Ecos JORNADAS “Exílios”

Patrícia Paterson

“Estamos em trânsito” – assim se encerrava o inspirado texto, escrito a muitas mãos, que serviu de argumento para as XXVII Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP RJ, intitulada “Exílios” e realizadas em novembro de 2020. O ano pandêmico, que nos impediu os encontros no auditório da casinha acolhedora da Capistrano de Abreu, não poderia passar sem que tivéssemos um gostinho das nossas Jornadas Clínicas anuais – um momento sempre tão rico, pela transmissão e o espaço de interlocução que ajuda a abrir entre a psicanálise e outros campos do saber.

Ao risco de tentar transpor o evento para a plataforma online mantendo o seu formato e acabar por descaracterizá-lo, a resposta foi criar algo totalmente novo. A solução encontrada pela comissão de organização foi “apostar na travessia” e a brilhante metáfora das três Estações – organizadas cada uma delas, respectivamente, em função dos binômios “corpo e território”, “território e sintoma” e “sinthoma e corpo” –, permitiu aos participantes-passageiros que se deixassem transformar por essa jornada. Ao contrário daquela experiência de atividade virtual, em que o ouvinte abre e fecha a tela quando tem vontade, já que o evento vai estar acontecendo sem que ele transforme ou seja transformado por isso, deu-se uma outra forma de encontro. Não creio ter havido espaço para os viajantes-turistas – aqueles que viriam apenas a passeio –, pois a cada Estação um novo caráter do exílio foi convocado e um novo pedaço de cada um foi tocado pela experiência artística e o trabalho político que vinha sendo, pouco a pouco, coletivamente construído. Prova disso foi a animação dos chats de bate-papo da sala virtual e da plataforma online que transmitia cada estação em tempo real para aqueles que não puderam ou não quiseram entrar na sala, em função do limite do número de pessoas,. Mais ou menos calados ou falantes, ninguém saiu como entrou e, neste sentido, talvez possamos dizer que ninguém permaneceu anônimo em relação a seu desejo.

Se entramos com o exílio em sua dimensão estrutural – exílio da língua –, caminhamos pelos corpos exilados, o exílio na cidade. Percorremos o exílio de cada um e algumas das respostas que puderam ser construídas a ele, e nos encontramos, enfim, com o exílio como passagem, travessia, indicado no argumento e reconhecido à medida que fomos nos deslocando nesse espaço-tempo em direção à diferença, ao mais singular. As rodas de conversa guiadas pelos cartéis nos três sábados que se seguiram às Estações, ainda no contexto de cada um dos binômios, ajudaram a garantir que não se perdesse o caráter clínico dessa jornada, fazendo vigorar um espaço alternativo à “pandemia das desigualdades”, no qual a palavra pôde circular, com as perspectivas e experiências de cada um. Por fim, ficamos ainda com a marca do trabalho do ICP, que levantou temas atuais para a discussão, enriquecendo ainda mais o debate sobre os Exílios e fechando com chave de ouro o importante trabalho que se desdobrou e se abriu com essas Jornadas.

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