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Seminário de Orientação Lacaniana

Coordenação pelo Conselho da Seção Rio: Maria Silvia Garcia Fernandes Hanna (Presidente), Ondina Rodrigues Machado (Secretária), Heloisa Caldas, Marcia Zucchi, Paula Borsoi, Rodrigo Lyra de Carvalho.

Vivemos um estado de atenção, onde a civilização em seus vários aspectos se mostra inquietante e turbulenta. Uma série de acontecimentos no Brasil e no mundo vem oferecendo a oportunidade para que a psicanálise e os psicanalistas tomem a palavra, estudem e digam algo sobre a ameaça que paira sobre a dignidade de cada sujeito, começando por nós mesmos. O laço social e suas formas de regulação se encontram questionados pelo surgimento de um discurso de ódio que se multiplica, sem que tenhamos conseguido encontrar um modo de amortecê-lo. As ferramentas da psicanálise ajudam a fazer uma leitura, sem um saber prévio, que permita aprender algo sobre tais mudanças, nas quais a palavra vem perdendo seu peso e sua força. Percebemos que há um real que se impõe, pois “os processos segregativos são impossíveis de serem regulados se não se consegue uma subjetivação possível sobre sua causa” (Ventura, O. “Las raices del odio”, in: Fórum de Milão).

Nesse caldo de discussão, em que a Escola se mantém viva e palpitante, o Conselho da Seção Rio decidiu propor três encontros no primeiro semestre para o Seminário de Orientação Lacaniana. Ódio, Cólera e Indignação são as paixões trabalhadas por Freud e Lacan e também recolhidas, segundo o argumento do Enapol, “da civilização, mais precisamente do campo das relações políticas e sociais em que nos inserimos hoje”. Deste modo, propomos extrair dos textos escolhidos as consequências dessa situação contemporânea sobre a clínica e a política, abordando a incidência do psicanalista e da psicanálise no mundo. Apresentaremos três textos para elaborar os temas do ódio, da cólera e da indignação:

  1. Ódio – Seminário sobre a transferência negativa – J-A Miller
  2. Cólera – Comment se revolter – J-A Miller (em francês, na biblioteca)
  3. Indignação – O retorno da blasfêmia – OL  online 16 março 2015

Desde já, convidamos  todos a participar do debate, com o desejo de termos um ótimo semestre de trabalho.

Esperamos todos lá.

Paula Borsoi – Presidente do Conselho Seção Rio
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Seminário-de-Orientação-Lacaniana

Os divinos detalhes- Uma apresentação.

Maria Silvia Garcia Fernandez Hanna
Seminário de Orientação Lacaniana de 05/08

Hoje depois de algumas semanas de ter apresentado no contexto do Seminário de Orientação Lacaniana os primeiros dois capítulos do curso de J.-A. Miller: Los Divinos Detalles[1], recupero aqui alguns aspectos que ficaram em minha memoria como mais relevantes. Sugiro aos leitores leiam os dois capítulos já que eles possuem uma ampla gama de elementos que não se encontram presentes neste texto

Sobre o titulo, algo da serie e do objeto

No primeiro capitulo do curso são abordados a escolha e fontes  do titulo e logo a seguir se realiza um traçado que apresenta a proposta de trabalho. A mesma visa circunscrever e dar ao tema do gozo  um justo lugar.

Assim são apresentados alguns termos retomados de um Freud Lacaniano: o prazer, a libido, a satisfação, que permitirão estudar as condições do amor e do desejo na escolha do parceiro.

A palavra detalhe incluída no titulo tem uma inspiração  Nobokoviana, autor que recomendava a seus alunos de literatura nos EEUU que acariciassem os detalhes.

Mas considero que a escolha do “detalhe” obedece fundamentalmente a sua raiz etimológica  que indica corte, termo tão caro à psicanalise desde a elaboração dos objetos parciais, separados do corpo, em torno dos quais se produz a satisfação pulsional,- seio, fezes, falo, olhar e voz- transformados pelo trabalho de J. Lacan em objeto pequeno a.

Cabe lembrar que o objeto pequeno a surge do encontro do vivo com a linguagem, operação que divide o vivo ao entrar na maquina significante,  gerando por um lado, um sujeito dividido entre os significantes e por outro, um objeto resto, indivisível, inassimilável ao significante.

A partir dessa elaboração lacaniana a psicanálise ganha um novo instrumento para  dar seu devido lugar ao detalhe, aquele que se repete, no qual habita algo do gozo fragmentado e fixado que denominamos de objeto a em suas diversas formas. Nesse sentido o dispositivo psicanalítico (associação-livre-interpretação) realiza sua operação, sempre apoiada no detalhe, lugar onde mora algo de uma satisfação que se reitera, satisfação que não fecha um circulo, e que sempre transborda gerando mal-estar.

A posição do analista desde Freud se apoia na tradição dos exegetas que interpretaram a bíblia, dando destaque aos detalhes que giram em torno do Um  e que emergem no relato sob transferência. Por esta razão, J. A Miller diz que poderíamos rebatizar o texto da “Interpretação dos sonhos” como O Talmud dos sonhos, ou A psicopatologia da vida cotidiana como O Talmud dos lapsos. E diz mais ainda que se há um espirito da psicanálise, ele se respira nos detalhes.

Mas na experiência analítica não se trata de prestar atenção a qualquer detalhe. O detalhe deve ter a qualidade ser divino. Como entender isso? Não é tão fácil. Em minha leitura entendo que esse divino alude ao lugar do resto, que se aloja no pedaço do corpo recoberto pela conexão com a castração (-j). Nessa articulação surge algo do divino que foi ilustrado por J. Lacan através da imagem do dedo levantado de São João Batista pintada por Leonardo Da Vinci. O dedo que aponta para cima e para um lugar vazio no quadro indica algo do objeto resto-caído sublimado transformado em uma ausência.

O exemplo do encontro  de Dante com Beatriz serve para pensar esse detalhe e sua elevação para a categoria do divino. Dante diz: “Há aqui um deus mais forte que eu que vem para ser meu senhor.”

O detalhe que se encontra aqui divinizado é solidário do objeto caído e suscita o amor e o desejo, alojando em sim um gozo situado no olhar de Beatriz.  Podemos fazer a seguinte sequencia: Olhar de Beatriz-resto estranho-apêndice do corpo irredutível ao significante (objeto causa) que se transforma em objeto do desejo ao ser recoberto por uma imagem.

O psicanalista recorta o detalhe para promover uma separação entre o objeto e suas vestes. Portanto não visa divinizar mais ainda o detalhe, senão fazê-lo cair para promover uma nova separação do gozo ai fixado.  Dessa separação poderá advir algo novo em termos de satisfação.

O paradoxo do Zenon retomado em primeiro lugar por J. Lacan é nesse texto novamente examinado para elucidar o que se passa entre Aquiles e a tartaruga. Aquiles é rápido, tem longas pernas, a tartaruga é lenta, mas ele nunca a alcança. Ela sempre está um passo a frente.

Esse paradoxo só pode ser  compreendido pela introdução da maquina significante nos diz J.-A Miller e propõe  substituir Aquiles 1 e Tartaruga 2 por um S1 e um S2. Essa relação significante promove por um lado, um sujeito dividido (lançando Aquiles em uma corrida infinita) e por outro produz ai um ponto de parada, algo indivisível, onde esta situado o objeto causa de desejo e de gozo divinizado e transformado em objeto de desejo.

Sabemos que o tema do infinito e finito toca o percurso da análise desde Freud e com J. Lacan encontramos o  matema objeto a que nos permite ir um pouco além do rochedo da castração e elaborar o atravessamento da fantasia. Trata-se de tocar algo desse finito, o que incide na forma de gozar. Lembremos a indicação lacaniana que diz: O amor (de transferência) faz condescender o gozo ao desejo.

A tartaruga, assim como a Beatriz (olhar) de Dante,  tem algo que atrai Aquiles.

O que é? No caso de Aquiles é casco que aloja o objeto pequeno a que evoca sincronicamente o escudo recebido pela sua mãe de Haefasistos para lhe entregar.

Podemos perceber que o detalhe é fundamental na vida amorosa na medida em que ele aloja algo do gozo fragmentado do pedaço de corpo cortado, que se apresenta sublimado, isto é elevado à categoria do divino, na medida em que se articula à castração.

Sobre o gozo: o detalhe na escolha do objeto

Para encaminhar um pouco mais o tema sobre a satisfação pulsional na escolha do parceiro J.-A Miller se serve das formulações freudianas sobre as pulsões, a primeira teoria pulsional –pulsões do eu e de auto-conservação vs. pulsões sexuais-, incluindo a teoria do narcisismo como um dos aspectos que força a Freud a produzir outra elaboração  sobre as pulsões: Eros vs. Tânatos.

Também acrescenta  a afirmação de J. Lacan que diz que  o gozo transcorre   de Eros a Tanátos, revelando desta forma  que a libido e a pulsão de morte são o mesmo, o que pode ser pensado como que há ai um casamento secreto entre ambos. A presença dessa aliança se evidencia na exigência libidinal da pulsão presente no imperativo moral, que resulta em um prazer que  transborda continuamente produzindo um além do principio do prazer, isto é um sofrimento.

Do casamento secreto de Eros e Tánatos  J. -A Miller passa a propor uma outra questão: Porque nos casamos?

Ele responde dizendo que haveria nesse ato do casamento uma renuncia a gozar de si. Nessa perspectiva surge o amor, que como já dissemos é o que permite ao gozo condescender ao desejo. Lembrando que a raiz etimológica do desejo remete a lamentar uma ausência dizemos que é necessário aceitar a renuncia do  gozo do próprio corpo, o que acarretará um  lamento de uma ausência, para poder passar por outro corpo. Passar pelo corpo do Outro. O detalhe tem ai nessa passagem um papel fundamental.

A flechada e Eva é o titulo do segundo capitulo que nos permitirá aprender um pouco mais sobre o lugar do detalhe na escolha do objeto.

J.- A Miller inspirado pelo trabalho do Rabino Reshi, lê o Pentateuco onde está a criação do paraíso, do primeiro homem e da primeira mulher. Ele pensa que será outra oportunidade de mostrar a origem do divino no detalhe que se lhe imputa ao amor.

Lendo a letra do Pentateuco, temos a frase pronunciada por Adão.

“Esta… (agora, esta vez) é osso de meus  ossos, carne de minha carne. Ela será chamada de mulher porque  do homem foi tirada.”

A escolha de Adão é narcísica?  A primeira vista parece ser.

Lembremos os dois tipos de escolha do objeto apresentado no texto do narcisismo por Freud: a narcisista e a anaclítica, a primeira é escolher o mesmo e na segunda escolher baseado na mãe.

Segundo J.-A Miller, Adão, sem mãe não tinha como escolher Eva baseado na mãe, o que seria uma vantagem para ele. Mas Adão tem um  inconveniente que consiste em tomar Eva como dada por Deus-pai. Isto teria levado a escutá-la e acreditar nela, situação que provocou o primeiro pecado original e sua consequência: a expulsão do paraíso.

Mas o que interessa aqui é pensar que tipo de escolha foi a de Adão. Podemos dizer que aparentemente foi narcisista mas teve como substrato uma escolha anaclitica baseada na identificação ao Deus pai.

Adão se alegrou e acolheu Eva como se fosse ele mesmo. Ai esta o engano que acarretará como dizemos acima a primeira falta e o consequente castigo.

Qual é o detalhe que Rashi encontra no Pentateuco? Ele o localiza na frase: Esta, esta vez… interpretando-a que Adão haveria tido anteriormente relações com animais. Mas a satisfação se deu quando conheceu a Eva.

Esse breve apólogo segundo J.-A Miller distingue os seguintes elementos:

Uma mulher- que é o primeiro detalhe divino, talhado, recortado do corpo de Adão. Costela.

Operação divina realizada durante o tempo em que Adão dorme.

Eva carrega em si o primeiro divino detalhe.

Podemos dizer que houve ai uma escolha de objeto no sentido freudiano propriamente dito, o que produziria a seguinte afirmação: É minha cada uma.

A importância do detalhe no objeto

A concepção do modelo de satisfação estruturada como o bebê dormindo satisfeito no colo da mãe sofre uma reviravolta  quando se verifica que a satisfação passa pelo seio, objeto separado objeto parcial.

Lacan apreende e ensina como o significante estrutura, domina o desejo aludindo ao texto sobre o Fetichismo de Freud. Nesse trabalho encontramos   a partir da inteligente percepção freudiana, a sutileza do detalhe que a mulher precisa possuir nesse caso para ser atraente, detalhe elevado a uma condição sine qua non para produzir o desejo. É o brilho-olhar no nariz inserido no mal-entendido produzido pela assonância entre duas línguas- alemão inglês) que se transforma  em o fetiche que substitui o falo.

Freud se interessa desde os Três ensaios nas causas de escolha do objeto, indicando em diferentes momentos que a escolha é sempre forçada pelas condições que ela exige demonstrando que a psicanalise se afasta de qualquer naturalidade na escolha do objeto. Em cada escolha forcada há um detalhe presente.

Lembremos que toda a paisagem da escolha do objeto se realiza de forma independente do sexo do objeto. A liberdade se estende para todos os sexos. As restrições se situam depois, são produzidas pela operação de sexuação dos corpos. Assim os homens e as mulheres somente se relacionam com seu objeto sexual de amor dando um rodeio pelas condições mais ou menos precisas.

Para finalizar apresento o matema inventado por J. –A Miller para escrever a condição do amor freudiana:

a
____

S2

Encontramos duas vertentes: a da causa (objeto a) e a do saber (S2).

O objeto causa do desejo precisa estar sustentado por certas condições significantes  S2 (saber).

Creio que este matema servirá para os próximos encontros sobre os divinos detalhes.


[1] Miller, J.-A. (1989) Los Divinos Detalles, Buenos Aires, Paidós. 2017.

Algumas pontuações em torno dos comentários de Maria Silvia Hanna das duas primeiras lições do seminário de J.-A. Miller, “Divinos detalhes”:

Ana Beatriz Freire 

Hoje, abrimos nesse segundo semestre de 2019, a orientação lacaniana pelo seminário de 1989, “Divinos detalhes”. Seminário de 30 anos atrás que pode ser recortado de várias maneiras, por vários caminhos através das inúmeras  referências, dentre outras, literárias e filosóficas:   Madame Bovary, Proust- um amor de Swann, Jean Jacques Rousseau, Schiller, Edgar Allan Poe, Plutarco -sobre o corpo de Osiris- , Dante, Goethe, Gide, Rashi de Troyes que foi, como lembrou Maria Silvia,  um exegeta do Talmud da Babilônia, etc.

Detalhar, como lembrou Maria Silvia com Miller, é cortar em pedaços. Assim, a partir da leitura e pontuações já apresentadas por Maria Silvia desse seminário de Miller, recorto, dentre outras, algumas questões:

Para falar do amor, Miller retoma Freud, no texto “Sobre o narcisismo, uma introdução”, de 1914, destacando o termo freudiano eleição, escolha, de objeto. Nesse artigo, Freud postula dois tipos de escolha de objeto, afirmando que a pessoa pode amar segundo duas vertentes:

Primeiramente, pela escolha Narcísica (segundo o que ela própria é, o que ela próprio foi, o que gostaria de ser, seus ideais e, por fim, escolhendo alguém que foi parte dela mesma).  Em seguida, a pessoa pode amar segundo uma escolha do tipo anaclítica ou de apoio (apoio, segundo Freud, nas ditas pulsões de autoconservação): segundo, portanto, o modelo da mulher que a alimentou ou segundo o pai que a protegeu.

Gostaria de colocar a questão do termo escolha, seja escolha narcísica seja anaclítica, de apoio:

Como esses termos conversariam com as questões da sexualidade hoje, a partir dos movimentos LGBTQI? Colocamos a questão já que escolha não é um termo aceito pelo movimento atual do LGBTQI e, por outro lado, o termo gênero não é um conceito da psicanálise. Além disso, a identidade de gênero não coincide necessariamente com a orientação sexual.

Para desenvolver essa discussão nos reportamos a conferência de Marie-Hélène Brousse, intitulada Psicanálise, gênero e feminismo proferida em São Paulo, em 2015, assim como o artigo de Giselle Falbo em Latusa online, ano 7, número 20, de julho de 2016,  intitulado Sexualidade, gênero e corpo.

2)  Se no processo de análise não é, como afirma Miller, qualquer detalhe que nos interessa ouvir, destacar, e sim aqueles que são divinos por se repetir, poderíamos situar esse “Um” divino na série do Um que produz uma meia verdade?

Teria o “todo unificado da tradição cristã” relação com o “il y a de L’Un”, partitivo, de Parmênides tal como Lacan se refere no Seminário 20, Encore?   Esse todo cristão teria relação com o que, nesse Seminário 20, Lacan situa, na contramão da ontologia, como substancia gozante?

Se, através do mito de Adão e Eva, Miller explicou a origem da mulher, primeiramente como escolha narcísica ( uma parte do que fui). Em seguida, como uma escolha de apoio, já que foi deus que a engendrou.

A partir dessas considerações míticas sobre a origem da mulher, perguntaríamos como situar o feminino? Seria suficiente falar de escolha? Poderia o “não todo” do gozo feminino ser explicado pela identificação e escolha tal como na solução edípica?

Sobre o amor, Miller comentando Lacan vai abordar pelo fetichismo, já que é pelos objetos parciais, pelo “não todo” que amamos. Se o fetichista nega o pênis na mulher e busca se satisfazer com um objeto substituto, o amor seria a procura da outra metade que se perdeu tal como descrito por Aristófanes no Banquete (cf. Seminário 8, sobre a transferência)? Seria o encontro com o objeto propriamente um reencontro? Como afirma Miller, retomando Freud (p.46), tratar-se-ia de um reencontro sempre faltoso, impossível de se completar, amuro, segundo a hipótese da “não relação sexual”?

Miller, desenvolvendo o amor através do fetiche, retoma a abordagem freudiana do texto de 1927, a partir do equívoco. Trata-se do equívoco entre a expressão “Glance at the nose” e a expressão em alemão ”Glanz auf der Nase”: o nariz que brilha em alemão, era um glance. Em inglês, língua materna do paciente, glance quer dizer um “vislumbre” (na tradução da Standart), relance ou o que mira. Podemos comparar esse brilho com o exemplo da lata de sardinha na Bretanha, descrita no Seminário 11, que ofusca e visa o pequeno intelectual parisiense por se encontrar deslocado? Ou melhor, fora do enquadro dos pescadores por ser uma lata industrial que brilha e ofusca a simplicidade da pesca artesanal do bretão seria o objeto a, resto, o que visa, brilha, causando o sujeito no fetiche e no amor?

No amor, a mirada sobre o nariz do Outro, segundo o exemplo do paciente de Freud, estaria escrita no olhar brilhante do sujeito, que como objeto nada mais seria que aquele que atrai os olhos? ( p.46).

Miller começa a primeira lição, definindo o Um que não é todo, pelo objeto a através do paradoxo do Aquiles e a tartaruga de Zénon: Aquiles, dos pés ligeiros, detrás da inalcançável tartaruga que o precede, que se arrastando, o precede para sempre. Define o objeto a como o inalcançável nessa aposta, como o que cai, designando o inapreensível dos desfiladeiros entre os significantes, entre o tempo marcado pelo T1, saída da tartaruga, e o o seguinte, T2 no percurso da tartaruga. Poderíamos interrogar com Miller o princípio do infinito, dizendo que se vai encontrar sempre uma metade para dividir (p.23). Ou como afirma Miller com Zénon, “se cortarmos sempre a metade do que sobra, o resultado da torta não termina nunca”, “as partes do todo, por mais numerosos que sejam, não alcançam nunca o todo” (p.22)

A questão que se coloca a partir do infinito e desse paradoxo seria em relação ao lugar que ocupa a tartaruga: a tartaruga seria aquela inalcançável e, portanto, a que causa o desejo? Ou aquela que representaria o i(a), o casco como véu que envolve e vela o objeto real?  O objeto a seria o inassimilável da série temporal, aquilo que cai do serial significante, entre o T1 e o T2, entre tempo um e tempo dois ou a própria tartaruga?

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O psicanalista e as paixões – o gosto do riso e a blasfêmia

Cristina Duba
02.06.19

Nos textos reunidos sob a rubrica Je suis Charlie, JA Miller responde aos acontecimentos de 2015 em Paris, quando houve o massacre da redação do jornal Charlie Hebdo, num ataque terrorista em resposta a charges publicadas com a figura de Maomé.

Gostaria de extrair nesse comentário alguns aspectos que me pareceram centrais nas observações de Miller. O primeiro deles diz respeito ao ressurgimento do valor da blasfêmia em contraponto à tradição iluminista dos poderes da razão, tão caros à sociedade francesa. Num mundo em que a religião retoma seu reinado, o reinado do sentido, capturando o desejo exatamente dos segregados de uma França branca, este choque se deu exatamente na trincheira “iluminista” do humor. Ao denominá-la como iluminista, estou privilegiando o lugar relevante, proeminente, que é dado à razão e aos princípios que daí derivam e cujas bandeiras principais se escrevem sob a égide dos universalismos extraídos da razão.

Ultraje a honra

Se considerarmos que a blasfêmia se constitui exatamente neste ponto em que se golpeia o sagrado do Outro, onde o fundamento de uma crença é ultrajado, insultado, atingido, no ponto em que se sustenta, podemos apreender que desperte a ira, a cólera e, mais persistentemente, o ódio.

O que parece ter surpreendido o mundo ocidental, a partir da França, não deve ter sido exatamente o massacre, a carnificina dos corpos, mas principalmente que essa fúria, que não excluiu o planejamento minucioso do ato, tenha se dirigido a um jornal, a um veículo primordialmente de discurso, de imagens e palavras, um jornal, aliás, sem maior projeção, decadente, herdeiro de combates de outro momento. Mais propriamente das trincheiras de 68. Eu, por exemplo, que pertenço a uma geração pós-68, do Rio de Janeiro, mas que sofreu diretamente essa influência e que cultuava o riso, o humor, que tinha Wolinski como uma espécie de príncipe dos cartunistas, um dos que levava mais longe a iconoclastia iluminista, para além mesmo do politicamente correto, onde o direito a rir de tudo não encontrava quase barreira, posso verificar que isso mudou muito. Como disse Laerte, cartunista brasileiro e colaborador eventual do Charlie Hebdo, o humor encontrou limites éticos, de forma mais rápida que as demais artes.

Voltando às crônicas de Miller, ele nos faz notar que os franceses reagiram a esse acontecimento e aos que se seguiram, aos ataques na mercearia kosher, com indignação. Ao golpe de cólera, ao instante do ato de terrorismo, os franceses reagiram com o afeto da indignação, que supõe primordialmente, a possibilidade de identificação com o golpe sofrido pelo próximo, pelo semelhante, por quem se compartilha o sentimento de humanidade, a fatia ultrajada a quem se reivindica dignidade. A indignação que perdura por mais de um instante, um afeto mais duradouro. Je suis Charlie, era esta a palavra-de-ordem a “comandar”, ao menos, a “juntar” a multidão.

Ele também nos faz notar, com a força de sua ironia, o súbito apaixonamento dos franceses pela polícia. Nunca se clamou tanto pela ordem, quanto naquele momento em que um inimigo interno podia ser apontado, embora não se saiba bem onde. Um inimigo interno com seu gozo estranho, feito de sacrifícios e mártires e um deus obscuro aos ocidentais. Ondas de solidariedade se desencadearam, a partir desse sentimento de dignidade ferida e, assim, restituída, recomposta, e que a indignação arrebanhou. O que se revela aí, segundo Miller, não é um louvor às luzes, às liberdades da Razão, mas um desejo de manter a ordem, um desejo de submissão, de servidão voluntária, diante do temor ao gozo sombrio desse Outro que espreita em toda parte. Choque de gozos.

No entanto, este mundo também foi confrontado por esse outro mundo que se indigna quando o coração de sua fé, o sentido de sua fé, é atingido, quando se sente insultado. Um insulto é uma espécie de palavra-imagem que toca o impossível de suportar, a palavra mais próxima  de uma bofetada. Um confronto de dignidades, poderíamos supor, que acusa impasses dessas civilizações que se chocam justamente porque se cruzam, se avizinham de um modo que possa beirar o intolerável. Sob o confronto de dignidades, o choque de gozos.

Do lado dos humoristas, uma outra dignidade da qual, seja qual for a razão que se evoque, desde a mais desonrosa (sempre financeira), até a mais íntima (a melancolia, a irresponsabilidade) não foi possível para eles se desprender, embora houvesse um risco anunciado: o fato é que eles não recuaram desse princípio de rir de tudo, rir de tudo, menos da possibilidade de rir.

O riso

Há o riso do cômico, cujo exemplo extremo é o pastelão, é o gozo que nos despertam as fraquezas, os tropeços, quando o que é automático revela o erro de seu funcionamento, surgindo o inesperado, como aponta Bergson, e que coincide com a comédia do falo, como nos diz Lacan. E há o humor que descentraliza, que desliza, que vivifica pela iconoclastia, pela afinidade com o furo, pela atenção ao que escapa do furor do ideal, pela benevolência cruel com a falha. É o humor que revira o sentido, desliza, subverte o sentido que vigora, é o humor que transgride. Este humor, marcado pelo non sense, é primordialmente não conformista e, embora se dirija ao Outro, se produz na solidão da criação. Nesse sentido, implica numa satisfação pulsional que vivifica, mesmo o humor mais negro, ao revirar um sentido sinistro, introduz alegria no horror.  Lembro as piadas que autores como Viktor Klemperer relatam em seu diário na Alemanha nazista.

Num mundo em que o pai responde com furor e capricho, não se suporta este riso que faz deslizar o sentido. Quando o discurso fundamentalista exige que não haja vacilação de sentido para que o delírio religioso se sustente e sustente seus devotos na crença absoluta, o imenso risco do fracasso torna a todos muito sérios. Como dizia uma charge retratando revoltas populares na faixa de gaza nessa época: ”que gente estressada!” O riso aí, o poder da comédia ao revelar o derrisório do falo, a precariedade do pai e do ideal, pode despertar as paixões mais mortíferas, o próprio ódio que se abriga sob a indignação, por exemplo.  A blasfêmia que pode se apresentar nesse extremo do humor carrega então uma face mortífera, quando seu agente não pode ceder desse gosto, desse gozo ao qual se condena não mais se apoiando no ideal do eu, mas nessa forma de gozo superegóico – do gênero:  “perder o amigo, mas não perder a piada”. Assim, esse não conformismo do humor, como um valor do qual não se pode ceder, essa liberdade de tudo dizer, pode ser para o Outro do sentido um insulto, um ultraje, uma blasfêmia.

Paradoxos

É possível rir de tudo? Para a geração de humoristas pós-68, não. O humor, como as palavras, têm limites, a noção de responsabilidade política pelo que se diz, o reconhecimento do poder e do perigo das palavras suplantou o gozo de tudo dizer. O reduto do “tudo dizer” ainda se encontra na psicanálise, que conhece os limites desse dispositivo e acolhe os pequenos depósitos dos gozos obscuros de cada um. Sem, no entanto, perder de vista a dignidade a extrair para cada um desses restos, afinal, a dignidade aponta para o que há de mais singular que marca e dá valor a cada um. E até porque a psicanálise verifica o impossível de tudo dizer, a impotência das palavras para dizer o real, a violência do insulto sempre anda por perto das palavras.

Mas sabemos do radicalismo fascinante do humor de um Wolinski, por exemplo, que não recuava do direito iluminista de ir longe demais. Os perigos e fascínios da razão. O quanto isso tinha de mortífero é seu segredo agora.

Retomando ainda: é possível rir de tudo? Não, porque a blasfêmia está de volta, o que quer dizer que as palavras, bem como as imagens que falam, que são textos, e que nunca deixaram de insultar ao se dirigir ao ser do outro, inseridas na violência da linguagem, agora não são suportadas por esses ofendidos que se revoltam.

A paixão de tudo dizer, de tudo rir, essa espécie de direito ao riso absoluto, ao confinar com o insulto ao gozo do próximo, encontra um limite já no racismo que engendra com esse desprezo ao derrisório da fé estranha, estrangeira. Assim, podemos nos interrogar se o direito de rir de tudo já não é necessariamente um insulto ao gozo do próximo. Um fato de racismo, racismo de gozo. Não é um fenômeno francês, ou apenas de primeiro mundo. Está relacionado ao recrudescimento do sentido religioso. (Do lado da psicanálise, a questão se expressa mais no sentido do humor, menos do riso). De todo modo a mordacidade de qualquer riso, traz sempre a surpresa, a irrupção, nem sempre partilhável, mas emergindo de uma fonte tão íntima quanto estranha.

Uma palavra sobre a dignidade. Se a dignidade evoca em cada um o que há de mais singular, o que singulariza o sujeito no mundo, ela se realiza no significante que o representa, está referida ao significante com o qual o sujeito se coordena, logo, àquilo do qual não se pode abrir mão, ao custo por vezes da vida, ou pelo menos, no campo onde essa aposta pode se dar, onde se transita no fio tênue que às vezes separa o sacrifício  do heroísmo, entre cair como pedaço de carne, ou morrer  para fazer viver o significante, para preservá-lo. Como diz Miller em outro texto, “Nota sobre a honra e a vergonha”, morrer de vergonha para sustentar sua honra.

Parece que nesse massacre, que teve ares de tragédia, a nenhum dos dois lados, foi dado primmum vivere. A cada um dos lados não foi possível escolher a vida e perder a honra. Um dos lados morreu de vergonha, o outro morreu de rir.

Comentário sobre o texto de Cristina Duba “O psicanalista e as paixões: o gosto do riso e a blasfêmia”

Ondina Machado
Seminário de Orientação Lacaniana de 03/06/2019.

De cara, Cristina nos apresenta o cerne da questão: “ressurgimento do valor da blasfêmia em contraponto à tradição iluminista dos poderes da razão”. Em outras palavras, a invasão do oriente pelo ocidente, do discurso capitalista no discurso do mestre, da vacilação própria ao semblante na fixidez do sentido religioso. O choque está em desvelar o real da não relação sexual através do golpe contra o sagrado do outro que acredita na relação sexual. É um choque de civilizações em que uma tenta de se impor a outra pela via de um suposto Ideal. Como golpe não faz diferença de que lado parte.

No caso da blasfêmia, a via é a do insulto. Sempre é possível questionar se se trata de blasfêmia, de insulto, a série de charges publicada pelo Charlie Hebdo em torno de Alá, Maomé e seus seguidores. Quem decide o que é ou não insulto? Sempre vale a máxima de quem decide o sentido é quem o recebe. Os atos não tem graus que possam por si só serem classificados ou não como violentos, até mesmo a morte, que em determinadas circunstâncias ou nas mãos de bons advogados, pode virar um ato heróico.

De modo geral, é possível dizer que o insulto toca no ‘impossível de suportar’ de cada um, o ponto de real para o qual não há significação. O insulto ataca o ser do outro presentificado em sua forma de gozar.

No caso do Charlie Hebdo, devemos considerar que, mesmo decadente, se inseria numa cultura que tem como ideologia de estado a República. A dignidade da França se alicerça no ideal republicano da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, mesmo que saibamos que a prática desse ideal torna alguns menos livres, menos iguais e pouco fraternos. As charges do Charlie confrontavam o eu ideal francês com o Ideal do eu dos radicais.

É importante dizer que o Ideal dos jovens radicais não é Alá, como nos esclarece Fethi Benslama. Para esse psicanalista francês e estudioso do Islã, o propósito desses jovens é “vingar sua vida”, dar sentido as suas vidas pela adesão ao radicalismo. O “Em nome de Alá”, pronunciado nos ataques é uma maneira, usando uma expressão da Cristina, de “fazer viver o significante” de um ideal pela via do gozo. Se fosse Ideal, esses jovens estariam mais propensos a serem alcançados pelo Iluminismo francês. Mas não é isso que se vê. Cabe então a pergunta feita por Laurent: é um Ideal ou um gozo novo?

Trata-se de uma geração atravessada pela ascensão do objeto na qual o ideal sofreu uma transformação, passando a ser sustentado por um “empuxo ao gozo”. É como se o ideal tivesse se transformado em gozo, portanto, uma nova configuração de gozo. Seria um ideal que produziria, através dos auto-sacrifícios, objetos de gozo – os mártires. São objetos que apontam o real da civilização ocidental, aquele que se quer crer livre, igual e fraterno. A originalidade desses objetos é justamente a impossibilidade de serem reciclados, de serem reabsorvidos pela razão. Nesse caso, poderia ser dito que a salvação pelos ideais se dá ao torna-los objetos, dejetos.

Assim, na radicalização encontramos o gozo do Um, o que é um paradoxo porque em nome de um Ideal, supostamente comunitário, o que impera é o gozo do Um. O que há é o Um, como diz Lacan.

Está claro que no nosso mundo capitalista, sempre tem uma empresa que se propõe a vender, e até a criar, uma demanda que faça essa transformação do ideal em gozo. Temos aí não só o Estado Islâmico mas também a indústria de armas.

Qual efeito podemos considerar que o humor, que não cede a fazer vacilar os semblantes, possa ter sobre os jovens que buscam na radicalização um sentido para suas vidas? O humor provoca o mal entendido, promove a ruptura entre significante e significado, portanto, tem efeito traumático porque levanta o véu que cobre o real e demonstra que no sentido habita um sem sentido. Lacan nos aponta dois caminhos possíveis diante da angústia pela emergência do real: o do fantasma e o da passagem ao ato. Por essas duas vias teríamos os indignados e os radicais.

Sabe-se que nem todo jovem que se radicaliza vai para o sacrifício, a maioria fica em funções de apoio. Os que vão para o auto-sacrifício são, em geral, jovens de classes populares. Os de classe média (poucos) ficam nas funções chamadas de inteligência. Nos últimos tempos tem-se constatado, e tido acesso, a cada vez mais relatos de jovens arrependidos nos quais fica clara a busca pelo gozo.

Diante da vacilação generalizada dos semblantes que caracterizam a nossa cultura sub-vem a fixação como defesa – o politicamente correto é respondido com o “talquei”. Há um franqueamento entre indignação e ódio, ou como diz Cristina, “pode despertar as paixões mais mortíferas, o próprio ódio que se abriga sob a indignação”. A indignação pode também servir como combustível ao ódio, como assistimos nas manifestações de 2013 aqui no Brasil. Foi a transformação da indignação em ódio que elegeu o atual presidente de nosso país.

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