Fale Conosco: (21) 2539-0960

Intercâmbio

PREPARATÓRIA IX ENAPOL ÓDIO, COLÉRA E INDIGNAÇÃO

O trabalho do psicanalista deveria ser fazer de todos poetas[1]

Renata Estrella e Andrea Vilanova

Entre os ataques poéticos na cidade, as batalhas de SLAM tomaram força no Brasil a partir dos protestos de 2013, sendo uma luta de intervenções poéticas, às vezes com júri popular, competições e prêmios, onde os versos carregam a intensidade de palavras de indignação, que denunciam o genocídio nas favelas, a opressão contra mulheres, o racismo. O movimento surgiu nos Estados Unidos na década de 1980 com intuito de levar recitais de poesia da academia a um público mais popular. No Brasil, os SLAMs fizeram o caminho contrário, surgidos nas áreas mais pobres da cidade, conseguiram reverberar por toda parte. Em geral, as intervenções poéticas nas batalhas carregam grande crítica político-social, tratando das diversas vertentes da segregação desde sempre vivida pelas populações mais carentes no Brasil.

O que haveria de poético nisso? Um ataque de poetas periféricos, como eles próprios se apresentam, suscita surpresa e muitas perguntas. Seu uso da língua para despertar os transeuntes e chamar sobre si alguma atenção, traz a marca da indignação soletrada em palavras duras que retratam a violência e o abandono que marcam seu cotidiano. Impossível não ser afetado. Muitas são as vozes que se atravessam, harmoniosamente ou não, mas é interessante notar o modo como rompem com o anonimato de uma corriqueira viagem num transporte urbano, por exemplo, nos desarmando. Uma cena se monta. Saímos do autismo hipnótico diante das telas dos smartphones. Saímos do nosso espaço protegido, talvez acomodado, amedrontado, impotente.

Um pouco disso parece ter sido vivido na seção Rio de Janeiro/ EBP em atividade preparatória ao IX ENAPOL, no dia 12/08. Apostando no que a poesia pode nos ensinar sobre um tema que suscita experiências como a falência da palavra, o esgarçamento do dizer, a passagem ao ato, diante do ódio, da cólera e da indignação, a comissão de biblioteca organizou uma conversação com dois poetas, Letícia Brito e Alberto Pucheu. Além de poeta, Letícia é produtora da cena carioca de poesia, atualmente integra a produção e realização do Slam das Minas RJ e é autora do livro Antes que seja tarde: para se falar de poesia. Alberto Pucheu, poeta e ensaísta, é professor de teoria literária da Faculdade de Letras da UFRJ. Autor do livro de poesias Para que poetas em tempos de terrorismos? e do livro de ensaios Que porra é essa – poesia?

O encontro parece ter presentificado, em nossa comunidade, a potência da poesia, que joga com o que poderia ser, o que não necessariamente é, mas existe, conforme lembrado por Alberto a partir da Poética. “Não é ofício de poeta narrar o que aconteceu; é, sim, o que poderia acontecer”[2], tomando poderia como tradução da ideia de potência em grego. Ressoou como um encontro inédito, que talvez produza perguntas, deslocamentos, instaure brechas.

Nós que somos cidadãos e psicanalistas, não estamos alheios ao impacto da violência de um desgoverno absolutamente desimplicado diante das atrocidades que emanam de suas arbitrariedades. Como seguir em frente? A arte abriu em cada um de nós presentes um sulco por onde seguir ali, naquele encontro, permitindo tornar vívida a diferenciação proposta por Jacques-Allain Miller[3], ao colocar a queixa do lado de uma posição de impotência e a indignação, como revelação de um impossível.

Esta parece ser uma das saídas que temos encontrado para nuançar o ódio, a cólera e a indignação, como parece ter proposto Alberto ao retomar a Ilíada. Ele lembra que a primeira palavra da primeira poesia do Ocidente é ira, um pedido à Musa Ira para cantar, o que dispara a guerra de Tróia, por Homero, uma poesia. Assim, talvez, inventar diferentes modos de odiar, diferentes formas de se indignar, esgarçando e incluindo no discurso o que hoje parece se apresentar sólido e consistente, como uma rocha interrompendo o caminho. É o que nos ensina Letícia com seu generoso testemunho e sua poesia que parecem fazer uso da palavra como uma arma potente, não sem ira, raiva e indignação.


[1]Fala de Letícia Brito à seção Rio de Janeiro/ EBP durante aconversação preparatória ao IX ENAPOL, no dia 12/08/2019.
[2]ARISTÓTELES. Poética. Tradução Eudoro de Sousa. 2. ed. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. 1990. Série Universitária. Clássicos de Filosofia, p.451.
[3]MILLER, J.A. Comment se revolter?La Cause Freudienne, n.75, juin, 2017.

O último poema

Leticia Brito (trecho[1])

A cada três minutos um palhaço comete suicídio
A cada trinta segundos de rotina, 47 poetas são mortos
Cerca de 73% da população operária já foi, um dia, poeta
O genocídio de artistas pelo capital tem dados alarmantes
E confirmando as estatísticas
aqui jaz o poeta

O poeta morreu
Foi sufocado por contas a pagar
horários a cumprir
e metas a bater
A rotina matou o poeta
Toda a sensibilidade foi congelada
e colocada em tubos de ensaio
para ser entendida por gerações futuras

O poeta agora pensa dentro da caixa
Pude ver seu corpo quase sem esperança
na porta do CCBB
rondando as estações do metrô
esperando que algum amigo lhe ofereça um livreto

img_poema_001

 Para que poetas Em tempos de terrorismos?

Alberto Pucheu (trecho)[2]

na disputa entre o estado e o terrorismo,
na conciliação do estado e as empresas
pelo lucro do capital acima de tudo,
na sobreposição do templo com o banco
dispondo a cada momento da fé ou do crédito
de todo exército com as armas em sua defesa,
na definição do dinheiro (que já foi chamado
de homem) como único animal que bombardeia,
fico com as pessoas comuns, quaisquer,
com os rios, os bichos e as matas, com os que sentem
na pele até não serem mais capazes de sentir.
terrorista, hoje, é o outro, o que, coisificado, escapa
às diversas escalas, maiores ou menores,
da época do pau de selfie que vivemos,
terrorista, hoje, repito, é o outro, o inferno
do outro, o outro enquanto inferno, terror.
abrir as portas para o mais próximo, para o mais
parecido, para o semelhante, é um gesto belo
e necessário, mas é pouco quando, ao mesmo tempo,
o outro, quem quer que seja o outro,
o outro mesmo, o tido como o mais distante,
é trancafiado do lado de fora, bombardeado,
e, antes, fabricado para ser exatamente o outro


[1] Brito, L. O último poema. Em Mel Duarte (org) Querem nos calar: poemas para serem lidos em voz alta. Ilustrações de Lela Brandão. São Paulo: Planeta do Brasil, 2019. pp 105-107.
[2] PUCHEU, A. Para que poetas em tempos de terrorismos? Rio de Janeiro: Beco do Azougue Editorial, 2017, p.21.
img_poema_002

Cinema e Psicanálise

Coordenação: Stella Jimenez e Ana Martha Wilson Maia

Neste ano, trabalharemos o tema As paixões do ser: Amor, ódio e ignorância.

Com este tema, daremos continuidade ao que vínhamos trabalhando: A subversão nos tempos atuais, subversão de costumes e de paradigmas, que acabou sendo atropelada por uma eclosão, também muito atual, das paixões mais primárias.


Aconteceu na Cidade

Sobre Psicanálise e Cinema

Por Ana Martha Maia e Stella Jimenez

Debate sobre o filme Elefante, de Gus Van Sant: dois adolescentes invadem a escola, disparam a esmo e morrem logo depois. Debatedores: Cristina Duba e Sergio Javier Ferreira, cientista social. O debate foi muito animado! De inicio, Cristina Duba falou sobre o título do filme e o relacionou a uma parábola chinesa. Elefante seria uma referência à frase “Tem um elefante na sala”, ou seja, algo muito grande e incômodo que todo mundo finge não ver.  E também a uma parábola chinesa que narra como diferentes cegos querem definir um elefante a partir do pedaço que tocam: nunca chegam ao elefante total. Assim, Cristina situou o papel do indefinível frente a um ato tão radical. Ambos debatedores assinalaram o papel da meritocracia nos EEUU, onde desde a infância aparece a bipartição: ser perdedor ou bem-sucedido. O público presente comentou diferentes aspectos que o filme aborda, como a facilidade de se conseguir armas, a exclusão social e os jogos de vídeo game. Houve um certo consenso em torno do fato de que existiriam certos elementos que se poderiam pautar, embora sempre ficaria algo de inconclusivo:

Em pessoas que se sentiram excluídas, se a ideologia dominante faz apologia do uso de armas, pode surgir não só o desejo de vingança senão também a fantasia delirante de se construir um lugar social importante, ainda que depois da morte.

O fácil acesso à compra de armas.

Garotos que não conseguem separar realidade de jogo, por não poderem metaforizar.

Sobre a importância dos videogames não houve uma conclusão definitiva, já que alguns participantes insistiram em que os jogos e os filmes violentos teriam um papel muito importante em incitar estes atos.

http://ebp.org.br/rj/2019/08/05/elefante/

https://www.youtube.com/watch?v=iazq0z8bYBE

Apresentação Leituras em Cena

Renata Martinez
05/07/2019

Olá boa noite, é com imenso prazer que dou as boas vindas a todos hoje! Essa é uma noite especial para nós do “Leituras em Cena”. Nós abrimos nossas janelas para os Insetos, abrimos nossa casa, a seção Rio da Escola Brasileira de Psicanálise, para receber presenças tão importantes nessa trajetória que construímos até aqui.

Muitos sabem que esse evento estava marcado para a noite do 17 de maio, mas tivemos que adiá-lo pelo caos que se instalou após as chuvas que deixaram nossa cidade amputada. Confesso que hoje pela manhã me deu um certo friozinho na barriga… Esse adiamento inverteu uma ordem e fez com que apresentássemos o Leituras aqui na seção, numa noite de 2a feira, antes da própria Leitura ocorrer.

O projeto, acolhido fortemente pela atual Diretoria,  já tem uma estrada e acho importante situá-la rapidamente. Assim como apresentar os “coletivos” envolvidos e quem os sustenta.

Serei breve: começamos a nos reunir, Maricia Ciscato, Isabel do Rego Barros Duarte e eu, Renata Martinez,  em março de 2018. Em julho, juntaram-se a nós Dinah Kleve, Natasha Berditchevsky, Patricia Patterson e Thereza De Felice. O que nos uniu foi a angústia diante dos tempos atuais, diante de nossa clínica e dos acontecimentos a nossa volta, a sensação frequente de “fim do mundo”, ou melhor, do fim de um tipo de mundo em que acreditamos e apostamos. Brincávamos na época que éramos “corpos angustiados”…

Não me canso de repetir e novamente escolho o mesmo fato pra ilustrar o que estou dizendo: março de 2018, assassinato de Marielle Franco, comoção, indignação, mas também paralisia e frustração. Claro que, bem antes disso ou de lá pra cá, presenciamos muitos acontecimentos bizarros, muita coisa se passou… E o mal estar permaneceu ou mesmo cresceu. O “Leituras em cena” tem sido uma nova maneira de lidar com tudo isso.

A psicanálise, desde Freud, nos oferece ferramentas de leitura para o mal estar na civilização. Mas nossa ideia era explodir as fronteiras, queríamos trabalhar com outras línguas de tratamento do mal estar. A arte, mais especificamente o teatro, pelo impacto da palavra e pela presença dos corpos – atores e plateia – , nos pareceu um caminho a seguir e foi nessa busca que Insetos se apresentou pra nós.

Eu tinha assistido a peça no CCBB em maio e, em agosto, quando a Editora Cobogó lançou o livro, inserimos o texto em nossos encontros. Que potência de transmissão! A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida… Frase de Oscar Wilde que vocês poderão verificar daqui a pouco, ao ouvirem a leitura…

Nessa peça que comemora os 30 anos da Cia dos Atores, o texto de Jô Bilac, foi intensamente trabalho pelo diretor convidado, Rodrigo Portella, que não pode estar aqui hoje conosco, e pelos atores Cesar Augusto, Gustavo Gasparani, Marcelo Olinto e Marcelo Valle – esses maravilhosos que estão aqui -, e mais Susana Ribeiro, cuja ausência sentimos muito. Coletivamente, puseram a mão na massa e criaram os personagens e seu próprio texto adaptado para o espetáculo no palco.

A publicação de Insetos é linda e faz parte da coleção Dramaturgia da Editora Cobogó, que tem hoje uma coleção enorme de teatro contemporâneo, são 58 títulos publicados! Se quiserem, vocês podem comprar o livro ali na casa 16. A edição traz as duas versões do texto lado a lado, é um trabalho muito delicado.  Queremos agradecer imensamente à Isabel Diegues, editora chefe da Cobogó que está aqui hoje pra participar da conversa e topou a parceira conosco com muita empolgação.

Essa é a terceira vez que nós nos encontramos para uma roda de conversa. Por “nós” quero dizer a Cia dos Atores, a editora Cobogó e o Leituras em Cena. Em dezembro, a convite da Cia dos Atores, estivemos no palco da Sede das Cias na Lapa após o espetáculo para uma conversa com diretor, atores, editora e a plateia. Em fevereiro, foi a vez de adentrarmos a Carpintaria, uma galeria de arte que aposta no diálogo com outras linguagens. Ali, numa conversa animada, nos misturarmos às artes plásticas e aos atores na exposição “Perdona que no te crea” cujas fronteiras se queriam mesmo borradas. Foram duas experiências intensas.

Agora, para esquentar nossa terceira conversa pública convidamos o psicanalista Marcus André Vieira e o escritor Luiz Eduardo Soares.

Marcus é de casa, psicanalista da EBP/AMP, conduz há dois anos um seminário intitulado “A psicanálise do fim do mundo”. Muitas das ideias que nos impulsionam a sustentar o “Leituras em Cena” foram retiradas desse seminário e não podíamos deixar de convidá-lo para estar aqui conosco.

O Luiz Eduardo além de cientista político, antropólogo e escritor é amante e conhecedor de teatro. O Luiz esteve em nosso 2o encontro na Carpintaria quando participou da leitura e da excelente conversa que tivemos lá. Apostamos que sua contribuição e suas ideias nos trarão força para seguirmos trabalhando.

Passemos então a leitura de cenas de Insetos e depois a conversa! Obrigada