Estação Sinthoma. Corpo. Território.

Continuando a conversa….
Ondina Machado

No ano em que nada deu certo, as XXVII Jornadas Clínicas da Seção Rio e do ICP-RJ estiveram na sua melhor forma. O trabalho coletivo teve um resultado coletivo: reuniu nossa comunidade e a ampliou. Os convidados não foram simplesmente convidados, aqueles que nem precisam levar o vinho. Eles fizeram parte do coletivo ampliado, trabalharam previamente em torno do tema proposto e do recorte destacado para cada Estação. Não só o resultado foi excelente, mas a repercussão e os desdobramentos das discussões também. Quero contar-lhes a minha experiência.

As questões relativas à autoestima e à identidade são preciosas para as minorias e delicadas sob o ponto de vista da psicanálise. Tendemos a entendê-los como recursos egóicos que, em geral, criam uma camada de verniz que engessa e compromete a singularidade. O eu nutre-se da expectativa do Outro social forjando para si um modo de ser condescendentemente reativo e pouco criativo, levando a mais exclusão. Por seu lado, o supereu age com a força que o gozo lhe confere e, buscando sempre mais, se alimenta da impossibilidade em unir dever com querer. A singularidade não é conforme, nem sempre o desejo coincide com o que é o melhor, as escolhas que nos são possíveis requerem uma perda. Tudo isso nos faz desconfiar das soluções que não sacrificam os ideais, que não levam em conta o impossível de mudar.

Com essa fé no um a um, custamos a entender a força que o grupo ou território pode ter sobre o sujeito, a utilidade política da identidade com ou sem um trabalho de depuração das identificações. É nesse sentido que entendo o quanto podemos aprender com os movimentos sociais. Foi também por isso que me interessei tanto pelas Estações, em especial a Sinthoma.Corpo.Território.

Vou retomar aqui uma discussão que começou com uma pergunta que enderecei ao Wallace Lino no dia da Estação e que se estendeu através das Mensagens Diretas do Instagram. Em sua fala ele citou o conceito de “amar a negritude” de Bell Hooks e nos forneceu um exemplo: tomar as palafitas, construções típicas da Comunidade da Maré, como símbolo de tecnologia e não como símbolo de pobreza, maneira usual pela qual esse tipo de construção é tratada no discurso branco hegemônico. Minha pergunta foi semeada no atual clima político brasileiro onde qualquer reivindicação ou denúncia, principalmente as vindas de movimentos sociais, é tratada como “mimimi” e vira alvo do escárnio e da ridicularização por parte do atual presidente brasileiro. Minha pergunta era composta de um elogio ao tratamento das palafitas como símbolo tecnológico, mas questionava sobre um possível perigo em se retirar completamente a inscrição dessas construções como signo de pobreza. Minha questão era se com isso não estaríamos endossando uma recente fala do presidente, quando indagado por repórteres, sobre o, à época, assombroso número de 82 mil infectados pelo coronavirus. Na ocasião ele afirmou que “o brasileiro pula no esgoto e não acontece nada”, portanto não haveria problema se nos contaminássemos. Gentilmente, Wallace me respondeu utilizando o argumento da narrativa única, inspirado na concepção da história única de Chimamanda Ngozi Adiche. Segundo a autora o perigo da história única é tomar um fato ou um aspecto de uma pessoa e reduzi-la a isso, sem perceber a rica complexidade que o fato ou a pessoa possam ter além daquele que faria parte de uma espécie de discurso/narrativa/história oficial. Ela aplica esse conceito não só ao âmbito social como também, e principalmente, ao campo político. Não se trata de saber se é uma história verdadeira ou não, mas de não se limitar à narrativa oficial, que ela seja tomada a partir de várias perspectivas, em especial daqueles diretamente implicados.

Questionar a história única está muito próximo do trabalho de fazer vacilar os significantes do Outro que marcaram as nossas identificações. Explorar diversas narrativas é o leito sobre o qual corre uma análise e inventar um modo de gozo a partir das marcas singulares é o que se pode esperar dessa experiência. Achei que o Wallace Lino poderia me ajudar a entender melhor a óbvia, e ao mesmo tempo complicada, interferência do coletivo no singular. Mesmo o subjetivo jogando seu jogo na individualidade, ele também depende da possibilidade de no Outro haver espaço para a invenção que venha a surgir.

Na conversa pelas Mensagens Diretas do Instagram, Wallace reafirmou que a “fratura colonial gera muita dissonância e complexidades”, o que me fez retomar o argumento que faz valer o “amor à negritude” de Bell Hooks. Entendi que esse discurso não é para convencer ninguém, que ele tem todo sentido porque é dirigido à própria comunidade negra. Assim, ele faz o discurso da ancestralidade deslizar da denúncia à valorização ao amor à negritude. Parece que a lógica da denúncia, que é sempre uma demanda dirigida ao Outro, perdeu força ao ser absorvida, e consequentemente, neutralizada, pelos meios de comunicação a ponto de não abalar o racismo estrutural. O que talvez, hoje, se constitua como uma forma de resistência sejam as ações afirmativas e de valorização da cultura, dos saberes, da beleza e do poder de consumo dos negros. Esse novo ativismo recolhe narrativas internas à própria comunidade, dá-lhes um tratamento pela via do amor e as reintroduz por novos significantes-mestres, que correm por fora da norma branca. Esse movimento aposta na construção de gerações de negros orgulhosos de sua ancestralidade.

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