Fale Conosco: (21) 2539-0960

Passe: o sonho e as paixões

Coordenação: Ana Lucia Lutterbach Holck

Nosso seminário pretende privilegiar o momento que se segue ao primeiro testemunho do passe e busca explorar dois aspectos da análise: o sonho e as paixões. Qual foi o papel do sonho para aquele AE? Ainda se interpretam os sonhos? Ainda podemos dizer, com Freud, que o sonho é a estrada régia para o inconsciente? Sobre as paixões: como estas se apresentaram na análise? Qual a relação entre as paixões e os gozos? Qual o destino dado às paixões em uma análise? Esperamos que o debate em torno dessas questões conte não só com as contribuições dos convidados, mas com a participação de todos  os colegas que, partindo dos diferentes momentos de suas análises, desejarem entrar conosco nessa conversa.

Passe: o sonho e as paixões

O Tecido dos Sonhos

Ana Lucia Lutterbach
Seminário do Passe – 21/10/2019

“A neurose é o sonho que sonhamos a vida toda. Analisarmos nos permite, se tivermos sorte, interromper de vez em quando esse sonho neurótico e ter alguns instantes de despertar, advertidos de que nunca nos despertamos completamente.”

Com esta frase Irene Kuperwijs, no Seminário do passe da Seção Rio, dia 21 de outubro, em seu texto O Tecido dos sonhos nos indica que a neurose é o sonho que sonhamos a vida toda e só despertamos por breves instantes.

Para Freud o sonho é o seu relato, isto é, sonhar é a estratégia do sonhador para não ser despertado pelos estímulos, internos e externos, e continuar dormindo. O relato do sonho em análise apresenta a maneira de cada um escrever sua própria ficção para proteger-se da invasão do real. Assim, Freud enfatiza a função do sonho de fazer dormir, a maneira singular de contornar o real.

Lacan, por outro lado, enfatiza o despertar, nos advertindo que o despertar ocorre em um átimo para em seguida continuarmos a sonhar. O despertar absoluto é a morte. Deste ponto de vista, podemos concluir com Irene que neurose e psicose são maneiras peculiares de fazer dormir, maneiras distintas de continuar dormindo.

Irene nos apresenta 7 sonhos e faz de cada um ponto de escansão de sua análise.

Sonho 1. O Início.
Os lábios costurados de seu último analista morto marca o início da segunda análise: seus próprios lábios costurados, a boca que come o silêncio.
Sonho 2. Além do pai.
Seu pai silencioso ganha voz. O sonho indica um além do pai, ela não guarda mais o gozo mortífero que a acompanhou até então.
Sonho 3. Instante de despertar.
Um hipopótamo devora e vomita uma polenta amarela. O caramelo, o doce que ela foi para seu pai e avó materna, com o qual se identificara é vomitado.
Sonho 4. Extração do objeto.
A analista cirurgiã tenta arrancar uma marca de seu corpo com um bisturi. Com um gravador toma uma “prova” de sua voz. Separa-se do “silêncio salvador” sustentado até então pelo que Irene chamou de “delírio familiar”.
Sonho 5. A transferência por um fio.
Grita no sonho mas a voz não sai. Acorda e seu marido lhe diz que ela gemia dormindo. Diz à analista: “Tive um fiozinho de voz”. “Um fiozinho de mim (voz=você)?” – a analista indaga. Ainda um fio para se soltar.
Sonho 6. Idealização do final.
Rasga com suas unhas algo como uma casca e descasca e quando acha que não tem mais nada vê uma noz. Entusiasmada com seu sonho diz que a noz indica o objeto oral no lugar do vazio. A analista vocifera: “O vazio também se come, ao forno com batatas!” (Vazio na argentina é o nome de um corte de carne bovina).
Sonho 7. O último episódio
No sonho apenas três letra ZZZ que ela leu como um Witz do SsS.

Ultima letra do alfabeto, último capítulo de sua história traçada na transferência, Z, do final dos episódios do Zorro, que acompanhou sua infância.

Agradeço à Irene por este testemunho que nos ensina de forma evidente o lugar do sonho em sua análise, em uma análise. Nos ensinou que o sonho não só interpreta mas também escreve, escrito que faz borda ao real.

passe_21_out_Prancheta 1

Seminário do Passe: O sonho e as paixões

O passe e a clínica

Coordenação Ana Lucia Lutterbach Holck
Convidados: Marina Recalde e Marcus André Vieira
09.09.2019
Conversas sobre o Passe_Prancheta 1
passe_setembro_001
ics_setembro_002

Seminário do Passe: O sonho e as paixões

A aposta do passe no Brasil

Coordenação Ana Lucia Lutterbach Holck
Convidados: Romildo do Rêgo Barros
26.08.2019
Passe---O-sonho-e-as-paixões

Passe: O Sonho e as Paixões

O passe clínico e o passe institucional

Coordenação: Ana Lúcia Lutterbach Holk
Debatedora: Cristina Duba
17.06.19

Em primeiro lugar, chamo a atenção para o título desta segunda aula de Miller do seminário dado por ele e publicado como “política lacaniana”: a epopeia de Lacan.

Vamos nos deter um segundo no termo epopeia: ele nos indica que Lacan será tomado então como um herói. Como tal, às voltas com a solidão de seu ato, não sem as modulações com o Outro, afinal, um herói tem como Outro, no mínimo, seu destino. Um herói não recua de seu desejo, segue em direção a seu ato sem culpa, ato que só poderá ser nomeado como tal a posteriori, quando narrado na epopeia.

Não à toa, ao ver a reação contrária que provocou, ao instaurar o passe, Lacan dirá que não considerou o “tempo de compreender”.

Miller então nos apresenta os movimentos de Lacan que resultaram em atos. Um ato, nessa perspectiva, se mede por suas consequências, não por suas intenções (ética kantiana x ética hegeliana). Nesse sentido, na perspectiva lacaniana, não há como não ser consequente, ao não ceder de seu desejo, negligencia-se algo do “tempo para compreender”. Ato.

Só podemos falar de epopeia lacaniana (o que parece uma expressão muito feliz) como a narração dos feitos de Lacan, a posteriori, quando podemos reconhecer que Lacan, como herói, não terá cedido do seu desejo e, à luz de seus atos, reconhecer os passos que a posteriori, vamos repetir, o terão anunciado.

Momentos da epopeia, segundo Miller:

1 – Lacan conforme à norma, num primeiro momento. Lacan segue as normas da Sociedade Psicanalítica de Paris, filiada à IPA, analisa-se por 7 anos com Lowenstein, é supervisionado, etc. Encontra os impasses da “subjetividade” de sua época, que levarão à sua saída, com outros  que o acompanham. (Sessões curtas, principalmente, mas o que estava em questão era ferir os padrões, os standards fixados pela IPA). Podemos acompanhar desde esse momento a questão institucional que se entremeia às questões teóricas e clínicas.

2 – Lacan de normas flexíveis, em sua nova Sociedade, cujo afastamento da IPA o leva a imprimir, junto a outros, uma flexibilização, um abrandamento das regras institucionais, uma redução das normas que acompanham o seu movimento de retorno teórico à Freud, sem que isso propriamente gerasse um rigor na crítica do modelo institucional. Lacan espera seu reingresso à IPA.

Podemos dizer que sua releitura da “Psicologia das massas e análise do eu” (Freud) não tinha ainda gerado a crítica do modelo institucional baseado nas identificações e no complexo de Edipo, afetando a concepção das instituições sustentadas no modelo da Igreja e do Exército. Com a IPA, estamos diante das consequências do gesto de Freud de aceitar que a IPA reproduza o modelo da igreja e do exército, com “cooptação de sábios” e hierarquia, e todas as consequências e impasses gerados pelo modelo identificatório.  Inclusive no que será decisivo que é a concepção que se formaliza em “análise terminável e interminável”, que se sustenta numa espécie de infinitização que encontra solução só na identificação com o analista, em tomar um lugar na hierarquia, em termos institucionais. Não à toa a concepção de final de análise será decisiva para a subversão lacaniana da proposição.

(Podemos ousar dizer que a instituição IPA é depositária dos impasses freudianos, entre psicologia das massas e mal-estar na civilização?)

Miller observa que não há textos políticos de Lacan nesse período que se segue (fora, mais adiante, “situação da psicanálise… em 1956”), mas eu me pergunto se não podemos considerar “a psiquiatria inglesa e a guerra”, um texto político que aponta para a política institucional, pela maneira como assinala as soluções do realismo inglês e as experiências de Bion e  outros psiquiatras com o rebotalho da máquina de guerra, os excluídos, como fundamentais para a elaboração posterior do modelo do cartel, em que a função do líder, sua autoridade, já sofre um rebaixamento.

Este período (53-53) é marcado pelo funcionamento então do modelo do cartel. Em suma, consequências mais radicais da releitura de Freud por Lacan ainda não se formularam e a Sociedade Francesa de Psicanálise, de Lacan e alguns outros, reproduz o modelo institucional da Sociedade Psicanalítica de Paris, de maneira mais flexível.

O impasse que se dará a seguir responde ao que segue se produzindo: este funcionamento produz um impacto na estrutura de poder da análise didática que segue a hierarquia do pai, da passagem do título identificatório, semblante que Lacan subverte e que cria obstáculos a que a Sociedade seja incorporada à IPA.

3

Um segundo momento que se inaugura com a excomunhão de Lacan e a fundação da Escola, após a condição imposta pela IPA de que Lacan não conduza análises didáticas. Importante assinalar que Lacan à essa altura não cedia do seu desejo de retorno aos fundamentos de Freud e essa  posição no seu ensino nesse momento começava a produzir um impasse institucional que resulta na sua exclusão da IPA, já que não aceita essa restrição institucional de que fique no seu canto, apartado do lugar que seu ensino já lhe designa. Vale lembrar que é uma restrição institucional que resulta de seu ensino.

4

3 anos depois, a invenção do passe aparecerá então como a solução lógica e material para esse impasse que continua na Escola, solução sustentada numa concepção de final de análise que vai de encontro à lógica do modelo de igreja e exército, concerto de sábios mais hierarquia. O passe radicaliza essa subversão.

Se o passe clínico pudesse se restringir à clínica, não haveria grandes questões, o problema é que ao quebrar a hierarquia, ele gerou ou revelou no seio institucional sua própria resistência. Grosso modo, trouxe a IPA que existe em toda instituição à cena, como resistência de romper a rotina do modelo, da hierarquia, da reinstauração do conforto das identificações, revelou a contra-análise dentro da instituição.

Resumindo, com o passe, Lacan tentou reduzir o empuxo a reconstruir a máquina do pai, o funcionamento aos moldes do exército e da igreja, tentou fazer a instituição responder à política lacaniana, de ir além da identificação e dos ideais.

O passe aparece então com uma dimensão institucional fundamental, causa e conclusão política e clínica da ruptura com a IPA. Trata-se de uma dimensão política da clínica e de uma dimensão clínica da política. Há junção e disjunção, não união, logo há sempre mal-estar.

A aposta contida na invenção institucional do passe ao introduzir um corte na definição do psicanalista e propor  uma montagem, um dispositivo em que são os novos, os analistas jovens que nomeiam, em que a dimensão do prestígio e da carreira estão, portanto,  no mínimo reduzidas, coloca em jogo não só que há final de análise, como uma concepção de final de análise que se funda na diferença, no absolutamente singular, um obstáculo para a forma de funcionamento universalizante própria de uma instituição.

Trata-se de romper com análise terminável e interminável, propor uma desidentificação fálica em movimento contrário à realização da metáfora paterna que justamente institui o Outro, como demonstra Miller, e fazer entrar em cena uma outra concepção de final de análise como queda do objeto a, com desvanecimento do SSS e revelando “o Outro que não existe”. Primazia do ato sobre a experiência. Consequências se fazem sentir no nível da autoridade, logo no plano institucional. A primeira concepção institui a autoridade, a segunda a destitui.

A concepção de que o analista então só se autoriza de si mesmo se dá pela vertente da queda do objeto. Se a elaboração de saber se torna vã, o Outro não existe, não se pode ser analista por receber um título, não há ninguém para dá-lo. “O verdadeiro escândalo foi institucional”, como diz Miller. Esta concepção é incompatível com a hierarquia. Desloca-se, por exemplo, o título de “titular” para instalá-lo ao final da análise e de forma provisória.  Há um abalo no congresso de notáveis, um golpe na hierarquia, que Lacan teve que negociar, porque a nomeação passou a se fazer agora de baixo para cima, não tornar “um como nós”, mas “um adiante de nós”, nas palavras de Miller.

Quem deve ser o juiz da experiência do passe, no momento em que a experiência decresce de importância e se eleva o ato? A prática e produção importam menos que o frescor do ato e do instante. O realismo de Lacan o leva a apostar num tipo de assembleia – “não sem os outros”, novamente. Ao mesmo tempo resta o mal-estar, ninguém está totalmente de acordo com as normas, “salvo alguns”.

Voltemos novamente a esse ponto:

Há assim um consenso do ponto de vista clínico, o mal-estar se instala do ponto de vista institucional: Quando o passe desloca as linhas de prestígio ou se vê infiltrado pelas linhas de prestígio, o passe pode ser invadido pela hierarquia. O que está em jogo é sempre a balança entre a conformidade em relação às regras e à experiência e a radicalidade do ato.

O passe, do ponto de vista clínico, e do ponto de vista institucional, não se arranjam, há sempre um mal-estar. Ao se extrair as consequências institucionais do dispositivo do passe, resta sempre um desacordo.

Se o passe é um acontecimento clínico, é uma aposta a nível institucional. Lacan apostou num deslocamento de forças de quem nomeia os analistas, ao se centrar no desejo do analista e no ato, sem o acento na prática e na experiência, fazendo a enunciação prevalecer sobre o enunciado, combatendo a rotina e evitando a degradação. Esse deslocamento do poder foi o escândalo, uma consequência política da clínica do final de análise como queda de a.

Pergunta: se o escândalo do passe é institucional, hoje em dia como estamos? Mantém essa força subversiva? E como manter ativa esta potência, como se diz hoje em dia? O escândalo do passe sendo, nesse momento pregresso, escândalo institucional, nos leva a perguntar também sobre o passe do ponto de vista clínico nesse momento. Miller há um tempo atrás denunciou sua vulgarização. Pergunto como estamos quanto às consequências políticas de que a análise tem um fim, de que é preciso encaminhá-la para o esgotamento das identificações e quais as consequências políticas disso, ou seja, em que termos estamos com o Outro no momento? Barrado ou ilimitado? Continua em jogo o combate da rotina da experiência pelo ato? O passe precisa manter uma relação desconforme com a rotina e o conformismo institucional para não se esgotar num ritual.  Se apagarmos o mal-estar de que passe do ponto de vista clínico e do ponto de vista institucional estejam juntos, estes vão viver uma lua de mel mortífera? Pergunto então: se banalizarmos o passe clínico, que ele se industrialize num certo modelo burocrático ou se preste à idealização, os efeitos institucionais seriam de regresso a uma espécie de IPA? É preciso manter no horizonte o que Stella nos apontou na segunda passada: o imperativo ético leva a tocar o impossível desde o início da analise, é isso que passa. Quando perdemos de vista isso, o coração de uma análise, e é próprio do movimento de rotina e burocracia, ou de “demagogia”, como disse Lacan, que isso aconteça, voltamos à idealização excessiva do passe (não só a idealização inevitável), e abrimos espaço para sua degradação em procedimento, em  hierarquia.

Resta também a questão de como controlar a selvageria, dosar sua natureza de acontecimento, de ato, ou seja, em que dose incluir a experiência.

sem_passe_sonhos_paixoes