Lucia Tower, a contratransferência e o desejo do analista

Por Marcia Zucchi

Uma questão contextual: conforme se lê no próprio texto de Lucia Tower1, a discussão em torno da contratransferência se intensifica nos anos 40, e basicamente é compreendida como “reações transferencias que os analistas poderiam ter em relação a seus pacientes”. De todo modo seu relato era então tomado como “indecoroso”, “embaraçoso”, “repreensível” (Tower, 1956-2004).

Como ela própria lembra, Freud já se referira à contratransferência, em 1910, mas orientando os analistas praticantes a ultrapassá-la: “Tornamo-nos cientes da contratransferência, que, nele, surge como resultado da influência do paciente sobre os seus sentimentos inconscientes e estamos quase inclinados a insistir que ele reconhecerá a contratransferência em si mesmo, e a sobrepujará.”(Freud, 1910)2 

O texto de Lucia Tower é riquíssimo na orientação a respeito dos primeiros debates em torno da própria transferência e da análise do analista, nos primeiros anos pós Freud. 

Mas destaco aqui um aspecto que me pareceu importante, levantado por Carlos Augusto Nicéas no seu artigo “Contratransferência. Psicanálise e Psicoterapia”3. Nesse artigo Nicéas comenta textos não de LT, mas de Margareth Little, outra das autoras mulheres que se dedicaram ao tema da contratransferência, destacando que esses textos eram tentativas de resposta às demandas  e sintomas da época.

Nicéas tomou a idéia do consentimento em identificar-se com o paciente – que é uma das propostas da análise da contratransferência- como resposta particular a uma clínica já em mutação. Parecia haver a necessidade de um modo de engajamento particular do analista com pacientes que já não se encaixavam mais nos contornos das estruturas clínicas pensadas pela psicanálise com Freud. Esses textos interrogam, de certo modo, “a responsabilidade do analista diante das chamadas neuroses de caráter, dos casos limites, onde os pacientes se subtraem a qualquer responsabilidade no trabalho analítico” (Nicéas, 2004. P.141). Nicéas mostra que se por um lado esse movimento indicava uma ampliação dos pacientes que a psicanálise se propunha a tratar (psicóticos, crianças, borderlines), por outro, correspondia também a um certo apagamento do lugar e da palavra do analista, em favor, mais do comportamento deste, do que de seu ato. O que confunde a psicanálise com a psicoterapia.

E esse é um ponto que nos chamou a atenção no artigo de Lucia Tower, pelo menos no relato clínico que estamos trabalhando hoje. Qual seja, o acting out da analista, e o que se produz depois dele, que para o nosso cartel, teve valor de ato.

Inicialmente uma paciência extrema por parte da analista, diante da agressividade da paciente, sustentada, aparentemente, pelo que Lucia Tower considerava a “boa atitude terapêutica”, ao “querer ajudar a paciente”. Resultado, o pior…, um acting out da analista. O efeito desse acting na própria analista foi a reposta de ódio em relação à analisante  e o aparente desejo de que esta interrompesse a análise.

No entanto, diante do retorno da analisante e de sua insistência na atitude agressiva de cobrança, se produz o ato da analista: face à pergunta em tom acusatório “Onde você estava ontem?” Lucia Tower diz: “Desculpe, eu esqueci”! Seguem-se mais 5 a 10 minutos de ataque por parte da paciente, acompanhados de um silêncio de Tower. O efeito desse ato, é que algo se reorganiza do lado da paciente, ela cede dessa defesa pela via da agressividade e se enlaça verdadeiramente no trabalho analítico.  

No artigo, vemos que a autora sabe que seu acting out foi uma resposta a algo da paciente (algo da realidade atual da relação com a analisante), mas que poderia não ter se produzido e nem a defesa da paciente precisaria ter sido levada tão longe, não fosse seu “desconhecimento” sobre seu próprio sintoma de sustentar, prolongadamente, os abusos. Uso o termo “desconhecimento” aqui, que é um termo utilizado por Lacan especialmente nos seminários 1 e 2 ao se referir ao “ego”. Parece que há mais ego do que inconsciente na contratransferência.

“Desculpe, eu esqueci”! Essa enunciação rompe com algo imaginário, e contrariamente ao que a própria analista esperava, não manda a analisante embora, mas a engaja no trabalho. Trata-se de um efeito do desejo do analista.

Num texto bastante interessante de Marie Helène Brousse, sobre o Imaginário, a contratransferência, o desejo do analista e o narcisismo4, (Brousse, 2017) a autora afirma que o problema com a contratransferência não é que Lacan não pensasse que ela existia, mas qual o registro de sua ocorrência e especialmente o que o analista deveria fazer a partir dela. Brousse lembra que Lacan inclusive define a contratransferência como a “soma total dos preconceitos do analista”, uma expressão encontrada no Seminário o livro 15. Tal qual Freud, Lacan afirmava que a contratransferência seria algo do qual o analista precisaria se livrar em suas intervenções de modo a que suas interpretações não sejam oportunidades de identificação imaginária. 

Mas o que me pareceu mais interessante neste texto foi a lógica que esclarece a resposta de Lacan à contratransferência como sendo o “desejo do analista”. Brousse afirma que a discussão que Lacan apresenta em “A direção da Cura” visa esclarecer que a posição do analista não pode se dar no eixo imaginário. A autora lembra que quando Lacan se recusa a pensar a posição do analista em termos de contratransferência, propondo o desejo do analista, ele está ressituando o lugar do analista em termos imaginários (a transferência) e simbólicos (o desejo do analista). Está é sua posição no debate da literatura analítica sobre a contratransferência. Como ela afirma: “ Não é uma questão de terminologia dominante, mas sim do que está em jogo no amor de transferência”  e prossegue “ Não  é que ele ache que a contratransferência não exista. Ele pensa que não é o conceito apropriado com o qual explicar o amor de transferência. Se, por parte do analisando existe amor de transferência, a resposta de Lacan é que, por parte do analista, existe o desejo do analista. Portanto, existe uma oposição entre o amor de transferência e o desejo do analista. É uma oposição entre o registro imaginário, que é natural começar com o discurso do analisando, e o registro simbólico do desejo do analista” 

E Brousse dá um exemplo de sua própria clínica onde uma mulher após cinco anos de análise e muitas mudanças em sua posição subjetiva, decide que não quer prosseguir nesse trabalho. Inicialmente isso parece possível para a analista, mas imediatamente ela pensa: “Não, eu não quero que ela vá. Quero que fique e vá mais longe”. Propõe então que a analisante prossiga o trabalho uma vez por semana. Diz-lhe que ainda precisa trabalhar mais sua raiva e sua sexualidade. Brousse acreditava que ela precisava falar mais de suas fantasias sexuais.  A analisante consente, e logo em seguida ocorre um fato que demonstra, nas palavras da própria Brousse, que seu “desejo estava bem orientado”. A analisante se envolve num relacionamento com um homem e as coisas começam a ir muito mal para ela, que é tomada por muita dor e angustia e inclusive volta a intensificar as sessões. Brousse conclui: 

“O desejo do analista é diferente da contratransferência.  (…) Não é que eu quisesse que ela se casasse e tivesse filhos. O meu sentido era que ela pudesse avançar um pouco mais na análise. E se eu pensava que ela conseguiria, eu tinha que encorajá-la a fazê-lo. O desejo do analista não é uma ânsia ou uma fantasia, não é pessoal ou individual. Está sempre relacionado a um terceiro ponto que pode ser visto na declaração ‘Tenho que pedir que você continue sua análise’”(Brousse, 2017).  O analista também está submetido a ele. Como lembrou Ana Tereza no trabalho do cartel, isso faz incidir a barra no Outro. 

Notas

  1. Tower, L.  A Contratransferencia . Em: Acheronta, n.19, julho de 2004. Disponível em: https://www.acheronta.org/acheronta19/tower.htm. Visto em 19 de abril de 2021
  2. Freud, S.  As perspectivas Futuras da terapêutica psicanalítica.(1910) Em:  Freud online. Disponível em: http://www.freudonline.com.br/livros/volume-11/vol-xi-5-as-perspectivas-futuras-da-terapeutica-psicanalitica-1910/.  Visto em 19 de abril de 2021
  3. Nicéas, C.A. Contratransferência. Psicanálise e Psicoterapia Em. Opção Lacaniana . Revista da Escola Brasileira Internacional de psicanálise, n.41. p.139-141. São Paulo: Ed. Eolia, dez/04
  4. Brousse, M.-H.,  O imaginário (contratransferência, desejo do analista e narcisismo). Em Lacan em pdf  de 26 de novembro de 2017. Disponível em: http://lacanempdf.blogspot.com/search?q=Brousse+Imaginario. Visto em 19 de Abril de2021
  5. Lacan, J. (1953-1954/1986). O seminário, livro 1: os escritos técnicos de Freud. Pg 33. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.

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