Transmissão e Invenção

Por Dinah Kleve

 O momento que estamos vivendo tem nos colocado importantes questões sobre nossa posição enquanto analistas, tanto no que diz respeito ao trabalho um a um, junto aos sujeitos que recebemos em análise, quanto à sustentação de uma ética em outros espaços para além daquele estritamente ligado ao dos atendimentos.

Esta inquietação tem nos levado a conceitos que pautam a psicanálise lacaniana, em busca de um posicionamento político que não seja a repetição do discurso do mestre, mas sim a viabilização mesma de nosso trabalho, tendo em vista as restrições que a pandemia nos tem imposto. Foi isso, aliás, o que determinou o meu recorte no estudo que realizamos sobre o Sonho do Unicórnio. Trata-se de buscar, naquilo que nos foi transmitido, elementos para viabilizar invenções que se fazem necessárias frente aos limites que temos confrontado, sem permanecer no registro do déficit.

Neste recorte, pautei-me na questão da transferência, por não ter localizado, inicialmente, no texto de Leclaire, menções explícitas a intervenções de sua parte que tivessem sido tomadas por seu analisante como interpretações, ou seja, menções que fizessem referência ao seu manejo da transferência de forma a tornar a besteira falante.

Entre as hipóteses que fiz sobre o motivo deste “apagamento do analista” em sua narrativa, ocorreu-me o modo como Leclaire, no capítulo 8 de Psicanalisar, se refere ao silêncio do analista como aquilo que instaura a transferência. Creio que aqui cabe a interrogação quanto a se não é o desejo de analista que tem no silêncio uma das maneiras de se expressar, talvez, até, prioritariamente, uma vez que esse silêncio não se refere a um não uso de palavras, mas àquilo de que o psicanalista se abstém, o que realmente instaura o amor de transferência como resposta. Ao tratar desta questão em Silet, Miller situa o analista entre a pulsão e o silêncio.

Quando se refere à jaculatória secreta de Philippe, POORDJELI, Leclaire ressalta que confissões como essa são muito difíceis de se alcançar em uma análise, beirando, em suas palavras, o impudor. Esta ressalva iluminou uma face de minha pergunta voltada para o texto que diz respeito às oscilações do véu deste pudor.

Freud associava-o essencialmente ao feminino: o pudor, para as mulheres, seria uma maneira de velar um defeito da genitália, um nada anatômico. Lacan, fazendo uso da imagem de Aidos, o demônio do pudor que ergue seu bastão quando o falo corre o risco de ser desvelado, desdobrou esta questão relacionando o véu do pudor à barra que divide o sujeito. Miller, mais tarde, postula que o nada a que Freud se referia está colocado para todos os sujeitos e que o véu do pudor, ao mesmo tempo que vela este nada, faliciza o corpo.

Já no relato de um segundo sonho, o Sonho da Foice, que Leclaire chama de sonho de castração, será possível visualizar o lugar que o analista ocupa para Philippe. Nele, um menino de cerca de doze anos, acaba de escorregar com uma perna só num buraco. Está deitado de lado e grita muito intensamente como se gravemente ferido. Alguém (seu analista) se precipita para ver onde está a ferida, mas só a encontra no pé – uma vermelhidão intensa, na forma de uma grande vírgula, que, como Leclaire ressalta, não sangra. O menino teria se ferido contra uma foice, oculta no buraco.

Leclaire nos conduz por duas associações importantes, decorridas da narração deste sonho. Na primeira, Philippe, um sujeito para quem a integridade do corpo é essencial, lembra de uma cicatriz, em seu rosto, (questão já presente, anteriormente, relacionada ao chifre do unicórnio) que consta em sua identidade como um sinal particular, o que faz com que Leclaire tome a ferida que aparece no sonho como uma cicatriz. Na segunda, ele se recorda de uma viagem, quando tinha nove anos de idade, em que explorou, sozinho, um parque na cidade visitada, que lhe parecia grande. Ao sentir-se ameaçado por alguns meninos muito barulhentos, de cerca de doze anos de idade, que ele supôs que o atacariam, Philippe foge, gritando diferentes nomes para que eles supusessem que também ele fazia parte de um grupo. Em seu relato, o paciente pontua que fizera questão, na ocasião, de não usar nomes comuns e que, entre eles, figurara “Serge”, menção que, como para Leclaire, “confirma o sentido de apelo do sonho e a identidade do castrador ou libertador invocado”.

Esta leitura está relacionada à relação de Philippe com sua mãe, que o tem como preferido, não só em detrimento do outro filho, mas de seu próprio marido. É possível retomar, aqui, a diferença sobre a qual o autor nos alertou, no início do relato do Sonho do Unicórnio, entre a sede como uma necessidade fisiológica – decorrente do fato de Philippe ter comido arenques do Báltico, antes de dormir – e a sede como um desejo que se realiza em seu sonho. Enquanto Lili (uma parente próxima que passara as férias de verão com a família de Philippe, na praia, quando o paciente tinha por volta de três anos de idade) lê o desejo do menino em sua insistente repetição “tenho sede”, respondendo-lhe com uma “zombaria afetuosa” que coloca o seu próprio desejo em cena – “Philippe, tenho sede”, a mãe do paciente estaria disposta a praticamente afogá-lo, ofertando-lhe sempre mais e mais o que beber, mesmo que ele estivesse a ponto de estourar, para evitar ouvir de qual sede realmente se tratava.

O legado de Serge Leclaire, seu desejo decidido no exercício e transmissão da psicanálise (só este caso foi apresentado em diferentes momentos, entre 1960 e 1968) muito nos ensina a respeito das sutilezas que constituem a nossa prática, e nos auxilia, grandemente, na sustentação da presença do analista, nestes tempos de trabalho à distância em que volta e meia nos retornam perguntas como: “Você está aí?”; “Está me ouvindo”; e a ler, mesmo nestas condições, como o corpo de nossos pacientes se faz presente. Ajuda-nos ainda a não cair na armadilha de deixar de capturar a contingência, supondo, ali, onde algo pode estar em vias de deixar de não se inscrever, um obstáculo para o que seria uma situação idealizada de atendimento.


BIBLIOGRAFIA
LACAN, J. O Seminário, livro 11 Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1973, p. 231 – 245.
LECLAIRE, S. “O inconsciente, um estudo psicanalítico”. Em Inconsciente, VI Colóquio de Bonneval. Rio de Janeiro, Edições Tempo Brasileiro Ltda, 1969, p. 111 -154. Psicanalisar. Em  http://lacanempdf.blogspot.com/2017/04/psicanalisar-serge-leclaire.html,  acesso em 20/03/2021.
MILLER J.A  Silet. Em http://lacanempdf.blogspot.com/2017/09/silet-os-paradoxos-da-pulsao-jacques.html, acesso em 16/05/2021.
MURTA, A., SCHIMITH P. “De qual pudor falamos em análise?”. Em  http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_9/De_qual_pudor_falamos_em_analise.pdf, acesso em 30/03/2021.
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