Ode ao coletivo ou como construir Jornadas na pandemia

Marina Morena Torres

Para escrever sobre as ressonâncias das últimas Jornadas escolhi me deter no significante “coletivo” como eixo, por ter aparecido diversas vezes explícita ou implicitamente ao longo de todo o período preparatório, como também em cada final de semana das Jornadas. Escrevo esse texto apoiando-me em Miller, na Teoria de Turim quando diz que “A vida de uma Escola deve se interpretar.”[1]

Algo parecia estar ali desde o princípio, desde antes de irromper a pandemia: foi acordado um funcionamento diferente nessas Jornadas, algo mais plural e que possibilitasse maior acesso, em todos os sentidos da palavra. Eu e outras participantes não-membros da Escola fomos chamadas a compor o cartel estendido de coordenação junto de membros. Agora, num momento a posteriori, entendo esse convite como uma das maneiras de tentar fazer presente uma extimidade ao já conhecido saber-fazer das Jornadas que acontecem todo ano. Em pouco tempo estávamos nos referindo ao cartel de coordenação como um coletivo. Não sei precisar exatamente em qual momento essa denominação se deu, mas nos acompanhou até a conclusão do evento.

Com o atravessamento da pandemia, da solidão de nossas casas, nos referimos ao pacto coletivo do isolamento social com o lema “Quem puder ficar em casa, por favor fique, por todos nós”. Nesse 2021, já com uma infinidade de vivências na pandemia, ansiamos mais uma vez pelo pacto coletivo das vacinas. Mas afinal, o que do real da pandemia nos leva a clamar por um coletivo?

Como bem colocou Marina Recalde na Estação 3, ao retomar Mbembe, “Os coletivos interpõem, então, um limite a essa brutalidade do Outro ou, ao menos, tentam fazê-lo, para impedir que esse corpo seja massacrado, humilhado, violentado, invisibilizado.” Segundo a autora, há um tipo de identificação que coletiviza e produz esperança. E esperança não é um sentimento fundamental em tempos brutos como esse? Acredito que pudemos recolher um sentimento de esperança ao longo desse ano de trabalho, dado que a comunidade da Seção Rio sustentou o desejo de fazer Escola mesmo quando nos foi imposto seguir trabalhando de um modo inédito, online, sem avistar a luz no fim de túnel[2]. Esse desejo apareceu de diversos modos ao longo das Jornadas.

Como psicanalistas nosso trabalho é sempre com o real. Nesse cenário do real da pandemia, do isolamento, do luto por colegas, da falta de luz no fim do túnel, como não recuar diante desse real aterrorizante que se impôs no ano de 2020? E ainda, como construir Jornadas sem se apoiar em uma experiência prévia? Arrisco dizer que só foi possível por ter sido um trabalho coletivo. Afinal, o que somos nós sem as pessoas?

Segundo Miller, na Escola trata-se de uma formação coletiva que não pretende fazer desaparecer a solidão subjetiva, mas que pelo contrário se funda nela, a manifesta, a revela. É o paradoxo da Escola e também sua aposta, dado que a relação com a causa analítica remete cada um à sua solidão radical, como nos orienta Lacan no Ato de fundação[3]. E participando desse coletivo de solidões singulares, amando no outro o insuportável de si mesmo como pontuou Simone Souto[4], indo na direção contrária dos movimentos segregativos atuais e atualizados, fizemos Jornadas coletivas que deixaram muitos efeitos em todos que participaram.


[1] Miller, Jacques-Alain. Teoria de Turim: sobre o sujeito da Escola. http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_21/Teoria_de_Turim.pdf Acesso em 01 de fevereiro de 2021.
[2] Bassols, Miquel. ¿Qué nos podemos encontrar al final del túnel? https://zadigespana.com/2020/04/05/coronavirus-que-nos-podemos-encontrar-al-final-del-tunel/ Acesso em 01 de fevereiro de 2021.
[3]     Lacan, Jacques. Ato de fundação in Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.
[4]     Souto, Simone. Amar no outro o insuportável de si mesmo. Boletim Um por Um n.358.
X