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Seminário de Orientação Lacaniana

Maria Silvia Hanna (presidente do Conselho da Seção Rio)

O Conselho da EBP-Rio escolheu alguns capítulos do curso de J.-A. Miller intitulado Los divinos detalles[1] a partir dos quais serão apresentados alguns aspectos que visam cernir o estatuto do gozo no ensino de J. Lacan. O ponto de partida é o detalhe que acolhe o gozo e se coloca como uma condição para a escolha do objeto amoroso e sexual.

O que é o amor?

Ondina Machado
Seminário de Orientação Lacaniana – 07/10/2019

Na lição “Desejo, amor e pulsão”, do Curso Los divinos Detalles[1], Jacques-Alain Miller está em meio a um trabalho de releitura das três “Contribuições à psicologia do amor” de Freud sob a perspectiva da teoria do gozo de Lacan.

Só para lembrar, os textos de Freud que compõem essas “Contribuições” são: “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” de 1910, “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” de 1912 e o “Tabu da virgindade” de 1917. Na lição de seu curso, Jacques-Alain Miller vai examinar mais detidamente o que, nas duas primeiras “Contribuições”, condicionam a chamada “escolha” do objeto amoroso mostrando que nessas condições já podemos ler as condições de gozo.

O amor é um tema inescapável na psicanálise; em tudo que diz respeito a ele pisa-se em terreno pantanoso. Quase todos os conceitos psicanalíticos são convocados para falar do amor: o narcisismo, o Édipo, o desejo, o gozo, a pulsão, a não relação sexual, o objeto, o Outro, os afetos, a transferência. A lista é grande. Vou me ater apenas a alguns pontos que achei interessantes nessa aula do Miller. Sei que vou decepcionar os românticos e desagradar os desiludidos. Não tem jeito, o amor leva sempre a um certo fracasso, pois há nele um irrealizável.

Achei que para falar de amor seria prudente fazer algumas distinções. Vou apresenta-las em duplas, não necessariamente correspondentes. Elas me ajudaram a não me deixar enredar de todo por ele, só um pouquinho.

Assim temos:

prazer    //    satisfação

desejo    //    gozo

Amor    //      pulsão

i(a)        //        ‘a’

Então vejamos:

Pensei em dois eixos sob os quais o amor corre.

O do lado esquerdo pode ser chamado de eixo da “relação sexual”, ou eixo romântico. Neles coloquei os conceitos que sustentam a ilusão de completude. Também poderíamos chamá-lo de eixo Fabio Junior – ” As metades da laranja, Sonho lindo de viver, Tô morrendo de vontade de você!”

Nele estão o prazer a ser obtido na relação, o desejo a ser satisfeito, o amor como sonho de harmonia, de completude e o outrinho como objeto amoroso, a minha imagem ideal projetada – amo em ti aquilo que penso ser ou o que me falta para ser quem penso que sou.

O lado direito seria o eixo da “não relação”, da não proporção entre o meu amor e o seu, do desejo como falta. Assim, a satisfação aparece fora do circuito prazer-desprazer, o gozo está presente até no sofrimento, a pulsão é um eterno retorno, puro circuito em torno do objeto chamado ‘a’ porque indeterminado e, por ser indeterminado, pode ser qualquer um desde que cumpra funções determinadas, os “divinos detalhes”.

O jogo amoroso corre entre os dois eixos, ora como harmonia – “Ah! É ele!”, e ora como desalento – “Tenho o dedo podre”.

Na perspectiva romântica o prazer é harmonia, é a homeostase que o desejo vem desestabilizar porque o desejo é desejo de desejo. O objeto de desejo é substituível já que todos são substitutos da mãe. O amor é lindo porque supõe a existência da relação sexual. Porém, essa relação se dá no engano, tendo em vista que busco no outrinho o que não sou mas penso ser, ou busco nele meu complemento.

Já pela perspectiva da “não relação”, a satisfação não dá prazer. Nela o gozo é evitado e sempre buscado, ele sim é fixo, não há substituto. A pulsão é de morte e o objeto ‘a’ de objeto não tem nada, é um oco a ser contornado.

É a partir do embate entre esses dois eixos que falarei do amor.

O amor de Freud a Lacan:

A escolha de objeto no amor está, já em Freud, enredada na fantasia como resultado do complexo de Édipo. Dele resulta um objeto com o qual me identifico e que me direcionará ao objeto a ser amado. Esse movimento determina a escolha do objeto sexual, mas não só, pois não basta ter como objeto uma mulher ou um homem, tem que ser um certo tipo de mulher o de homem que ocupe um lugar determinado no jogo amoroso.

Se estabelecem assim “as condições necessárias ao amor, cuja combinação é ininteligível, e até desconcertante”[2]. Freud observa que essas característica se repetem em todos os objetos eleitos, durante toda a vida, e exigem do sujeito um “enorme dispêndio de energia mental”[3]. Trata-se, segundo Freud, de uma busca infindável, já que ao buscar um traço da mãe nas outras mulheres, não se encontra a mãe, só o traço. Está aí a “natureza compulsiva” que faz o sujeito buscar as mesmas características em diferentes objetos, ou seja, “os objetos amorosos podem substituir uns ao outros, tão amiúde, que se forma uma extensa série dos mesmos”[4]. A série denota que, por mais extensa que seja, a satisfação desejada não é alcançada.

De Freud, Lacan destaca que o amor entra no circuito do desejo e do gozo através de um certo modelo inconsciente e repetitivo presente no tipo de objeto a ser amado. Desse modo, a escolha tem menos a ver com o objeto (não é o objeto que me faz ama-lo) e mais com uma certa grade de supostos predicados que me direcionam à uma escolha forçada. Assim, vemos que nessa escolha nada há a ser escolhido, pois está ligada à precondições estabelecidas (divinos detalhes) e imposta ao sujeito. O que Freud observou foi um circuito inconsciente, indo do desejo ao gozo, que estabelece um certo caminho a ser percorrido, ignorado pelo sujeito, que faz dele refém quanto ao objeto a ser “escolhido”.

Porém, Lacan observa que nessa escolha há um elemento que descentra a relação entre amante e amado. Por isso Miller diz que, quanto ao amor, Freud é muito lacaniano na medida em que localiza nessa relação a incidência do Outro. A escolha, então, se daria numa Outra cena com a concorrência de um Outro que impede que a relação se estabeleça tão somente no eixo imaginário. Nesse sentido, Miller vai dar ênfase ao losango do fantasma à intermediando a relação do sujeito/eu com o outrinho. Por que ele faz isso? Primeiro porque não há relação direta entre o eu e o outro sem que algo da imagem compareça: imagem de si projetada no outro. A imagem tem como função velar a castração, e nesse velamento, seduzir. Nada no amor se dá sem o semblante, fazendo, muitas vezes, com que o jogo amoroso seja comparável a uma comédia. Segundo, porque o que parece ser uma escolha está irremediavelmente amarrada pela fantasia, pouco se escolhe no amor. A fantasia demarca condições que fazem com que seja um e não qualquer um o escolhido.

Quando Lacan destaca os dois tipos de escolha assinaladas por Freud, a narcísica e a anaclítica, ele as trabalha como modos de relação do sujeito com o outro semelhante levando em conta essa Outra cena. Miller usa o m de moi para designar o sujeito/eu e o i(a) para o outrinho, portanto, a imagem que construo do outrinho. Na forma narcísica se escolhe o semelhante como uma imagem ideal de si, enquanto na anaclítica se escolhe aquele que irá completa-lo. Ambas irremediavelmente determinadas pela fantasia.

A forma narcísica corresponde a uma pantomima, um teatro gestual de tipo cômico no qual o outro é uma superfície na qual deve aparece a imagem idealizada de si. m à i(a)

Recorte da clínica: uma jovem conhece um homem maduro no Tinder. Ele diz que, na sua idade, não pode mais errar. Para adiantar, manda para ela uma espécie de questionário com perguntas do tipo: Gosta de cozinhar? De lavar louça? Quer ter filhos? Ganha mais de 2.000 reais? Sabe dirigir? Se ficar sem dinheiro o que faz: pede emprestado ou corta a academia? Ele sabe o que quer, mas não quer o que diz querer, o seu i(a). Ela responde “não” a todas as perguntas: “só de raiva”, confessa. Mesmo assim ele insiste em conhece-la. Não à toa Jacques-Alain Miller diz que todo amor tem o modelo histérico. A posição amorosa é feminizante porque guarda o lugar do objeto, é “como objeto que você se propõe ao amor”. O romance não foi avante, pois sabemos o quanto essas exigências são feitas para decepcionar, justamente porque ao decepcionar, satisfazem.

A forma anaclítica funciona como um roteiro, como o argumento de um filme exibido na tela dos devaneios. O sujeito sonha com o parceiro ideal que irá complementá-lo. m à i(a) / $ àa. Aqui vemos sobrepor-se as duas dimensões do fantasia, a imaginária e a simbólica.

Recorte da clínica: uma mulher, muito crítica em relação aos homens, diz que eles se dividem entre idiotas e canalhas. Falando sobre a decepção que teve com o atual ficante, arremata: “ele é tão idiota que não tem perigo, para ele posso abrir a porta”. Ela deixa entrar os idiotas achando que com isso se protege dos canalhas. Nem idiotas nem canalhas, ela confessa querer um homem que cuide dela, mas sua estratégia a faz viver esse amor somente em seus sonhos.

O que se realiza no amor levando em conta que ele não existe fora da montagem fantasmática?

Gozo, prazer e satisfação:

Jacques-Alain Miller lembra da definição que deu do gozo lacaniano: uma fórmula composta pelos conceitos freudianos de libido + pulsão de morte. Segundo ele, é assim que Lacan opera a unificação dos dois conceitos através do termo gozo. O gozo serviria, então, à duas satisfações: a da libido e a da pulsão de morte. Ao incluir a pulsão de morte no gozo entende-se porque Lacan argumenta pela primazia do masoquismo sobre o sadismo, pois, segundo ele, quem primeiro sofre é o sujeito, não o outro, e conclui que a libido é também pulsão de morte. Essa definição da libido justifica o fundo masoquista do gozo. É também por isso que Lacan vai dizer que o gozo é sempre do corpo próprio, ou seja, ninguém goza com um corpo que não seja o seu.

Podemos aqui retomar os dois recortes que apresentei. Em ambos, o desejo enunciado não é alcançado, porém, uma satisfação é obtida. No caso do homem do questionário, o tempo que ele não tem a perder faz com que gaste a vida na procura do que diz querer. Porém, se encanta com aquela que diz não aos seus anseios mas satisfaz seu gozo auto-erótico. No caso da mulher desiludida entre idiotas e canalhas, podemos deduzir que sua busca por completude, calcada na imagem de um pai ideal, faz com que nenhum homem tenha chance com ela. Como boa histérica ela denuncia a falácia do falo e com isso se impõe um gozo que se apresenta como insatisfação.

Pela fórmula de Miller para o gozo – satisfação da libido pela pulsão de morte – temos um problema: se o gozo satisfaz, isso não seria o bastante?

Não, o gozo não satisfaz porque ele não se reconhece como tal[5]. O gozo é paradoxal: ele é satisfação, todavia sabe se si como sofrimento. O gozo é evitado porque é impossível viver o gozo, seria se entregar de todo à pulsão de morte. O gozo possível vem aos pedacinhos, nunca é todo.

Temos aí não só o tal fundo masoquista do gozo como também o sentimento de alteridade que o sujeito experimenta em relação ao seu próprio gozo.

Costumamos tomar o texto “Além do Princípio Prazer” como referência para falar de gozo, porém, cabe esclarecer, que o “além” do princípio do prazer não é tratado por Lacan como algo que se deduz de uma temporalidade. Não se trata do “depois” do prazer porque depois do princípio do prazer, para Freud, vem a realidade. O “além” do qual Lacan se vale, que também pode ser lido em Freud, é um além em relação ao binário prazer-desprazer, é o lust freudiano, que tanto pode ser traduzido por prazer como por gozo. É por esse modo de entendimento do “além” que Lacan vai falar de gozo. O gozo em Lacan pode ser satisfação desde que se entenda que é uma satisfação que está além do prazer mas “enlaçada” com ele de alguma forma, como aponta Miller no curso Causa y consentimento[6].

No amor, então, o sonho com o parceiro ideal vai se deparar com o parceiro sintomático, com aquele que nos seduz mais pelo que não tem e por isso pode encarnar nossa falta, condição fundamental ao amor, “dar o que não se tem”, segundo Lacan.

Essa condição se expressa ao recortar no amado um traço que evidencia um ponto de ignorância em nós mesmos a nosso próprio respeito – “Eu te amo, mas, inexplicavelmente amo em ti algo que é mais do que tu – o objeto a minúsculo, eu te mutilo”[7]. Essa frase se constrói na gramática pulsional do “amar–se amando”. Assim o traço, condição do amor, é condição de gozo. Ele não é objeto do desejo, mas antes, é causa de desejo. A causa é desconhecida porque do objeto ‘a’ só temos sua função, a necessidade estrutural.

Amor, desejo e gozo:

Parto da máxima freudiana de que quando se ama, não se deseja e que quando se deseja, não se ama[8]. A incompatibilidade do desejo com o amor tem em Freud o argumento da divisão experimentada pelos homens entre o sagrado e o profano, entre a mãe e a puta. Heloisa Caldas nos falou sobre isso no Seminário de Orientação Lacaniana passado. Segundo Freud, essa seria uma estratégia masculina que, curiosamente, aparece cada vez com mais frequência também nas mulheres. A mulher de quem falei acima escolheu para primeiro marido alguém que fosse um bom pai, para ela e para seus filhos. Ela diz que depois que viu ter conseguido o que queria, se separou. Buscou a análise exatamente com a demanda de querer saber “o que quer para si”, pois para seus filhos “já encontrou”.

O amor é uma modalidade da fantasia, um efeito de significação dessa fantasia, diz Miller. A significação pode vir pela via narcísica ou pela via anaclítica, desde que nela o objeto ‘a’ esteja oculto, velado. Nesse sentido o amor é uma defesa contra o gozo – onde amo não gozo, onde gozo não amo.

Nesse aspecto, a função do amor tem suma importância na articulação possível entre gozo e desejo como mostra a famosa frase “só o amor permite ao gozo condescender ao desejo”[9]. Se o gozo é sempre auto-erótico, é necessário que algo dele se perca para que uma falta advenha e o sujeito precise se dirigir ao Outro sob a forma de uma demanda. Sem falta não há desejo pois o desejo implica a castração, o que quer dizer que a ação do significante sobre o corpo circunscreve limites ao gozo, suas condições. No Seminário da angústia Lacan esclarece que o amor é sublimação, é dignificar o objeto parcial, fazer dele a Coisa[10]. Nesse sentido o amor ama por engano, serve como véu – i(a) – que encobre minha falta, mas permite algum acesso ao gozo pelo objeto mais-de-gozar.

Pela via do simbólico o amor precisa de certos traços, pelo imaginário precisa de uma imagem que vele a falta de objeto e pelo real ele assegura um pedaço de gozo, que satisfaz mas embaraça.

Na busca pelo amor o que se encontra são seus próprios restos fantasmáticos. Se soubermos lidar com isso, bem, aí é para cair de boca.


[1] Miller, J.-A. Los divinos detalles. Buenos Aires: Paidós, 2010, p. 143-162.
[2] Freud, S. “Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens” (Contribuições à psicologia do amor I). Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. XI, p. 150.
[3] Freud, S. Ibid., p. 151.
[4] Freud, S. Ibid..
[5] Miller, J.-A. Ibid., p. 147.
[6] Miller, J.-A. Causa y consentimiento. Buenos Aires: Paidós, 2019, p. 349.
[7] Lacan, J. O seminário, livro 11: os quarto conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979, p. 254.
[8] Freud, S. “Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor” (Contribuições à psicologia do amor II). Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1977. v. XI, p. 166.
[9] Lacan, J. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, p. 197.
[10] Id., p. 197-199.
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LIÇÃO V “EL TABU DE UN GOCE” DO CURSO DE

JACQUES-ALAIN MILLER LOS DIVINOS DETALLES.
Apresentação de Heloisa Caldas
Seminário de Orientação Lacaniana de 02/09

Miller no curso sobre Os divinos detalhes (1989) parte dos textos de Freud intitulados como Contribuições à psicologia do amor[1]. E sua chave de leitura é o escrito de Lacan A significação do Falo.

Foi uma época fecunda para a transmissão de Miller. Ele deu conferências sobre o tema que foram compiladas em uma coletânea argentina chamada de Logicas de la vida amorosa (Manantial) e que depois apareceram traduzidas em português em Opção Lacaniana online n. 2.

As conferências não coincidem exatamente com as aulas do curso. No entanto, veiculam seu trabalho sobre o tema naquele ano, guardando diferenças apenas na arrumação dos pontos.

Nas duas primeiras contribuições de Freud mencionadas, ele aponta ao campo do sagrado – interditado e amado, digamos assim – que equivale à mãe, e o campo profanado e degradado, pelo exercício sexual, descrito pelo termo freudiano Dirne.

Freud aponta primeiramente a uma particularidade na escolha feita por alguns homens de uma mulher caída, antigamente se dizia assim, para elevá-la ao campo de uma mulher de respeito; trata-se de um particular que obedece à tendência universal de degradação da mulher na vida sexual.

Chama atenção o intervalo entre as duas primeiras e a terceira conferência  e acho que vale assinalar que, entre elas, Freud escreveu Totem e tabu (1913). Texto com o qual trabalha o campo de legitimidade que regula o acesso às mulheres – que deixam de ser “privilégio” de um único homem –, e as relações de troca e posse pela instauração do tabu do incesto. Miller assinala que na terceira conferência, O tabu da virgindade, Freud desloca a questão para o acesso ao gozo como tal,  situando o impasse mais em torno do complexo de castração do que do Complexo de Édipo como nas contribuições anteriores.

Miller nos afirma que se trata do tabu de um gozo e que a Mulher é tabu.  É possível fazer uma leitura desse texto destacando a virgindade como um valor. Na cultura se exige que aquele que quiser ter uma virgem obtenha de alguma forma uma autorização para isso. Esse é o caminho do desejo. Mas Miller não fala tanto disso aqui. Ele destaca mais o acesso ao inominável, digamos assim, que ele vem a chamar de héteros, apontando que há sempre dificuldade de ter acesso a uma mulher porque ela é héteros. E há também seu reverso: a dificuldade das mulheres de suportar o homem. Essa dificuldade parece diminuir no segundo casamento, diz Freud, no entanto o mais relevante do texto é que se acercar de uma mulher implica sempre um risco que se deve à diferença que inexoravelmente não se apaga entre o significante e o gozo. Miller coloca o significante do lado do Mesmo e a alteridade do lado do héteros. Isso vale para homens e mulheres pois para elas também há um héteros (são Outras para si mesmas).

É importante distinguir aqui duas acepções de Outro. O Outro da lei, da cultura, da subjetividade coletiva que subsidia formas fálicas de gozo e o Outro do gozo que escapa ao regime fálico. Daí Miller comentar que reivindicação de igualdade na parceria apaga a diferença sexual e ameaça o casamento contemporâneo. Há uma dimensão do feminino que sustenta a reinvindicação do Mesmo e, em termos de cidadania, isso é necessário. Ele sublinha, no entanto, que, sem refutar isso, quando o movimento feminista ganhou força nos anos 70, Lacan deu seu seminário Mais, Ainda para lembrar que mulher é alteridade, sustentando a diferença sexual em um plano psicanalítico que até hoje nos intriga. Ou seja, Lacan ressitua a diferença não mais em termos de valor relativo mas de valor absoluto.  Uma diferença entre o gozo fálico, que se pode falar e o Outro gozo escapa às palavras e aos sentidos.  E é por escapar que pode ser criativo, mas também ameaçador. Por outro lado, no campo fálico tem sido proveitoso que aqueles, em posição de minoria política, possam tomar a palavra para garantir seus direitos humanos, inclusive causados pelo que de seus gozos resta héteros. Isso, no entanto, não alcança apagar a diferença sexual.

Não se trata mais da diferença anatômica ainda que seja compreensível que Freud tenha começado por aí. Trata-se de uma diferença lógica. Com uma rede significante se pode identificar. Mas o gozo escapa à rede. Logo ali onde os significantes apontam ao conhecido pode-se jogar com “o mesmo”, permitindo as identificações: do outro lado há um furo no saber.

Assim não se trata de que o homem é Outro para a mulher e a mulher é Outra para o homem. Essa  recíproca não é verdadeira. Miller destaca muito isso. Uma mulher é sempre alteridade, até para si mesma, no sentido em que mulher e gozo se aproximam. Talvez por isso, ressalta Miller, as mulheres passam tanto tempo diante do espelho a se buscar.

Voltando ao tabu no acesso ao gozo, Miller comenta os conselhos dados aos homens, por Freud  e por Lacan, para ter acesso ao erótico.

Freud aconselhava aos homens serem o segundo marido. Lacan  comentava que os homens podiam abrir uma via através dos circuitos da linguagem, da conversa de sedução, dos rodeios. Uma conversa que gira em torno de um vazio, ou de um furo: conversa vai, conversa vem, pelos lados, sem que se vá diretamente ao ponto. Mas que as mulheres, por vezes, relatam que preferem os que tenha uma boa ‘pegada’ – diríamos em gíria atual brasileira – talvez aquele que vai ao ponto sem muitos rodeios. No curso, Miller usa o termo sem ‘ambages’.  Ou seja, os rodeios podem favorecer a inibição.

E o que poderia facilitar ultrapassar a fronteira?

É sobre isso que Miller destaca o conselho de Lacan, mais complexo, e às mulheres, explicando que os homens sem muito rodeios, não são tão perturbados pela castração, em especial se a castração se apresenta disfarçada por um postiço. Um postiço não visa negar a existência da castração, mas evocá-la. Ou seja, fazer de conta que tem aquilo que não tem acende o tesão dos homens. A operação é contrária a do travesti que quer fazer de conta, convincentemente, que não tem aquilo que tem.

Podemos associar essa operação de denegação exercida pelas mulheres com um  portiço, digamos assim, à forma em que a encontramos o objeto na Arte cuja mostração não obtura o fundo de vazio sobre o qual repousa em sua figuração, digamos assim.

Estas são as maneiras, as formas de fazer (façons), elencadas por Miller que não produzem um apagamento (effacément) da alteridade.

Sabemos, no entanto, que se funcionam para virilizar, esses jogos não impedem a experiência inexorável da insatisfação pulsional – a não relação sexual – promovendo o reviramento do amor em ódio e a consequente degradação da mulher, inclusive pelo sujeito que habita um corpo de mulher, uma vez que ela, também se experimenta héteros para si mesma e, com frequência, degrada isso em si e nas outras. Não é nem um pouco garantido que as mulheres se tenham em alta conta. Elas são em geral bem hostis umas às outras. As parcerias mães e filhas também não escapam desse mal-estar.

Mas atualmente tudo se complica porque assistimos aos efeitos do declínio dos significantes mestres da cultura e a instauração de certas reviravoltas. Reviravoltas que trazem muitos benefícios em relação ao insuportável da cultura machista.

Mas nehuma revolução é simples. Costuma trazer o germe contra o qual se opõe. Assim,  em relação ao Outro cultural, o significante das mulheres passou a ser empoderamento. Empoderadas passa a ser um novo adjetiva fálico para uma mulher, somando-se a assim a outras figuras fálicas como a da mãe, da dona de casa, visando ampliar os horizontes do que pode enobrecer uma mulher: ser profissional, pensadora, produtora de cultura, além de combater a degradação clássica.

Mas, infelizmente, não recobre o campo do gozo do héteros. E este permanece enigma. Vejam, por exemplo, como a questão da propriedade do corpo passa atualmente por novos manejos. Como não há mais um Outro (pai) a quem se pedir a mão de ninguém (não que isso fosse bom, mas era o que regulava). Hoje temos uma regulação feminista que declara a propriedade da mulher sobre seu corpo: ‘meu corpo minhas regras’. Estamos ainda no campo do fálico.

E o héteros? O desregrado? Como pode ser acolhido?

Como pensar hoje o conselho de Lacan sobre o postiço que não nega mais evoca se, no caso  da mulher empoderada,  não se trata de velar a falta de saber sobre o gozo, ao contrário, de exibi-lo como perícia. Não se tem nada contra exibir a perícia, mas na parceria sexual essa exibição não convém se servir para esquecer, ou pior rechaçar, que há algo enigmático no sexo.

Haveria um repúdio ao feminino tanto na estratégia do empoderamento milenar dos homens, pois machismo é poder, quanto na reposta contemporânea das mulheres. Vale lembrar o apontamento de  Freud, em Análise terminável ou interminável, ao rochedo da castração e seu repudio por homens e mulheres. Com Lacan, esse ponto pode ser pensado como o impossível que detém os anseios de um saber todo, sem furo. Os empoderados querem um saber todo e não querem lidar com o furo no saber?

Parece ser a partir desse Todo que a guerra dos sexos vem culminando em feminicídio. O Todo leva aos polos extremo opostos que Agaben destaca no termo Sacer,  que tanto quer dizer sagrado como maldito. O feminicídio parece ser dessa ordem: uma investida destrutiva e radical de passagem ao ato, pela qual, em vez de acesso ao que é tabu (o sexo), temos um assassinato. E embora haja leis cada vez mais específicas para combater isso o número de casos só aumenta. Isso me levou a pensar em Totem e tabu pois traz uma lógica que Jésus destacou no último fórum sobre a Lei e a Violência no Rio. A implantação de uma lei é em si uma violência. E ele sublinha um aspecto que Freud tratou muito neste texto. Em Totem e Tabu trata-se de uma incorporação da lei.

Podemos pensar que as leis são herdeiras dos tabus, mas não o tabu em si. As leis possuem gênese, possuem uma explicação de como surgiram, quais grupos estavam interessados nessas leis e, nas democracias, podem ser modificadas; Já os tabus, não. Por serem incorporados, são marcas no corpo, indeléveis dessa lei relativa ao gozo. Não são tributárias de sentidos explicitados.

Penso que talvez muito do recrudescimento do feminicídio se deva ao fato de que considerar as mulheres como iguais não foi incorporado, digamos assim, como lei. Talvez venha a ser, e isso levará a problematizar de outra forma o heteros. Talvez leve gerações para vir a ser. Tomara que seja!

Então temos esse tipo de crime reagindo à força de uma lei que não foi incorporada, uma lei que pelo empoderamento da mulher, garantisse sua condição subjetiva de ‘igual’ ao homem. Pode ser que os atos de violência contra  mulheres apareçam, como vingança pela perda de um gozo que foi supostamente subtraído pela mal dita mulher. Com frequência, se dão porque uma mulher rompeu sua relação com aquele homem.

É possível pensar que o gozo Outro, que o feminicídio ataca,, esteja mais do lado do sujeito e o crime seja uma tentativa de extrair de si mesmo esse gozo, atribui-lo à ex-parceira, quando pela perda dela o homem se feminizou. Miller aponta, nessa lição do curso, que ser enganado, traído, feminiza um homem (p.111).

Corrobora nessa direção, o fato de que a virilidade também sofre do declínio do Nome do Pai característico de nossa época. Se antes havia para os homens mais apoio às identificações de masculinidade no Outro cultural, através de lugares que lhe foram secularmente favorecidos, hoje em dia, a mulher disputa com o homem este campo e o faz, vemos isso todos os dias, de forma bastante habilidosa.

O que resta para identificar o homem quando ele não é mais o detentor do saber, o profissional competente, o provedor, a autoridade familiar? Resta a identificação de sua virilidade no corpo. Infelizmente um apoio mais difícil para defini-lo no lugar do Mesmo, tão da ordem do significante, porque o órgão pertence mais ao corpo do que ao sujeito e opera a partir da vacilação.

Então, se no ato do crime o sujeito se apaga e se confunde com o objeto, poderíamos pensar que o autor do feminicídio é movido por um gozo infamiliar em si mesmo, diante do qual o Eu se horroriza, e o sujeito se apaga levando à certeza de matar alguém para exorcizá-lo?

[1] Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens (1910); Uma tendência universal à depreciação no amor (1912); O tabu da virgindade (1918).
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O Tabu de um Gozo

Angela Batista

Quando nos referimos as” Contribuições a psicologia do amor” em Freud destacamos: 1 – Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem (1910); 2- Sobre a depreciação da vida erótica (1912); 3- O Tabu da Virgindade (1918) [1917]).

De que trata então as Contribuições a psicologia do amor em Freud? Das questões que concernem a todos nos.  Podemos afirmar que a vida amorosa freudiana é o lugar dos impasses e do mal-entendido entre os sexos de como se relacionam e se escolhem uns aos outros. É o tema da escolha de objeto. Freud introduz na problemática da vida amorosa o complexo de castração onde destaca o princípio da depreciação do homem pela mulher e a hostilidade da mulher para com o homem.

Nessas contribuições a psicologia do amor vemos o que determina o percurso do sujeito em direção ao Outro, na perspectiva do amor, do desejo e do gozo. Escolhi trabalhar a terceira contribuição “O Tabu da virgindade”. A partir de uma frase que me pareceu preciosa; “a libido freudiana tem a cor de um vazio”[i]. Vazio que coloca no centro do amor o objeto pequeno a.  Miller em seu simpósio sobre o amor, fala que essas contribuições são contribuições à doutrina do gozo.

Nessa terceira conferência, Freud se pergunta sobre o acesso ao gozo, destacando o complexo de castração e de seus impasses. A não complementariedade entre os sexos, indica diferentes formas de amar. O objeto de amor para um homem toma a forma fetichista em sua condição de objeto a. O homem reveste a mulher como o falo para apagar o horror da castração e para deseja-la. O gozo feminino se situa do lado do amor, na valorização pelas mulheres do amor em relação ao desejo.

Do deslocamento da mãe a mulher; o que se coloca nessa terceira conferencia é que a mulher é um Tabu. O tabu da virgindade que com Lacan, se situa mais além das formulas da sexuação, no gozo, sempre outro.  Talvez puséssemos perguntar se o Tabu não seria apenas em relação à mulher, mas ao gozo feminino, ao Outro gozo. Em todas as culturas há uma forma de regular o gozo, que no caso da mulher seria uma pressa em inscrever o gozo fálico para tratar o ilimitado desse Outro gozo, do qual elas nada falam.  Esse Outro gozo não está referido ao objeto, sequer ao gozo fálico, mas a S (A) barrado, impossível de simbolizar. Essa definição vai além das posições sexuadas, que não deixam de ser identificações, que não anulam as formulas da sexuação, mas que mostram um gozo ilimitado, devastador.

As condições do amor se apresentam a partir de uma renúncia pulsional onde algo do impossível se manifesta nas parcerias amorosas.  Nesse sentido o caminho de Freud chega ao Tabu, que é da ordem do não tocar, não ir além, chegando a mulher como Tabu, dado que a mulher é do pai. Freud assim parte das condições do amor e chega ao Tabu, ao tabu de um gozo. A mulher é tabu porque é difícil seu acesso aos homens. Assim como as mulheres de outra forma não suportam também os homens. Lembrando Freud, a única esperança está no segundo matrimonio. Nesse sentido há um tabu generalizado a mulher. A mulher é outra não semelhante, inclusive para si mesma, representando o lugar de “Heteros” o Outro absoluto em sua radical alteridade. Não seria esse o segredo das regras para o amor? Manter o enigma que a mulher encarna para sustentar um laço possível entre os sexos?

Nessas três contribuições Freud fala de substituições e de metáforas e metonímias do objeto de amor.  Da mãe enquanto proibida ao gozo impossível. Por isso Lacan pode dizer no Seminário sobre a ética, que das ding, o gozo primário é a mãe. No amor freudiano só há substitutos. Nada de amável, diz Miller.  A eleição introduz o objeto da satisfação enquanto perdido.  No nível do gozo como tal há a Coisa, das ding.  Se há escolha de objeto, não há relação sexual e os divinos detalhes apontam para castração, para a mulher como tabu, fazendo da sua alteridade o princípio da degradação. Cito dois exemplos que revelam os impasses do amor, do desejo e do gozo na vida amorosa de dois personagens.

Manon Lescault é o romance citado por Miller, contado pelo abade Prévost, para falar da de como o amor feminiza na figura da mulher desleal, que encarna a mulher do desejo ( a puta)    aquela mulher sempre do Outro. Manon  e seu  seu parceiro Des Grieux é uma história de amor do tipo romance rosa. A desleal Manon signo da mulher indigna, e Des Grieux representa o pato, o enganado. O amor pela diabólica que pertence a Outros. Manon revela algo de diabólico e incivilizado quando interrogamos o  “que quer uma mulher, senão gozar do amor?

A princesa de Clèves, e também uma citação no curso de Miller sobre Os Divinos detalhes. Ao se apaixonar pelo Sr. de Nemours tem depois de muitos rodeios marca um encontro com ele e ela lhe revela sua paixão.   Por causa disso, ela diz que será o primeiro e último encontro deles. Ele fica atônito e diz: Mas você me distinguiu dos outros homens. Justamente, ela lhe responde. Esse é o obstáculo. Se eu o distingui isso pode acontecer a uma outra mulher. E se isso acontece, eu serei infeliz. Ele lhe fala de sua paixão.  Ela retruca dizendo que a paixão não dura. Ela recusa conhecer a infelicidade do ciúme. Entre suas razoes para renunciar revela a principal: Por vaidade ou por gosto, todas as mulheres lhe desejam. Outras mulheres o amarão. Você me deixara.  Os homens são inconstantes e infiéis. O único homem que teria sido fiel a mim, é o Sr. de Clèves que tinha uma única razão para isso- eu não o amava. E encerra a conversa.  Assim ela prefere se exilar do amor, onde será uma única absoluta para seu amante, uma a menos para sempre[ii].

Lacan, explicita essa impossibilidade no seminário livro 18: “de um discurso que não fosse semblante” onde mostra a conjunção e disjunção entre o gozo e o semblante. O Semblante é o falo como o significante da diferença sexual.  O homem e a mulher se encontram na interseção entre dois gozos, que mostram o desencontro estrutural.  Sendo assim a terceira contribuição de Freud revela o segredo das condições de amor. Os atrativos femininos dependem de um véu, em relação ao não ter, que se torna desejo. Essas condições do amor são diversas formas de diminuir a alteridade da mulher sem faze-la desaparecer. A erótica lacaniana seria a do homem sem rodeios (ambages), um homem que não temeria a mulher, ou que a mulher não fosse um tabu. O homem sem rodeios, seria aquele capaz de fazer parceria com a mulher como Outro. Lacan inventou um real próprio á psicanalise. Um real que se alcança através da contingencia do amor. Essa contingencia demonstra a impossível harmonia do gozo que se encontrava velada pelos semblantes do amor. 1

Trago para discussão a questão sobre as condições do amor na atualidade, onde a mulher enquanto Outro radical, se desloca do Tabu que possibilita a diferença e que permite o laço entre os sexos  para o  ódio, sem velamento da diferença,  através de actings e passagens ao ato,  a partir de uma diferença que precisa ser eliminada na nossa época do empuxo ao idêntico . Byung Chul Han[iii], o filosofo coreano, diz que O trauma é o sexual, mas que o violento é o idêntico. Laurent lembra de paradoxos do individualismo democrático de massa na autossuficiência do sujeito na atualidade no gozo que não faz laço.[iv]

Gostaria que discutíssemos a partir do texto de Miller o que pode regular o gozo das relações entre os sexos, na atualidade, pensando a solidão entre os sexos e os destinos da pulsão de morte, “ expulsão do Outro do amor” no apagamento da alteridade e de suas consequências, onde o Tabu a mulher se desloca para o ódio ilimitado  em detrimento  do enigma da” cor do vazio”, do Heteros do feminino.


[i] Miller, J Alain-“ Os divinos Detalhes – 1989- Grama Ed.  Lição V – “O tabu de um gozo”.
[ii]Naveau Pierre- Os Homens, as mulheres e os semblantes- Papers Congresso Semblantes e Sinthoma VII Congresso da AMP- Paris 2010
[iii] Byung Chul Han” A Expulsão do Outro”  Ed Vozes
[iv] Laurent Eric- El Traumatismo del final de la politica de las identidades-  XVI Jornadas DA ELP 2017 Boletim

Os divinos detalhes- Uma apresentação.

Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna
Seminário de Orientação Lacaniana de 05/08

Hoje depois de algumas semanas de ter apresentado no contexto do Seminário de Orientação Lacaniana os primeiros dois capítulos do curso de J.-A. Miller: Los Divinos Detalles[1], recupero aqui alguns aspectos que ficaram em minha memoria como mais relevantes. Sugiro aos leitores leiam os dois capítulos já que eles possuem uma ampla gama de elementos que não se encontram presentes neste texto

Sobre o titulo, algo da serie e do objeto

No primeiro capitulo do curso são abordados a escolha e fontes  do titulo e logo a seguir se realiza um traçado que apresenta a proposta de trabalho. A mesma visa circunscrever e dar ao tema do gozo  um justo lugar.

Assim são apresentados alguns termos retomados de um Freud Lacaniano: o prazer, a libido, a satisfação, que permitirão estudar as condições do amor e do desejo na escolha do parceiro.

A palavra detalhe incluída no titulo tem uma inspiração  Nobokoviana, autor que recomendava a seus alunos de literatura nos EEUU que acariciassem os detalhes.

Mas considero que a escolha do “detalhe” obedece fundamentalmente a sua raiz etimológica  que indica corte, termo tão caro à psicanalise desde a elaboração dos objetos parciais, separados do corpo, em torno dos quais se produz a satisfação pulsional,- seio, fezes, falo, olhar e voz- transformados pelo trabalho de J. Lacan em objeto pequeno a.

Cabe lembrar que o objeto pequeno a surge do encontro do vivo com a linguagem, operação que divide o vivo ao entrar na maquina significante,  gerando por um lado, um sujeito dividido entre os significantes e por outro, um objeto resto, indivisível, inassimilável ao significante.

A partir dessa elaboração lacaniana a psicanálise ganha um novo instrumento para  dar seu devido lugar ao detalhe, aquele que se repete, no qual habita algo do gozo fragmentado e fixado que denominamos de objeto a em suas diversas formas. Nesse sentido o dispositivo psicanalítico (associação-livre-interpretação) realiza sua operação, sempre apoiada no detalhe, lugar onde mora algo de uma satisfação que se reitera, satisfação que não fecha um circulo, e que sempre transborda gerando mal-estar.

A posição do analista desde Freud se apoia na tradição dos exegetas que interpretaram a bíblia, dando destaque aos detalhes que giram em torno do Um  e que emergem no relato sob transferência. Por esta razão, J. A Miller diz que poderíamos rebatizar o texto da “Interpretação dos sonhos” como O Talmud dos sonhos, ou A psicopatologia da vida cotidiana como O Talmud dos lapsos. E diz mais ainda que se há um espirito da psicanálise, ele se respira nos detalhes.

Mas na experiência analítica não se trata de prestar atenção a qualquer detalhe. O detalhe deve ter a qualidade ser divino. Como entender isso? Não é tão fácil. Em minha leitura entendo que esse divino alude ao lugar do resto, que se aloja no pedaço do corpo recoberto pela conexão com a castração (-j). Nessa articulação surge algo do divino que foi ilustrado por J. Lacan através da imagem do dedo levantado de São João Batista pintada por Leonardo Da Vinci. O dedo que aponta para cima e para um lugar vazio no quadro indica algo do objeto resto-caído sublimado transformado em uma ausência.

O exemplo do encontro  de Dante com Beatriz serve para pensar esse detalhe e sua elevação para a categoria do divino. Dante diz: “Há aqui um deus mais forte que eu que vem para ser meu senhor.”

O detalhe que se encontra aqui divinizado é solidário do objeto caído e suscita o amor e o desejo, alojando em sim um gozo situado no olhar de Beatriz.  Podemos fazer a seguinte sequencia: Olhar de Beatriz-resto estranho-apêndice do corpo irredutível ao significante (objeto causa) que se transforma em objeto do desejo ao ser recoberto por uma imagem.

O psicanalista recorta o detalhe para promover uma separação entre o objeto e suas vestes. Portanto não visa divinizar mais ainda o detalhe, senão fazê-lo cair para promover uma nova separação do gozo ai fixado.  Dessa separação poderá advir algo novo em termos de satisfação.

O paradoxo do Zenon retomado em primeiro lugar por J. Lacan é nesse texto novamente examinado para elucidar o que se passa entre Aquiles e a tartaruga. Aquiles é rápido, tem longas pernas, a tartaruga é lenta, mas ele nunca a alcança. Ela sempre está um passo a frente.

Esse paradoxo só pode ser  compreendido pela introdução da maquina significante nos diz J.-A Miller e propõe  substituir Aquiles 1 e Tartaruga 2 por um S1 e um S2. Essa relação significante promove por um lado, um sujeito dividido (lançando Aquiles em uma corrida infinita) e por outro produz ai um ponto de parada, algo indivisível, onde esta situado o objeto causa de desejo e de gozo divinizado e transformado em objeto de desejo.

Sabemos que o tema do infinito e finito toca o percurso da análise desde Freud e com J. Lacan encontramos o  matema objeto a que nos permite ir um pouco além do rochedo da castração e elaborar o atravessamento da fantasia. Trata-se de tocar algo desse finito, o que incide na forma de gozar. Lembremos a indicação lacaniana que diz: O amor (de transferência) faz condescender o gozo ao desejo.

A tartaruga, assim como a Beatriz (olhar) de Dante,  tem algo que atrai Aquiles.

O que é? No caso de Aquiles é casco que aloja o objeto pequeno a que evoca sincronicamente o escudo recebido pela sua mãe de Haefasistos para lhe entregar.

Podemos perceber que o detalhe é fundamental na vida amorosa na medida em que ele aloja algo do gozo fragmentado do pedaço de corpo cortado, que se apresenta sublimado, isto é elevado à categoria do divino, na medida em que se articula à castração.

Sobre o gozo: o detalhe na escolha do objeto

Para encaminhar um pouco mais o tema sobre a satisfação pulsional na escolha do parceiro J.-A Miller se serve das formulações freudianas sobre as pulsões, a primeira teoria pulsional –pulsões do eu e de auto-conservação vs. pulsões sexuais-, incluindo a teoria do narcisismo como um dos aspectos que força a Freud a produzir outra elaboração  sobre as pulsões: Eros vs. Tânatos.

Também acrescenta  a afirmação de J. Lacan que diz que  o gozo transcorre   de Eros a Tanátos, revelando desta forma  que a libido e a pulsão de morte são o mesmo, o que pode ser pensado como que há ai um casamento secreto entre ambos. A presença dessa aliança se evidencia na exigência libidinal da pulsão presente no imperativo moral, que resulta em um prazer que  transborda continuamente produzindo um além do principio do prazer, isto é um sofrimento.

Do casamento secreto de Eros e Tánatos  J. -A Miller passa a propor uma outra questão: Porque nos casamos?

Ele responde dizendo que haveria nesse ato do casamento uma renuncia a gozar de si. Nessa perspectiva surge o amor, que como já dissemos é o que permite ao gozo condescender ao desejo. Lembrando que a raiz etimológica do desejo remete a lamentar uma ausência dizemos que é necessário aceitar a renuncia do  gozo do próprio corpo, o que acarretará um  lamento de uma ausência, para poder passar por outro corpo. Passar pelo corpo do Outro. O detalhe tem ai nessa passagem um papel fundamental.

A flechada e Eva é o titulo do segundo capitulo que nos permitirá aprender um pouco mais sobre o lugar do detalhe na escolha do objeto.

J.- A Miller inspirado pelo trabalho do Rabino Reshi, lê o Pentateuco onde está a criação do paraíso, do primeiro homem e da primeira mulher. Ele pensa que será outra oportunidade de mostrar a origem do divino no detalhe que se lhe imputa ao amor.

Lendo a letra do Pentateuco, temos a frase pronunciada por Adão.

“Esta… (agora, esta vez) é osso de meus  ossos, carne de minha carne. Ela será chamada de mulher porque  do homem foi tirada.”

A escolha de Adão é narcísica?  A primeira vista parece ser.

Lembremos os dois tipos de escolha do objeto apresentado no texto do narcisismo por Freud: a narcisista e a anaclítica, a primeira é escolher o mesmo e na segunda escolher baseado na mãe.

Segundo J.-A Miller, Adão, sem mãe não tinha como escolher Eva baseado na mãe, o que seria uma vantagem para ele. Mas Adão tem um  inconveniente que consiste em tomar Eva como dada por Deus-pai. Isto teria levado a escutá-la e acreditar nela, situação que provocou o primeiro pecado original e sua consequência: a expulsão do paraíso.

Mas o que interessa aqui é pensar que tipo de escolha foi a de Adão. Podemos dizer que aparentemente foi narcisista mas teve como substrato uma escolha anaclitica baseada na identificação ao Deus pai.

Adão se alegrou e acolheu Eva como se fosse ele mesmo. Ai esta o engano que acarretará como dizemos acima a primeira falta e o consequente castigo.

Qual é o detalhe que Rashi encontra no Pentateuco? Ele o localiza na frase: Esta, esta vez… interpretando-a que Adão haveria tido anteriormente relações com animais. Mas a satisfação se deu quando conheceu a Eva.

Esse breve apólogo segundo J.-A Miller distingue os seguintes elementos:

Uma mulher- que é o primeiro detalhe divino, talhado, recortado do corpo de Adão. Costela.

Operação divina realizada durante o tempo em que Adão dorme.

Eva carrega em si o primeiro divino detalhe.

Podemos dizer que houve ai uma escolha de objeto no sentido freudiano propriamente dito, o que produziria a seguinte afirmação: É minha cada uma.

A importância do detalhe no objeto

A concepção do modelo de satisfação estruturada como o bebê dormindo satisfeito no colo da mãe sofre uma reviravolta  quando se verifica que a satisfação passa pelo seio, objeto separado objeto parcial.

Lacan apreende e ensina como o significante estrutura, domina o desejo aludindo ao texto sobre o Fetichismo de Freud. Nesse trabalho encontramos   a partir da inteligente percepção freudiana, a sutileza do detalhe que a mulher precisa possuir nesse caso para ser atraente, detalhe elevado a uma condição sine qua non para produzir o desejo. É o brilho-olhar no nariz inserido no mal-entendido produzido pela assonância entre duas línguas- alemão inglês) que se transforma  em o fetiche que substitui o falo.

Freud se interessa desde os Três ensaios nas causas de escolha do objeto, indicando em diferentes momentos que a escolha é sempre forçada pelas condições que ela exige demonstrando que a psicanalise se afasta de qualquer naturalidade na escolha do objeto. Em cada escolha forcada há um detalhe presente.

Lembremos que toda a paisagem da escolha do objeto se realiza de forma independente do sexo do objeto. A liberdade se estende para todos os sexos. As restrições se situam depois, são produzidas pela operação de sexuação dos corpos. Assim os homens e as mulheres somente se relacionam com seu objeto sexual de amor dando um rodeio pelas condições mais ou menos precisas.

Para finalizar apresento o matema inventado por J. –A Miller para escrever a condição do amor freudiana:

a
____

S2

Encontramos duas vertentes: a da causa (objeto a) e a do saber (S2).

O objeto causa do desejo precisa estar sustentado por certas condições significantes  S2 (saber).

Creio que este matema servirá para os próximos encontros sobre os divinos detalhes.


[1] Miller, J.-A. (1989) Los Divinos Detalles, Buenos Aires, Paidós. 2017.
Seminário-de-Orientação-Lacaniana

Algumas pontuações em torno dos comentários de Maria Silvia Hanna das duas primeiras lições do seminário de J.-A. Miller, “Divinos detalhes”:

Ana Beatriz Freire 

Hoje, abrimos nesse segundo semestre de 2019, a orientação lacaniana pelo seminário de 1989, “Divinos detalhes”. Seminário de 30 anos atrás que pode ser recortado de várias maneiras, por vários caminhos através das inúmeras  referências, dentre outras, literárias e filosóficas:   Madame Bovary, Proust- um amor de Swann, Jean Jacques Rousseau, Schiller, Edgar Allan Poe, Plutarco -sobre o corpo de Osiris- , Dante, Goethe, Gide, Rashi de Troyes que foi, como lembrou Maria Silvia,  um exegeta do Talmud da Babilônia, etc.

Detalhar, como lembrou Maria Silvia com Miller, é cortar em pedaços. Assim, a partir da leitura e pontuações já apresentadas por Maria Silvia desse seminário de Miller, recorto, dentre outras, algumas questões:

Para falar do amor, Miller retoma Freud, no texto “Sobre o narcisismo, uma introdução”, de 1914, destacando o termo freudiano eleição, escolha, de objeto. Nesse artigo, Freud postula dois tipos de escolha de objeto, afirmando que a pessoa pode amar segundo duas vertentes:

Primeiramente, pela escolha Narcísica (segundo o que ela própria é, o que ela próprio foi, o que gostaria de ser, seus ideais e, por fim, escolhendo alguém que foi parte dela mesma).  Em seguida, a pessoa pode amar segundo uma escolha do tipo anaclítica ou de apoio (apoio, segundo Freud, nas ditas pulsões de autoconservação): segundo, portanto, o modelo da mulher que a alimentou ou segundo o pai que a protegeu.

Gostaria de colocar a questão do termo escolha, seja escolha narcísica seja anaclítica, de apoio:

Como esses termos conversariam com as questões da sexualidade hoje, a partir dos movimentos LGBTQI? Colocamos a questão já que escolha não é um termo aceito pelo movimento atual do LGBTQI e, por outro lado, o termo gênero não é um conceito da psicanálise. Além disso, a identidade de gênero não coincide necessariamente com a orientação sexual.

Para desenvolver essa discussão nos reportamos a conferência de Marie-Hélène Brousse, intitulada Psicanálise, gênero e feminismo proferida em São Paulo, em 2015, assim como o artigo de Giselle Falbo em Latusa online, ano 7, número 20, de julho de 2016,  intitulado Sexualidade, gênero e corpo.

2)  Se no processo de análise não é, como afirma Miller, qualquer detalhe que nos interessa ouvir, destacar, e sim aqueles que são divinos por se repetir, poderíamos situar esse “Um” divino na série do Um que produz uma meia verdade?

Teria o “todo unificado da tradição cristã” relação com o “il y a de L’Un”, partitivo, de Parmênides tal como Lacan se refere no Seminário 20, Encore?   Esse todo cristão teria relação com o que, nesse Seminário 20, Lacan situa, na contramão da ontologia, como substancia gozante?

Se, através do mito de Adão e Eva, Miller explicou a origem da mulher, primeiramente como escolha narcísica ( uma parte do que fui). Em seguida, como uma escolha de apoio, já que foi deus que a engendrou.

A partir dessas considerações míticas sobre a origem da mulher, perguntaríamos como situar o feminino? Seria suficiente falar de escolha? Poderia o “não todo” do gozo feminino ser explicado pela identificação e escolha tal como na solução edípica?

Sobre o amor, Miller comentando Lacan vai abordar pelo fetichismo, já que é pelos objetos parciais, pelo “não todo” que amamos. Se o fetichista nega o pênis na mulher e busca se satisfazer com um objeto substituto, o amor seria a procura da outra metade que se perdeu tal como descrito por Aristófanes no Banquete (cf. Seminário 8, sobre a transferência)? Seria o encontro com o objeto propriamente um reencontro? Como afirma Miller, retomando Freud (p.46), tratar-se-ia de um reencontro sempre faltoso, impossível de se completar, amuro, segundo a hipótese da “não relação sexual”?

Miller, desenvolvendo o amor através do fetiche, retoma a abordagem freudiana do texto de 1927, a partir do equívoco. Trata-se do equívoco entre a expressão “Glance at the nose” e a expressão em alemão ”Glanz auf der Nase”: o nariz que brilha em alemão, era um glance. Em inglês, língua materna do paciente, glance quer dizer um “vislumbre” (na tradução da Standart), relance ou o que mira. Podemos comparar esse brilho com o exemplo da lata de sardinha na Bretanha, descrita no Seminário 11, que ofusca e visa o pequeno intelectual parisiense por se encontrar deslocado? Ou melhor, fora do enquadro dos pescadores por ser uma lata industrial que brilha e ofusca a simplicidade da pesca artesanal do bretão seria o objeto a, resto, o que visa, brilha, causando o sujeito no fetiche e no amor?

No amor, a mirada sobre o nariz do Outro, segundo o exemplo do paciente de Freud, estaria escrita no olhar brilhante do sujeito, que como objeto nada mais seria que aquele que atrai os olhos? ( p.46).

Miller começa a primeira lição, definindo o Um que não é todo, pelo objeto a através do paradoxo do Aquiles e a tartaruga de Zénon: Aquiles, dos pés ligeiros, detrás da inalcançável tartaruga que o precede, que se arrastando, o precede para sempre. Define o objeto a como o inalcançável nessa aposta, como o que cai, designando o inapreensível dos desfiladeiros entre os significantes, entre o tempo marcado pelo T1, saída da tartaruga, e o o seguinte, T2 no percurso da tartaruga. Poderíamos interrogar com Miller o princípio do infinito, dizendo que se vai encontrar sempre uma metade para dividir (p.23). Ou como afirma Miller com Zénon, “se cortarmos sempre a metade do que sobra, o resultado da torta não termina nunca”, “as partes do todo, por mais numerosos que sejam, não alcançam nunca o todo” (p.22)

A questão que se coloca a partir do infinito e desse paradoxo seria em relação ao lugar que ocupa a tartaruga: a tartaruga seria aquela inalcançável e, portanto, a que causa o desejo? Ou aquela que representaria o i(a), o casco como véu que envolve e vela o objeto real?  O objeto a seria o inassimilável da série temporal, aquilo que cai do serial significante, entre o T1 e o T2, entre tempo um e tempo dois ou a própria tartaruga?

Seminário de Orientação Lacaniana

Coordenação pelo Conselho da Seção Rio: Maria Silvia Garcia Fernandes Hanna (Presidente), Ondina Rodrigues Machado (Secretária), Heloisa Caldas, Marcia Zucchi, Paula Borsoi, Rodrigo Lyra de Carvalho.

Vivemos um estado de atenção, onde a civilização em seus vários aspectos se mostra inquietante e turbulenta. Uma série de acontecimentos no Brasil e no mundo vem oferecendo a oportunidade para que a psicanálise e os psicanalistas tomem a palavra, estudem e digam algo sobre a ameaça que paira sobre a dignidade de cada sujeito, começando por nós mesmos. O laço social e suas formas de regulação se encontram questionados pelo surgimento de um discurso de ódio que se multiplica, sem que tenhamos conseguido encontrar um modo de amortecê-lo. As ferramentas da psicanálise ajudam a fazer uma leitura, sem um saber prévio, que permita aprender algo sobre tais mudanças, nas quais a palavra vem perdendo seu peso e sua força. Percebemos que há um real que se impõe, pois “os processos segregativos são impossíveis de serem regulados se não se consegue uma subjetivação possível sobre sua causa” (Ventura, O. “Las raices del odio”, in: Fórum de Milão).

Nesse caldo de discussão, em que a Escola se mantém viva e palpitante, o Conselho da Seção Rio decidiu propor três encontros no primeiro semestre para o Seminário de Orientação Lacaniana. Ódio, Cólera e Indignação são as paixões trabalhadas por Freud e Lacan e também recolhidas, segundo o argumento do Enapol, “da civilização, mais precisamente do campo das relações políticas e sociais em que nos inserimos hoje”. Deste modo, propomos extrair dos textos escolhidos as consequências dessa situação contemporânea sobre a clínica e a política, abordando a incidência do psicanalista e da psicanálise no mundo. Apresentaremos três textos para elaborar os temas do ódio, da cólera e da indignação:

  1. Ódio – Seminário sobre a transferência negativa – J-A Miller
  2. Cólera – Comment se revolter – J-A Miller (em francês, na biblioteca)
  3. Indignação – O retorno da blasfêmia – OL  online 16 março 2015

Desde já, convidamos  todos a participar do debate, com o desejo de termos um ótimo semestre de trabalho.

Esperamos todos lá.

Paula Borsoi – Presidente do Conselho Seção Rio

O psicanalista e as paixões – o gosto do riso e a blasfêmia

Cristina Duba
03.06.19

Nos textos reunidos sob a rubrica Je suis Charlie, JA Miller responde aos acontecimentos de 2015 em Paris, quando houve o massacre da redação do jornal Charlie Hebdo, num ataque terrorista em resposta a charges publicadas com a figura de Maomé.

Gostaria de extrair nesse comentário alguns aspectos que me pareceram centrais nas observações de Miller. O primeiro deles diz respeito ao ressurgimento do valor da blasfêmia em contraponto à tradição iluminista dos poderes da razão, tão caros à sociedade francesa. Num mundo em que a religião retoma seu reinado, o reinado do sentido, capturando o desejo exatamente dos segregados de uma França branca, este choque se deu exatamente na trincheira “iluminista” do humor. Ao denominá-la como iluminista, estou privilegiando o lugar relevante, proeminente, que é dado à razão e aos princípios que daí derivam e cujas bandeiras principais se escrevem sob a égide dos universalismos extraídos da razão.

Ultraje a honra

Se considerarmos que a blasfêmia se constitui exatamente neste ponto em que se golpeia o sagrado do Outro, onde o fundamento de uma crença é ultrajado, insultado, atingido, no ponto em que se sustenta, podemos apreender que desperte a ira, a cólera e, mais persistentemente, o ódio.

O que parece ter surpreendido o mundo ocidental, a partir da França, não deve ter sido exatamente o massacre, a carnificina dos corpos, mas principalmente que essa fúria, que não excluiu o planejamento minucioso do ato, tenha se dirigido a um jornal, a um veículo primordialmente de discurso, de imagens e palavras, um jornal, aliás, sem maior projeção, decadente, herdeiro de combates de outro momento. Mais propriamente das trincheiras de 68. Eu, por exemplo, que pertenço a uma geração pós-68, do Rio de Janeiro, mas que sofreu diretamente essa influência e que cultuava o riso, o humor, que tinha Wolinski como uma espécie de príncipe dos cartunistas, um dos que levava mais longe a iconoclastia iluminista, para além mesmo do politicamente correto, onde o direito a rir de tudo não encontrava quase barreira, posso verificar que isso mudou muito. Como disse Laerte, cartunista brasileiro e colaborador eventual do Charlie Hebdo, o humor encontrou limites éticos, de forma mais rápida que as demais artes.

Voltando às crônicas de Miller, ele nos faz notar que os franceses reagiram a esse acontecimento e aos que se seguiram, aos ataques na mercearia kosher, com indignação. Ao golpe de cólera, ao instante do ato de terrorismo, os franceses reagiram com o afeto da indignação, que supõe primordialmente, a possibilidade de identificação com o golpe sofrido pelo próximo, pelo semelhante, por quem se compartilha o sentimento de humanidade, a fatia ultrajada a quem se reivindica dignidade. A indignação que perdura por mais de um instante, um afeto mais duradouro. Je suis Charlie, era esta a palavra-de-ordem a “comandar”, ao menos, a “juntar” a multidão.

Ele também nos faz notar, com a força de sua ironia, o súbito apaixonamento dos franceses pela polícia. Nunca se clamou tanto pela ordem, quanto naquele momento em que um inimigo interno podia ser apontado, embora não se saiba bem onde. Um inimigo interno com seu gozo estranho, feito de sacrifícios e mártires e um deus obscuro aos ocidentais. Ondas de solidariedade se desencadearam, a partir desse sentimento de dignidade ferida e, assim, restituída, recomposta, e que a indignação arrebanhou. O que se revela aí, segundo Miller, não é um louvor às luzes, às liberdades da Razão, mas um desejo de manter a ordem, um desejo de submissão, de servidão voluntária, diante do temor ao gozo sombrio desse Outro que espreita em toda parte. Choque de gozos.

No entanto, este mundo também foi confrontado por esse outro mundo que se indigna quando o coração de sua fé, o sentido de sua fé, é atingido, quando se sente insultado. Um insulto é uma espécie de palavra-imagem que toca o impossível de suportar, a palavra mais próxima  de uma bofetada. Um confronto de dignidades, poderíamos supor, que acusa impasses dessas civilizações que se chocam justamente porque se cruzam, se avizinham de um modo que possa beirar o intolerável. Sob o confronto de dignidades, o choque de gozos.

Do lado dos humoristas, uma outra dignidade da qual, seja qual for a razão que se evoque, desde a mais desonrosa (sempre financeira), até a mais íntima (a melancolia, a irresponsabilidade) não foi possível para eles se desprender, embora houvesse um risco anunciado: o fato é que eles não recuaram desse princípio de rir de tudo, rir de tudo, menos da possibilidade de rir.

O riso

Há o riso do cômico, cujo exemplo extremo é o pastelão, é o gozo que nos despertam as fraquezas, os tropeços, quando o que é automático revela o erro de seu funcionamento, surgindo o inesperado, como aponta Bergson, e que coincide com a comédia do falo, como nos diz Lacan. E há o humor que descentraliza, que desliza, que vivifica pela iconoclastia, pela afinidade com o furo, pela atenção ao que escapa do furor do ideal, pela benevolência cruel com a falha. É o humor que revira o sentido, desliza, subverte o sentido que vigora, é o humor que transgride. Este humor, marcado pelo non sense, é primordialmente não conformista e, embora se dirija ao Outro, se produz na solidão da criação. Nesse sentido, implica numa satisfação pulsional que vivifica, mesmo o humor mais negro, ao revirar um sentido sinistro, introduz alegria no horror.  Lembro as piadas que autores como Viktor Klemperer relatam em seu diário na Alemanha nazista.

Num mundo em que o pai responde com furor e capricho, não se suporta este riso que faz deslizar o sentido. Quando o discurso fundamentalista exige que não haja vacilação de sentido para que o delírio religioso se sustente e sustente seus devotos na crença absoluta, o imenso risco do fracasso torna a todos muito sérios. Como dizia uma charge retratando revoltas populares na faixa de gaza nessa época: ”que gente estressada!” O riso aí, o poder da comédia ao revelar o derrisório do falo, a precariedade do pai e do ideal, pode despertar as paixões mais mortíferas, o próprio ódio que se abriga sob a indignação, por exemplo.  A blasfêmia que pode se apresentar nesse extremo do humor carrega então uma face mortífera, quando seu agente não pode ceder desse gosto, desse gozo ao qual se condena não mais se apoiando no ideal do eu, mas nessa forma de gozo superegóico – do gênero:  “perder o amigo, mas não perder a piada”. Assim, esse não conformismo do humor, como um valor do qual não se pode ceder, essa liberdade de tudo dizer, pode ser para o Outro do sentido um insulto, um ultraje, uma blasfêmia.

Paradoxos

É possível rir de tudo? Para a geração de humoristas pós-68, não. O humor, como as palavras, têm limites, a noção de responsabilidade política pelo que se diz, o reconhecimento do poder e do perigo das palavras suplantou o gozo de tudo dizer. O reduto do “tudo dizer” ainda se encontra na psicanálise, que conhece os limites desse dispositivo e acolhe os pequenos depósitos dos gozos obscuros de cada um. Sem, no entanto, perder de vista a dignidade a extrair para cada um desses restos, afinal, a dignidade aponta para o que há de mais singular que marca e dá valor a cada um. E até porque a psicanálise verifica o impossível de tudo dizer, a impotência das palavras para dizer o real, a violência do insulto sempre anda por perto das palavras.

Mas sabemos do radicalismo fascinante do humor de um Wolinski, por exemplo, que não recuava do direito iluminista de ir longe demais. Os perigos e fascínios da razão. O quanto isso tinha de mortífero é seu segredo agora.

Retomando ainda: é possível rir de tudo? Não, porque a blasfêmia está de volta, o que quer dizer que as palavras, bem como as imagens que falam, que são textos, e que nunca deixaram de insultar ao se dirigir ao ser do outro, inseridas na violência da linguagem, agora não são suportadas por esses ofendidos que se revoltam.

A paixão de tudo dizer, de tudo rir, essa espécie de direito ao riso absoluto, ao confinar com o insulto ao gozo do próximo, encontra um limite já no racismo que engendra com esse desprezo ao derrisório da fé estranha, estrangeira. Assim, podemos nos interrogar se o direito de rir de tudo já não é necessariamente um insulto ao gozo do próximo. Um fato de racismo, racismo de gozo. Não é um fenômeno francês, ou apenas de primeiro mundo. Está relacionado ao recrudescimento do sentido religioso. (Do lado da psicanálise, a questão se expressa mais no sentido do humor, menos do riso). De todo modo a mordacidade de qualquer riso, traz sempre a surpresa, a irrupção, nem sempre partilhável, mas emergindo de uma fonte tão íntima quanto estranha.

Uma palavra sobre a dignidade. Se a dignidade evoca em cada um o que há de mais singular, o que singulariza o sujeito no mundo, ela se realiza no significante que o representa, está referida ao significante com o qual o sujeito se coordena, logo, àquilo do qual não se pode abrir mão, ao custo por vezes da vida, ou pelo menos, no campo onde essa aposta pode se dar, onde se transita no fio tênue que às vezes separa o sacrifício  do heroísmo, entre cair como pedaço de carne, ou morrer  para fazer viver o significante, para preservá-lo. Como diz Miller em outro texto, “Nota sobre a honra e a vergonha”, morrer de vergonha para sustentar sua honra.

Parece que nesse massacre, que teve ares de tragédia, a nenhum dos dois lados, foi dado primmum vivere. A cada um dos lados não foi possível escolher a vida e perder a honra. Um dos lados morreu de vergonha, o outro morreu de rir.

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Comentário sobre o texto de Cristina Duba “O psicanalista e as paixões: o gosto do riso e a blasfêmia”

Ondina Machado
Seminário de Orientação Lacaniana de 03/06/2019.

De cara, Cristina nos apresenta o cerne da questão: “ressurgimento do valor da blasfêmia em contraponto à tradição iluminista dos poderes da razão”. Em outras palavras, a invasão do oriente pelo ocidente, do discurso capitalista no discurso do mestre, da vacilação própria ao semblante na fixidez do sentido religioso. O choque está em desvelar o real da não relação sexual através do golpe contra o sagrado do outro que acredita na relação sexual. É um choque de civilizações em que uma tenta de se impor a outra pela via de um suposto Ideal. Como golpe não faz diferença de que lado parte.

No caso da blasfêmia, a via é a do insulto. Sempre é possível questionar se se trata de blasfêmia, de insulto, a série de charges publicada pelo Charlie Hebdo em torno de Alá, Maomé e seus seguidores. Quem decide o que é ou não insulto? Sempre vale a máxima de quem decide o sentido é quem o recebe. Os atos não tem graus que possam por si só serem classificados ou não como violentos, até mesmo a morte, que em determinadas circunstâncias ou nas mãos de bons advogados, pode virar um ato heróico.

De modo geral, é possível dizer que o insulto toca no ‘impossível de suportar’ de cada um, o ponto de real para o qual não há significação. O insulto ataca o ser do outro presentificado em sua forma de gozar.

No caso do Charlie Hebdo, devemos considerar que, mesmo decadente, se inseria numa cultura que tem como ideologia de estado a República. A dignidade da França se alicerça no ideal republicano da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mesmo que saibamos que a prática desse ideal torna alguns menos livres, menos iguais e pouco fraternos. As charges do Charlie confrontavam o eu ideal francês com o Ideal do eu dos radicais.

É importante dizer que o Ideal dos jovens radicais não é Alá, como nos esclarece Fethi Benslama. Para esse psicanalista francês e estudioso do Islã, o propósito desses jovens é “vingar sua vida”, dar sentido as suas vidas pela adesão ao radicalismo. O “Em nome de Alá”, pronunciado nos ataques é uma maneira, usando uma expressão da Cristina, de “fazer viver o significante” de um ideal pela via do gozo. Se fosse Ideal, esses jovens estariam mais propensos a serem alcançados pelo Iluminismo francês. Mas não é isso que se vê. Cabe então a pergunta feita por Laurent: é um Ideal ou um gozo novo?

Trata-se de uma geração atravessada pela ascensão do objeto na qual o ideal sofreu uma transformação, passando a ser sustentado por um “empuxo ao gozo”. É como se o ideal tivesse se transformado em gozo, portanto, uma nova configuração de gozo. Seria um ideal que produziria, através dos auto-sacrifícios, objetos de gozo – os mártires. São objetos que apontam o real da civilização ocidental, aquele que se quer crer livre, igual e fraterno. A originalidade desses objetos é justamente a impossibilidade de serem reciclados, de serem reabsorvidos pela razão. Nesse caso, poderia ser dito que a salvação pelos ideais se dá ao torna-los objetos, dejetos.

Assim, na radicalização encontramos o gozo do Um, o que é um paradoxo porque em nome de um Ideal, supostamente comunitário, o que impera é o gozo do Um. O que há é o Um, como diz Lacan.

Está claro que no nosso mundo capitalista, sempre tem uma empresa que se propõe a vender, e até a criar, uma demanda que faça essa transformação do ideal em gozo. Temos aí não só o Estado Islâmico mas também a indústria de armas.

Qual efeito podemos considerar que o humor, que não cede a fazer vacilar os semblantes, possa ter sobre os jovens que buscam na radicalização um sentido para suas vidas? O humor provoca o mal entendido, promove a ruptura entre significante e significado, portanto, tem efeito traumático porque levanta o véu que cobre o real e demonstra que no sentido habita um sem sentido. Lacan nos aponta dois caminhos possíveis diante da angústia pela emergência do real: o do fantasma e o da passagem ao ato. Por essas duas vias teríamos os indignados e os radicais.

Sabe-se que nem todo jovem que se radicaliza vai para o sacrifício, a maioria fica em funções de apoio. Os que vão para o auto-sacrifício são, em geral, jovens de classes populares. Os de classe média (poucos) ficam nas funções chamadas de inteligência. Nos últimos tempos tem-se constatado, e tido acesso, a cada vez mais relatos de jovens arrependidos nos quais fica clara a busca pelo gozo.

Diante da vacilação generalizada dos semblantes que caracterizam a nossa cultura sub-vem a fixação como defesa – o politicamente correto é respondido com o “talquei”. Há um franqueamento entre indignação e ódio, ou como diz Cristina, “pode despertar as paixões mais mortíferas, o próprio ódio que se abriga sob a indignação”. A indignação pode também servir como combustível ao ódio, como assistimos nas manifestações de 2013 aqui no Brasil. Foi a transformação da indignação em ódio que elegeu o atual presidente de nosso país.

La Transferencia Negativa

Seminário de Orientação Lacaniana – 06/05/2019
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“Comment se Revolter”

Seminário de Orientação Lacaniana – 01/04/2019
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