{"id":1631,"date":"2018-02-20T18:40:18","date_gmt":"2018-02-20T21:40:18","guid":{"rendered":"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/?page_id=1631"},"modified":"2018-02-20T18:40:18","modified_gmt":"2018-02-20T21:40:18","slug":"intercambio","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/carteis-4\/intercambio\/","title":{"rendered":"Interc\u00e2mbio"},"content":{"rendered":"<section class=\"wpb-content-wrapper\">[vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]\n<div class=\"blog-post-title\">\n<h3><span style=\"color: #993300;\">Ecos do Enapol<\/span><\/h3>\n<h3>Ideal e gozo no terrorismo<\/h3>\n<h6>Ondina Machado<\/h6>\n<\/div>\n<p>H\u00e1 um afeto envolvido no terror? A luta do terrorismo isl\u00e2mico contra o Ocidente se baseia no \u00f3dio ao Ocidente? De qu\u00ea se alimenta o terrorismo?<\/p>\n<p><strong>Ideal ou um gozo novo<\/strong><\/p>\n<p>Parto da considera\u00e7\u00e3o esclarecedora de Laurent, em debate com dois estudiosos sobre o Isl\u00e3, durante o\u00a0<em>Pipol 7<\/em>, ocorrido em Bruxelas, em 2015. Os estudiosos s\u00e3o Feith Benslama, psicanalista de origem tunisiana, professor em Paris-Diderot, e Rachid Benzine, economista marroquino e estudioso dos textos cor\u00e2nicos. Ambos desenvolvem pesquisas sobre a ascens\u00e3o do terrorismo isl\u00e2mico. A partir das considera\u00e7\u00f5es feitas pelos dois islam\u00f3logos Laurent lan\u00e7a a seguinte indaga\u00e7\u00e3o: \u201co gozo daquele que se destr\u00f3i \u00e9 um retorno ao ideal, uma via rumo ao ideal ou antes uma via rumo a um novo gozo\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn1\" name=\"_ednref1\">[1]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 sobre esse recorte que quero trabalhar indagando se o que move os\u00a0<em>jihadistas<\/em>\u00a0\u00e9 uma causa religiosa, o afeto do \u00f3dio, ou, ao contr\u00e1rio, um tipo de gozo in\u00e9dito at\u00e9 os dias de hoje.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o sem a perspectiva do sujeito<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo dos s\u00e9culos, in\u00fameras invas\u00f5es e tentativas de ocidentalizar a cultura isl\u00e2mica foram justificativa para o \u00f3dio ao Ocidente. Depois do 11 de setembro, o medo intensificou o preconceito e serviu de justificativa para medidas de seguran\u00e7a adotadas no mundo inteiro, que t\u00eam como alvo principal os jovens mu\u00e7ulmanos. Al\u00e9m disso, s\u00edmbolos sagrados, como a figura de Al\u00e1 e de Maom\u00e9, s\u00e3o alvos de profana\u00e7\u00e3o e blasf\u00eamia, o v\u00e9u \u00e9 proibido nas escolas francesas e h\u00e1 dificuldade para conseguir emprego por causa das 5 ora\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. Enfim, tudo corrobora para o mal-estar, que Miller situa no corpo: \u201cN\u00e3o h\u00e1 corpo de mu\u00e7ulmano que n\u00e3o trema quando o herege blasfema\u201d, ou ainda, \u201ca blasf\u00eamia \u00e9 uma indec\u00eancia\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn2\" name=\"_ednref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m o ataque que corr\u00f3i bases dessa cultura: o discurso capitalista, os ideais iluministas, a promo\u00e7\u00e3o do individualismo, a flexibiliza\u00e7\u00e3o da moralidade, o laicismo, a libera\u00e7\u00e3o sexual, a igualdade de g\u00eaneros, dentre outras. Mas, para pensarmos o terrorismo a partir da psican\u00e1lise, devemos incluir nessa an\u00e1lise os fatores contingentes de um gozo para al\u00e9m das explica\u00e7\u00f5es sociais e culturais, ou seja, \u00e9 necess\u00e1rio humanizar o terrorista, como indicava Lacan<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn3\" name=\"_ednref3\">[3]<\/a>, advertidos por Miller a n\u00e3o nos deixarmos \u201chipnotizar pela causa\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn4\" name=\"_ednref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a contribui\u00e7\u00e3o de Benslama e Benzine, tomada pela via proposta por Laurent, traz uma perspectiva particular do que costumamos chamar de \u201cterrorismo isl\u00e2mico\u201d.<\/p>\n<p><strong>Quem s\u00e3o os terroristas?<\/strong><\/p>\n<p>Benslama insiste que n\u00e3o h\u00e1 um perfil do terrorista; no entanto, ressalta que eles s\u00e3o majoritariamente jovens mu\u00e7ulmanos entre 15 e 25 anos. Em geral s\u00e3o pobres, vivem em uma \u201cprecariedade subjetiva\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn5\" name=\"_ednref5\">[5]<\/a>\u00a0e clamam por justi\u00e7a social. De 2013 para c\u00e1 perceber-se a concorr\u00eancia de jovens origin\u00e1rios da classe m\u00e9dia que, diferente dos jovens pobres, clamam por autoridade e defini\u00e7\u00e3o clara das normas, buscando \u201cretra\u00e7ar as fronteiras entre a permiss\u00e3o e o proibido de uma forma expl\u00edcita\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn6\" name=\"_ednref6\">[6]<\/a>. Independente da classe social, t\u00eam em comum o sentimento de viverem em um mundo onde n\u00e3o h\u00e1 lugar para eles, de serem v\u00edtimas de uma ordem social e pol\u00edtica que os exclui e os discrimina por seus h\u00e1bitos, apar\u00eancia e costumes. Segundo Khosrokhavar, \u201co islamismo radical opera uma invers\u00e3o m\u00e1gica que transforma o desprezo de si em desprezo do outro e a indignidade em sacraliza\u00e7\u00e3o de si, mesmo que \u00e0 custa dos outros\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn7\" name=\"_ednref7\">[7]<\/a>. Essa invers\u00e3o parte de uma indigna\u00e7\u00e3o da qual os im\u00e3s se aproveitam para constru\u00edrem o \u00f3dio que justifica suas a\u00e7\u00f5es. O \u00f3dio n\u00e3o \u00e9 consubstancial \u00e0 viol\u00eancia, mas tem como propriedade fazer la\u00e7o social, nesse caso, forjando uma identidade.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente essa identidade que Benslama chama de \u201csuper-mu\u00e7ulmano\u201d, aquele \u201cque quer ser mais mu\u00e7ulmano do que o mu\u00e7ulmano que \u00e9\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn8\" name=\"_ednref8\">[8]<\/a>. Para tal, exacerbam os sinais externos de lealdade nas roupas que vestem, nos rituais que executam e na obsess\u00e3o pela pureza. Muitos s\u00e3o delinquentes que encontram na\u00a0<em>jihad<\/em>\u00a0uma forma de inscreverem-se no Outro de uma maneira nobre \u2013 \u201cvingar uma vida desvalorizada, adquirir um sentimento de exist\u00eancia superior tornando-se her\u00f3is\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn9\" name=\"_ednref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Segundo Benslama, a oferta de radicaliza\u00e7\u00e3o se beneficia das \u201cfalhas subjetivas para transform\u00e1-las em um desejo furioso de sacrif\u00edcio\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn10\" name=\"_ednref10\">[10]<\/a>\u00a0e fazer deles neo-m\u00e1rtires. O antigo m\u00e1rtir isl\u00e2mico morria sem querer, como consequ\u00eancia de sua profiss\u00e3o de f\u00e9. J\u00e1 o neo-m\u00e1rtir pratica o auto-sacrif\u00edcio pelo \u201cdesejo de morrer por \u00f3dio \u00e0 vida\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn11\" name=\"_ednref11\">[11]<\/a>. Morrem, \u00a0paradoxalmente, em busca de \u201cuma vida mais elevada\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn12\" name=\"_ednref12\">[12]<\/a>. Esses jovens que almejam uma subjetividade heroica pela via da viol\u00eancia, s\u00e3o designados por Khosrokhavar de \u201cher\u00f3is negativos\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn13\" name=\"_ednref13\">[13]<\/a>.<\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel perceber que, na causa\u00a0<em>jihadista<\/em>, o ideal se apresenta como express\u00e3o direta do supereu lacaniano, menos uma causa e mais uma tentativa desesperada de salvar-se da indignidade. Sabemos, por \u00a0Miller, que n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o pelo ideal, apenas pelo dejeto<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn14\" name=\"_ednref14\">[14]<\/a>. Ser\u00e1 que para esses jovens o auto-sacrif\u00edcio seria uma tentativa sublimat\u00f3ria de elevar-se como objetos \u00e0 dignidade de Coisa?<\/p>\n<p><strong>Como o ideal se torna gozo<\/strong><\/p>\n<p>Os jovens declaram querer \u201cvingar o ideal isl\u00e2mico ferido\u201d atrav\u00e9s da restaura\u00e7\u00e3o do califado, do retorno \u00e0s origens e \u00e0s funda\u00e7\u00f5es da f\u00e9. A express\u00e3o \u201cvingar a minha vida\u201d, presente nas cartas deixadas pelos suicidas \u00e0 suas fam\u00edlias, denota, segundo Laurent, um querer dar sentido \u00e0 vida, prop\u00f3sito de toda religi\u00e3o. Por\u00e9m, nessas cartas recolhidas por Benslama<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn15\" name=\"_ednref15\">[15]<\/a>, tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel verificar a emerg\u00eancia de um gozo paradoxal: esses jovens acreditam que ao se apresentarem a Deus em peda\u00e7os, conquistariam \u201cum m\u00e9rito real\u201d.<\/p>\n<p>Laurent identifica uma equival\u00eancia entre esse gozo e o mundo atual no qual \u201co Ideal do eu empalidece diante da eleva\u00e7\u00e3o ao z\u00eanite do objeto \u2018a\u2019, do gozo\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn16\" name=\"_ednref16\">[16]<\/a>. O autor demonstra a ascens\u00e3o do objeto em detrimento do ideal no desinteresse pelo estudo do Cor\u00e3o, na submiss\u00e3o \u00e0 uma \u201cpol\u00edcia de costumes\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn17\" name=\"_ednref17\">[17]<\/a>, na espetaculariza\u00e7\u00e3o das execu\u00e7\u00f5es e no recrutamento \u00e0 profiss\u00e3o de f\u00e9 via internet, uma esp\u00e9cie de califado digital. Ele evidencia \u201cuma altera\u00e7\u00e3o particular dos ideais que se at\u00e9m apenas a um empuxo-a-gozar, um empuxo-a-gozar de uma nova forma, que d\u00e1 um novo referente ao velho nome de m\u00e1rtir\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn18\" name=\"_ednref18\">[18]<\/a>. Assim, o m\u00e1rtir sai do campo do ideal e se transforma em um objeto que \u201cn\u00e3o pode ser absorvido no dispositivo da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn19\" name=\"_ednref19\">[19]<\/a>.<\/p>\n<p>Brousse ressalta a diferen\u00e7a da viol\u00eancia como forma de gozo daquela embalada por causas revolucion\u00e1rias. Se antes, revolu\u00e7\u00e3o era o S<sub>1<\/sub>\u00a0do discurso do mestre que movia as massas, hoje, o S<sub>1<\/sub>\u00a0\u00e9 a viol\u00eancia. O que mudou foi o lugar ocupado pela viol\u00eancia, pois na posi\u00e7\u00e3o de S<sub>1<\/sub>\u00a0ela \u201cregula a vida social, os valores, os ideais, as institui\u00e7\u00f5es\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn20\" name=\"_ednref20\">[20]<\/a>. O significante revolu\u00e7\u00e3o interpretava a viol\u00eancia, dava-lhe sentido; hoje \u201ca viol\u00eancia est\u00e1 descoberta, n\u00e3o interpretada\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn21\" name=\"_ednref21\">[21]<\/a>. Quando o \u00c9dipo era a norma, suas tramas engendravam o sentido. No al\u00e9m do \u00c9dipo novas formas de gozo deixam de ser exce\u00e7\u00e3o e, como tend\u00eancia, ocupam a posi\u00e7\u00e3o de agente do discurso do mestre. Assim, o objeto\u00a0<em>a<\/em>\u00a0\u00e9 capturado por um novo significante que toma o lugar do significante mestre: \u201conde havia a met\u00e1fora, h\u00e1 o real\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_edn22\" name=\"_ednref22\">[22]<\/a>, onde havia ideal, h\u00e1 gozo. Os restos do discurso do mestre antigo s\u00e3o hoje elevados \u00e0 posi\u00e7\u00e3o de S<sub>1<\/sub>, assim \u00e9 com a viol\u00eancia.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref1\" name=\"_edn1\">[1]<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9.\u00a0<em>O avesso da biopol\u00edtica.<\/em>\u00a0RJ: Contra Capa, 2016, p. 216.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref2\" name=\"_edn2\">[2]<\/a>\u00a0MILLER, J.-A. A \u201ccommon decency\u201d de Oumma. Acess\u00edvel:<\/h6>\n<h6>encurtador.com.br\/ABQZ5. Acesso: 25\/06\/2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref3\" name=\"_edn3\">[3]<\/a>\u00a0LACAN, J. \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o te\u00f3rica \u00e0s fun\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise em criminologia\u201d.\u00a0<em>Escritos<\/em>. RJ: Zahar, 1998. p.137.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref4\" name=\"_edn4\">[4]<\/a>\u00a0MILLER, J.-A. \u201cCrian\u00e7as violentas\u201d. Em:\u00a0<em>Op\u00e7\u00e3o Lacaniana<\/em>, n. 77, p. 28.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref5\" name=\"_edn5\">[5]<\/a>\u00a0BENSLAMA, F. Entrevista. Acess\u00edvel: encurtador.com.br\/dhoX0. Acesso: 25\/6\/2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref6\" name=\"_edn6\">[6]<\/a>\u00a0KHOSROKHAVAR, F. \u201cLe h\u00e9ros negatif\u201d. Em: BENSLAMA, F.\u00a0<em>L\u2019id\u00e9al et la cruaut\u00e9<\/em>. \u00c9ditions Lignes, 2015, p. 38<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref7\" name=\"_edn7\">[7]<\/a>\u00a0Id, p. 32.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref8\" name=\"_edn8\">[8]<\/a>\u00a0BENSLAMA, F.\u00a0<em>Op.cit<\/em>.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref9\" name=\"_edn9\">[9]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref10\" name=\"_edn10\">[10]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref11\" name=\"_edn11\">[11]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref12\" name=\"_edn12\">[12]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref13\" name=\"_edn13\">[13]<\/a>\u00a0KHOSROKHAVAR, F.\u00a0<em>Op. cit<\/em>., p. 30.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref14\" name=\"_edn14\">[14]<\/a>\u00a0MILLER, J.-A. \u201cA salva\u00e7\u00e3o pelos dejetos\u201d. Em:\u00a0<em>Perspectivas dos Escritos e Outros escritos<\/em>. RJ: Zahar, 2011, p. 227-233.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref15\" name=\"_edn15\"><strong>[15]<\/strong><\/a>\u00a0BENSLAMA, F.\u00a0<em>La guerre des subjectivities en Islam<\/em>. \u00c9ditions Lignes, 2014.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref16\" name=\"_edn16\">[16]<\/a>\u00a0LAURENT, \u00c9.\u00a0<em>Op. cit.<\/em>, p. 2016.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref17\" name=\"_edn17\">[17]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref18\" name=\"_edn18\">[18]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref19\" name=\"_edn19\">[19]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref20\" name=\"_edn20\">[20]<\/a>\u00a0BROUSSE, M-H. \u201cViolencia en la cultura\u201d. Em:\u00a0<em>Bit\u00e1cora Lacaniana, Violencia y explosi\u00f3n de lo real<\/em>. Abril, 2017, NEL\/ Grama Ediciones, p. 14.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref21\" name=\"_edn21\">[21]<\/a>\u00a0Id.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-ideal-e-gozo-no-terrorismo-por-ondina-machado\/#_ednref22\" name=\"_edn22\">[22]<\/a>\u00a0Id, p. 17.<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_column_text]\n<h3>O que pode brotar da indigna\u00e7\u00e3o<\/h3>\n<h6>Andrea Vilanova EBP-Rio<\/h6>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o nos interroga sobre seu lugar entre as paix\u00f5es e nos coloca a trabalho em busca de um enquadre que nos permita cernir sua estrutura, bem como, sua fun\u00e7\u00e3o nos tempos que correm. Ler o tema da indigna\u00e7\u00e3o com Miller, em \u201cComment se revolter?\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0e com H. Kaufmanner, em \u201cIndignai-vos, por\u00e9m\u2026\u201d<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0me conduz \u00e0 tentativa de leitura de uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstico-po\u00e9tica que parece conversar com a ideia do que poderia ser uma boa maneira de nos indignarmos.<\/p>\n<p>A perspectiva aberta pela orienta\u00e7\u00e3o lacaniana nos indica que a indigna\u00e7\u00e3o revela o estatuto reflexivo da posi\u00e7\u00e3o do sujeito frente ao Outro da priva\u00e7\u00e3o, como destaca Kaufmanner, de sua leitura com Miller: \u201cQuando esta visa ao Outro, a trajet\u00f3ria de sua flecha retorna sobre o pr\u00f3prio sujeito. Se a revolta aponta o Outro, aquele que priva, o sujeito mesmo \u00e9 afetado pelo retorno de sua indigna\u00e7\u00e3o sobre si mesmo[..]\u201d. Parece n\u00e3o haver escapat\u00f3ria. Do lado dos direitos humanos a perspectiva de fazer valer uma resposta guiada pela justi\u00e7a distributiva, do lado da psican\u00e1lise, estamos \u00e0s voltas com uma perspectiva advertida sobre a natureza do imposs\u00edvel de suportar subjacente \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o, como pr\u00f3prio a cada um. A cada um seu gozo, os \u00f4nus e b\u00f4nus dessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas como nos servirmos desta advert\u00eancia sem cair na desafeta\u00e7\u00e3o, sem nos desimplicarmos da vida pol\u00edtica, quando n\u00e3o podemos simplesmente ignorar o mundo no qual tomamos parte? A indigna\u00e7\u00e3o pode colocar em cena o imbricado jogo entre o singular do sujeito e o n\u00f3 de sua posi\u00e7\u00e3o no Outro social. Como transitar nesse movedi\u00e7o terreno que coloca o Um e o m\u00faltiplo em tens\u00e3o? O que fazer com o gozo de cada um que n\u00e3o se deixa assimilar, nem neutralizar, quando estamos \u00e0s voltas com outros, ao mesmo tempo em que nos contamos um a um?<\/p>\n<p>A cada dia me pergunto: como metabolizar o impacto da viol\u00eancia de um desgoverno absolutamente desimplicado diante das atrocidades que emanam de suas arbitrariedades, seguindo em frente como cidad\u00e3 e psicanalista? As palavras de Eve Miller Rose, na abertura do IX Enapol iluminaram um ponto de jun\u00e7\u00e3o e disjun\u00e7\u00e3o que me ajuda a interrogar o modo de compor o que retomo a partir de um lugar onde minha resposta como cidad\u00e3 n\u00e3o prescinde dos instrumentos de navega\u00e7\u00e3o que a psican\u00e1lise me oferece, ainda que n\u00e3o se trate de confundir meu lugar de cidad\u00e3 com meu lugar de psicanalista. Recolhendo o que pude ouvir de suas palavras, trata-se de reconhecer que tomar a \u00e9tica em termos de dignidade seria elevar o humano \u00e0 dignidade de sujeito. \u00c9 o que me orienta. Mas entre cidad\u00e3 e psicanalista n\u00e3o h\u00e1 equival\u00eancia, nem superposi\u00e7\u00e3o. Creio que, como psicanalista, estar advertida daquilo que em mim n\u00e3o encontra lugar na pol\u00edtica dos bens e direitos, me permite calibrar meu lugar de cidad\u00e3, meu modo de tomar parte no mundo, nos la\u00e7os a inventar com os outros. Nada disso \u00e9 dado de antem\u00e3o.\u00a0 Na aus\u00eancia de respostas pr\u00e9vias, sigo tentando aprender com a arte, lembrando com Freud e Lacan que o artista antecede o psicanalista. E assim, compartilho o que pude recolher de uma manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica de jovens poetas das favelas do Rio de Janeiro que t\u00eam feito de certo uso da palavra uma arma potente.<\/p>\n<p>H\u00e1 alguns meses fui surpreendida por um ataque po\u00e9tico. Uma fala testemunhal ecoa pelos vag\u00f5es da metr\u00f3pole. Os \u201cataques\u201d colocam a voz em primeiro plano. No meio de uma viagem qualquer, uma voz rompe o sil\u00eancio: \u201cAtaque!\u201d Imediatamente outros respondem: \u201cpo\u00e9tico!\u201d De repente algu\u00e9m recita: \u201cEm nome do amor se oprime, reprime e ilude\/Em nome da paz instaurada, a guerra mata um preto, dentro e fora da favela, a cada 23 minutos\u201d.<\/p>\n<p>O que haveria de po\u00e9tico nisso? Ainda que n\u00e3o seja poss\u00edvel um relato sem a fic\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca ao que a palavra pode oferecer, o dito realismo com que alguns cr\u00edticos se referem a esta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria contempor\u00e2nea<a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>, tem sido marca dessas manifesta\u00e7\u00f5es, onde o poeta grita urg\u00eancias a partir de uma fala auto-biogr\u00e1fica que necessariamente incorpora a dimens\u00e3o pol\u00edtica das urg\u00eancias sociais que enuncia. Um ataque de poetas perif\u00e9ricos, como eles pr\u00f3prios se apresentam, suscita surpresa e muitas perguntas. Seu uso da l\u00edngua para despertar os transeuntes e chamar sobre si alguma aten\u00e7\u00e3o, traz a marca da indigna\u00e7\u00e3o soletrada em palavras duras que retratam a viol\u00eancia e o abandono que marcam seu cotidiano. Imposs\u00edvel n\u00e3o ser afetado. Muitas s\u00e3o as vozes que se atravessam, harmoniosamente ou n\u00e3o, mas \u00e9 interessante notar o modo como rompem com o anonimato de uma corriqueira viagem num transporte urbano. Eles nos desarmam. Sua interven\u00e7\u00e3o incide sobre n\u00f3s, sobre cada um que aprecia a beleza ou hostiliza os \u201cesquerdopatas\u201d. Uma cena se monta. Sa\u00edmos do autismo hipn\u00f3tico diante das telas dos smartphones.<\/p>\n<p>Muitos eventos, desde o in\u00edcio dos anos 2000, v\u00eam se consolidando com a marca desse uso da l\u00edngua para retratar a realidade da vida nas favelas, num misto de catarse e produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, dita perif\u00e9rica, e que promove um reviramento ao interrogar onde ou qual seria o centro, j\u00e1 que se prop\u00f5em a testemunhar o drama que se faz seminal no centro de suas vidas, entre o que toca a todos ali e a cada um. Suas palavras escancaram a inexist\u00eancia do que quer que se possa chamar de sociedade, deixando expostas as valas comuns que exp\u00f5em o sem-valor da vida dentro da engrenagem do sistema do qual fazemos parte.<\/p>\n<p>Fazer da revolta arte, tocar o outro com suas palavras parece ser o nervo sens\u00edvel desse modo de produzir com a pr\u00f3pria voz uma audi\u00eancia que lhes ateste dignidade, reconhecimento e lhe renda dinheiro para sobreviver. Fazer da indigna\u00e7\u00e3o um ato de fala faz ecoar o princ\u00edpio de que \u00e9 preciso ser escutado para que o atributo de exist\u00eancia vigore, instaurando uma vida dentro da vida que chega a todos n\u00f3s pelas manchetes. E mais ainda, ao tomar a palavra de modo perform\u00e1tico, esses jovens fazem dela um proj\u00e9til que pode furar a massa de uns e instaurar Outro poss\u00edvel. Colocando a voz em cena d\u00e3o corpo a uma satisfa\u00e7\u00e3o que atravessa o desalento coletivo e faz vibrar o instante.<\/p>\n<p>Esses jovens n\u00e3o se apresentam como pobres pedintes. Passam o chap\u00e9u, de fato, mas \u00e9 a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico que lhes retorna e liga uma chave interessante, reatando um la\u00e7o, na vivacidade de um gesto que d\u00e1 testemunho de um antes e um depois do\u00a0<em>happening<\/em>\u00a0dentro do vag\u00e3o do metr\u00f4. A conting\u00eancia do encontro vigora e sua efemeridade faz vibrar a vida poss\u00edvel no meio de um dia como outro qualquer. Marcus Andr\u00e9 me perguntou qual seria a articula\u00e7\u00e3o entre o que fazem esses coletivos e o que ocorre em uma an\u00e1lise? A produ\u00e7\u00e3o de deslocamentos inauditos, respondi.<\/p>\n<p>A indigna\u00e7\u00e3o impactada pela surpresa de um encontro pode ressignificar um dia, produzir perguntas, provocar deslocamentos, instaurar brechas. Permite tornar v\u00edvida a diferencia\u00e7\u00e3o que Miller prop\u00f5e, ao colocar a queixa do lado de uma posi\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e a indigna\u00e7\u00e3o, como revela\u00e7\u00e3o de um imposs\u00edvel.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0La Cause Freudienne, n.75, juin, 2017.<\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup>[2]<\/sup><\/a>\u00a0<a href=\"https:\/\/ix.enapol.org\/es\/indignai-vos-porem-2\/\">https:\/\/ix.enapol.org\/es\/indignai-vos-porem-2\/<\/a><\/h6>\n<h6><a href=\"https:\/\/ebp.org.br\/rj\/2019\/10\/07\/ecos-do-enapol-o-que-pode-brotar-da-indignacao-por-andrea-vilanova\/#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup>[3]<\/sup><\/a>\u00a0Slans de poesia \u2013 batalhas de poesia falada<\/h6>\n[\/vc_column_text][vc_separator border_width=&#8221;3&#8243;][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2497&#8243; img_size=&#8221;300&#215;300&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/hc2xhbKrLU0&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2504&#8243; img_size=&#8221;300&#215;169&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2505&#8243; img_size=&#8221;300&#215;169&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]\n<h3><span style=\"color: #993300;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-2207 size-medium\" src=\"http:\/\/ebp.org.br\/rj\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Preparato\u0301ria-IX-Enapol-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/>PREPARAT\u00d3RIA IX ENAPOL \u00d3DIO, COL\u00c9RA E INDIGNA\u00c7\u00c3O<\/span><\/h3>\n<p><strong>O trabalho do psicanalista deveria ser fazer de todos poetas<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/strong><\/p>\n<h6>Renata Estrella e Andrea Vilanova<\/h6>\n<p>Entre os ataques po\u00e9ticos na cidade, as batalhas de SLAM tomaram for\u00e7a no Brasil a partir dos protestos de 2013, sendo uma luta de interven\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas, \u00e0s vezes com j\u00fari popular, competi\u00e7\u00f5es e pr\u00eamios, onde os versos carregam a intensidade de palavras de indigna\u00e7\u00e3o, que denunciam o genoc\u00eddio nas favelas, a opress\u00e3o contra mulheres, o racismo. O movimento surgiu nos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1980 com intuito de levar recitais de poesia da academia a um p\u00fablico mais popular. No Brasil, os SLAMs fizeram o caminho contr\u00e1rio, surgidos nas \u00e1reas mais pobres da cidade, conseguiram reverberar por toda parte. Em geral, as interven\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas nas batalhas carregam grande cr\u00edtica pol\u00edtico-social, tratando das diversas vertentes da segrega\u00e7\u00e3o desde sempre vivida pelas popula\u00e7\u00f5es mais carentes no Brasil.<\/p>\n<p>O que haveria de po\u00e9tico nisso? Um ataque de poetas perif\u00e9ricos, como eles pr\u00f3prios se apresentam, suscita surpresa e muitas perguntas. Seu uso da l\u00edngua para despertar os transeuntes e chamar sobre si alguma aten\u00e7\u00e3o, traz a marca da indigna\u00e7\u00e3o soletrada em palavras duras que retratam a viol\u00eancia e o abandono que marcam seu cotidiano. Imposs\u00edvel n\u00e3o ser afetado. Muitas s\u00e3o as vozes que se atravessam, harmoniosamente ou n\u00e3o, mas \u00e9 interessante notar o modo como rompem com o anonimato de uma corriqueira viagem num transporte urbano, por exemplo, nos desarmando. Uma cena se monta. Sa\u00edmos do autismo hipn\u00f3tico diante das telas dos smartphones. Sa\u00edmos do nosso espa\u00e7o protegido, talvez acomodado, amedrontado, impotente.<\/p>\n<p>Um pouco disso parece ter sido vivido na se\u00e7\u00e3o Rio de Janeiro\/ EBP em atividade preparat\u00f3ria ao IX ENAPOL, no dia 12\/08. Apostando no que a poesia pode nos ensinar sobre um tema que suscita experi\u00eancias como a fal\u00eancia da palavra, o esgar\u00e7amento do dizer, a passagem ao ato, diante do \u00f3dio, da c\u00f3lera e da indigna\u00e7\u00e3o, a comiss\u00e3o de biblioteca organizou uma conversa\u00e7\u00e3o com dois poetas, Let\u00edcia Brito e Alberto Pucheu. Al\u00e9m de poeta, Let\u00edcia \u00e9 produtora da cena carioca de poesia, atualmente integra a produ\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o do Slam das Minas RJ e \u00e9 autora do livro <em>Antes que seja tarde: para se falar de poesia<\/em>. Alberto Pucheu, poeta e ensa\u00edsta, \u00e9 professor de teoria liter\u00e1ria da Faculdade de Letras da UFRJ. Autor do livro de poesias <em>Para que poetas em tempos de terrorismos?<\/em> e do livro de ensaios <em>Que porra \u00e9 essa &#8211; poesia?<\/em><\/p>\n<p>O encontro parece ter presentificado, em nossa comunidade, a pot\u00eancia da poesia, que joga com o que poderia ser, o que n\u00e3o necessariamente \u00e9, mas existe, conforme lembrado por Alberto a partir da <em>Po\u00e9tica<\/em>. \u201cN\u00e3o \u00e9 of\u00edcio de poeta narrar o que aconteceu; \u00e9, sim, o que poderia acontecer\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, tomando <em>poderia<\/em> como tradu\u00e7\u00e3o da ideia de pot\u00eancia em grego. Ressoou como um encontro in\u00e9dito, que talvez produza perguntas, deslocamentos, instaure brechas.<\/p>\n<p>N\u00f3s que somos cidad\u00e3os e psicanalistas, n\u00e3o estamos alheios ao impacto da viol\u00eancia de um desgoverno absolutamente desimplicado diante das atrocidades que emanam de suas arbitrariedades. Como seguir em frente? A arte abriu em cada um de n\u00f3s presentes um sulco por onde seguir ali, naquele encontro, permitindo tornar v\u00edvida a diferencia\u00e7\u00e3o proposta por Jacques-Allain Miller<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, ao colocar a queixa do lado de uma posi\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e a indigna\u00e7\u00e3o, como revela\u00e7\u00e3o de um imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Esta parece ser uma das sa\u00eddas que temos encontrado para nuan\u00e7ar o \u00f3dio, a c\u00f3lera e a indigna\u00e7\u00e3o, como parece ter proposto Alberto ao retomar a <em>Il\u00edada<\/em>. Ele lembra que a primeira palavra da primeira poesia do Ocidente \u00e9 ira, um pedido \u00e0 Musa Ira para cantar, o que dispara a guerra de Tr\u00f3ia, por Homero, uma poesia. Assim, talvez, inventar diferentes modos de odiar, diferentes formas de se indignar, esgar\u00e7ando e incluindo no discurso o que hoje parece se apresentar s\u00f3lido e consistente, como uma rocha interrompendo o caminho. \u00c9 o que nos ensina Let\u00edcia com seu generoso testemunho e sua poesia que parecem fazer uso da palavra como uma arma potente, n\u00e3o sem ira, raiva e indigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>Fala de Let\u00edcia Brito \u00e0 se\u00e7\u00e3o Rio de Janeiro\/ EBP durante aconversa\u00e7\u00e3o preparat\u00f3ria ao IX ENAPOL, no dia 12\/08\/2019.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>ARIST\u00d3TELES. Po\u00e9tica. Tradu\u00e7\u00e3o Eudoro de Sousa. 2. ed. Imprensa Nacional \u2013 Casa da Moeda. 1990. S\u00e9rie Universit\u00e1ria. Cl\u00e1ssicos de Filosofia, p.451.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>MILLER, J.A. Comment se revolter?<em>La Cause Freudienne<\/em>, n.75, juin, 2017.<\/h6>\n<hr \/>\n<h3><\/h3>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<span style=\"color: #993300;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">O \u00faltimo poema<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<h6>Leticia Brito (trecho<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>)<\/h6>\n<p>A cada tr\u00eas minutos um palha\u00e7o comete suic\u00eddio<br \/>\nA cada trinta segundos de rotina, 47 poetas s\u00e3o mortos<br \/>\nCerca de 73% da popula\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria j\u00e1 foi, um dia, poeta<br \/>\nO genoc\u00eddio de artistas pelo capital tem dados alarmantes<br \/>\nE confirmando as estat\u00edsticas<br \/>\naqui jaz o poeta<\/p>\n<p>O poeta morreu<br \/>\nFoi sufocado por contas a pagar<br \/>\nhor\u00e1rios a cumprir<br \/>\ne metas a bater<br \/>\nA rotina matou o poeta<br \/>\nToda a sensibilidade foi congelada<br \/>\ne colocada em tubos de ensaio<br \/>\npara ser entendida por gera\u00e7\u00f5es futuras<\/p>\n<p>O poeta agora pensa dentro da caixa<br \/>\nPude ver seu corpo quase sem esperan\u00e7a<br \/>\nna porta do CCBB<br \/>\nrondando as esta\u00e7\u00f5es do metr\u00f4<br \/>\nesperando que algum amigo lhe ofere\u00e7a um livreto[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2272&#8243; img_size=&#8221;400&#215;225&#8243;][vc_video link=&#8221;https:\/\/youtu.be\/EQqjLohklJQ&#8221; align=&#8221;center&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text]<strong>\u00a0<\/strong><strong><span style=\"color: #993300;\"><span style=\"color: #000000;\">Para que poetas <\/span><\/span><\/strong><span style=\"color: #000000;\"><strong>Em tempos de terrorismos?<\/strong><\/span><\/p>\n<h6>Alberto Pucheu (trecho)<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/h6>\n<p>na disputa entre o estado e o terrorismo,<br \/>\nna concilia\u00e7\u00e3o do estado e as empresas<br \/>\npelo lucro do capital acima de tudo,<br \/>\nna sobreposi\u00e7\u00e3o do templo com o banco<br \/>\ndispondo a cada momento da f\u00e9 ou do cr\u00e9dito<br \/>\nde todo ex\u00e9rcito com as armas em sua defesa,<br \/>\nna defini\u00e7\u00e3o do dinheiro (que j\u00e1 foi chamado<br \/>\nde homem) como \u00fanico animal que bombardeia,<br \/>\nfico com as pessoas comuns, quaisquer,<br \/>\ncom os rios, os bichos e as matas, com os que sentem<br \/>\nna pele at\u00e9 n\u00e3o serem mais capazes de sentir.<br \/>\nterrorista, hoje, \u00e9 o outro, o que, coisificado, escapa<br \/>\n\u00e0s diversas escalas, maiores ou menores,<br \/>\nda \u00e9poca do pau de selfie que vivemos,<br \/>\nterrorista, hoje, repito, \u00e9 o outro, o inferno<br \/>\ndo outro, o outro enquanto inferno, terror.<br \/>\nabrir as portas para o mais pr\u00f3ximo, para o mais<br \/>\nparecido, para o semelhante, \u00e9 um gesto belo<br \/>\ne necess\u00e1rio, mas \u00e9 pouco quando, ao mesmo tempo,<br \/>\no outro, quem quer que seja o outro,<br \/>\no outro mesmo, o tido como o mais distante,<br \/>\n\u00e9 trancafiado do lado de fora, bombardeado,<br \/>\ne, antes, fabricado para ser exatamente o outro<\/p>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Brito, L. O \u00faltimo poema. Em Mel Duarte (org) Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta. Ilustra\u00e7\u00f5es de Lela Brand\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Planeta do Brasil, 2019. pp 105-107.<\/h6>\n<h6><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> PUCHEU, A. Para que poetas em tempos de terrorismos? Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial, 2017, p.21.<\/h6>\n[\/vc_column_text][\/vc_column][vc_column width=&#8221;1\/3&#8243;][vc_single_image image=&#8221;2273&#8243; img_size=&#8221;400&#215;225&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][\/vc_column][\/vc_row]\n<\/section>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row][vc_column width=&#8221;2\/3&#8243;][vc_column_text] Ecos do Enapol Ideal e gozo no terrorismo Ondina Machado H\u00e1 um afeto envolvido no terror? A luta do terrorismo isl\u00e2mico contra o Ocidente se baseia no \u00f3dio ao Ocidente? De qu\u00ea se alimenta o terrorismo? 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