Jornadas são pontes

Marcia Zucchi

As Jornadas Clínicas são sempre um momento especial do trabalho da Seção Rio e do ICP-RJ.  O cume do trabalho do ano. Tempo de recolhimento do que foi produzido nos cartéis, seminários, cursos, como  também, momento de  exposição desse trabalho para além dos limites da Escola e do Instituto.

Já há vários anos, porém, este é também, o principal momento onde nos abrimos para uma interlocução direta com a cidade, seus problemas, projetos, suas invenções e seus saberes. Saberes e fazeres que circulam e com os quais buscamos pontos de conexão.

Mas 2020 surpreendeu a todos com a pandemia que exigiu das Diretorias da Seção e do Instituto soluções que, ao mesmo tempo, garantissem a segurança sanitária, mas permitindo, também, que nossas produções não se esgotassem na  intimidade da troca entre pares.

As Jornadas foram partilhadas em três tempos, três estações, três rodas de conversa, três cursos, e três conceitos: sintoma, corpo e território. Tudo isso organizado por um fio que ao mesmo tempo furava e costurava esses conceitos, nossos modos de trabalhar, bem como nossos laços, entre nós e com os outros. Esse fio, sugerido pela saudosa Stella Jimenez, foi  o tema do  Exílio. O Exílio que Lacan viu no fundamento da história: Somente deportados participam da história: já que o homem tem um corpo, é pelo corpo que se o tem. Avesso do habeas corpus[1]. Exílio que se apresenta na estrutura do falante, desde a suposta perda da natureza por nossa realidade linguageira, até o exílio do Outro que em sua inconsistência não nos garante qualquer verdade ou certeza de ser.

Mas como vimos nessas Jornadas, exílios pedem pontes, conexões, encruzilhadas, Laroiê, Exu! Estas Jornadas fizeram pontes!

Coube-me coordenar uma das rodas de conversa intitulada Exílios: estrutura e contingência, a partir do trabalho feito ao longo do ano por um Cartel composto por Angela Batista,  Elza Freitas, Elisa Monteiro,  Lenita Bentes, Heloísa Caldas, Sandra Viola e eu mesma.  Esse trabalho, cujos produtos escritos foram publicados no blog das Jornadas, suscitou interesse e questões a outros colegas que entraram na roda conosco, e uma dança animada se produziu com relatos de experiência clínicas vívidos, além de uma boa discussão teórica.

Para mim foi uma experiência alegre,  animada com uma troca em vetor contrário àquele que a pandemia e o desgoverno do país e da cidade produziam.  Ao invés da presença constante e ameaçadora da morte, esse foi um momento de produção viva, alegre, um bom encontro; nao-todo, certamente, mas suficientemente feliz para revitalizar e relançar nosso laço com a psicanálise, o Instituto e a Escola, para 2021.

[1] Lacan, Jacques. Joyce, o Sintoma. in: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. pp. 564-565.


[1] Lacan, Jacques. Joyce, o Sintoma. in: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003. pp. 564-565.
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