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2020

CONVERSAS SOBRE INCONSCIENTE E FORMAÇÃO DO ANALISTA

Coordenação: Andréa Reis Santos, Glória Maron, Maria do Rosário do Rêgo Barros e Paula Borsoi

Essa atividade é coordenada por um cartel formado por participantes de diferentes instâncias da Seção Rio e do ICP RJ, (Andréa Reis Santos, Glória Maron, Maria do Rosário do Rêgo Barros e Paula Borsoi e Elisa Alvarenga como mais um) que desde 2019 vem trabalhando em torno do tema da formação do analista e do papel que o inconsciente, quando não é lido como coisa morta, desempenha nela. Como fazer operar um saber que “descompleta”, que inclui o furo para dar lugar à formação que convém ao analista? Em 2020 pretendemos trabalhar em torno da pergunta sobre como a formação do analista pode fazer existir o inconsciente no lugar e tempo em que vivemos.

Conversação sobre o inconsciente e a formação do analista: uma retomada.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – EBP/ICP – 05/07/2020

As conversações sobre “O inconsciente e a formação do analista”[1], que nosso cartel coordenou em 2019, sofreram uma longa interrupção. Nosso último encontro de 2019 não aconteceu devido as chuvas intensas e nosso primeiro encontro não pode acontecer, pois a pandemia já tinha nos colocado no regime de isolamento social.

Depois desse longo intervalo foi necessário retomar um fio do que foram nossas conversas em 2019 para relançar nosso trabalho de investigação no cartel. Encontramos no texto de Jacques-Alain Miller “Para introduzir o efeito-de-formação” (Correio 37) um caminho de retomada.

Entrei no texto de Miller com o que ficou de nossas elaborações nas conversações anteriores e que continuaram presentes em nossas reflexões.

Destaco dois pontos que ficaram de nossas reflexões nas três conversações de 2019:

  • O primeiro surge com a frase de Lacan em Posição do inconsciente, “o analista faz parte do conceito do inconsciente”. Não podemos pensar esse enunciado de Lacan sem considerar a presença do analista. A presença do analista tem sido muito discutida hoje quando o isolamento social nos levou a uma vida virtual intensa. Os atendimentos passaram a ser online e as atividades de formação também. O analista não é só um lugar de endereçamento, que podemos dizer, se situa bem no atendimento online. Ele é uma presença viva, que insere no conceito do inconsciente, enquanto saber não sabido, enquanto cadeia associativa, a dimensão da contingência. O que faz contingência no atendimento online sem a presença dos corpos? Essa é uma pergunta que não cessamos de nos fazer. Essa questão foi bastante discutida nos Seminários clínicos por Romildo do Rêgo Barros, Marcus André Vieira e Nohemí Brown.
  • O segundo ponto que ficou como questão e como provocação para continuarmos a conversar veio da consideração de um “além do inconsciente”, que extraímos do final da segunda aula do curso “O Parceiro sintoma de J-A Miller, que discutimos em nosso último encontro de 2019. Miller afirma que “no horizonte do ensino de Lacan está um mais além do inconsciente como produtor de efeitos de verdade, e o sintoma que ele elabora em seu último ensino poderia ser um nome desse mais além do inconsciente”.

Deixo indicado aqui um trabalho a mais para fazermos: situar na formação do analista o que resta como sinthoma, tendo ele feito sua experiência do inconsciente. Essa discussão nos remete ao desejo do analista, que advém de sua formação e que não é um desejo puro, asséptico, mas atravessado pelos restos sintomáticos. Por isso mesmo sua formação é permanente e se apoia no tripé análise pessoal, supervisão e conteúdos epistêmicos. O desejo do analista foi muito discutido no último Seminário de Orientação Lacaniana com a apresentação de Maria Silvia Hanna e Ana Tereza Groisman.

Em nossa última conversação sugeri a leitura do texto de Laurent que trabalhamos no ICP em 2018 ,” O delírio de um inconsciente sem sintoma” e “O delírio de um sintoma sem inconsciente[2], pois eles me ajudaram a pensar como no além do inconsciente, se encontra o sinthoma, que não anula, não acaba com o inconsciente, mas abre para se pensar uma forma nova de articulação sintoma e inconsciente tendo como ponto de interseção o real.

É bem diferente pensar um sintoma sem inconsciente e um sintoma além do inconsciente.

Não parece possível pensar o além do inconsciente sem a experiência mesma do inconsciente em análise e sem a invenção lacaniana do sinthoma. Ir além do inconsciente requer extrair da experiência do inconsciente em análise o real de um gozo que o inconsciente vem tratar com sua elucubração de saber.

Lembro isso para considerar que não podemos levar em conta o que está em jogo na dimensão simbólica do inconsciente, como um trabalho de elaboração de saber, como um saber não sabido que se atualiza na cadeia significante sem levar em conta o encontro com o real contingente de um gozo, que deixou marcas sem sentido. O inconsciente simbólico, que se atualiza na cadeia significante já é uma operação de simbolização de um gozo sem sentido que incide de forma contingente no falasser. A simbolização realizada nunca é absoluta, deixa restos.

O sinthoma, como invenção singular se constrói com esses restos. Ele é sinal do tratamento dado a esses restos.

Destacamos aqui o ponto de interseção entre sinthoma e inconsciente, o real do gozo pulsional que cada um trata à sua maneira.

Assim como não podemos pensar o analista fazendo parte do conceito do inconsciente sem considerar na prática da psicanálise a presença do analista, não conseguimos pensar o sinthoma sem essa dimensão do inconsciente, que articula real e simbólico, pois terminaríamos caindo no delírio de um puro cálculo na combinatória de cifras ao qual se reduziria o inconsciente sem o sintoma, ou no delírio dos diagnósticos que reduzem a uma disfunção o que aparece na relação do sujeito com seu gozo, que nunca poderá ser totalmente enquadrado numa norma.

Com os restos deixados pelas elaborações advindas de nossas últimas conversações e as questões trazidas por elas entrei no texto de J-A Miller “Para introduzir o efeito-de-formação” (Correio37).

Trago então uma questão para nossa Conversação: poderia haver um efeito-de-formação sem a experiência do inconsciente? Miller não aborda essa questão diretamente, mas ele oferece elementos para pensá-la. Esta pergunta tem várias implicações e requer todo um trabalho para situar os diversos tempos da elaboração de Lacan sobre o inconsciente até chegar ao falasser, a “une-bévue”, um tropeço, tradução feita por ele do unbewust freudiano.

Vou considerar aqui, para pensar com vocês essa questão, o que Lacan trabalhou no Seminário XI como tiquê e autômaton, alienação e separação, abertura e fechamento do inconsciente.

Destaquei do texto de J-A Miller dois aspectos que nos ajuda a pensar a relação da formação do analista com o inconsciente: a multiplicidade de causas e lugares e seus paradoxos e a análise pessoal situada na zona êxtima dessa formação.

Primeiro aspecto:

Diz J-A Miller: “a causalidade em jogo na formação analítica, parece, de saída, não ser unívoca”. Com isso ele indica uma não continuidade entre causa e efeito, considerando que o efeito se dá a partir de uma multiplicidade de causas e de lugares, o que coloca em jogo o que é da ordem da contingência e não do automatismo. Ele já indica com isso que o ponto de referência para tirar consequência dessa multiplicidade de causas e lugares é a experiência de análise pessoal de cada um, colocada por ele numa zona êxtima da formação.

A experiência do inconsciente em uma análise permite que se entre em contato com os significantes mestres de sua alienação ao campo do Outro, que atuam sem que o sujeito se dê conta. Esses significantes ganham a força de um determinismo, que faz crer no automatismo causa e efeito. Mas a experiência de uma análise, graças a presença do analista, dá lugar ao que irrompe fora do programado pelos significantes, faz aparecer a ruptura causa e efeito, que funciona como ponto de abertura. Entre a causa e o efeito o que está em jogo são os encontros contingentes, que Lacan dá a dimensão de um encontro faltoso. É a dimensão da tiquê presente na causalidade psíquica.

Essa referência ao Seminário XI me ajuda a pensar o que acontece na formação do analista tanto do lado da alienação como da separação.

Do lado da alienação se coloca a necessidade de nos alienar aos significantes do Outro, os conceitos que orientam nossa prática e que nos foram transmitidos por Freud, Lacan, Miller e toda uma geração de psicanalistas com quem temos transferência de trabalho.

E do lado da separação?  Podemos dizer que aí acontece o efeito-de-formação, que não se pode programar, que não pode obedecer a nenhum automatismo, mas se dá como acontecimento imprevisível, que faz corte e por isso mesmo pode ter um efeito de subjetivação dos conceitos aprendidos. O que leva Miller a dizer que o importante não é aprender, mas ter aprendido. O efeito funciona então na temporalidade do a-posteriori.

Essas considerações nos ajudam a pensar e a acolher o que está em jogo na busca de uma formação na Escola e no ICP (multiplicidade de lugares). Busca essa que já atualiza de saída a descontinuidade causa/efeito, pois cada um vai ter que lidar com a experiência de uma não correspondência exata entre o que ele vai buscar e o que ele vai encontrar. Se ele puder acolher a surpresa desse desencontro não como um defeito dele ou do lugar ao qual se dirigiu, mas como emergência de uma questão sobre o que lhe causa nessa busca, ele terá a chance de entrar em contato com o que há de paradoxal no âmago mesmo de sua demanda. Esse desencontro poderá ter de saída um efeito-de-formação, que o levará a tirar consequências dele em sua análise, ou poderá levá-lo a buscar uma análise, se ele ainda não o fez e ter uma chance para interrogar a causa dessa busca. Desse trabalho em análise pode advir o desejo de analista.

A formação do analista é impossível de uniformizar, de padronizar e por isso mesmo necessitamos lugares para recolher os efeitos de formação. A Escola, o Instituto são lugares que se oferecem para isso, sabendo que não é necessariamente ao frequentar com assiduidade um curso que haverá efeito-de-formação, mas ao se deixar tocar pelo que se escuta, pelo que se lê, mesmo sem entender muito bem. No entanto, não tem como se dispor à contingência que faz efeito-de-formação sem frequentar os cursos, ou sem estar presente nas atividades.

Segundo aspecto:

Diz Miller: “Quando uma formação exige mutação psíquica ela comporta um ponto de fuga”. J-A Miller situa esse ponto de fuga na experiência de análise pessoal, colocada na zona êxtima da formação do analista.

O ponto de fuga[3] é o que abre para uma forma própria de articular os conteúdos epistêmicos necessários à formação do analista. O que não quer dizer se tornar livre para fazer deles o que bem entender. Mas poder subjetivá-los, articulá-los a partir de sua experiência de analisante. A extimidade da análise na formação do analista é um ponto de fuga, um ponto de interseção[4].

Chamou-me atenção o que Miller diz, que, em relação à análise pessoal colocada no centro da formação, os saberes ensinados pela via exterior desfalecem (pg12). Desfalecer não é morrer. Eles perdem a força enquanto significantes do Outro, que não podem me pertencer, para ganhar outro tipo de força, aquela que advém do meu trabalho para subjetivá-los.

Os efeitos dessa mutação vão estar presentes na forma como se lê o mal-estar e os sintomas de sua época, e também na sua forma de engajamento e participação na vida institucional.

Colocar a experiência de análise de cada um na zona êxtima da formação é um ensinamento fundamental desse texto de J-A Miller que é preciso enfatizar para fazer valer uma orientação necessária ao trabalho de formação que é bem diferente de uma uniformização. A orientação lacaniana que se faz valer na Escola e no Instituto nos convoca em permanência a considerar o real em jogo na formação do analista que vai permitir a cada um fazer seu enlaçamento singular entre conteúdos epistêmicos e mutação psíquica, entre inconsciente e sintoma, entre tropeço e invenção sinthomática.


[1] Tivemos três conversações em 2019. Na primeira o texto proposto foi a segunda aula do Curso “Coisas de fineza” de Jacques-Alain Miller, que foi publicado também na Revista Quarto n. 119 com o título, “O analista e seu inconsciente”. A apresentação do texto foi feita por Maria Silvia Hanna, Maria Inês Lamy e Paulo Vidal. No nosso segundo encontro discutimos a afirmação de Lacan que “o analista faz parte do conceito do inconsciente”, que se encontra em seu escrito “Posição do inconsciente”. Convidamos Stella Jimenez e Vicente Gaglianone para fazerem os comentários. Em nosso terceiro encontro o texto proposto foi “O que é ser lacaniano”, segunda aula do curso de J-A Miller “O parceiro sintoma”. A apresentação e discussão ficaram com os participantes do cartel.
[2] Laurent, Éric: “El sentimiento delirante de la vida”, pg. 51.
[3] Ponto de fuga é um ponto de interseção de retas paralelas, que dá origem à perspectiva. Ponto que circunscreve um lugar vazio onde se encontram as retas paralelas, transformadas em diagonais no quadro para sugerir profundidade. A análise como ponto de fuga na formação do analista se constitui como um lugar aberto, que faz furo, que circunscreve um vazio a partir do qual se arma o desenho da formação analítica de cada um, responsabilidade inalienável.
[4] Na operação de separação, elaborada por Lacan no Seminário XI, o que está em jogo é uma operação de interseção, que descompleta os conjuntos do sujeito e do Outro e faz aparecer o objeto a como causa de desejo.

CARTEL EBP ICP / RETOMADA DOIS

INCONSCIENTE E FORMAÇÃO DO ANALISTA

Paula Borsoi

A transmissão do discurso analítico e a formação do analista estão confrontados com um real inédito: nossos dispositivos estão dispersos e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão conectados. As mutações sociais e discursivas ocorridas na cultura incidem também na psicanálise, nos confrontando com impasses próprios ao nosso tempo.

Nesse momento, uma ruptura do laço social, forte e violenta, vem esgarçando nossos parâmetros.  A experiência de afastamento social, por conta da pandemia, nos coloca a trabalho para rever e repensar o lugar do analista e da psicanálise. Como pensar, então, a formação do analista – sabendo da defasagem existente entre o analista e sua função – quando os nossos princípios, que não se prestam a adaptações, estão sendo colocados à prova?

O que compõe o tecido do inconsciente “… são os poderes da linguagem e os efeitos de verdade permitidos por ele. O analisante fala e seu sintoma se liga à materialidade do inconsciente”, aponta Laurent[1]. Materialidade essa que é feita de coisas que foram ditas e também de coisas impossíveis de serem ditas. Essa articulação entre dizer e impossível de dizer articula inconsciente e sintoma. Nossos princípios não visam protocolos técnicos, e sim como cada um se surpreende, se posiciona “com a máxima liberdade de dizer”[2] que a experiência do inconsciente manifesta.

Passamos a atender online e a fazer atividades de ensino e transmissão via Web. Essa ruptura, essa perda em nossa rotina nos convoca a capturar nosso desejo de seguir, reinventando nosso fazer. Miller, no curso Lugar e o laço, coloca uma questão: ele diz que devemos “deixar de lado o saber que aprendemos aqui e ali, para com esse incidente mesmo, com esse contratempo, produzir trabalho”[3]. Ou seja, é nessa própria ruptura que nosso trabalho deve acontecer e é assim que vamos nos enganchar.

Tanto na EBP como na AMP, colegas têm enviado contribuições sobre o momento atual, nesse cenário original: como fazer existir Escola, Instituto, ensino e transmissão da psicanálise diante desse real que nos acossa.

Interrompemos nossa Conversação no início do ano, no seguinte ponto: “para além do inconsciente” – e dizer assim não significa dispensar o inconsciente, mas situá-lo melhor. “A experiência da psicanálise tem uma única regularidade: a originalidade do cenário por meio do qual a singularidade subjetiva se manifesta”[4]. Ou seja, nosso dispositivo pode estar em qualquer lugar e o uso do analista será determinado pela transferência.

A radicalidade dos últimos acontecimentos, tanto no que se refere à angústia e ao medo de cada um frente à doença na pandemia, quanto ao encaminhamento político irresponsável por parte das nossas  autoridades, exige que possamos retomar os princípios da psicanálise, que possam nos servir de bússola diante do caos.

Como abordar o ensino, como se ensina e de onde se transmite a psicanálise – para verificar em que medida esse trabalho pode ser aproximado da experiência do inconsciente – é por onde caminha nossa pesquisa. Ensinar e aprender psicanálise está próximo a esse movimento de abertura e de fechamento, como algo que não estava lá, que não se acumula, que surge na fala como um dizer.

Do texto de Miller, intitulado “Para introduzir o efeito de formação”[5], retirei dois pontos para a nossa conversação:

1- “… destacar o efeito de formação é admitir implicitamente que não há automatismo na formação analítica; não encontraremos um mecanismo; nós não o buscamos, damos lugar à contingência”[6]. O efeito conseguido, a surpresa que causa um efeito de saber, não é linear e não tem uma solução de continuidade, sendo uma experiência singular em que será preciso suportar um saber que escapa do sentido que é muitas vezes esperado.

Por ser um efeito contingente, as causas são múltiplas, criando uma hiância entre causa e efeito. Sendo assim, o efeito de formação é complexo e o efeito terá sempre um caráter paradoxal.

2- “Distinguimos na formação conteúdos epistêmicos e mutação psíquica. Quando uma formação exige essa mutação, ela comporta um ponto de fuga”[7]. Portanto, a amarração que cada sujeito irá fazer da ou na análise, do estudo e da supervisão, comportarão a marca do trabalho singular empreendido e da sua relação com o inconsciente. O ponto de fuga implica na interseção de retas paralelas em um ponto, numa visada de vários ângulos.

Lacan, na “Proposição”[8], vai dizer: “o inconsciente é um fato que encontra seu suporte no discurso mesmo que o estabelece”. Ou seja, o ensino da psicanálise é atravessado pela contingência da articulação, com um saber incompleto, furado, inconsistente. Um saber que falta reenvia ao sintoma de cada um, deixando um vazio que não recupera o que foi perdido. É o sintoma que vai permitir esse enganche e por isso ele não pode ser eliminado. Há um limite no inconsciente saber, no que pode ser decifrado e na forma em que a fantasia se apresenta.

Quando o inconsciente se apresenta como algo que deve ser recuperado ou eliminado a qualquer preço, evitando uma experiência de perda, isso produz efeitos devastadores. Essa posição está ligada a um ideal que angustia, fazendo obstáculo ao próprio saber. Dar um lugar a essa dimensão de fracasso, sem fracassar, é quando a transmissão da psicanálise poderá ter algum alcance.

A formação do analista e o ensino da psicanálise só encontram sua eficácia nos intervalos, nas descontinuidades e nas lacunas que Freud e Lacan nos transmitiram com muita decisão. Nosso desafio é conseguir transmitir um desejo inédito, produzido pelos restos de gozo tratados na análise de cada analista, forma de estarmos inseridos numa discussão mais coletiva, combatendo os discursos de racismo e segregação.


[1] Laurent, E. “Os princípios diretores do ato analítico”. Em: A sociedade do sintoma. Contra Capa, 2007, p. 215.
[2] Ibid., p. 217.
[3] Miller, J.-A. O lugar e o laço (2000-2001). Buenos Aires: Paidós, 2013, p. 13. Tradução livre.
[4] Laurent, Ibid., p. 217.
[5] Miller, J.-A. “Para introduzir o efeito de formação”. Em: Rev. Correio, n. 37, 2002.
[6] Ibid., p. 9.
[7] Ibid., p. 10.
[8] Lacan, J. “Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
conv e ics
conversação 28 09

Inconsciente e Saber na Formação do Analista

Paula Borsoi

Do texto de Miller[1] que trabalhamos de outra vez, destaco

alguns pontos :

  • por ser este efeito de formação um efeito contingente, sendo suas causas múltiplas, há uma hiância entre causa e efeito.
  • assim, o efeito de formação é complexo e muitas vezes paradoxal. Não há um automatismo, não temos um mecanismo padrão.
  • o efeito conseguido, a surpresa que causa um efeito de saber, não é linear e não tem solução de continuidade. É um saber que escapa do sentido que é muitas vezes esperado.
  • “distinguimos sempre, na formação, conteúdos epistêmicos e mutação psíquica”. Essa exigência de uma “mutação psíquica” afirma que o analista precisa se analisar para aprender, compreendendo suas próprias formações do inconsciente. Essa mutação se refere a uma mudança radical em relação ao saber. Uma subversão na estrutura do saber.

Para entrar então nesse campo, que se refere ao saber do psicanalista,  precisamos ter a experiência única de nos submetermos a uma análise. Tomar como ensinamento o próprio texto de cada existência, com tudo que falha, que sonha, que rateia. Apreender a si próprio, naquilo que cada um deixa cair na análise, numa dimensão essencial, na forma de um núcleo irredutível, seu incurável.

No texto “Estou falando com as paredes”, Lacan inicia uma discussão entre o saber e o não-saber, termo introduzido por G Bataille. Para a psicanálise, o não saber não é tomado da mesma maneira, no sentido de não saber/não ter o que dizer ou ficar em silêncio, como no exemplo da conferência que Lacan utiliza. O saber de que se trata em psicanálise, ele define como “uma fronteira sensível entre a verdade e o saber” [2]. Fronteira que inclui o gozo, que descompleta e separa verdade e saber. A estrutura deste saber está ligada ao gozo, como um saber que ressoa no corpo. O saber da psicanálise é uma experiência vivida no corpo. A língua não tem nada a ver com as palavras de um dicionário, com o sentido, com sinônimos. Isso nos leva a dizer que o “inconsciente estruturado como uma linguagem” tem a ver com a gramática, com como se escreve e com a repetição. É uma gramática que segue uma lógica própria.

Lacan prossegue enfatizando o caráter primordial e maciço do saber na psicanálise, pois este é um saber que não se transmite com facilidade. Ele utiliza o texto de Freud “Uma dificuldade no caminho da psicanálise” e aponta um equívoco. Freud interpretou os pontos de resistência à aceitação da psicanálise propondo, para o enfrentamento dessa questão, uma revolução. A revolução que ficou encoberta ali, prossegue Lacan, “foi fazer entrar em jogo uma certa função por relação ao saber”[3]. Para Lacan, a explicação dada por Freud para as resistências à psicanálise, tomando essa dimensão do saber, deu consistência ao saber, ao que se sabe,  fazendo  assim uma equivalência ao eu: “aquele que sabe que sabe, sou eu”. “A novidade revelada pela psicanálise é um saber não sabido por ele mesmo”.[4] Ou seja, é um saber que não pode dizer a si próprio.

Lacan concluiu “que o que não se aceita, com ou sem revolução, é uma subversão que se produz na função, na estrutura do saber”. O saber não sabido é um saber que se articula, estruturado como uma linguagem”.[5]

Esse saber surprendente do inconsciente revela sempre que esse saber é outra coisa. Esse novo estatuto do saber acarreta um novo discurso que não é fácil de sustentar. “O saber do psicanalista não é o de saber se isso se articula ou não, mas de saber em que lugar se deve estar para sustentá-lo”.[6] Quando se diz numa análise coisas não esperadas, o analista “mantém um peso, uma dignidade”, porque ele está numa posição de extimidade, destacando o efeito surpresa encontrado.

É esse efeito portanto que vai demonstrar o ponto de furo, o lugar do inapreensível, o lugar da fratura da verdade, o ponto de gozo opaco que  separa saber e verdade. Este furo “não é uma metáfora grosseira, como um furo no casaco”,[7] mas o aspecto negativo daquele ponto que não pode ser comprovado. Nao é um vazio, onde objetos intercambiáveis podem caber, é uma “inaptidão”.

Lacan aborda, nesse texto, 5 pontos para falar do inconsciente estruturado como uma linguagem:

  • “A fala define o lugar daquilo que chamamos verdade”[8] e assinala sua estrutura de ficção, isto é a mentira. O matema S(A) barrado, o Outro é barrado, é nosso guia. A idealização do saber do Outro, leva o sujeito a dar uma consistência ao Outro e ao saber. Essa advertência de Lacan aponta para um saber que descompleta essa consistência.
  • Não há interpretação que não se refira “ao que se manifesta na fala, no que vocês escutam e o gozo”.[9] Uma interpretação analítica, mesmo que feita “inocentemente”,… o benefício é de gozo”[10]. A interpretação demanda trabalho. O saber é da ordem do gozo porque não é necessário compreender alguma coisa para que ele se modifique.
  • A insistência com que o inconsciente entrega o que formula, resulta que a interpretação não vise o sentido encontrado aí. O que se encontra é o que está sob o registro do gozo. Essa surpresa, de se encontrar onde não se espera, abala a certeza do saber sabido e aponta para essa dimensão estranha/ estrangeira do gozo opaco do sintoma.
  • O gozo habita o corpo, ele precisa de um corpo. O gozo produz tensão e é bem diferente do princípio do prazer formulado por Freud, que propunha reduzir a tensão a zero. Mais tarde Freud incluiu o desprazer, presente no princípio do prazer.
  • “Não existe relação sexual. É preciso escrevê-la e enunciá-la, não é sexual, é fundamentada no gozo”.[11]

A sexualidade está, sem dúvida, no centro do que se passa no inconsciente. “Está no centro, por ser uma falta “.[12]

 

Ao falar sobre seu ensino, Lacan diz: “ler o que escrevi mesmo sem compreender bem, faz efeito, prende, interessa”.[13] Não é um ensino de procedimentos técnicos, nem uma errância desorientada. Trata-se de uma lógica de transmissão que se relaciona diretamente com experiência analítica. O saber do analista não está acima dos outros, nem revela verdades últimas mas sim algo que surpreende o estabelecido. Esta posição, separada se si mesmo, não segrega as diferenças e está longe das identificações. Lacan termina sua aula apontando que o saber do psicanalista, numa certa perspectiva, não é progressista, e diz: “Um saber que não pode fazer nada, o saber da impotência, é esse que o psicanalista poderá veicular”.[14] O discurso analítico não exclui o fracasso nem o mau funcionamento e penso que é nesse sentido que podemos abordar a impotência. Não se trata de cruzar os braços, mas de extrair desse fracasso, do limite encontrado, o impossível. Um saber que não tem como sustentar o progresso, pois que quanto a isso pode muito pouco.


[1] Miller, J A. “Para introduzir o efeito de formação”, Correio 37, março 2002
[2] Lacan, J. Estou falando com as paredes, Zahar Editor, Rj, 2011, p. 18
[3] idem, p. 21
[4] idem,p. 23
[5] idem p. 23
[6] idem, p. 36
[7] Lacan, J. Meu Ensino, Jorge Zahar Editor, RJ, 2006, p. 71
[8] Lacan, J. Estou falando com as paredes, Zahar Editor, 2011, p. 25
[9] idem p. 26
[10] idem p. 26
[11] idem p. 31
[12] idem p. 33
[13] Lacan,J. Meu Ensino, Jorge Zahar Editor, RJ, 2006, p. 71
[14] Lacan,J. Estou falando com as paredes, Zahar Editor, 2011, p.  38
Por Gloria Maron

Um dos pontos destacados por Paula a partir do texto de Lacan que tomo como referência é a mudança do estatuto de saber produzida pela psicanálise. O saber produzido pela psicanálise se distingue do saber como meio de dominação e segregação, já que implica o gozo, o que há de mais íntimo e êxtimo ao falasser.

1) interrogo se algo dessa mudança na relação com o saber se torna uma exigência ou uma condição para se iniciar uma análise? Algo relativo à essa mudança se torna uma condição de abertura ao inconsciente e está gravada no bilhete de entrada e não só na conclusão de uma análise?

2) Outro ponto que tem retornado nesse e em outros seminários, é a experiência analítica como vetor crucial para a formação do analista, uma formação não estandizada, não linear, que comporta impasses, tropeços, furo, contingência. Levando em conta o texto de Lacan e da apresentação da Paula, vou fazer mais um comentário do que propriamente uma pergunta para abordar um ponto que trago para conversar. Trata-se da dificuldade da transmissão da psicanálise, dificuldade essa para Lacan, relacionada à função do saber inconsciente que subverte a estrutura do próprio saber.

O inconsciente surpreende porque implica um outro registro do saber. Um saber não sabido por ele mesmo, que nunca está lá onde se pensa que está. Um saber na fronteira sensível do saber e verdade, desenhando uma gramática que tem uma lógica própria e estrutura de ficção. Para além das miríades das ficções, se desvela o horizonte do gozo, daquilo que não cessa de não se escrever. É nessa vertente do saber indissociado do gozo, que a palavra, a interpretação é um meio de tocar o corpo e fazer ressoar o sem sentido do gozo do falasser. Desse gozo, temos notícias, através de elementos insensatos, peças soltas, resíduos da experiência analítica que sinalizam o inconsciente real. Esse resto ineliminável de uma análise está no princípio de um novo discurso.

É nesse ponto que destaco o quanto a formação está intimamente e extimamente enlaçada à experiência analítica. A condução e a transmissão da psicanálise, colocam em xeque, a posição do analista em relação ao inconsciente e aos restos sintomáticos, inelimináveis da experiência analítica. Aprendendo com seu próprio inconsciente, é que um saber original que não se confunde com nenhum outro virá a se constituir. Nesse ponto, podemos nos remeter ao seminário anterior, quando falávamos sobre a mutação subjetiva implicada na formação do analista que se distingue dos conteúdos epistêmicos fazem parte de sua formação?

Lacan nos adverte que não é fácil de sustentar um novo laço social que emerge a partir do que é mais opaco e singular ao falasser, um saber furado, fora dos critérios universais do saber. Nem por isso, fazemos dessa formação uma ascese e nem recuamos de conversar com outros discursos que circulam na cultura. Se alguma pergunta me ocorre agora é a de interrogar sobre o que o analista tem a dizer sobre uma dificuldade relacionada à psicanálise na atualidade, época marcada pela mutação dos laços sociais?

3) Concluo com uma afirmação de Lacan que tomo como interrogação? O saber da impotência, é esse o que o psicanalista pode veicular?

Trata-se de um saber que questiona “a magia das palavras e a potência do simbólico”?

Conversas ics 10_08

2019

Conversas sobre o inconsciente e a formação do analista

Coordenação: Cartel formado por Andréa Reis Santos, Glória Maron, Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros e Paula Borsoi.

Essa atividade é coordenada por um cartel formado por participantes de diferentes instâncias da Seção Rio e do ICP-RJ (diretoria da Seção e do ICP, comissão de ensino, e coordenação do Projeto Clínica), que se reuniram para pensar questões em torno da formação do analista e do papel que o inconsciente, quando não é lido como coisa morta, desempenha nela. A bússola que orienta o trabalho do cartel aponta para perguntas sobre a especificidade do ensino e da transmissão que são próprias à psicanálise de orientação lacaniana: Como fazer operar um saber que “descompleta”, que inclui o furo, para dar lugar à formação que convém ao analista? Como articular o ensino que se faz no Instituto com o saber que se transmite na Escola, levando em conta a complexidade dessa relação paradoxal entre a solidão do sinthoma e os laços que sustentam estas duas instituições? Nossa aposta é que estas e outras questões façam parte dos encontros que pretendemos fazer funcionar como um “esforço de conversação”, encontros que incluam a participação ativa dos colegas presentes e que sejam ocasião para um debate animado e produtivo.

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