Cartel e ensino, um enlace entre forma e conteúdo

Por Ana Teresa Groisman

 “A razão por que jamais atacarei as formas instituídas é que elas me asseguram sem problemas uma rotina que gera minha comodidade”[1]. Essa frase irônica, recolhida por Lacan de um psicanalista americano, encerra a “Proposição de 09 de Outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola”, texto em torno do qual iniciamos o trabalho em Cartel que acompanhou nossa diretoria até aqui.

O caráter chistoso da frase resulta da proposição feita que subverte, inteiramente, tudo o que balizava as instituições de psicanálise até então. O que era instituído, é posto abaixo e o novo se institui no funcionamento da Escola e na formação que ela dispensa.

A Escola foi criada para que o ensino de Lacan encontre um lugar. No entanto, para que ele aconteça, não basta um lugar que o acolha, é necessário assegurar para os psicanalistas as estruturas asseguradas para a psicanálise[2].

Orientada pelo texto e pela subversão que ele propõe, penso que a psicanálise se estrutura a partir dos três registros que acompanham e orientam o ensino de Lacan desde seus primórdios: o Real, o Simbólico e o Imaginário são elementos que organizam uma leitura clínica, teórica e política da psicanálise.

Se as sociedades da época se mantinham sob estruturas rígidas e lugares imaginariamente instituídos, a Escola de Lacan coloca em seu centro o real como impossível sobre o qual se fundam as sociedades de psicanálise. As questões imaginárias exigirão seu deslocamento simbólico para que o real em jogo possa ser tratado.

A proposta do passe exemplifica essa virada e restitui o lugar analisante como fundamental, na construção teórica de Freud. E o Cartel surge como um dispositivo privilegiado para tratar simbolicamente os entraves imaginários que tamponam o real da experiência. “Os que desejam se aproximar da Escola serão admitidos com base em um projeto de trabalho”[3]. O Cartel se alia ao ensino, na medida em que acolhe a pergunta de cada um que se aproxima. Questões sobre a formação do analista são sustentadas no laço transferencial com o pequeno grupo e encaminhadas de tempos em tempos à Escola.

Outra afirmação do texto que nos colocou a trabalho, diz que: “A Escola pode (e deve) garantir a relação do psicanalista com a formação que ela dispensa”[4] como cada um de nós enquanto membro de Escola, pode garantir que essa relação se faça? Vivemos um momento de dispersão e mais do que nunca precisamos cuidar dessa relação. Isso não deve se confundir com um controle, pois cada um vai construir seu percurso de forma singular, contudo é fundamental que possamos (enquanto membros de Escola) garantir que os efeitos de formação tenham lugar e se enlacem no marco Escola. Há um ir e vir permanente, do psicanalista em formação para a formação de analistas.

A Escola acontece em seus efeitos de formação, uma formação que não visa um fim, mas que tem como finalidade manter-se viva e vivificante nas marcas que produz em seus membros e é produzida por eles.

O encontro de Cartéis pode ser um bom momento de recolher, decantar e alinhavar o que cada um pode elaborar sobre o indizível da formação do analista, e de acolher os efeitos de ressonância dessas elaborações em outros corpos e lugares de ensino.


[1] Lacan, J.: Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o psicanalista da Escola, in: Outros escritos, 2003- JZE, Rio de Janeiro, p. 264

[2] Idem, p. 248

[3] Idem, p. 249

[4] Idem, p. 249

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