Ecos das Jornadas Exílios

Astréa da Gama e Silva

Um eco a ressoar de imediato ao mencionarmos nossas últimas Jornadas, é o da gratidão aos organizadores pelo imenso e generoso trabalho. A coragem em assumir riscos propiciou-nos Jornadas incríveis.

O tema exílios proposto por nossa querida Stella nos permite ler em sua raiz, um movimento de “expulsão para fora do lugar”, condição nossa, estrutural de seres falantes.

É um desconforto que nos obriga a um trabalho contínuo, seja procurando habitar um corpo que insiste em nos escapar, seja correndo atrás dos sentidos das palavras, pois, contrariando Caetano Veloso, cuja “canção é só pra dizer e diz”, nós não dizemos o que pretendíamos dizer. É um buscar refúgio de forma incessante para nossa singularidade.

Mas não bastava ficar somente por aí.

O plano inicial de trabalho pretendia nos deslocar para a cidade, visando compartilhar outras formas de exílio, provenientes de diferentes estruturas.

No entanto, fomos atravessados pelo real da pandemia, logo no início do que seria essa travessia.

Já vivíamos uma situação difícil há algum tempo, assistindo diariamente a desconstrução de pilares duramente edificados ao longo dos anos; agora, acrescentava-se a isso a morte dominando a cena.

Obrigados ao isolamento, expulsos “para fora” do nosso cotidiano, longe dos familiares, dos amigos e mesmo do trabalho, até então sempre presencial – eis-nos diante de um novo exílio. Novo foco a suscitar atenção a fim de não paralisarmos como vítimas da exclusão. Paulo Vidal, em seu texto, já nos alertava para a necessidade de mantermos em tensão as duas dimensões diferentes do exílio – a política e a estrutural do ser falante – para seguirmos em movimento.

Vivíamos esse clima, quando ressurgiram os chamados para as Jornadas.

Confesso ter ficado apreensiva. Seria possível suportar um tempo maior ainda “online”? Conseguiria dar conta de ouvir inúmeros trabalhos, alguns muitas vezes intermináveis?

Reuniões preparatórias e textos começaram a nos acordar para o tema. Tempo de configuração de questões.

Chegamos ao momento de embarque. Cada Estação nos transportaria para territórios diferentes dos habituais, conduzidos por guias locais.

Do meu ponto de vista, esse foi o diferencial das Jornadas.

Nossos convidados traziam em suas falas fatos que não eram novos; alguns até constavam em nossos textos. Mas ouvi-los ao som de entonações e marcações tão singulares produziram um efeito impactante e transformador: o conhecido tornou-se estranho! Angústia e perplexidade…

O que guardavam na pele a sustentar tão dolorosas travessias, como no exemplo de Baltar, ao cruzar territórios proibidos da cidade com o passaporte da fotografia?

Ao acompanhá-los em seus percursos, surgem muitas perguntas, que insistem. Há muito para ouvir ainda… Há muito a aprender…

A parada seguinte foram as conversações; espaço de trocas para questões acumuladas ao longo do trabalho. O desejo de contribuir para as Rodas de Conversa gerou um número imenso de colocações, muitas das quais permaneceram em aberto. Certamente, valeria a pena serem retomadas.

Chegamos finalmente ao que constituía a última etapa de cada encontro: os Cursos.

Vale dizer que as restrições sofridas pelo momento também nos trouxeram ganhos. Sem convidados estrangeiros, ficamos mais à vontade com nossa “prata da casa”, como diria minha avó. No curso escolhido por mim, trabalhamos nosso tema pelo viés da literatura, do cinema e de alguns “passes”. Foi simplesmente delicioso!

Finalizando, não posso deixar de mencionar a excelente trilha sonora! E este parece ser outro dos ganhos: talentos revelados por colegas diante de situações inesperadas.

No mais, muito obrigada a todos por desfrutar de um oásis no Brasil desértico que atravessamos.

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