\u00e1rios \u00e2mbitos, tem sido nosso cotidiano. Para que a psican\u00e1lise continue tendo a chance de existir, ser\u00e1 preciso retomar um campo onde a civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o esteja t\u00e3o amea\u00e7ada pela barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Nosso interesse no la\u00e7o social atual n\u00e3o se aproxima da sociologia pol\u00edtica &#8212; apesar de contribuir &#8212; para nossa elucida\u00e7\u00e3o, e sim para nos orientar na cl\u00ednica. Me parece cada dia mais importante que possamos fazer uma oferta que nos permita receber uma demanda que tenha chance de dar acesso ao desejo. Como?<\/p>\n<ol>\n<li><strong>A aposta no sintoma<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Como um modo do inconsciente manifestar aquilo que \u00e9 o singular de cada um, a aposta no sintoma deve continuar nos orientando. Lacan tomou a realidade ps\u00edquica de Freud como realidade discursiva, uma ordem, um modo que opera no real. A realidade ps\u00edquica se coloca como pura diferen\u00e7a de um ao outro, imposs\u00edvel de se coletivizar. A psican\u00e1lise n\u00e3o pode almejar, muito menos propor, uma reconcilia\u00e7\u00e3o do sujeito com seus modos de gozo, essa \u00e9 sua originalidade.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li><strong>A interpreta\u00e7\u00e3o<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>O mal entendido que a linguagem permite pode fazer o sujeito entrar em um la\u00e7o discursivo que fa\u00e7a barreira \u00e0 puls\u00e3o de morte. A resposta da psican\u00e1lise \u00e9 sempre antissegregativa, pelo avesso do universal e da domina\u00e7\u00e3o, possibilitando ao sujeito tomar uma dist\u00e2ncia das identifica\u00e7\u00f5es de massa. O coletivo que interessa \u00e0\u00a0 psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 comunit\u00e1rio, mas baseado na solid\u00e3o de cada um, um coletivo paradoxal, n\u00e3o todo. Ele encontra suas bases em elementos descompletos, sem nenhuma pretens\u00e3o de unidade. A experi\u00eancia anal\u00edtica tem um funcionamento em torno dos efeitos contingentes da interpreta\u00e7\u00e3o que ressoa. Miller, no seu texto \u201cPonto de basta\u201d, diz que a \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o anal\u00edtica introduz o imposs\u00edvel e isso faz limite. E um significante que repercute, produz ondas\u201d<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><strong>A transfer\u00eancia de trabalho<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A transfer\u00eancia de trabalho proposta por Lacan n\u00e3o se dirige a um outro, a um sujeito suposto saber, como na experi\u00eancia anal\u00edtica, mas \u201caos outros&#8230; se dirige a todo mundo\u2026 aos novos por vir e tamb\u00e9m aos mortos, como a ci\u00eancia, e \u00e9 uma transfer\u00eancia que se dirige ao n\u00e3o saber\u201d<sup>4<\/sup>. Lembrando \u00c9ric Laurent no \u00faltimo Encontro Brasileiro, onde ele diz que n\u00e3o h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para o analista, por isso ele retoma Lacan, dizendo que \u00e9 uma identifica\u00e7\u00e3o dessegregativa \u201cporque inclui o ex\u00edlio de toda representa\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Esse lugar \u00e9 marcado pela barra que recai sobre a fun\u00e7\u00e3o do outro S(\u023a). N\u00e3o ser\u00e1 esse o lugar poss\u00edvel para se interpretar o coletivo, produzindo efeitos de desidentifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<hr \/>\n<h6><sup>1<\/sup> Miller, J.-A. <em>Los divinos detalles<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010.<\/h6>\n<h6><sup>2<\/sup> Laurent, E. \u201cRacismo 2.0\u201d. Em: <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 67. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, 2013.<\/h6>\n<h6><sup>3<\/sup> Miller, J.-A. \u201cPonto de basta\u201d. Em:<em> Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 79. S\u00e3o Paulo: E\u00f3lia, 2018.<\/h6>\n<h6>\u00a0<sup>4<\/sup> Miller, J.-A. <em>El Banquete de los analistas<\/em>. Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2005.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Coment\u00e1rio do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Renata Martinez<\/h6>\n<p>Boa noite! Gostaria primeiro de agradecer ao conselho da se\u00e7\u00e3o Rio, em especial ao Rodrigo Lyra e a Paula Borsoi, pelo convite para estar aqui hoje e comentar os trabalhos deles contribuindo para levantar a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar propriamente a trazer os pontos que me chamaram a aten\u00e7\u00e3o nos dois trabalhos gostaria de dizer de onde parti, qual a premissa b\u00e1sica, ou as premissas que me orientaram na leitura da li\u00e7\u00e3o e dos textos que recebi:<\/p>\n<p><strong><em>Vivemos uma crise do um<\/em><\/strong>. Isso nos disse Miquel Bassols na \u00faltima segunda feira, quando esteve conosco. N\u00e3o sei se voc\u00eas lembram, foi respondendo \u00e0 Angela Bernardes sobre quais seriam os efeitos ou consequ\u00eancias da utiliza\u00e7\u00e3o da redu\u00e7\u00e3o de 1 + a em rela\u00e7\u00e3o a Campo Freudiano Ano Zero, Zadig e \u00e0 pol\u00edtica. Pesquei isso, digamos, como \u201cum pequeno detalhe, o pequen\u00edssimo, o que chama \u00e0 ordem das coisas (p.11).\u201d Por crise do um, entendi que aquilo que serve para unificar, fazer conjunto, identificar, est\u00e1 falho, capenga ou funcionando de uma maneira distinta hoje.<\/p>\n<p>Essa maneira de enxergar as coisas me pareceu um complemento ao que trabalhamos com Marcus Andr\u00e9 Viera no semin\u00e1rio \u201cA psican\u00e1lise do fim do mundo\u201d sobre <strong>a crise da fun\u00e7\u00e3o do objeto a. Sua crise como <em>causa<\/em> e como <em>resto<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Ao <em>objeto a<\/em> em crise, acrescentei ent\u00e3o, a crise do um. H\u00e1 um desarranjo generalizado.<\/strong><\/p>\n<p>Como pudemos seguir nos trabalhos do Rodrigo e da Paula, nessa li\u00e7\u00e3o XII do semin\u00e1rio \u201cOs divinos detalhes\u201d \u2013 e na anterior tamb\u00e9m \u2013\u00a0 Miller trata do tema da identifica\u00e7\u00e3o e do gozo em rela\u00e7\u00e3o ao Ideal. Fazendo um minucioso percurso pelo cap\u00edtulo VII do Mal-estar na cultura de Freud e a g\u00eanese do Supereu, me parece que ele nos fornece algumas ferramentas para tratarmos as quest\u00f5es mais espinhosas do momento, enxergando de outro vi\u00e9s esse desarranjo a que me referi. O ponto alto da li\u00e7\u00e3o \u2013 express\u00e3o m\u00e1xima do impasse, eu diria \u2013 e que gerou alguns dos encaminhamentos e discuss\u00f5es nos dois trabalhos \u00e9 a hip\u00f3tese do <strong>objeto a no lugar do Ideal ser a transcri\u00e7\u00e3o do supereu na atualidade<\/strong>.<\/p>\n<p>Como vimos, Miller nos apresenta tr\u00eas vers\u00f5es da identifica\u00e7\u00e3o que d\u00e3o conta da passagem do sujeito ao coletivo. S1, pai da horda e a. (resuminho das tr\u00eas ou essa \u00faltima sendo a express\u00e3o do supereu). No matema que nos mostra faz quest\u00e3o de dizer que elas n\u00e3o s\u00e3o excludentes e sim complementares.<\/p>\n<p>Destaco duas perguntas da p\u00e1gina 217: \u201cComo pode ser que uma multid\u00e3o fa\u00e7a um?\u201d Como justificar o pertencimento de um sujeito ao um grupo?<\/p>\n<p>As elabora\u00e7\u00f5es que vimos s\u00e3o tentativas de respostas a essas perguntas, n\u00e3o sem trazer \u00e0 luz os problemas e impasses a\u00ed envolvidos.<\/p>\n<p>A seguinte cita\u00e7\u00e3o me parece conter um bom resumo da li\u00e7\u00e3o e do problema que Miller quer tratar:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cQuando se aborda a quest\u00e3o a partir do gozo, o gozo n\u00e3o \u00e9 do Outro, mas a linguagem e o desejo sim, o s\u00e3o. Se partimos do sujeito no lugar do Outro \u00e9 como se tiv\u00e9ssemos de entrada a resposta \u00e0 pergunta sobre o fundamento do coletivo, o Outro aparece ent\u00e3o como seu fundamento. Deste modo, o problema pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 simplesmente como se chega a falar a mesma l\u00edngua que o Outro e sim, <strong>como o gozo passa ao Outro<\/strong>.\u201d (p.216)<\/p><\/blockquote>\n<p>Vamos aos trabalhos:<\/p>\n<p>Paula e Rodrigo concordam que o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a economia do gozo, um problema pulsional, mas, me parece, apresentam a quest\u00e3o de modos distintos.<\/p>\n<p>J\u00e1 no in\u00edcio de seu trabalho Paula se interessa e recorta o seguinte ponto <strong>\u201cem que medida a exig\u00eancia do dever se op\u00f5e \u00e0s puls\u00f5es\u201d<\/strong>. Esse \u00e9 justamente um impasse ressaltado por Miller durante toda a li\u00e7\u00e3o e recortado por ele do texto freudiano. A <em>Triebverzicht<\/em>, ren\u00fancia \u00e0 puls\u00e3o, trabalhada como estando na origem do supereu, reaparece recuperada na pr\u00f3pria inst\u00e2ncia. Digamos que o problema \u00e9: aquilo que foi renunciado n\u00e3o desaparece, \u00e9 recuperado. <strong>\u201cDo mesmo lugar que se enuncia o dever, se acumula o gozo\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Paula apresenta isso com a seguinte frase de Miller, j\u00e1 mostrando que o problema se espalha ao social: <strong>\u201co la\u00e7o social \u00e9 impens\u00e1vel se n\u00e3o h\u00e1 transfer\u00eancia de libido para o ideal. N\u00e3o basta dizer que o la\u00e7o social se fundamenta do sacrif\u00edcio do gozo, h\u00e1 que se dizer para onde vai a mais- valia, que \u00e9 no fundo um problema pol\u00edtico\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Segundo Paula, as perguntas que explicitam as dificuldades encontradas hoje e com as quais os analistas tem que se virar seriam:<\/p>\n<p>C<strong>omo consentir com a perda de gozo<\/strong>, apesar dos efeitos devastadores dessa acumula\u00e7\u00e3o. <strong>Como recusar a proposta do imperativo supereg\u00f3igo: goza!?<\/strong><\/p>\n<p>Sabemos que os efeitos da acumula\u00e7\u00e3o de gozo s\u00e3o nocivos, mas vemos, n\u00e3o s\u00f3 na cl\u00ednica como no social, todos indo sempre em dire\u00e7\u00e3o ao mais. Concordo com a Paula e tendo a achar tamb\u00e9m que a quest\u00e3o esbarra na confus\u00e3o ou \u201cborramento\u201d, como ela tratou, da dupla dimens\u00e3o do objeto causa e mais-de- gozar. Entretanto, para al\u00e9m disso ou apesar disso, como ela bem nos mostrou, algo do gozo resta fora do discurso, resta sempre algo heterog\u00eaneo que nenhum v\u00ednculo social \u00e9 capaz de reabsorver totalmente.<\/p>\n<p>Ela lembra, com Miller, que n\u00e3o devemos nos fazer de surdos aos acontecimentos\u00a0 que nos cercam. Vivemos um momento estranho no pa\u00eds e no mundo e as consequ\u00eancias cl\u00ednicas s\u00e3o sentidas, pois o que se passa no social produz mudan\u00e7as na subjetividade da \u00e9poca. E n\u00f3s psicanalistas, precisamos estar \u00e0 altura de responder a isso.<\/p>\n<p>Como lidamos com esse excedente de gozo? Excedente que hoje mostra sua cara mais virulenta.<\/p>\n<p>Num ponto do texto Paula pergunta \u201c<strong>Como fazer ressoar esse real em jogo, para al\u00e9m da an\u00e1lise?\u201d <\/strong>Entendo que ela esteja se perguntando de qual maneira tratar esse real, para o qual inventamos maneiras de tratamento nos nossos consult\u00f3rios como analistas e como analisantes, fora desse \u00e2mbito?<\/p>\n<p>Ela esbo\u00e7a alguns caminhos apontando que o coletivo que interessa \u00e0 psican\u00e1lise n\u00e3o \u00e9 comunit\u00e1rio, mas baseado na solid\u00e3o de cada um. Paula n\u00e3o nomeou assim, mas entendi sua dire\u00e7\u00e3o como uma aposta no desejo do analista como desejo de obter a diferen\u00e7a absoluta. Isso seria a resposta anti-segregativa da psican\u00e1lise? Como transp\u00f4-la ao social para al\u00e9m da Escola entendida como uma forma\u00e7\u00e3o coletiva que n\u00e3o pretende fazer desaparecer a solid\u00e3o subjetiva, mas pelo contr\u00e1rio, se funda nela, a manifesta, a revela.<\/p>\n<ul>\n<li>manifesta\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o com um imposs\u00edvel<\/li>\n<\/ul>\n<p>Rodrigo questiona o que chamou de \u201ctend\u00eancia do nosso meio a equivaler o supereu \u00e0 l\u00f3gica contempor\u00e2nea\u201d pelo <em>imperativo de gozo. <\/em>Segundo ele, a maneira com que Miller nos apresenta os impasses oriundos da g\u00eanese do supereu, contestaria essa tend\u00eancia.<\/p>\n<p>Gosto da maneira sempre viva e contundente do Rodrigo apresentar suas argumenta\u00e7\u00f5es. Como eu me enquadro como \u201ctendo essa tend\u00eancia\u201d, fiquei intrigada. Obviamente, que ela tem fundamentos e imagino que ele concorde.<\/p>\n<p>Explico, talvez repetindo um pouco o que a Paula trouxe:<\/p>\n<p>Alguns anos depois desse semin\u00e1rio, proferido em 89, Miller tem uma esp\u00e9cie de epifania que nomeia \u201cUma fantasia\u201d, sua fantasia seria equivaler o discurso da civiliza\u00e7\u00e3o hipermoderna \u00e0 estrutura do discurso do analista. Tentando dar conta da ideia dos \u201csujeitos desbussolados\u201d contempor\u00e2neos, Miller faz um trajeto incr\u00edvel desde a inven\u00e7\u00e3o da psican\u00e1lise no esteio da moral civilizada \u00e0s mudan\u00e7as sofridas em ambas.<\/p>\n<p>Segundo sua conhecida articula\u00e7\u00e3o, o objeto a, elevado ao Z\u00eanite social, seria a b\u00fassola da civiliza\u00e7\u00e3o de hoje. O objeto pequeno a e os demais elementos que comp\u00f5e a estrutura do discurso estariam dispersos na cultura causando os mais variados efeitos.<\/p>\n<p>Um pequeno recorte de quase qualquer acontecimento recente faz valer a descri\u00e7\u00e3o de Miller desse funcionamento: <strong>\u201co mais-de-gozar comanda, o sujeito trabalha, as identifica\u00e7\u00f5es caem substitu\u00eddas pela avalia\u00e7\u00e3o homog\u00eanea das capacidades, enquanto o saber se ativa em mentir como em progredir, sem d\u00favida\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Esse resumo da l\u00f3gica de funcionamento contempor\u00e2nea apresentada em Uma fantasia, me parece bem de acordo como o que Miller prop\u00f5e nessa li\u00e7\u00e3o 12 de Divinos Detalhes. Entretanto, apesar de concordar com isso, segui tentando pescar o que Rodrigo nos trouxe.<\/p>\n<p>Queria refor\u00e7ar a ideia destacada por ele de que h\u00e1 um problema pulsional no seio da civiliza\u00e7\u00e3o e que n\u00e3o se resolve com as identifica\u00e7\u00f5es. \u00c9 justamente essa a quest\u00e3o onde repousa o desarranjo e o problema central tradado por Miller ao longo dessa li\u00e7\u00e3o e, se posso arriscar dizer aqui, ao longo de in\u00fameras li\u00e7\u00f5es de seus semin\u00e1rios que se seguiram \u00e0 morte de Lacan.<\/p>\n<p>O que o Rodrigo questiona \u00e9 que \u201ca partir do desenvolvimento de Miller nessa li\u00e7\u00e3o 12, n\u00e3o parece exato equiparar a l\u00f3gica supereg\u00f3ica ao for\u00e7amento ao consumo empreendido pelo capitalismo\u201d. Mas, porqu\u00ea? Onde estaria a inexatid\u00e3o propriamente dita?<\/p>\n<p>Se entendi bem, lan\u00e7ando m\u00e3o da ideia da \u00e9tica da psican\u00e1lise como a aposta na ruptura do circuito de ren\u00fancia, Rodrigo problematiza a ideia do acento cr\u00edtico posto no imperativo de gozo da contemporaneidade, uma vez que este estaria em conson\u00e2ncia com essa \u00e9tica. \u00c9 isso Rodrigo? Logo em seguida voc\u00ea diz que obviamente n\u00e3o se trata de fazer da psican\u00e1lise a emiss\u00e3o de uma ordem de gozo. Concordamos com isso, mas qual seria ent\u00e3o, a solu\u00e7\u00e3o?\u00a0 Ou a dire\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o forte que voc\u00ea destaca \u2013 e que a Paula tamb\u00e9m aponta \u2013 \u00e9 a impossibilidade da evita\u00e7\u00e3o da \u201csatisfa\u00e7\u00e3o pulsional como tal\u201d. Sendo assim, qual tratamento a psican\u00e1lise oferece a esse gozo j\u00e1 que ele estar\u00e1 sempre a\u00ed? Nas an\u00e1lises levadas a termo, temos tido demonstra\u00e7\u00f5es muito potentes de como cada um se vira com isso. Inclusive testemunhos como o de Sandra Gronstein, por exemplo, que demonstram a mudan\u00e7a de rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o pr\u00f3prio supereu.<\/p>\n<p>Mas e quando falamos do social?<\/p>\n<p>Utilizando-se de uma formula\u00e7\u00e3o de Lacan no final do Semin\u00e1rio XI sobre o que chamou de <em>fascina\u00e7\u00e3o coletiva<\/em> como a conjun\u00e7\u00e3o de I e a, voc\u00ea tenta uma resposta diferente ao car\u00e1ter supereg\u00f3ico da \u00e9poca.<\/p>\n<p>Se consegui entender sua elabora\u00e7\u00e3o, voc\u00ea diz que h\u00e1 uma sujei\u00e7\u00e3o, eventualmente em massa, a um ponto tornado inquestion\u00e1vel. Desde esse ponto de Ideal viriam nomes, interpreta\u00e7\u00f5es e sentidos do mundo tomados a ferro e fogo pelos sujeitos fascinados.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da economia pulsional problem\u00e1tica n\u00e3o se solucionaria\u00a0 por um \u201cmais\u201d ou \u201cmenos\u201d, uma vez que a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional n\u00e3o tem contr\u00e1rio (como parece ser a aposta da Paula quando pergunta: como consentir com a perda de gozo) e sim \u2013 arrisco dizer \u2013 por uma mudan\u00e7a no regime de gozo.<\/p>\n<p>Nesse caso apontado por voc\u00ea, um desenlace no campo civilizat\u00f3rio entre gozo e lei e no campo do sujeito entre gozo e fantasia. Se sua hip\u00f3tese procede, resta saber como&#8230;<\/p>\n<p>Adoraria poder te ouvir mais a esse respeito[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;5104&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_video link=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=s1qd-drCJT0&amp;feature=youtu.be&#8221;][vc_single_image image=&#8221;2533&#8243; img_size=&#8221;250&#215;144&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;5107&#8243; img_size=&#8221;250&#215;144&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>O que \u00e9 o amor?<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Ondina Machado<br \/>\nSemin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211; 07\/10\/2019<\/h6>\n<p>Na li\u00e7\u00e3o &#8220;Desejo, amor e puls\u00e3o&#8221;, do Curso <em>Los divinos Detalles<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em>, Jacques-Alain Miller est\u00e1 em meio a um trabalho de releitura das tr\u00eas &#8220;Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor&#8221; de Freud sob a perspectiva da teoria do gozo de Lacan.<\/p>\n<p>S\u00f3 para lembrar, os textos de Freud que comp\u00f5em essas &#8220;Contribui\u00e7\u00f5es&#8221; s\u00e3o: &#8220;Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens&#8221; de 1910, &#8220;Sobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor&#8221; de 1912 e o &#8220;Tabu da virgindade&#8221; de 1917. Na li\u00e7\u00e3o de seu curso, Jacques-Alain Miller vai examinar mais detidamente o que, nas duas primeiras &#8220;Contribui\u00e7\u00f5es&#8221;, condicionam a chamada &#8220;escolha&#8221; do objeto amoroso mostrando que nessas condi\u00e7\u00f5es j\u00e1 podemos ler as condi\u00e7\u00f5es de gozo.<\/p>\n<p>O amor \u00e9 um tema inescap\u00e1vel na psican\u00e1lise; em tudo que diz respeito a ele pisa-se em terreno pantanoso. Quase todos os conceitos psicanal\u00edticos s\u00e3o convocados para falar do amor: o narcisismo, o \u00c9dipo, o desejo, o gozo, a puls\u00e3o, a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual, o objeto, o Outro, os afetos, a transfer\u00eancia. A lista \u00e9 grande. Vou me ater apenas a alguns pontos que achei interessantes nessa aula do Miller. Sei que vou decepcionar os rom\u00e2nticos e desagradar os desiludidos. N\u00e3o tem jeito, o amor leva sempre a um certo fracasso, pois h\u00e1 nele um irrealiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Achei que para falar de amor seria prudente fazer algumas distin\u00e7\u00f5es. Vou apresenta-las em duplas, n\u00e3o necessariamente correspondentes. Elas me ajudaram a n\u00e3o me deixar enredar de todo por ele, s\u00f3 um pouquinho.<\/p>\n<p>Assim temos:<\/p>\n<p>prazer \u00a0\u00a0\u00a0\/\/ \u00a0\u00a0\u00a0satisfa\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>desejo \u00a0\u00a0\u00a0\/\/ \u00a0\u00a0\u00a0gozo<\/p>\n<p>Amor \u00a0\u00a0\u00a0\/\/ \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0puls\u00e3o<\/p>\n<p>i(a) \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\/\/ \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0&#8216;a&#8217;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vejamos:<\/p>\n<p>Pensei em dois eixos sob os quais o amor corre.<\/p>\n<p>O do lado esquerdo pode ser chamado de eixo da &#8220;rela\u00e7\u00e3o sexual&#8221;, ou eixo rom\u00e2ntico. Neles coloquei os conceitos que sustentam a ilus\u00e3o de completude. Tamb\u00e9m poder\u00edamos cham\u00e1-lo de eixo Fabio Junior \u2013 &#8221; As metades da laranja, Sonho lindo de viver, T\u00f4 morrendo de vontade de voc\u00ea!&#8221;<\/p>\n<p>Nele est\u00e3o o prazer a ser obtido na rela\u00e7\u00e3o, o desejo a ser satisfeito, o amor como sonho de harmonia, de completude e o outrinho como objeto amoroso, a minha imagem ideal projetada \u2013 amo em ti aquilo que penso ser ou o que me falta para ser quem penso que sou.<\/p>\n<p>O lado direito seria o eixo da &#8220;n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o&#8221;, da n\u00e3o propor\u00e7\u00e3o entre o meu amor e o seu, do desejo como falta. Assim, a satisfa\u00e7\u00e3o aparece fora do circuito prazer-desprazer, o gozo est\u00e1 presente at\u00e9 no sofrimento, a puls\u00e3o \u00e9 um eterno retorno, puro circuito em torno do objeto chamado &#8216;a&#8217; porque indeterminado e, por ser indeterminado, pode ser qualquer um desde que cumpra fun\u00e7\u00f5es determinadas, os &#8220;divinos detalhes&#8221;.<\/p>\n<p>O jogo amoroso corre entre os dois eixos, ora como harmonia \u2013 &#8220;Ah! \u00c9 ele!&#8221;, e ora como desalento &#8211; &#8220;Tenho o dedo podre&#8221;.<\/p>\n<p>Na perspectiva rom\u00e2ntica o prazer \u00e9 harmonia, \u00e9 a homeostase que o desejo vem desestabilizar porque o desejo \u00e9 desejo de desejo. O objeto de desejo \u00e9 substitu\u00edvel j\u00e1 que todos s\u00e3o substitutos da m\u00e3e. O amor \u00e9 lindo porque sup\u00f5e a exist\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o sexual. Por\u00e9m, essa rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no engano, tendo em vista que busco no outrinho o que n\u00e3o sou mas penso ser, ou busco nele meu complemento.<\/p>\n<p>J\u00e1 pela perspectiva da &#8220;n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o&#8221;, a satisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 prazer. Nela o gozo \u00e9 evitado e sempre buscado, ele sim \u00e9 fixo, n\u00e3o h\u00e1 substituto. A puls\u00e3o \u00e9 de morte e o objeto &#8216;a&#8217; de objeto n\u00e3o tem nada, \u00e9 um oco a ser contornado.<\/p>\n<p>\u00c9 a partir do embate entre esses dois eixos que falarei do amor.<\/p>\n<p><strong>O amor de Freud a Lacan:<\/strong><\/p>\n<p>A escolha de objeto no amor est\u00e1, j\u00e1 em Freud, enredada na fantasia como resultado do complexo de \u00c9dipo. Dele resulta um objeto com o qual me identifico e que me direcionar\u00e1 ao objeto a ser amado. Esse movimento determina a escolha do objeto sexual, mas n\u00e3o s\u00f3, pois n\u00e3o basta ter como objeto uma mulher ou um homem, tem que ser um certo tipo de mulher o de homem que ocupe um lugar determinado no jogo amoroso.<\/p>\n<p>Se estabelecem assim &#8220;as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao amor, cuja combina\u00e7\u00e3o \u00e9 inintelig\u00edvel, e at\u00e9 desconcertante&#8221;<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>. Freud observa que essas caracter\u00edstica se repetem em todos os objetos eleitos, durante toda a vida, e exigem do sujeito um &#8220;enorme disp\u00eandio de energia mental&#8221;<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>. Trata-se, segundo Freud, de uma busca infind\u00e1vel, j\u00e1 que ao buscar um tra\u00e7o da m\u00e3e nas outras mulheres, n\u00e3o se encontra a m\u00e3e, s\u00f3 o tra\u00e7o. Est\u00e1 a\u00ed a &#8220;natureza compulsiva&#8221; que faz o sujeito buscar as mesmas caracter\u00edsticas em diferentes objetos, ou seja, &#8220;os objetos amorosos podem substituir uns ao outros, t\u00e3o ami\u00fade, que se forma uma extensa s\u00e9rie dos mesmos&#8221;<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>. A s\u00e9rie denota que, por mais extensa que seja, a satisfa\u00e7\u00e3o desejada n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada.<\/p>\n<p>De Freud, Lacan destaca que o amor entra no circuito do desejo e do gozo atrav\u00e9s de um certo modelo inconsciente e repetitivo presente no tipo de objeto a ser amado. Desse modo, a escolha tem menos a ver com o objeto (n\u00e3o \u00e9 o objeto que me faz ama-lo) e mais com uma certa grade de supostos predicados que me direcionam \u00e0 uma escolha for\u00e7ada. Assim, vemos que nessa escolha nada h\u00e1 a ser escolhido, pois est\u00e1 ligada \u00e0 precondi\u00e7\u00f5es estabelecidas (divinos detalhes) e imposta ao sujeito. O que Freud observou foi um circuito inconsciente, indo do desejo ao gozo, que estabelece um certo caminho a ser percorrido, ignorado pelo sujeito, que faz dele ref\u00e9m quanto ao objeto a ser &#8220;escolhido&#8221;.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, Lacan observa que nessa escolha h\u00e1 um elemento que descentra a rela\u00e7\u00e3o entre amante e amado. Por isso Miller diz que, quanto ao amor, Freud \u00e9 muito lacaniano na medida em que localiza nessa rela\u00e7\u00e3o a incid\u00eancia do Outro. A escolha, ent\u00e3o, se daria numa Outra cena com a concorr\u00eancia de um Outro que impede que a rela\u00e7\u00e3o se estabele\u00e7a t\u00e3o somente no eixo imagin\u00e1rio. Nesse sentido, Miller vai dar \u00eanfase ao losango do fantasma \u00e0 intermediando a rela\u00e7\u00e3o do sujeito\/eu com o outrinho. Por que ele faz isso? Primeiro porque n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o direta entre o eu e o outro sem que algo da imagem compare\u00e7a: imagem de si projetada no outro. A imagem tem como fun\u00e7\u00e3o velar a castra\u00e7\u00e3o, e nesse velamento, seduzir. Nada no amor se d\u00e1 sem o semblante, fazendo, muitas vezes, com que o jogo amoroso seja compar\u00e1vel a uma com\u00e9dia. Segundo, porque o que parece ser uma escolha est\u00e1 irremediavelmente amarrada pela fantasia, pouco se escolhe no amor. A fantasia demarca condi\u00e7\u00f5es que fazem com que seja um e n\u00e3o qualquer um o escolhido.<\/p>\n<p>Quando Lacan destaca os dois tipos de escolha assinaladas por Freud, a narc\u00edsica e a anacl\u00edtica, ele as trabalha como modos de rela\u00e7\u00e3o do sujeito com o outro semelhante levando em conta essa Outra cena. Miller usa o <em>m<\/em> de moi para designar o sujeito\/eu e o i(a) para o outrinho, portanto, a imagem que construo do outrinho. Na forma narc\u00edsica se escolhe o semelhante como uma imagem ideal de si, enquanto na anacl\u00edtica se escolhe aquele que ir\u00e1 completa-lo. Ambas irremediavelmente determinadas pela fantasia.<\/p>\n<p>A forma narc\u00edsica corresponde a uma pantomima, um teatro gestual de tipo c\u00f4mico no qual o outro \u00e9 uma superf\u00edcie na qual deve aparece a imagem idealizada de si. m \u00e0 i(a)<\/p>\n<p>Recorte da cl\u00ednica: uma jovem conhece um homem maduro no Tinder. Ele diz que, na sua idade, n\u00e3o pode mais errar. Para adiantar, manda para ela uma esp\u00e9cie de question\u00e1rio com perguntas do tipo: Gosta de cozinhar? De lavar lou\u00e7a? Quer ter filhos? Ganha mais de 2.000 reais? Sabe dirigir? Se ficar sem dinheiro o que faz: pede emprestado ou corta a academia? Ele sabe o que quer, mas n\u00e3o quer o que diz querer, o seu i(a). Ela responde &#8220;n\u00e3o&#8221; a todas as perguntas: &#8220;s\u00f3 de raiva&#8221;, confessa. Mesmo assim ele insiste em conhece-la. N\u00e3o \u00e0 toa Jacques-Alain Miller diz que todo amor tem o modelo hist\u00e9rico. A posi\u00e7\u00e3o amorosa \u00e9 feminizante porque guarda o lugar do objeto, \u00e9 &#8220;como objeto que voc\u00ea se prop\u00f5e ao amor&#8221;. O romance n\u00e3o foi avante, pois sabemos o quanto essas exig\u00eancias s\u00e3o feitas para decepcionar, justamente porque ao decepcionar, satisfazem.<\/p>\n<p>A forma anacl\u00edtica funciona como um roteiro, como o argumento de um filme exibido na tela dos devaneios. O sujeito sonha com o parceiro ideal que ir\u00e1 complement\u00e1-lo. m \u00e0 i(a) \/ $ \u00e0a. Aqui vemos sobrepor-se as duas dimens\u00f5es do fantasia, a imagin\u00e1ria e a simb\u00f3lica.<\/p>\n<p>Recorte da cl\u00ednica: uma mulher, muito cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos homens, diz que eles se dividem entre idiotas e canalhas. Falando sobre a decep\u00e7\u00e3o que teve com o atual ficante, arremata: &#8220;ele \u00e9 t\u00e3o idiota que n\u00e3o tem perigo, para ele posso abrir a porta&#8221;. Ela deixa entrar os idiotas achando que com isso se protege dos canalhas. Nem idiotas nem canalhas, ela confessa querer um homem que cuide dela, mas sua estrat\u00e9gia a faz viver esse amor somente em seus sonhos.<\/p>\n<p>O que se realiza no amor levando em conta que ele n\u00e3o existe fora da montagem fantasm\u00e1tica?<\/p>\n<p><strong>Gozo, prazer e satisfa\u00e7\u00e3o:<\/strong><\/p>\n<p>Jacques-Alain Miller lembra da defini\u00e7\u00e3o que deu do gozo lacaniano: uma f\u00f3rmula composta pelos conceitos freudianos de libido + puls\u00e3o de morte. Segundo ele, \u00e9 assim que Lacan opera a unifica\u00e7\u00e3o dos dois conceitos atrav\u00e9s do termo gozo. O gozo serviria, ent\u00e3o, \u00e0 duas satisfa\u00e7\u00f5es: a da libido e a da puls\u00e3o de morte. Ao incluir a puls\u00e3o de morte no gozo entende-se porque Lacan argumenta pela primazia do masoquismo sobre o sadismo, pois, segundo ele, quem primeiro sofre \u00e9 o sujeito, n\u00e3o o outro, e conclui que a libido \u00e9 tamb\u00e9m puls\u00e3o de morte. Essa defini\u00e7\u00e3o da libido justifica o fundo masoquista do gozo. \u00c9 tamb\u00e9m por isso que Lacan vai dizer que o gozo \u00e9 sempre do corpo pr\u00f3prio, ou seja, ningu\u00e9m goza com um corpo que n\u00e3o seja o seu.<\/p>\n<p>Podemos aqui retomar os dois recortes que apresentei. Em ambos, o desejo enunciado n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ado, por\u00e9m, uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 obtida. No caso do homem do question\u00e1rio, o tempo que ele n\u00e3o tem a perder faz com que gaste a vida na procura do que diz querer. Por\u00e9m, se encanta com aquela que diz n\u00e3o aos seus anseios mas satisfaz seu gozo auto-er\u00f3tico. No caso da mulher desiludida entre idiotas e canalhas, podemos deduzir que sua busca por completude, calcada na imagem de um pai ideal, faz com que nenhum homem tenha chance com ela. Como boa hist\u00e9rica ela denuncia a fal\u00e1cia do falo e com isso se imp\u00f5e um gozo que se apresenta como insatisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pela f\u00f3rmula de Miller para o gozo \u2013 satisfa\u00e7\u00e3o da libido pela puls\u00e3o de morte \u2013 temos um problema: se o gozo satisfaz, isso n\u00e3o seria o bastante?<\/p>\n<p>N\u00e3o, o gozo n\u00e3o satisfaz porque ele n\u00e3o se reconhece como tal<a href=\"#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>. O gozo \u00e9 paradoxal: ele \u00e9 satisfa\u00e7\u00e3o, todavia sabe se si como sofrimento. O gozo \u00e9 evitado porque \u00e9 imposs\u00edvel viver o gozo, seria se entregar de todo \u00e0 puls\u00e3o de morte. O gozo poss\u00edvel vem aos pedacinhos, nunca \u00e9 todo.<\/p>\n<p>Temos a\u00ed n\u00e3o s\u00f3 o tal fundo masoquista do gozo como tamb\u00e9m o sentimento de alteridade que o sujeito experimenta em rela\u00e7\u00e3o ao seu pr\u00f3prio gozo.<\/p>\n<p>Costumamos tomar o texto &#8220;Al\u00e9m do Princ\u00edpio Prazer&#8221; como refer\u00eancia para falar de gozo, por\u00e9m, cabe esclarecer, que o &#8220;al\u00e9m&#8221; do princ\u00edpio do prazer n\u00e3o \u00e9 tratado por Lacan como algo que se deduz de uma temporalidade. N\u00e3o se trata do &#8220;depois&#8221; do prazer porque depois do princ\u00edpio do prazer, para Freud, vem a realidade. O &#8220;al\u00e9m&#8221; do qual Lacan se vale, que tamb\u00e9m pode ser lido em Freud, \u00e9 um al\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao bin\u00e1rio prazer-desprazer, \u00e9 o <em>lust<\/em> freudiano, que tanto pode ser traduzido por prazer como por gozo. \u00c9 por esse modo de entendimento do &#8220;al\u00e9m&#8221; que Lacan vai falar de gozo. O gozo em Lacan pode ser satisfa\u00e7\u00e3o desde que se entenda que \u00e9 uma satisfa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 al\u00e9m do prazer mas &#8220;enla\u00e7ada&#8221; com ele de alguma forma, como aponta Miller no curso Causa y consentimento<a href=\"#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>.<\/p>\n<p>No amor, ent\u00e3o, o sonho com o parceiro ideal vai se deparar com o parceiro sintom\u00e1tico, com aquele que nos seduz mais pelo que n\u00e3o tem e por isso pode encarnar nossa falta, condi\u00e7\u00e3o fundamental ao amor, &#8220;dar o que n\u00e3o se tem&#8221;, segundo Lacan.<\/p>\n<p>Essa condi\u00e7\u00e3o se expressa ao recortar no amado um tra\u00e7o que evidencia um ponto de ignor\u00e2ncia em n\u00f3s mesmos a nosso pr\u00f3prio respeito \u2013 &#8220;Eu te amo, mas, inexplicavelmente amo em ti algo que \u00e9 mais do que tu \u2013 o objeto a min\u00fasculo, eu te mutilo&#8221;<a href=\"#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Essa frase se constr\u00f3i na gram\u00e1tica pulsional do &#8220;amar\u2013se amando&#8221;. Assim o tra\u00e7o, condi\u00e7\u00e3o do amor, \u00e9 condi\u00e7\u00e3o de gozo. Ele n\u00e3o \u00e9 objeto do desejo, mas antes, \u00e9 causa de desejo. A causa \u00e9 desconhecida porque do objeto &#8216;a&#8217; s\u00f3 temos sua fun\u00e7\u00e3o, a necessidade estrutural.<\/p>\n<p><strong>Amor, desejo e gozo:<\/strong><\/p>\n<p>Parto da m\u00e1xima freudiana de que quando se ama, n\u00e3o se deseja e que quando se deseja, n\u00e3o se ama<a href=\"#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. A incompatibilidade do desejo com o amor tem em Freud o argumento da divis\u00e3o experimentada pelos homens entre o sagrado e o profano, entre a m\u00e3e e a puta. Heloisa Caldas nos falou sobre isso no Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana passado. Segundo Freud, essa seria uma estrat\u00e9gia masculina que, curiosamente, aparece cada vez com mais frequ\u00eancia tamb\u00e9m nas mulheres. A mulher de quem falei acima escolheu para primeiro marido algu\u00e9m que fosse um bom pai, para ela e para seus filhos. Ela diz que depois que viu ter conseguido o que queria, se separou. Buscou a an\u00e1lise exatamente com a demanda de querer saber &#8220;o que quer para si&#8221;, pois para seus filhos &#8220;j\u00e1 encontrou&#8221;.<\/p>\n<p>O amor \u00e9 uma modalidade da fantasia, um efeito de significa\u00e7\u00e3o dessa fantasia, diz Miller. A significa\u00e7\u00e3o pode vir pela via narc\u00edsica ou pela via anacl\u00edtica, desde que nela o objeto &#8216;a&#8217; esteja oculto, velado. Nesse sentido o amor \u00e9 uma defesa contra o gozo \u2013 onde amo n\u00e3o gozo, onde gozo n\u00e3o amo.<\/p>\n<p>Nesse aspecto, a fun\u00e7\u00e3o do amor tem suma import\u00e2ncia na articula\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre gozo e desejo como mostra a famosa frase &#8220;s\u00f3 o amor permite ao gozo condescender ao desejo&#8221;<a href=\"#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a>. Se o gozo \u00e9 sempre auto-er\u00f3tico, \u00e9 necess\u00e1rio que algo dele se perca para que uma falta advenha e o sujeito precise se dirigir ao Outro sob a forma de uma demanda. Sem falta n\u00e3o h\u00e1 desejo pois o desejo implica a castra\u00e7\u00e3o, o que quer dizer que a a\u00e7\u00e3o do significante sobre o corpo circunscreve limites ao gozo, suas condi\u00e7\u00f5es. No Semin\u00e1rio da ang\u00fastia Lacan esclarece que o amor \u00e9 sublima\u00e7\u00e3o, \u00e9 dignificar o objeto parcial, fazer dele a Coisa<a href=\"#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>. Nesse sentido o amor ama por engano, serve como v\u00e9u &#8211; i(a) &#8211; que encobre minha falta, mas permite algum acesso ao gozo pelo objeto mais-de-gozar.<\/p>\n<p>Pela via do simb\u00f3lico o amor precisa de certos tra\u00e7os, pelo imagin\u00e1rio precisa de uma imagem que vele a falta de objeto e pelo real ele assegura um peda\u00e7o de gozo, que satisfaz mas embara\u00e7a.<\/p>\n<p>Na busca pelo amor o que se encontra s\u00e3o seus pr\u00f3prios restos fantasm\u00e1ticos. Se soubermos lidar com isso, bem, a\u00ed \u00e9 para cair de boca.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. <em>Los divinos detalles.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2010, p. 143-162.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a> Freud, S. &#8220;Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens&#8221; (Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor I). <em>Obras completas<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. XI, p. 150.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a> Freud, S. <em>Ibid<\/em>., p. 151.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a> Freud, S. <em>Ibid..<\/em><\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a> Miller, J.-A. <em>Ibid<\/em>., p. 147.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a> Miller, J.-A. <em>Causa y consentimiento.<\/em> Buenos Aires: Paid\u00f3s, 2019, p. 349.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 11: os quarto conceitos fundamentais da psican\u00e1lise<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979, p. 254.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a> Freud, S. &#8220;Sobre a tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o na esfera do amor&#8221; (Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor II). <em>Obras completas<\/em>. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. XI, p. 166.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a> Lacan, J. <em>O semin\u00e1rio, livro 10: a ang\u00fastia<\/em>. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 197.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a> <em>Id.,<\/em> p. 197-199.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2478&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/5od-2ZOb1bc&#8221;][vc_single_image image=&#8221;2480&#8243; img_size=&#8221;250&#215;144&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;2479&#8243; img_size=&#8221;250&#215;144&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\">LI\u00c7\u00c3O V \u201cEL TABU DE UN GOCE\u201d DO CURSO DE<\/span><\/h3>\n<h6>JACQUES-ALAIN MILLER <em>LOS DIVINOS DETALLES<\/em>.<br \/>\nApresenta\u00e7\u00e3o de Heloisa Caldas<br \/>\nSemin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana de 02\/09<\/h6>\n<p>Miller no curso sobre <em>Os divinos detalhes<\/em> (1989) parte dos textos de Freud intitulados como <em>Contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 psicologia do amor<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. E sua chave de leitura \u00e9 o escrito de Lacan <em>A significa\u00e7\u00e3o do Falo<\/em>.<\/p>\n<p>Foi uma \u00e9poca fecunda para a transmiss\u00e3o de Miller. Ele deu confer\u00eancias sobre o tema que foram compiladas em uma colet\u00e2nea argentina chamada de <em>Logicas de la vida amorosa<\/em> (Manantial) e que depois apareceram traduzidas em portugu\u00eas em <em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana online n. 2<\/em>.<\/p>\n<p>As confer\u00eancias n\u00e3o coincidem exatamente com as aulas do curso. No entanto, veiculam seu trabalho sobre o tema naquele ano, guardando diferen\u00e7as apenas na arruma\u00e7\u00e3o dos pontos.<\/p>\n<p>Nas duas primeiras contribui\u00e7\u00f5es de Freud mencionadas, ele aponta ao campo do sagrado \u2013 interditado e amado, digamos assim \u2013 que equivale \u00e0 m\u00e3e, e o campo profanado e degradado, pelo exerc\u00edcio sexual, descrito pelo termo freudiano <em>Dirne<\/em>.<\/p>\n<p>Freud aponta primeiramente a uma particularidade na escolha feita por alguns homens de uma mulher ca\u00edda, antigamente se dizia assim, para elev\u00e1-la ao campo de uma mulher de respeito; trata-se de um particular que obedece \u00e0 tend\u00eancia universal de degrada\u00e7\u00e3o da mulher na vida sexual.<\/p>\n<p>Chama aten\u00e7\u00e3o o intervalo entre as duas primeiras e a terceira confer\u00eancia\u00a0 e acho que vale assinalar que, entre elas, Freud escreveu <em>Totem e tabu<\/em> (1913). Texto com o qual trabalha o campo de legitimidade que regula o acesso \u00e0s mulheres \u2013 que deixam de ser \u201cprivil\u00e9gio\u201d de um \u00fanico homem \u2013, e as rela\u00e7\u00f5es de troca e posse pela instaura\u00e7\u00e3o do tabu do incesto. Miller assinala que na terceira confer\u00eancia, <em>O tabu da virgindade<\/em>, Freud desloca a quest\u00e3o para o acesso ao gozo como tal,\u00a0 situando o impasse mais em torno do complexo de castra\u00e7\u00e3o do que do Complexo de \u00c9dipo como nas contribui\u00e7\u00f5es anteriores.<\/p>\n<p>Miller nos afirma que se trata do tabu de um gozo e que a Mulher \u00e9 tabu.\u00a0 \u00c9 poss\u00edvel fazer uma leitura desse texto destacando a virgindade como um valor. Na cultura se exige que aquele que quiser ter uma virgem obtenha de alguma forma uma autoriza\u00e7\u00e3o para isso. Esse \u00e9 o caminho do desejo. Mas Miller n\u00e3o fala tanto disso aqui. Ele destaca mais o acesso ao inomin\u00e1vel, digamos assim, que ele vem a chamar de <em>h\u00e9teros<\/em>, apontando que h\u00e1 sempre dificuldade de ter acesso a uma mulher porque ela \u00e9 <em>h\u00e9teros<\/em>. E h\u00e1 tamb\u00e9m seu reverso: a dificuldade das mulheres de suportar o homem. Essa dificuldade parece diminuir no segundo casamento, diz Freud, no entanto o mais relevante do texto \u00e9 que se acercar de uma mulher implica sempre um risco que se deve \u00e0 diferen\u00e7a que inexoravelmente n\u00e3o se apaga entre o significante e o gozo. Miller coloca o significante do lado do Mesmo e a alteridade do lado do <em>h\u00e9teros<\/em>. Isso vale para homens e mulheres pois para elas tamb\u00e9m h\u00e1 um <em>h\u00e9teros<\/em> (s\u00e3o Outras para si mesmas).<\/p>\n<p>\u00c9 importante distinguir aqui duas acep\u00e7\u00f5es de Outro. O Outro da lei, da cultura, da subjetividade coletiva que subsidia formas f\u00e1licas de gozo e o Outro do gozo que escapa ao regime f\u00e1lico. Da\u00ed Miller comentar que reivindica\u00e7\u00e3o de igualdade na parceria apaga a diferen\u00e7a sexual e amea\u00e7a o casamento contempor\u00e2neo. H\u00e1 uma dimens\u00e3o do feminino que sustenta a reinvindica\u00e7\u00e3o do Mesmo e, em termos de cidadania, isso \u00e9 necess\u00e1rio. Ele sublinha, no entanto, que, sem refutar isso, quando o movimento feminista ganhou for\u00e7a nos anos 70, Lacan deu seu semin\u00e1rio <em>Mais, Ainda<\/em> para lembrar que mulher \u00e9 alteridade, sustentando a diferen\u00e7a sexual em um plano psicanal\u00edtico que at\u00e9 hoje nos intriga. Ou seja, Lacan ressitua a diferen\u00e7a n\u00e3o mais em termos de valor relativo mas de valor absoluto.\u00a0 Uma diferen\u00e7a entre o gozo f\u00e1lico, que se pode falar e o Outro gozo escapa \u00e0s palavras e aos sentidos.\u00a0 E \u00e9 por escapar que pode ser criativo, mas tamb\u00e9m amea\u00e7ador. Por outro lado, no campo f\u00e1lico tem sido proveitoso que aqueles, em posi\u00e7\u00e3o de minoria pol\u00edtica, possam tomar a palavra para garantir seus direitos humanos, inclusive causados pelo que de seus gozos resta <em>h\u00e9teros<\/em>. Isso, no entanto, n\u00e3o alcan\u00e7a apagar a diferen\u00e7a sexual.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata mais da diferen\u00e7a anat\u00f4mica ainda que seja compreens\u00edvel que Freud tenha come\u00e7ado por a\u00ed. Trata-se de uma diferen\u00e7a l\u00f3gica. Com uma rede significante se pode identificar. Mas o gozo escapa \u00e0 rede. Logo ali onde os significantes apontam ao conhecido pode-se jogar com \u201co mesmo\u201d, permitindo as identifica\u00e7\u00f5es: do outro lado h\u00e1 um furo no saber.<\/p>\n<p>Assim n\u00e3o se trata de que o homem \u00e9 Outro para a mulher e a mulher \u00e9 Outra para o homem. Essa\u00a0 rec\u00edproca n\u00e3o \u00e9 verdadeira. Miller destaca muito isso. Uma mulher \u00e9 sempre alteridade, at\u00e9 para si mesma, no sentido em que mulher e gozo se aproximam. Talvez por isso, ressalta Miller, as mulheres passam tanto tempo diante do espelho a se buscar.<\/p>\n<p>Voltando ao tabu no acesso ao gozo, Miller comenta os conselhos dados aos homens, por Freud\u00a0 e por Lacan, para ter acesso ao er\u00f3tico.<\/p>\n<p>Freud aconselhava aos homens serem o segundo marido. Lacan\u00a0 comentava que os homens podiam abrir uma via atrav\u00e9s dos circuitos da linguagem, da conversa de sedu\u00e7\u00e3o, dos rodeios. Uma conversa que gira em torno de um vazio, ou de um furo: conversa vai, conversa vem, pelos lados, sem que se v\u00e1 diretamente ao ponto. Mas que as mulheres, por vezes, relatam que preferem os que tenha uma boa \u2018pegada\u2019 \u2013 dir\u00edamos em g\u00edria atual brasileira \u2013 talvez aquele que vai ao ponto sem muitos rodeios. No curso, Miller usa o termo sem \u2018<em>ambages<\/em>\u2019.\u00a0 Ou seja, os rodeios podem favorecer a inibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o que poderia facilitar ultrapassar a fronteira?<\/p>\n<p>\u00c9 sobre isso que Miller destaca o conselho de Lacan, mais complexo, e \u00e0s mulheres, explicando que os homens sem muito rodeios, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o perturbados pela castra\u00e7\u00e3o, em especial se a castra\u00e7\u00e3o se apresenta disfar\u00e7ada por um posti\u00e7o. Um posti\u00e7o n\u00e3o visa negar a exist\u00eancia da castra\u00e7\u00e3o, mas evoc\u00e1-la. Ou seja, fazer de conta que tem aquilo que n\u00e3o tem acende o tes\u00e3o dos homens. A opera\u00e7\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria a do travesti que quer fazer de conta, convincentemente, que n\u00e3o tem aquilo que tem.<\/p>\n<p>Podemos associar essa opera\u00e7\u00e3o de denega\u00e7\u00e3o exercida pelas mulheres com um\u00a0 porti\u00e7o, digamos assim, \u00e0 forma em que a encontramos o objeto na Arte cuja mostra\u00e7\u00e3o n\u00e3o obtura o fundo de vazio sobre o qual repousa em sua figura\u00e7\u00e3o, digamos assim.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o as maneiras, as formas de fazer (<em>fa\u00e7ons<\/em>), elencadas por Miller que n\u00e3o produzem um apagamento (<em>effac\u00e9ment<\/em>) da alteridade.<\/p>\n<p>Sabemos, no entanto, que se funcionam para virilizar, esses jogos n\u00e3o impedem a experi\u00eancia inexor\u00e1vel da insatisfa\u00e7\u00e3o pulsional &#8211; a n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual &#8211; promovendo o reviramento do amor em \u00f3dio e a consequente degrada\u00e7\u00e3o da mulher, inclusive pelo sujeito que habita um corpo de mulher, uma vez que ela, tamb\u00e9m se experimenta <em>h\u00e9teros<\/em> para si mesma e, com frequ\u00eancia, degrada isso em si e nas outras. N\u00e3o \u00e9 nem um pouco garantido que as mulheres se tenham em alta conta. Elas s\u00e3o em geral bem hostis umas \u00e0s outras. As parcerias m\u00e3es e filhas tamb\u00e9m n\u00e3o escapam desse mal-estar.<\/p>\n<p>Mas atualmente tudo se complica porque assistimos aos efeitos do decl\u00ednio dos significantes mestres da cultura e a instaura\u00e7\u00e3o de certas reviravoltas. Reviravoltas que trazem muitos benef\u00edcios em rela\u00e7\u00e3o ao insuport\u00e1vel da cultura machista.<\/p>\n<p>Mas nehuma revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 simples. Costuma trazer o germe contra o qual se op\u00f5e. Assim,\u00a0 em rela\u00e7\u00e3o ao Outro cultural, o significante das mulheres passou a ser <em>empoderamento<\/em>. Empoderadas passa a ser um novo adjetiva f\u00e1lico para uma mulher, somando-se a assim a outras figuras f\u00e1licas como a da m\u00e3e, da dona de casa, visando ampliar os horizontes do que pode enobrecer uma mulher: ser profissional, pensadora, produtora de cultura, al\u00e9m de combater a degrada\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Mas, infelizmente, n\u00e3o recobre o campo do gozo do <em>h\u00e9teros<\/em>. E este permanece enigma. Vejam, por exemplo, como a quest\u00e3o da propriedade do corpo passa atualmente por novos manejos. Como n\u00e3o h\u00e1 mais um Outro (pai) a quem se pedir a m\u00e3o de ningu\u00e9m (n\u00e3o que isso fosse bom, mas era o que regulava). Hoje temos uma regula\u00e7\u00e3o feminista que declara a propriedade da mulher sobre seu corpo: \u2018meu corpo minhas regras\u2019. Estamos ainda no campo do f\u00e1lico.<\/p>\n<p>E o <em>h\u00e9teros<\/em>? O desregrado? Como pode ser acolhido?<\/p>\n<p>Como pensar hoje o conselho de Lacan sobre o posti\u00e7o que n\u00e3o nega mais evoca se, no caso\u00a0 da mulher empoderada,\u00a0 n\u00e3o se trata de velar a falta de saber sobre o gozo, ao contr\u00e1rio, de exibi-lo como per\u00edcia. N\u00e3o se tem nada contra exibir a per\u00edcia, mas na parceria sexual essa exibi\u00e7\u00e3o n\u00e3o conv\u00e9m se servir para esquecer, ou pior recha\u00e7ar, que h\u00e1 algo enigm\u00e1tico no sexo.<\/p>\n<p>Haveria um rep\u00fadio ao feminino tanto na estrat\u00e9gia do empoderamento milenar dos homens, pois machismo \u00e9 poder, quanto na reposta contempor\u00e2nea das mulheres. Vale lembrar o apontamento de\u00a0 Freud, em <em>An\u00e1lise termin\u00e1vel ou intermin\u00e1vel<\/em>, ao rochedo da castra\u00e7\u00e3o e seu repudio por homens e mulheres. Com Lacan, esse ponto pode ser pensado como o imposs\u00edvel que det\u00e9m os anseios de um saber todo, sem furo. Os empoderados querem um saber todo e n\u00e3o querem lidar com o furo no saber?<\/p>\n<p>Parece ser a partir desse Todo que a guerra dos sexos vem culminando em feminic\u00eddio. O Todo leva aos polos extremo opostos que Agaben destaca no termo <em>Sacer<\/em>,\u00a0 que tanto quer dizer sagrado como maldito. O feminic\u00eddio parece ser dessa ordem: uma investida destrutiva e radical de passagem ao ato, pela qual, em vez de acesso ao que \u00e9 tabu (o sexo), temos um assassinato. E embora haja leis cada vez mais espec\u00edficas para combater isso o n\u00famero de casos s\u00f3 aumenta. Isso me levou a pensar em <em>Totem e tabu<\/em> pois traz uma l\u00f3gica que J\u00e9sus destacou no \u00faltimo f\u00f3rum sobre a Lei e a Viol\u00eancia no Rio. A implanta\u00e7\u00e3o de uma lei \u00e9 em si uma viol\u00eancia. E ele sublinha um aspecto que Freud tratou muito neste texto. Em <em>Totem e Tabu<\/em> trata-se de uma <u>incorpora\u00e7\u00e3o<\/u> da lei.<\/p>\n<p>Podemos pensar que as leis s\u00e3o herdeiras dos tabus, mas n\u00e3o o tabu em si. As leis possuem g\u00eanese, possuem uma explica\u00e7\u00e3o de como surgiram, quais grupos estavam interessados nessas leis e, nas democracias, podem ser modificadas; J\u00e1 os tabus, n\u00e3o. Por serem incorporados, s\u00e3o marcas no corpo, indel\u00e9veis dessa lei relativa ao gozo. N\u00e3o s\u00e3o tribut\u00e1rias de sentidos explicitados.<\/p>\n<p>Penso que talvez muito do recrudescimento do feminic\u00eddio se deva ao fato de que considerar as mulheres como iguais n\u00e3o foi incorporado, digamos assim, como lei. Talvez venha a ser, e isso levar\u00e1 a problematizar de outra forma o <em>heteros<\/em>. Talvez leve gera\u00e7\u00f5es para vir a ser. Tomara que seja!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o temos esse tipo de crime reagindo \u00e0 for\u00e7a de uma lei que n\u00e3o foi incorporada, uma lei que pelo empoderamento da mulher, garantisse sua condi\u00e7\u00e3o subjetiva de \u2018igual\u2019 ao homem. Pode ser que os atos de viol\u00eancia contra\u00a0 mulheres apare\u00e7am, como vingan\u00e7a pela perda de um gozo que foi supostamente subtra\u00eddo pela <em>mal dita<\/em> mulher. Com frequ\u00eancia, se d\u00e3o porque uma mulher rompeu sua rela\u00e7\u00e3o com aquele homem.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel pensar que o gozo Outro, que o feminic\u00eddio ataca,, esteja mais do lado do sujeito e o crime seja uma tentativa de extrair de si mesmo esse gozo, atribui-lo \u00e0 ex-parceira, quando pela perda dela o homem se feminizou. Miller aponta, nessa li\u00e7\u00e3o do curso, que ser enganado, tra\u00eddo, feminiza um homem (p.111).<\/p>\n<p>Corrobora nessa dire\u00e7\u00e3o, o fato de que a virilidade tamb\u00e9m sofre do decl\u00ednio do Nome do Pai caracter\u00edstico de nossa \u00e9poca. Se antes havia para os homens mais apoio \u00e0s identifica\u00e7\u00f5es de masculinidade no Outro cultural, atrav\u00e9s de lugares que lhe foram secularmente favorecidos, hoje em dia, a mulher disputa com o homem este campo e o faz, vemos isso todos os dias, de forma bastante habilidosa.<\/p>\n<p>O que resta para identificar o homem quando ele n\u00e3o \u00e9 mais o detentor do saber, o profissional competente, o provedor, a autoridade familiar? Resta a identifica\u00e7\u00e3o de sua virilidade no corpo. Infelizmente um apoio mais dif\u00edcil para defini-lo no lugar do Mesmo, t\u00e3o da ordem do significante, porque o \u00f3rg\u00e3o pertence mais ao corpo do que ao sujeito e opera a partir da vacila\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, se no ato do crime o sujeito se apaga e se confunde com o objeto, poder\u00edamos pensar que o autor do feminic\u00eddio \u00e9 movido por um gozo <em>infamiliar<\/em> em si mesmo, diante do qual o Eu se horroriza, e o sujeito se apaga levando \u00e0 certeza de matar algu\u00e9m para exorciz\u00e1-lo?<\/p>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> <em>Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens<\/em> (1910); <em>Uma tend\u00eancia universal \u00e0 deprecia\u00e7\u00e3o no amor<\/em> (1912); <em>O tabu da virgindade<\/em> (1918).<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2343&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/jnzgU0c4qBw&#8221;][vc_single_image image=&#8221;2414&#8243; img_size=&#8221;250&#215;144&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_single_image image=&#8221;2413&#8243; img_size=&#8221;250&#215;144&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<a name=\"angela\"><\/a><\/p>\n<h3><span style=\"color: #993300;\">O Tabu de um Gozo<\/span><\/h3>\n<h6>Angela Batista<\/h6>\n<p>Quando nos referimos as\u201d Contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor\u201d em Freud destacamos: 1 \u2013 Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem (1910); 2- Sobre a deprecia\u00e7\u00e3o da vida er\u00f3tica (1912); 3- O Tabu da Virgindade (1918) [1917]).<\/p>\n<p>De que trata ent\u00e3o as Contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor em Freud? Das quest\u00f5es que concernem a todos nos.\u00a0 Podemos afirmar que a vida amorosa freudiana \u00e9 o lugar dos impasses e do mal-entendido entre os sexos de como se relacionam e se escolhem uns aos outros. \u00c9 o tema da escolha de objeto. Freud introduz na problem\u00e1tica da vida amorosa o complexo de castra\u00e7\u00e3o onde destaca o princ\u00edpio da deprecia\u00e7\u00e3o do homem pela mulher e a hostilidade da mulher para com o homem.<\/p>\n<p>Nessas contribui\u00e7\u00f5es a psicologia do amor vemos o que determina o percurso do sujeito em dire\u00e7\u00e3o ao Outro, na perspectiva do amor, do desejo e do gozo. Escolhi trabalhar a terceira contribui\u00e7\u00e3o \u201cO Tabu da virgindade\u201d. A partir de uma frase que me pareceu preciosa; \u201ca libido freudiana tem a cor de um vazio\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>. Vazio que coloca no centro do amor o objeto pequeno <em>a<\/em>. \u00a0Miller em seu simp\u00f3sio sobre o amor, fala que essas contribui\u00e7\u00f5es s\u00e3o contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 doutrina do gozo.<\/p>\n<p>Nessa terceira confer\u00eancia, Freud se pergunta sobre o acesso ao gozo, destacando o complexo de castra\u00e7\u00e3o e de seus impasses. A n\u00e3o complementariedade entre os sexos, indica diferentes formas de amar. O objeto de amor para um homem toma a forma fetichista em sua condi\u00e7\u00e3o de objeto a. O homem reveste a mulher como o falo para apagar o horror da castra\u00e7\u00e3o e para deseja-la. O gozo feminino se situa do lado do amor, na valoriza\u00e7\u00e3o pelas mulheres do amor em rela\u00e7\u00e3o ao desejo.<\/p>\n<p>Do deslocamento da m\u00e3e a mulher; o que se coloca nessa terceira conferencia \u00e9 que a mulher \u00e9 um Tabu. O tabu da virgindade que com Lacan, se situa mais al\u00e9m das formulas da sexua\u00e7\u00e3o, <em>no gozo<\/em>, sempre outro. \u00a0Talvez pus\u00e9ssemos perguntar se o Tabu n\u00e3o seria apenas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher, mas ao gozo feminino, ao Outro gozo. Em todas as culturas h\u00e1 uma forma de regular o gozo, que no caso da mulher seria uma pressa em inscrever o gozo f\u00e1lico para tratar o ilimitado desse Outro gozo, do qual elas nada falam.\u00a0 Esse Outro gozo n\u00e3o est\u00e1 referido ao objeto, sequer ao gozo f\u00e1lico, mas a S (A) barrado, imposs\u00edvel de simbolizar. Essa defini\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m das posi\u00e7\u00f5es sexuadas, que n\u00e3o deixam de ser identifica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o anulam as formulas da sexua\u00e7\u00e3o, mas que mostram um gozo ilimitado, devastador.<\/p>\n<p>As condi\u00e7\u00f5es do amor se apresentam a partir de uma ren\u00fancia pulsional onde algo do imposs\u00edvel se manifesta nas parcerias amorosas. \u00a0Nesse sentido o caminho de Freud chega ao Tabu, que \u00e9 da ordem do n\u00e3o tocar, n\u00e3o ir al\u00e9m, chegando a mulher como Tabu, dado que a mulher \u00e9 do pai. Freud assim parte das condi\u00e7\u00f5es do amor e chega ao Tabu, ao tabu de um gozo. A mulher \u00e9 tabu porque \u00e9 dif\u00edcil seu acesso aos homens. Assim como as mulheres de outra forma n\u00e3o suportam tamb\u00e9m os homens. Lembrando Freud, a \u00fanica esperan\u00e7a est\u00e1 no segundo matrimonio. Nesse sentido h\u00e1 um tabu generalizado a mulher. A mulher \u00e9 outra n\u00e3o semelhante, inclusive para si mesma, representando o lugar de \u201cHeteros\u201d o Outro absoluto em sua radical alteridade. N\u00e3o seria esse o segredo das regras para o amor? Manter o enigma que a mulher encarna para sustentar um la\u00e7o poss\u00edvel entre os sexos?<\/p>\n<p>Nessas tr\u00eas contribui\u00e7\u00f5es Freud fala de substitui\u00e7\u00f5es e de met\u00e1foras e meton\u00edmias do objeto de amor.\u00a0 Da m\u00e3e enquanto proibida ao gozo imposs\u00edvel. Por isso Lacan pode dizer no Semin\u00e1rio sobre a \u00e9tica, que <em>das ding,<\/em> o gozo prim\u00e1rio \u00e9 a m\u00e3e. No amor freudiano s\u00f3 h\u00e1 substitutos. Nada de am\u00e1vel, diz Miller.\u00a0 A elei\u00e7\u00e3o introduz o objeto da satisfa\u00e7\u00e3o enquanto perdido. \u00a0No n\u00edvel do gozo como tal h\u00e1 a Coisa, das ding.\u00a0 Se h\u00e1 escolha de objeto, n\u00e3o h\u00e1 rela\u00e7\u00e3o sexual e os divinos detalhes apontam para castra\u00e7\u00e3o, para a mulher como tabu, fazendo da sua alteridade o princ\u00edpio da degrada\u00e7\u00e3o. Cito dois exemplos que revelam os impasses do amor, do desejo e do gozo na vida amorosa de dois personagens.<\/p>\n<p>Manon Lescault \u00e9 o romance citado por Miller, contado pelo abade Pr\u00e9vost, para falar da de como o amor feminiza na figura da mulher desleal, que encarna a mulher do desejo ( a puta)\u00a0\u00a0\u00a0 aquela mulher sempre do Outro. Manon \u00a0e seu \u00a0seu parceiro Des Grieux \u00e9 uma hist\u00f3ria de amor do tipo romance rosa. A desleal Manon signo da mulher indigna, e Des Grieux representa o pato, o enganado. O amor pela diab\u00f3lica que pertence a Outros. Manon revela algo de diab\u00f3lico e incivilizado quando interrogamos o\u00a0 \u201cque quer uma mulher, sen\u00e3o gozar do amor?<\/p>\n<p>A princesa de Cl\u00e8ves, e tamb\u00e9m uma cita\u00e7\u00e3o no curso de Miller sobre Os Divinos detalhes. Ao se apaixonar pelo Sr. de Nemours tem depois de muitos rodeios marca um encontro com ele e ela lhe revela sua paix\u00e3o.\u00a0 \u00a0Por causa disso, ela diz que ser\u00e1 o primeiro e \u00faltimo encontro deles. Ele fica at\u00f4nito e diz: Mas voc\u00ea me distinguiu dos outros homens. Justamente, ela lhe responde. Esse \u00e9 o obst\u00e1culo. Se eu o distingui isso pode acontecer a uma outra mulher. E se isso acontece, eu serei infeliz. Ele lhe fala de sua paix\u00e3o.\u00a0 Ela retruca dizendo que a paix\u00e3o n\u00e3o dura. Ela recusa conhecer a infelicidade do ci\u00fame. Entre suas razoes para renunciar revela a principal: Por vaidade ou por gosto, todas as mulheres lhe desejam. Outras mulheres o amar\u00e3o. Voc\u00ea me deixara.\u00a0 Os homens s\u00e3o inconstantes e infi\u00e9is. O \u00fanico homem que teria sido fiel a mim, \u00e9 o Sr. de Cl\u00e8ves que tinha uma \u00fanica raz\u00e3o para isso- eu n\u00e3o o amava. E encerra a conversa. \u00a0Assim ela prefere se exilar do amor, onde ser\u00e1 uma \u00fanica absoluta para seu amante, uma a menos para sempre<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>.<\/p>\n<p>Lacan, explicita essa impossibilidade no semin\u00e1rio livro 18: \u201cde um discurso que n\u00e3o fosse semblante\u201d onde mostra a conjun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o entre o gozo e o semblante. O Semblante \u00e9 o falo como o significante da diferen\u00e7a sexual. \u00a0O homem e a mulher se encontram na interse\u00e7\u00e3o entre dois gozos, que mostram o desencontro estrutural.\u00a0 Sendo assim a terceira contribui\u00e7\u00e3o de Freud revela o segredo das condi\u00e7\u00f5es de amor. Os atrativos femininos dependem de um v\u00e9u, em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00e3o ter, que se torna desejo. Essas condi\u00e7\u00f5es do amor s\u00e3o diversas formas de diminuir a alteridade da mulher sem faze-la desaparecer. A er\u00f3tica lacaniana seria a do homem sem rodeios (ambages), um homem que n\u00e3o temeria a mulher, ou que a mulher n\u00e3o fosse um tabu. O homem sem rodeios, seria aquele capaz de fazer parceria com a mulher como Outro. Lacan inventou um real pr\u00f3prio \u00e1 psicanalise. Um real que se alcan\u00e7a atrav\u00e9s da contingencia do amor. Essa contingencia demonstra a imposs\u00edvel harmonia do gozo que se encontrava velada pelos semblantes do amor. 1<\/p>\n<p>Trago para discuss\u00e3o a quest\u00e3o sobre as condi\u00e7\u00f5es do amor na atualidade, onde a mulher enquanto Outro radical, se desloca do Tabu que possibilita a diferen\u00e7a e que permite o la\u00e7o entre os sexos \u00a0para o \u00a0\u00f3dio, sem velamento da diferen\u00e7a, \u00a0atrav\u00e9s de actings e passagens ao ato, \u00a0a partir de uma diferen\u00e7a que precisa ser eliminada na nossa \u00e9poca do empuxo ao id\u00eantico . Byung Chul Han<a href=\"#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>, o filosofo coreano, diz que O trauma \u00e9 o sexual, mas que o violento \u00e9 o id\u00eantico. Laurent lembra de paradoxos do individualismo democr\u00e1tico de massa na autossufici\u00eancia do sujeito na atualidade no gozo que n\u00e3o faz la\u00e7o.<a href=\"#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a><\/p>\n<p>Gostaria que discut\u00edssemos a partir do texto de Miller o que pode regular o gozo das rela\u00e7\u00f5es entre os sexos, na atualidade, pensando a solid\u00e3o entre os sexos e os destinos da puls\u00e3o de morte, \u201c expuls\u00e3o do Outro do amor\u201d no apagamento da alteridade e de suas consequ\u00eancias, onde o Tabu a mulher se desloca para o \u00f3dio ilimitado \u00a0em detrimento \u00a0do enigma da\u201d cor do vazio\u201d, do Heteros do feminino.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a> Miller, J Alain-\u201c Os divinos Detalhes \u2013 1989- Grama Ed.\u00a0 Li\u00e7\u00e3o V \u2013 \u201cO tabu de um gozo\u201d.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>Naveau Pierre- Os Homens, as mulheres e os semblantes- Papers Congresso Semblantes e Sinthoma VII Congresso da AMP- Paris 2010<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a> Byung Chul Han\u201d A Expuls\u00e3o do Outro\u201d\u00a0 Ed Vozes<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a> Laurent Eric- El Traumatismo del final de la politica de las identidades-\u00a0 XVI Jornadas DA ELP 2017 Boletim<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/DJUISLKRPEs&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Os divinos detalhes- Uma apresenta\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6><em>Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna<\/em><\/h6>\n<h6>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana de 05\/08<\/h6>\n<p>Hoje depois de algumas semanas de ter apresentado no contexto do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana os primeiros dois cap\u00edtulos do curso de J.-A. Miller: Los Divinos Detalles<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, recupero aqui alguns aspectos que ficaram em minha memoria como mais relevantes. Sugiro aos leitores leiam os dois cap\u00edtulos j\u00e1 que eles possuem uma ampla gama de elementos que n\u00e3o se encontram presentes neste texto<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong>Sobre o titulo, algo da serie e do objeto<\/strong><\/span><\/p>\n<p>No primeiro capitulo do curso s\u00e3o abordados a escolha e fontes\u00a0 do titulo e logo a seguir se realiza um tra\u00e7ado que apresenta a proposta de trabalho. A mesma visa circunscrever e dar ao tema do gozo \u00a0um justo lugar.<\/p>\n<p>Assim s\u00e3o apresentados alguns termos retomados de um Freud Lacaniano: o prazer, a libido, a satisfa\u00e7\u00e3o, que permitir\u00e3o estudar as condi\u00e7\u00f5es do amor e do desejo na escolha do parceiro.<\/p>\n<p>A palavra detalhe inclu\u00edda no titulo tem uma inspira\u00e7\u00e3o \u00a0Nobokoviana, autor que recomendava a seus alunos de literatura nos EEUU que acariciassem os detalhes.<\/p>\n<p>Mas considero que a escolha do \u201cdetalhe\u201d obedece fundamentalmente a sua raiz etimol\u00f3gica \u00a0que indica corte, termo t\u00e3o caro \u00e0 psicanalise desde a elabora\u00e7\u00e3o dos objetos parciais, separados do corpo, em torno dos quais se produz a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional,- seio, fezes, falo, olhar e voz- transformados pelo trabalho de J. Lacan em objeto pequeno a.<\/p>\n<p>Cabe lembrar que o objeto pequeno a surge do encontro do vivo com a linguagem, opera\u00e7\u00e3o que divide o vivo ao entrar na maquina significante, \u00a0gerando por um lado, um sujeito dividido entre os significantes e por outro, um objeto resto, indivis\u00edvel, inassimil\u00e1vel ao significante.<\/p>\n<p>A partir dessa elabora\u00e7\u00e3o lacaniana a psican\u00e1lise ganha um novo instrumento para\u00a0 dar seu devido lugar ao detalhe, aquele que se repete, no qual habita algo do gozo fragmentado e fixado que denominamos de objeto a em suas diversas formas. Nesse sentido o dispositivo psicanal\u00edtico (associa\u00e7\u00e3o-livre-interpreta\u00e7\u00e3o) realiza sua opera\u00e7\u00e3o, sempre apoiada no detalhe, lugar onde mora algo de uma satisfa\u00e7\u00e3o que se reitera, satisfa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fecha um circulo, e que sempre transborda gerando mal-estar.<\/p>\n<p>A posi\u00e7\u00e3o do analista desde Freud se apoia na tradi\u00e7\u00e3o dos exegetas que interpretaram a b\u00edblia, dando destaque aos detalhes que giram em torno do Um \u00a0e que emergem no relato sob transfer\u00eancia. Por esta raz\u00e3o, J. A Miller diz que poder\u00edamos rebatizar o texto da \u201cInterpreta\u00e7\u00e3o dos sonhos\u201d como O <em>Talmud<\/em> dos sonhos, ou A psicopatologia da vida cotidiana como O <em>Talmud<\/em> dos lapsos. E diz mais ainda que se h\u00e1 um espirito da psican\u00e1lise, ele se respira nos detalhes.<\/p>\n<p>Mas na experi\u00eancia anal\u00edtica n\u00e3o se trata de prestar aten\u00e7\u00e3o a qualquer detalhe. O detalhe deve ter a qualidade ser divino. Como entender isso? N\u00e3o \u00e9 t\u00e3o f\u00e1cil. Em minha leitura entendo que esse divino alude ao lugar do resto, que se aloja no peda\u00e7o do corpo recoberto pela conex\u00e3o com a castra\u00e7\u00e3o (-j). Nessa articula\u00e7\u00e3o surge algo do divino que foi ilustrado por J. Lacan atrav\u00e9s da imagem do dedo levantado de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista pintada por Leonardo Da Vinci. O dedo que aponta para cima e para um lugar vazio no quadro indica algo do objeto resto-ca\u00eddo sublimado transformado em uma aus\u00eancia.<\/p>\n<p>O exemplo do encontro\u00a0 de Dante com Beatriz serve para pensar esse detalhe e sua eleva\u00e7\u00e3o para a categoria do divino. Dante diz: <em>\u201cH\u00e1 aqui um deus mais forte que eu que vem para ser meu senhor.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O detalhe que se encontra aqui divinizado \u00e9 solid\u00e1rio do objeto ca\u00eddo e suscita o amor e o desejo, alojando em sim um gozo situado no olhar de Beatriz.\u00a0 Podemos fazer a seguinte sequencia: Olhar de Beatriz-resto estranho-ap\u00eandice do corpo irredut\u00edvel ao significante (objeto causa) que se transforma em objeto do desejo ao ser recoberto por uma imagem.<\/p>\n<p>O psicanalista recorta o detalhe para promover uma separa\u00e7\u00e3o entre o objeto e suas vestes. Portanto n\u00e3o visa divinizar mais ainda o detalhe, sen\u00e3o faz\u00ea-lo cair para promover uma nova separa\u00e7\u00e3o do gozo ai fixado.\u00a0 Dessa separa\u00e7\u00e3o poder\u00e1 advir algo novo em termos de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O paradoxo do Zenon retomado em primeiro lugar por J. Lacan \u00e9 nesse texto novamente examinado para elucidar o que se passa entre Aquiles e a tartaruga. Aquiles \u00e9 r\u00e1pido, tem longas pernas, a tartaruga \u00e9 lenta, mas ele nunca a alcan\u00e7a. Ela sempre est\u00e1 um passo a frente.<\/p>\n<p>Esse paradoxo s\u00f3 pode ser \u00a0compreendido pela introdu\u00e7\u00e3o da maquina significante nos diz J.-A Miller e prop\u00f5e \u00a0substituir Aquiles 1 e Tartaruga 2 por um S1 e um S2. Essa rela\u00e7\u00e3o significante promove por um lado, um sujeito dividido (lan\u00e7ando Aquiles em uma corrida infinita) e por outro produz ai um ponto de parada, algo indivis\u00edvel, onde esta situado o objeto causa de desejo e de gozo divinizado e transformado em objeto de desejo.<\/p>\n<p>Sabemos que o tema do infinito e finito toca o percurso da an\u00e1lise desde Freud e com J. Lacan encontramos o\u00a0 matema objeto a que nos permite ir um pouco al\u00e9m do rochedo da castra\u00e7\u00e3o e elaborar o atravessamento da fantasia. Trata-se de tocar algo desse finito, o que incide na forma de gozar. Lembremos a indica\u00e7\u00e3o lacaniana que diz: O amor (de transfer\u00eancia) faz condescender o gozo ao desejo.<\/p>\n<p>A tartaruga, assim como a Beatriz (olhar) de Dante, \u00a0tem algo que atrai Aquiles.<\/p>\n<p>O que \u00e9? No caso de Aquiles \u00e9 casco que aloja o objeto pequeno a que evoca sincronicamente o escudo recebido pela sua m\u00e3e de Haefasistos para lhe entregar.<\/p>\n<p>Podemos perceber que o detalhe \u00e9 fundamental na vida amorosa na medida em que ele aloja algo do gozo fragmentado do peda\u00e7o de corpo cortado, que se apresenta sublimado, isto \u00e9 elevado \u00e0 categoria do divino, na medida em que se articula \u00e0 castra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong> Sobre o gozo: o detalhe na escolha do objeto<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Para encaminhar um pouco mais o tema sobre a satisfa\u00e7\u00e3o pulsional na escolha do parceiro J.-A Miller se serve das formula\u00e7\u00f5es freudianas sobre as puls\u00f5es, a primeira teoria pulsional \u2013puls\u00f5es do eu e de auto-conserva\u00e7\u00e3o vs. puls\u00f5es sexuais-, incluindo a teoria do narcisismo como um dos aspectos que for\u00e7a a Freud a produzir outra elabora\u00e7\u00e3o \u00a0sobre as puls\u00f5es: Eros vs. T\u00e2natos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m acrescenta \u00a0a afirma\u00e7\u00e3o de J. Lacan que diz que\u00a0 o gozo transcorre \u00a0\u00a0de Eros a Tan\u00e1tos, revelando desta forma \u00a0que a libido e a puls\u00e3o de morte s\u00e3o o mesmo, o que pode ser pensado como que h\u00e1 ai um casamento secreto entre ambos. A presen\u00e7a dessa alian\u00e7a se evidencia na exig\u00eancia libidinal da puls\u00e3o presente no imperativo moral, que resulta em um prazer que\u00a0 transborda continuamente produzindo um al\u00e9m do principio do prazer, isto \u00e9 um sofrimento.<\/p>\n<p>Do casamento secreto de Eros e T\u00e1natos\u00a0 J. -A Miller passa a propor uma outra quest\u00e3o: Porque nos casamos?<\/p>\n<p>Ele responde dizendo que haveria nesse ato do casamento uma renuncia a gozar de si. Nessa perspectiva surge o amor, que como j\u00e1 dissemos \u00e9 o que permite ao gozo condescender ao desejo. Lembrando que a raiz etimol\u00f3gica do desejo remete a lamentar uma aus\u00eancia dizemos que \u00e9 necess\u00e1rio aceitar a renuncia do\u00a0 gozo do pr\u00f3prio corpo, o que acarretar\u00e1 um\u00a0 lamento de uma aus\u00eancia, para poder passar por outro corpo. Passar pelo corpo do Outro. O detalhe tem ai nessa passagem um papel fundamental.<\/p>\n<p>A flechada e Eva \u00e9 o titulo do segundo capitulo que nos permitir\u00e1 aprender um pouco mais sobre o lugar do detalhe na escolha do objeto.<\/p>\n<p>J.- A Miller inspirado pelo trabalho do Rabino Reshi, l\u00ea o Pentateuco onde est\u00e1 a cria\u00e7\u00e3o do para\u00edso, do primeiro homem e da primeira mulher. Ele pensa que ser\u00e1 outra oportunidade de mostrar a origem do divino no detalhe que se lhe imputa ao amor.<\/p>\n<p>Lendo a letra do Pentateuco, temos a frase pronunciada por Ad\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cEsta&#8230; (agora, esta vez) \u00e9 osso de meus\u00a0 ossos, carne de minha carne. Ela ser\u00e1 chamada de mulher porque \u00a0do homem foi tirada.\u201d<\/p>\n<p>A escolha de Ad\u00e3o \u00e9 narc\u00edsica?\u00a0 A primeira vista parece ser.<\/p>\n<p>Lembremos os dois tipos de escolha do objeto apresentado no texto do narcisismo por Freud: a narcisista e a anacl\u00edtica, a primeira \u00e9 escolher o mesmo e na segunda escolher baseado na m\u00e3e.<\/p>\n<p>Segundo J.-A Miller, Ad\u00e3o, sem m\u00e3e n\u00e3o tinha como escolher Eva baseado na m\u00e3e, o que seria uma vantagem para ele. Mas Ad\u00e3o tem um \u00a0inconveniente que consiste em tomar Eva como dada por Deus-pai. Isto teria levado a escut\u00e1-la e acreditar nela, situa\u00e7\u00e3o que provocou o primeiro pecado original e sua consequ\u00eancia: a expuls\u00e3o do para\u00edso.<\/p>\n<p>Mas o que interessa aqui \u00e9 pensar que tipo de escolha foi a de Ad\u00e3o. Podemos dizer que aparentemente foi narcisista mas teve como substrato uma escolha anaclitica baseada na identifica\u00e7\u00e3o ao Deus pai.<\/p>\n<p>Ad\u00e3o se alegrou e acolheu Eva como se fosse ele mesmo. Ai esta o engano que acarretar\u00e1 como dizemos acima a primeira falta e o consequente castigo.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o detalhe que Rashi encontra no Pentateuco? Ele o localiza na frase: Esta, esta vez&#8230; interpretando-a que Ad\u00e3o haveria tido anteriormente rela\u00e7\u00f5es com animais. Mas a satisfa\u00e7\u00e3o se deu quando conheceu a Eva.<\/p>\n<p>Esse breve ap\u00f3logo segundo J.-A Miller distingue os seguintes elementos:<\/p>\n<p>Uma mulher- que \u00e9 o primeiro detalhe divino, talhado, recortado do corpo de Ad\u00e3o. Costela.<\/p>\n<p>Opera\u00e7\u00e3o divina realizada durante o tempo em que Ad\u00e3o dorme.<\/p>\n<p>Eva carrega em si o primeiro divino detalhe.<\/p>\n<p>Podemos dizer que houve ai uma escolha de objeto no sentido freudiano propriamente dito, o que produziria a seguinte afirma\u00e7\u00e3o: \u00c9 minha cada uma.<\/p>\n<p><span style=\"color: #993300;\"><strong> A import\u00e2ncia do detalhe no objeto<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A concep\u00e7\u00e3o do modelo de satisfa\u00e7\u00e3o estruturada como o beb\u00ea dormindo satisfeito no colo da m\u00e3e sofre uma reviravolta\u00a0 quando se verifica que a satisfa\u00e7\u00e3o passa pelo seio, objeto separado objeto parcial.<\/p>\n<blockquote><p>Lacan apreende e ensina como o significante estrutura, domina o desejo aludindo ao texto sobre o Fetichismo de Freud. Nesse trabalho encontramos \u00a0\u00a0a partir da inteligente percep\u00e7\u00e3o freudiana, a sutileza do detalhe que a mulher precisa possuir nesse caso para ser atraente, detalhe elevado a uma condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non<\/em> para produzir o desejo. \u00c9 o brilho-olhar no nariz inserido no mal-entendido produzido pela asson\u00e2ncia entre duas l\u00ednguas- alem\u00e3o ingl\u00eas) que se transforma\u00a0 em o fetiche que substitui o falo.<\/p><\/blockquote>\n<p>Freud se interessa desde os Tr\u00eas ensaios nas causas de escolha do objeto, indicando em diferentes momentos que a escolha \u00e9 sempre for\u00e7ada pelas condi\u00e7\u00f5es que ela exige demonstrando que a psicanalise se afasta de qualquer naturalidade na escolha do objeto. Em cada escolha forcada h\u00e1 um detalhe presente.<\/p>\n<p>Lembremos que toda a paisagem da escolha do objeto se realiza de forma independente do sexo do objeto. A liberdade se estende para todos os sexos. As restri\u00e7\u00f5es se situam depois, s\u00e3o produzidas pela opera\u00e7\u00e3o de sexua\u00e7\u00e3o dos corpos. Assim os homens e as mulheres somente se relacionam com seu objeto sexual de amor dando um rodeio pelas condi\u00e7\u00f5es mais ou menos precisas.<\/p>\n<p>Para finalizar apresento o matema inventado por J. \u2013A Miller para escrever a condi\u00e7\u00e3o do amor freudiana:<\/p>\n<p>a<br \/>\n____<\/p>\n<p>S2<\/p>\n<p>Encontramos duas vertentes: a da causa (objeto a) e a do saber (S2).<\/p>\n<p>O objeto causa do desejo precisa estar sustentado por certas condi\u00e7\u00f5es significantes \u00a0S2 (saber).<\/p>\n<p>Creio que este matema servir\u00e1 para os pr\u00f3ximos encontros sobre os divinos detalhes.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Miller, J.-A. (1989) Los Divinos Detalles, Buenos Aires, Paid\u00f3s. 2017.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2208&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/FKXzmYiejXM&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Algumas pontua\u00e7\u00f5es em torno dos coment\u00e1rios de Maria Silvia Hanna das duas primeiras li\u00e7\u00f5es do semin\u00e1rio de J.-A. Miller, <\/strong><em>\u201cDivinos detalhes\u201d:<\/em><\/span><\/h3>\n<h6><em>Ana Beatriz Freire<\/em><strong>\u00a0<\/strong><\/h6>\n<p>Hoje, abrimos nesse segundo semestre de 2019, a orienta\u00e7\u00e3o lacaniana pelo semin\u00e1rio de 1989, \u201cDivinos detalhes\u201d. Semin\u00e1rio de 30 anos atr\u00e1s que pode ser recortado de v\u00e1rias maneiras, por v\u00e1rios caminhos atrav\u00e9s das in\u00fameras\u00a0 refer\u00eancias, dentre outras, liter\u00e1rias e filos\u00f3ficas:\u00a0\u00a0 Madame Bovary, Proust- um amor de Swann, Jean Jacques Rousseau, Schiller, Edgar Allan Poe, Plutarco -sobre o corpo de Osiris- , Dante, Goethe, Gide, Rashi de Troyes que foi, como lembrou Maria Silvia,\u00a0 um exegeta do Talmud da Babil\u00f4nia, etc.<\/p>\n<p>Detalhar, como lembrou Maria Silvia com Miller, \u00e9 cortar em peda\u00e7os. Assim, a partir da leitura e pontua\u00e7\u00f5es j\u00e1 apresentadas por Maria Silvia desse semin\u00e1rio de Miller, recorto, dentre outras, algumas quest\u00f5es:<\/p>\n<blockquote><p>Para falar do amor, Miller retoma Freud, no texto \u201cSobre o narcisismo, uma introdu\u00e7\u00e3o\u201d, de 1914, destacando o termo freudiano elei\u00e7\u00e3o, escolha, de objeto. Nesse artigo, Freud postula dois tipos de escolha de objeto, afirmando que a pessoa pode amar segundo duas vertentes:<\/p><\/blockquote>\n<p>Primeiramente, pela escolha Narc\u00edsica (segundo o que ela pr\u00f3pria \u00e9, o que ela pr\u00f3prio foi, o que gostaria de ser, seus ideais e, por fim, escolhendo algu\u00e9m que foi parte dela mesma).\u00a0 Em seguida, a pessoa pode amar segundo uma escolha do tipo anacl\u00edtica ou de apoio (apoio, segundo Freud, nas ditas puls\u00f5es de autoconserva\u00e7\u00e3o): segundo, portanto, o modelo da mulher que a alimentou ou segundo o pai que a protegeu.<\/p>\n<p>Gostaria de colocar a quest\u00e3o do termo escolha, seja escolha narc\u00edsica seja anacl\u00edtica, de apoio:<\/p>\n<p>Como esses termos conversariam com as quest\u00f5es da sexualidade hoje, a partir dos movimentos LGBTQI? Colocamos a quest\u00e3o j\u00e1 que escolha n\u00e3o \u00e9 um termo aceito pelo movimento atual do LGBTQI e, por outro lado, o termo g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 um conceito da psican\u00e1lise. Al\u00e9m disso, a identidade de g\u00eanero n\u00e3o coincide necessariamente com a orienta\u00e7\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Para desenvolver essa discuss\u00e3o nos reportamos a confer\u00eancia de Marie-He\u0301le\u0300ne Brousse, intitulada Psicana\u0301lise, ge\u0302nero e feminismo proferida em Sa\u0303o Paulo, em 2015, assim como o artigo de Giselle Falbo em <em>Latusa<\/em> online, ano 7, n\u00famero 20, de julho de 2016,\u00a0 intitulado Sexualidade, g\u00eanero e corpo.<\/p>\n<p>2)\u00a0 Se no processo de an\u00e1lise n\u00e3o \u00e9, como afirma Miller, qualquer detalhe que nos interessa ouvir, destacar, e sim aqueles que s\u00e3o divinos por se repetir, poder\u00edamos situar esse \u201cUm\u201d divino na s\u00e9rie do Um que produz uma meia verdade?<\/p>\n<p>Teria o \u201ctodo unificado da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d rela\u00e7\u00e3o com o \u201c<em>il y a de L\u2019Un<\/em>\u201d, partitivo, de Parm\u00eanides tal como Lacan se refere no <em>Semin\u00e1rio 20<\/em>, <em>Encore<\/em>?\u00a0\u00a0 Esse todo crist\u00e3o teria rela\u00e7\u00e3o com o que, nesse <em>Semin\u00e1rio 20,<\/em> Lacan situa, na contram\u00e3o da <em>ontologia, <\/em>como substancia gozante?<\/p>\n<blockquote><p>Se, atrav\u00e9s do mito de Ad\u00e3o e Eva, Miller explicou a origem da mulher, primeiramente como escolha narc\u00edsica ( uma parte do que fui). Em seguida, como uma escolha de apoio, j\u00e1 que foi deus que a engendrou.<\/p><\/blockquote>\n<p>A partir dessas considera\u00e7\u00f5es m\u00edticas sobre a origem da mulher, perguntar\u00edamos como situar o feminino? Seria suficiente falar de escolha? Poderia o \u201cn\u00e3o todo\u201d do gozo feminino ser explicado pela identifica\u00e7\u00e3o e escolha tal como na solu\u00e7\u00e3o ed\u00edpica?<\/p>\n<blockquote><p>Sobre o amor, Miller comentando Lacan vai abordar pelo fetichismo, j\u00e1 que \u00e9 pelos objetos parciais, pelo \u201cn\u00e3o todo\u201d que amamos. Se o fetichista nega o p\u00eanis na mulher e busca se satisfazer com um objeto substituto, o amor seria a procura da outra metade que se perdeu tal como descrito por Arist\u00f3fanes no Banquete (cf. <em>Semin\u00e1rio 8,<\/em> sobre a transfer\u00eancia)? Seria o encontro com o objeto propriamente um reencontro? Como afirma Miller, retomando Freud (p.46), tratar-se-ia de um reencontro sempre faltoso, imposs\u00edvel de se completar, <em>amuro,<\/em> segundo a hip\u00f3tese da \u201cn\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual\u201d?<\/p><\/blockquote>\n<p>Miller, desenvolvendo o amor atrav\u00e9s do fetiche, retoma a abordagem freudiana do texto de 1927, a partir do equ\u00edvoco. Trata-se do equ\u00edvoco entre a express\u00e3o \u201c<em>Glance at the nos<\/em>e\u201d e a express\u00e3o em alem\u00e3o \u201d<em>Glanz auf der Nase<\/em>\u201d: o nariz que brilha em alem\u00e3o, era um <em>glance<\/em>. Em ingl\u00eas, l\u00edngua materna do paciente, <em>glance<\/em> quer dizer um \u201cvislumbre\u201d (na tradu\u00e7\u00e3o da <em>Standart<\/em>), relance ou o que mira. Podemos comparar esse brilho com o exemplo da lata de sardinha na Bretanha, descrita no <em>Semin\u00e1rio 11<\/em>, que ofusca e visa o pequeno intelectual parisiense por se encontrar deslocado? Ou melhor, fora do enquadro dos pescadores por ser uma lata industrial que brilha e ofusca a simplicidade da pesca artesanal do bret\u00e3o seria o objeto <em>a<\/em>, resto, o que visa, brilha, causando o sujeito no fetiche e no amor?<\/p>\n<p>No amor, a mirada sobre o nariz do Outro, segundo o exemplo do paciente de Freud, estaria escrita no olhar brilhante do sujeito, que como objeto nada mais seria que aquele que atrai os olhos? ( p.46).<\/p>\n<blockquote><p>Miller come\u00e7a a primeira li\u00e7\u00e3o, definindo o Um que n\u00e3o \u00e9 todo, pelo objeto <em>a<\/em> atrav\u00e9s do paradoxo do Aquiles e a tartaruga de Z\u00e9non: Aquiles, dos p\u00e9s ligeiros, detr\u00e1s da inalcan\u00e7\u00e1vel tartaruga que o precede, que se arrastando, o precede para sempre. Define o objeto <em>a<\/em> como o inalcan\u00e7\u00e1vel nessa aposta, como o que cai, designando o inapreens\u00edvel dos desfiladeiros entre os significantes, entre o tempo marcado pelo T1, sa\u00edda da tartaruga, e o o seguinte, T2 no percurso da tartaruga. Poder\u00edamos interrogar com Miller o princ\u00edpio do infinito, dizendo que se vai encontrar sempre uma metade para dividir (p.23). Ou como afirma Miller com Z\u00e9non, \u201cse cortarmos sempre a metade do que sobra, o resultado da torta n\u00e3o termina nunca\u201d, \u201cas partes do todo, por mais numerosos que sejam, n\u00e3o alcan\u00e7am nunca o todo\u201d (p.22)<\/p><\/blockquote>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca a partir do infinito e desse paradoxo seria em rela\u00e7\u00e3o ao lugar que ocupa a tartaruga: a tartaruga seria aquela inalcan\u00e7\u00e1vel e, portanto, a que causa o desejo? Ou aquela que representaria o i(<em>a<\/em>), o casco como v\u00e9u que envolve e vela o objeto real?\u00a0 O objeto <em>a<\/em> seria o inassimil\u00e1vel da s\u00e9rie temporal, aquilo que cai do serial significante, entre o T1 e o T2, entre tempo um e tempo dois ou a pr\u00f3pria tartaruga?[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/_I8n53hmEe0&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><strong>Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/strong><\/span><\/h3>\n<h6>Coordena\u00e7\u00e3o pelo Conselho da Se\u00e7\u00e3o Rio:\u00a0<em>Maria Silvia Garcia Fernandes Hanna\u00a0<\/em>(Presidente)<em>, Ondina Rodrigues Machado<\/em>\u00a0(Secret\u00e1ria)<em>, Heloisa Caldas, Marcia Zucchi, Paula Borsoi, Rodrigo Lyra de Carvalho.<\/em><\/h6>\n<p>Vivemos um estado de aten\u00e7\u00e3o, onde a civiliza\u00e7\u00e3o em seus v\u00e1rios aspectos se mostra inquietante e turbulenta.\u00a0Uma s\u00e9rie de acontecimentos no Brasil e no mundo vem oferecendo a oportunidade para que a psican\u00e1lise e os psicanalistas tomem a palavra, estudem e digam algo sobre a amea\u00e7a que paira sobre a dignidade de cada sujeito, come\u00e7ando por n\u00f3s mesmos. O la\u00e7o social e suas formas de regula\u00e7\u00e3o se encontram questionados pelo surgimento de um discurso de \u00f3dio que se multiplica, sem que tenhamos conseguido encontrar um modo de amortec\u00ea-lo. As ferramentas da psican\u00e1lise ajudam a fazer uma leitura, sem um saber pr\u00e9vio, que permita aprender algo sobre tais mudan\u00e7as, nas quais a palavra vem perdendo seu peso e sua for\u00e7a. Percebemos que h\u00e1 um real que se imp\u00f5e, pois \u201cos processos segregativos s\u00e3o imposs\u00edveis de serem regulados se n\u00e3o se consegue uma subjetiva\u00e7\u00e3o poss\u00edvel sobre sua causa\u201d (Ventura, O. \u201cLas raices del odio\u201d, in:\u00a0<em>F\u00f3rum de Mil\u00e3o<\/em>).<\/p>\n<p>Nesse caldo de discuss\u00e3o, em que a Escola se mant\u00e9m viva e palpitante, o Conselho da Se\u00e7\u00e3o Rio decidiu propor tr\u00eas encontros no primeiro semestre para o Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana. \u00d3dio, C\u00f3lera e Indigna\u00e7\u00e3o s\u00e3o as paix\u00f5es trabalhadas por Freud e Lacan e tamb\u00e9m\u00a0recolhidas, segundo o argumento do Enapol, \u201cda civiliza\u00e7\u00e3o, mais precisamente do campo das rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais em que nos inserimos hoje\u201d. Deste modo, propomos extrair dos textos escolhidos as consequ\u00eancias dessa situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea sobre a cl\u00ednica e a pol\u00edtica, abordando a incid\u00eancia do psicanalista e da psican\u00e1lise no mundo. Apresentaremos tr\u00eas textos para elaborar os temas do \u00f3dio, da c\u00f3lera e da indigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<ol>\n<li>\u00d3dio \u2013 Semin\u00e1rio sobre a transfer\u00eancia negativa \u2013 J-A Miller<\/li>\n<li>C\u00f3lera \u2013\u00a0<em>Comment se revolter<\/em>\u00a0\u2013 J-A Miller (em franc\u00eas, na biblioteca)<\/li>\n<li>Indigna\u00e7\u00e3o \u2013 O retorno da blasf\u00eamia \u2013 OL\u00a0 online 16 mar\u00e7o 2015<\/li>\n<\/ol>\n<p>Desde j\u00e1, convidamos\u00a0 todos a participar do debate, com o desejo de termos um \u00f3timo semestre de trabalho.<\/p>\n<p>Esperamos todos l\u00e1.<\/p>\n<h6><em>Paula<\/em><em>\u00a0Borsoi \u2013\u00a0<\/em>Presidente do Conselho Se\u00e7\u00e3o\u00a0Rio<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\">O psicanalista e as paix\u00f5es \u2013 o gosto do riso e a blasf\u00eamia<\/span><\/h3>\n<h6>Cristina Duba<br \/>\n03.06.19<\/h6>\n<p>Nos textos reunidos sob a rubrica\u00a0<em>Je suis Charlie<\/em>, JA Miller responde aos acontecimentos de 2015 em Paris, quando houve o massacre da reda\u00e7\u00e3o do jornal Charlie Hebdo, num ataque terrorista em resposta a charges publicadas com a figura de Maom\u00e9.<\/p>\n<p>Gostaria de extrair nesse coment\u00e1rio alguns aspectos que me pareceram centrais nas observa\u00e7\u00f5es de Miller. O primeiro deles diz respeito ao ressurgimento do valor da blasf\u00eamia em contraponto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o iluminista dos poderes da raz\u00e3o, t\u00e3o caros \u00e0 sociedade francesa. Num mundo em que a religi\u00e3o retoma seu reinado, o reinado do sentido, capturando o desejo exatamente dos segregados de uma Fran\u00e7a branca, este choque se deu exatamente na trincheira \u201ciluminista\u201d do humor. Ao denomin\u00e1-la como iluminista, estou privilegiando o lugar relevante, proeminente, que \u00e9 dado \u00e0 raz\u00e3o e aos princ\u00edpios que da\u00ed derivam e cujas bandeiras principais se escrevem sob a \u00e9gide dos universalismos extra\u00eddos da raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Ultraje a honra<\/strong><\/p>\n<p>Se considerarmos que a blasf\u00eamia se constitui exatamente neste ponto em que se golpeia o sagrado do Outro, onde o fundamento de uma cren\u00e7a \u00e9 ultrajado, insultado, atingido, no ponto em que se sustenta, podemos apreender que desperte a ira, a c\u00f3lera e, mais persistentemente, o \u00f3dio.<\/p>\n<p>O que parece ter surpreendido o mundo ocidental, a partir da Fran\u00e7a, n\u00e3o deve ter sido exatamente o massacre, a carnificina dos corpos, mas principalmente que essa f\u00faria, que n\u00e3o excluiu o planejamento minucioso do ato, tenha se dirigido a um jornal, a um ve\u00edculo primordialmente de discurso, de imagens e palavras, um jornal, ali\u00e1s, sem maior proje\u00e7\u00e3o, decadente, herdeiro de combates de outro momento. Mais propriamente das trincheiras de 68. Eu, por exemplo, que perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o p\u00f3s-68, do Rio de Janeiro, mas que sofreu diretamente essa influ\u00eancia e que cultuava o riso, o humor, que tinha Wolinski como uma esp\u00e9cie de pr\u00edncipe dos cartunistas, um dos que levava mais longe a iconoclastia iluminista, para al\u00e9m mesmo do politicamente correto, onde o direito a rir de tudo n\u00e3o encontrava quase barreira, posso verificar que isso mudou muito. Como disse Laerte, cartunista brasileiro e colaborador eventual do Charlie Hebdo, o humor encontrou limites \u00e9ticos, de forma mais r\u00e1pida que as demais artes.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0s cr\u00f4nicas de Miller, ele nos faz notar que os franceses reagiram a esse acontecimento e aos que se seguiram, aos ataques na mercearia kosher, com indigna\u00e7\u00e3o. Ao golpe de c\u00f3lera, ao instante do ato de terrorismo, os franceses reagiram com o afeto da indigna\u00e7\u00e3o, que sup\u00f5e primordialmente, a possibilidade de identifica\u00e7\u00e3o com o golpe sofrido pelo pr\u00f3ximo, pelo semelhante, por quem se compartilha o sentimento de humanidade, a fatia ultrajada a quem se reivindica dignidade. A indigna\u00e7\u00e3o que perdura por mais de um instante, um afeto mais duradouro.\u00a0<em>Je suis Charlie<\/em>, era esta a palavra-de-ordem a \u201ccomandar\u201d, ao menos, a \u201cjuntar\u201d a multid\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m nos faz notar, com a for\u00e7a de sua ironia, o s\u00fabito apaixonamento dos franceses pela pol\u00edcia. Nunca se clamou tanto pela ordem, quanto naquele momento em que um inimigo interno podia ser apontado, embora n\u00e3o se saiba bem onde. Um inimigo interno com seu gozo estranho, feito de sacrif\u00edcios e m\u00e1rtires e um deus obscuro aos ocidentais. Ondas de solidariedade se desencadearam, a partir desse sentimento de dignidade ferida e, assim, restitu\u00edda, recomposta, e que a indigna\u00e7\u00e3o arrebanhou. O que se revela a\u00ed, segundo Miller, n\u00e3o \u00e9 um louvor \u00e0s luzes, \u00e0s liberdades da Raz\u00e3o, mas um desejo de manter a ordem, um desejo de submiss\u00e3o, de servid\u00e3o volunt\u00e1ria, diante do temor ao gozo sombrio desse Outro que espreita em toda parte. Choque de gozos.<\/p>\n<p>No entanto, este mundo tamb\u00e9m foi confrontado por esse outro mundo que se indigna quando o cora\u00e7\u00e3o de sua f\u00e9, o sentido de sua f\u00e9, \u00e9 atingido, quando se sente insultado. Um insulto \u00e9 uma esp\u00e9cie de palavra-imagem que toca o imposs\u00edvel de suportar, a palavra mais pr\u00f3xima\u00a0 de uma bofetada. Um confronto de dignidades, poder\u00edamos supor, que acusa impasses dessas civiliza\u00e7\u00f5es que se chocam justamente porque se cruzam, se avizinham de um modo que possa beirar o intoler\u00e1vel. Sob o confronto de dignidades, o choque de gozos.<\/p>\n<p>Do lado dos humoristas, uma outra dignidade da qual, seja qual for a raz\u00e3o que se evoque, desde a mais desonrosa (sempre financeira), at\u00e9 a mais \u00edntima (a melancolia, a irresponsabilidade) n\u00e3o foi poss\u00edvel para eles se desprender, embora houvesse um risco anunciado: o fato \u00e9 que eles n\u00e3o recuaram desse princ\u00edpio de rir de tudo, rir de tudo, menos da possibilidade de rir.<\/p>\n<p><strong>O riso<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 o riso do c\u00f4mico, cujo exemplo extremo \u00e9 o pastel\u00e3o, \u00e9 o gozo que nos despertam as fraquezas, os trope\u00e7os, quando o que \u00e9 autom\u00e1tico revela o erro de seu funcionamento, surgindo o inesperado, como aponta Bergson, e que coincide com a com\u00e9dia do falo, como nos diz Lacan. E h\u00e1 o humor que descentraliza, que desliza, que vivifica pela iconoclastia, pela afinidade com o furo, pela aten\u00e7\u00e3o ao que escapa do furor do ideal, pela benevol\u00eancia cruel com a falha. \u00c9 o humor que revira o sentido, desliza, subverte o sentido que vigora, \u00e9 o humor que transgride. Este humor, marcado pelo\u00a0<em>non sense<\/em>, \u00e9 primordialmente n\u00e3o conformista e, embora se dirija ao Outro, se produz na solid\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, implica numa satisfa\u00e7\u00e3o pulsional que vivifica, mesmo o humor mais negro, ao revirar um sentido sinistro, introduz alegria no horror. \u00a0Lembro as piadas que autores como Viktor Klemperer relatam em seu di\u00e1rio na Alemanha nazista.<\/p>\n<p>Num mundo em que o pai responde com furor e capricho, n\u00e3o se suporta este riso que faz deslizar o sentido. Quando o discurso fundamentalista exige que n\u00e3o haja vacila\u00e7\u00e3o de sentido para que o del\u00edrio religioso se sustente e sustente seus devotos na cren\u00e7a absoluta, o imenso risco do fracasso torna a todos muito s\u00e9rios. Como dizia uma charge retratando revoltas populares na faixa de gaza nessa \u00e9poca: \u201dque gente estressada!\u201d O riso a\u00ed, o poder da com\u00e9dia ao revelar o derris\u00f3rio do falo, a precariedade do pai e do ideal, pode despertar as paix\u00f5es mais mort\u00edferas, o pr\u00f3prio \u00f3dio que se abriga sob a indigna\u00e7\u00e3o, por exemplo.\u00a0 A blasf\u00eamia que pode se apresentar nesse extremo do humor carrega ent\u00e3o uma face mort\u00edfera, quando seu agente n\u00e3o pode ceder desse gosto, desse gozo ao qual se condena n\u00e3o mais se apoiando no ideal do eu, mas nessa forma de gozo supereg\u00f3ico \u2013 do g\u00eanero:\u00a0 \u201cperder o amigo, mas n\u00e3o perder a piada\u201d. Assim, esse n\u00e3o conformismo do humor, como um valor do qual n\u00e3o se pode ceder, essa liberdade de tudo dizer, pode ser para o Outro do sentido um insulto, um ultraje, uma blasf\u00eamia.<\/p>\n<p><strong>Paradoxos<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel rir de tudo? Para a gera\u00e7\u00e3o de humoristas p\u00f3s-68, n\u00e3o. O humor, como as palavras, t\u00eam limites, a no\u00e7\u00e3o de responsabilidade pol\u00edtica pelo que se diz, o reconhecimento do poder e do perigo das palavras suplantou o gozo de tudo dizer. O reduto do \u201ctudo dizer\u201d ainda se encontra na psican\u00e1lise, que conhece os limites desse dispositivo e acolhe os pequenos dep\u00f3sitos dos gozos obscuros de cada um. Sem, no entanto, perder de vista a dignidade a extrair para cada um desses restos, afinal, a dignidade aponta para o que h\u00e1 de mais singular que marca e d\u00e1 valor a cada um. E at\u00e9 porque a psican\u00e1lise verifica o imposs\u00edvel de tudo dizer, a impot\u00eancia das palavras para dizer o real, a viol\u00eancia do insulto sempre anda por perto das palavras.<\/p>\n<p>Mas sabemos do radicalismo fascinante do humor de um Wolinski, por exemplo, que n\u00e3o recuava do direito iluminista de ir longe demais. Os perigos e fasc\u00ednios da raz\u00e3o. O quanto isso tinha de mort\u00edfero \u00e9 seu segredo agora.<\/p>\n<p>Retomando ainda: \u00e9 poss\u00edvel rir de tudo? N\u00e3o, porque a blasf\u00eamia est\u00e1 de volta, o que quer dizer que as palavras, bem como as imagens que falam, que s\u00e3o textos, e que nunca deixaram de insultar ao se dirigir ao ser do outro, inseridas na viol\u00eancia da linguagem, agora n\u00e3o s\u00e3o suportadas por esses ofendidos que se revoltam.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o de tudo dizer, de tudo rir, essa esp\u00e9cie de direito ao riso absoluto, ao confinar com o insulto ao gozo do pr\u00f3ximo, encontra um limite j\u00e1 no racismo que engendra com esse desprezo ao derris\u00f3rio da f\u00e9 estranha, estrangeira. Assim, podemos nos interrogar se o direito de rir de tudo j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necessariamente um insulto ao gozo do pr\u00f3ximo. Um fato de racismo, racismo de gozo. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno franc\u00eas, ou apenas de primeiro mundo. Est\u00e1 relacionado ao recrudescimento do sentido religioso. (Do lado da psican\u00e1lise, a quest\u00e3o se expressa mais no sentido do humor, menos do riso). De todo modo a mordacidade de qualquer riso, traz sempre a surpresa, a irrup\u00e7\u00e3o, nem sempre partilh\u00e1vel, mas emergindo de uma fonte t\u00e3o \u00edntima quanto estranha.<\/p>\n<p>Uma palavra sobre a dignidade. Se a dignidade evoca em cada um o que h\u00e1 de mais singular, o que singulariza o sujeito no mundo, ela se realiza no significante que o representa, est\u00e1 referida ao significante com o qual o sujeito se coordena, logo, \u00e0quilo do qual n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o, ao custo por vezes da vida, ou pelo menos, no campo onde essa aposta pode se dar, onde se transita no fio t\u00eanue que \u00e0s vezes separa o sacrif\u00edcio \u00a0do hero\u00edsmo, entre cair como peda\u00e7o de carne, ou morrer\u00a0 para fazer viver o significante, para preserv\u00e1-lo. Como diz Miller em outro texto, \u201cNota sobre a honra e a vergonha\u201d, morrer de vergonha para sustentar sua honra.<\/p>\n<p>Parece que nesse massacre, que teve ares de trag\u00e9dia, a nenhum dos dois lados, foi dado\u00a0<em>primmum vivere.\u00a0<\/em>A cada um dos lados n\u00e3o foi poss\u00edvel escolher a vida e perder a honra. Um dos lados morreu de vergonha, o outro morreu de rir.[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2181&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][vc_video link=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=MlU1yfPh9K0&#8243; align=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<div class=\"blog-post-title\">\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Coment\u00e1rio sobre o texto de Cristina Duba \u201cO psicanalista e as paix\u00f5es: o gosto do riso e a blasf\u00eamia\u201d<\/span><\/h3>\n<h6>Ondina Machado<br \/>\nSemin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana de 03\/06\/2019.<\/h6>\n<\/div>\n<p>De cara,\u00a0Cristina nos apresenta\u00a0o cerne da quest\u00e3o: \u201cressurgimento do valor da blasf\u00eamia em contraponto \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o iluminista dos poderes da raz\u00e3o\u201d. Em outras palavras,\u00a0a invas\u00e3o do oriente pelo ocidente, do discurso capitalista no discurso do mestre, da vacila\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao semblante na fixidez do sentido religioso. O choque est\u00e1 em desvelar o real da n\u00e3o rela\u00e7\u00e3o sexual atrav\u00e9s do golpe contra o sagrado do\u00a0outro que acredita na rela\u00e7\u00e3o sexual. \u00c9 um choque de civiliza\u00e7\u00f5es\u00a0em que\u00a0uma tenta de se impor a outra pela via de um suposto Ideal. Como golpe n\u00e3o faz diferen\u00e7a de que lado parte.<\/p>\n<p>No caso da blasf\u00eamia, a via \u00e9\u00a0a\u00a0do\u00a0insulto. Sempre \u00e9 poss\u00edvel questionar se se trata de blasf\u00eamia, de insulto,\u00a0a\u00a0s\u00e9rie de charges\u00a0publicada pelo\u00a0Charlie Hebdo\u00a0em torno de Al\u00e1, Maom\u00e9 e seus seguidores. Quem decide\u00a0o que \u00e9 ou n\u00e3o insulto? Sempre vale a m\u00e1xima de quem decide o sentido \u00e9 quem o recebe. Os atos n\u00e3o tem graus que possam por si s\u00f3 serem classificados ou n\u00e3o como violentos,\u00a0at\u00e9\u00a0mesmo a morte,\u00a0que em determinadas circunst\u00e2ncias ou nas m\u00e3os de bons advogados,\u00a0pode virar um ato her\u00f3ico.<\/p>\n<p>De modo geral,\u00a0\u00e9 poss\u00edvel dizer que o insulto toca no \u2018imposs\u00edvel de suportar\u2019 de cada um, o ponto de real para o qual n\u00e3o h\u00e1 significa\u00e7\u00e3o. O insulto ataca o ser do\u00a0outro presentificado em sua forma de gozar.<\/p>\n<p>No caso do Charlie Hebdo, devemos considerar que, mesmo decadente, se inseria numa cultura que tem como ideologia de\u00a0estado a Rep\u00fablica. A dignidade da Fran\u00e7a se alicer\u00e7a no ideal republicano da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mesmo que saibamos que a pr\u00e1tica desse ideal torna alguns menos livres, menos iguais e pouco\u00a0fraternos. As charges do Charlie confrontavam o eu ideal franc\u00eas com o Ideal do eu dos radicais.<\/p>\n<p>\u00c9 importante dizer que o Ideal dos jovens radicais n\u00e3o \u00e9 Al\u00e1, como nos esclarece Fethi Benslama. Para esse psicanalista franc\u00eas e estudioso do Isl\u00e3, o prop\u00f3sito desses jovens \u00e9 \u201cvingar sua vida\u201d, dar sentido as suas vidas pela ades\u00e3o ao radicalismo.\u00a0O \u201cEm nome de Al\u00e1\u201d, pronunciado nos ataques \u00e9 uma maneira, usando uma express\u00e3o da Cristina, de \u201cfazer viver o significante\u201d de um ideal pela via do gozo. Se fosse Ideal, esses jovens estariam\u00a0mais propensos a serem alcan\u00e7ados pelo Iluminismo franc\u00eas. Mas n\u00e3o \u00e9 isso que se v\u00ea. Cabe ent\u00e3o a pergunta feita por Laurent: \u00e9 um Ideal ou um gozo novo?<\/p>\n<p>Trata-se de uma gera\u00e7\u00e3o atravessada pela ascens\u00e3o do objeto na qual o ideal sofreu uma transforma\u00e7\u00e3o, passando a ser sustentado por um \u201cempuxo ao gozo\u201d. \u00c9 como se o ideal\u00a0tivesse se transformado em\u00a0gozo, portanto, uma nova configura\u00e7\u00e3o de gozo. Seria um ideal que produziria, atrav\u00e9s dos auto-sacrif\u00edcios, objetos de gozo \u2013\u00a0os m\u00e1rtires. S\u00e3o objetos que apontam o real da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, aquele que se quer crer livre, igual e fraterno. A originalidade desses objetos \u00e9 justamente a impossibilidade de serem reciclados, de serem reabsorvidos pela raz\u00e3o. Nesse caso,\u00a0poderia ser dito que a salva\u00e7\u00e3o pelos ideais se d\u00e1 ao torna-los objetos, dejetos.<\/p>\n<p>Assim, na radicaliza\u00e7\u00e3o encontramos o gozo do Um, o que \u00e9 um paradoxo porque em nome de um Ideal, supostamente comunit\u00e1rio, o que impera \u00e9 o gozo do Um. O que h\u00e1 \u00e9 o Um, como diz Lacan.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que\u00a0no nosso mundo capitalista,\u00a0sempre tem\u00a0uma\u00a0empresa\u00a0que\u00a0se prop\u00f5e\u00a0a vender, e at\u00e9 a criar, uma demanda que fa\u00e7a essa\u00a0transforma\u00e7\u00e3o do ideal em gozo.\u00a0Temos a\u00ed n\u00e3o s\u00f3 o Estado Isl\u00e2mico mas tamb\u00e9m a ind\u00fastria de armas.<\/p>\n<p>Qual efeito podemos considerar que o humor,\u00a0que n\u00e3o cede a fazer vacilar os semblantes,\u00a0possa ter sobre os jovens que buscam na radicaliza\u00e7\u00e3o um sentido para suas vidas?\u00a0O humor provoca o mal entendido, promove a ruptura entre significante e significado, portanto,\u00a0tem efeito traum\u00e1tico\u00a0porque levanta o v\u00e9u que cobre o real e demonstra que no sentido habita um sem sentido.\u00a0Lacan nos aponta dois caminhos poss\u00edveis\u00a0diante da ang\u00fastia\u00a0pela emerg\u00eancia\u00a0do\u00a0real: o do fantasma e o da passagem ao ato.\u00a0Por essas duas vias ter\u00edamos os indignados e os radicais.<\/p>\n<p>Sabe-se que nem todo jovem que se radicaliza vai para o sacrif\u00edcio, a maioria fica em fun\u00e7\u00f5es de apoio. Os que v\u00e3o para o auto-sacrif\u00edcio s\u00e3o, em geral, jovens de classes populares.\u00a0Os de classe m\u00e9dia (poucos)\u00a0ficam\u00a0nas fun\u00e7\u00f5es chamadas de intelig\u00eancia. Nos \u00faltimos tempos tem-se constatado, e tido acesso, a\u00a0cada vez mais relatos de jovens arrependidos\u00a0nos quais\u00a0fica clara a\u00a0busca\u00a0pelo gozo.<\/p>\n<p>Diante da vacila\u00e7\u00e3o generalizada dos semblantes que caracterizam a nossa cultura sub-vem a fixa\u00e7\u00e3o como defesa \u2013\u00a0o politicamente correto\u00a0\u00e9 respondido com\u00a0o \u201ctalquei\u201d. H\u00e1 um franqueamento entre indigna\u00e7\u00e3o e \u00f3dio, ou como diz Cristina, \u201cpode despertar as paix\u00f5es mais mort\u00edferas, o pr\u00f3prio \u00f3dio que se abriga sob a indigna\u00e7\u00e3o\u201d. A indigna\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m servir como combust\u00edvel ao \u00f3dio, como assistimos nas manifesta\u00e7\u00f5es de 2013 aqui no Brasil.\u00a0Foi a transforma\u00e7\u00e3o da indigna\u00e7\u00e3o\u00a0em \u00f3dio que elegeu o atual presidente de nosso pa\u00eds.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\">La Transferencia Negativa<\/span><\/h3>\n<h6><span style=\"color: #993300;\">Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211;\u00a006\/05\/2019<\/span><\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2012&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S78mzKs8FBY&amp;feature=youtu.be&#8221; align=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\">&#8220;Comment se Revolter&#8221;<\/span><\/h3>\n<h6><span style=\"color: #993300;\">Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana &#8211; 01\/04\/2019<\/span><\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_single_image image=&#8221;1979&#8243; img_size=&#8221;500&#215;500&#8243; alignment=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/2&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=_FAUROIwiD0&amp;feature=youtu.be&#8221; align=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column][vc_column_text] 2020 SEMIN\u00c1RIO DE ORIENTA\u00c7\u00c3O LACANIANA Coordena\u00e7\u00e3o: Conselho da EBP Se\u00e7\u00e3o Rio[\/vc_column_text][vc_column_text]&#8221;Pr\u00e1tica da Psican\u00e1lise em tempos de pandemia&#8221; \u00e9 o t\u00edtulo geral do Semin\u00e1rio de Orienta\u00e7\u00e3o Lacaniana, no qual o Conselho da Se\u00e7\u00e3o trabalhar\u00e1 o curso O Lugar e o La\u00e7o (2000-2001) de Jacques-Alain Miller. 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