A roda de conversa continua …

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros

Na Roda de Conversa do dia 7 de novembro de 2020, nas Jornadas sobre ”Exílios: corpo, sinthoma e território” surgiram questões que traziam para o debate a tensão entre o coletivo e o individual, consideradas a partir da experiência do exílio e seus destinos. Que respostas cada um pode dar para não encarnar o lugar da exclusão absoluta, que confina algumas vezes com a morte?

Paulo Vidal, em sua provocação para a primeira estação das Jornadas, nos convida a tensionar a dimensão política e histórica do exílio com sua dimensão estrutural, para que o sujeito possa se deslocar e não ficar preso à posição de vítima de uma exclusão.

Quando Lacan diz que “o coletivo não é nada senão o sujeito do individual[1] (1945), ele tira consequências dessa tensão, não para fazer uma oposição, mas para localizar como se articulam, como se enlaçam. O coletivo não é uma justaposição de corpos, não é uma horda dirigida pelo instinto. Um coletivo é uma forma de enlace, que só é possível porque os indivíduos aí em jogo, enquanto seres falantes estão submetidos a um processo de identificação que os divide. O processo de identificação divide e não torna unitário o sujeito, igual ao indivíduo. O coletivo se constitui pelas brechas deixadas abertas em cada um, em seu processo de identificação, e em sua experiência de gozo, que não é absoluto. Quando isso não é levado em conta, os coletivos terminam por se subdividirem ou se tornarem rígidos numa identificação cega ao ideal.

Se consideramos, como Lacan indicou, que o coletivo é o sujeito do individual não temos como não levar em conta o furo que o coletivo faz no individual, o que é bem diferente de pensar que o coletivo dá consistência ao individual. O que pode advir desse furo é bem o que nos interessa, o que interessou a muitos nessa primeira rodada de conversas.

O coletivo como lugar de exílio é o que vemos acontecer hoje na adesão a grupos identitários, nos quais se juntam aqueles que experimentam formas diversas de exclusão. Buscam abrigo para poder lidar com o que vem à tona do exílio próprio ao falasser, nesses momentos em que certas conjunturas obrigam a deixar para trás referências familiares, culturais, geográficas ou a se protegerem de ataques devido a suas posições sexuais. O ser falante, atravessado pelos significantes que o antecedem, não consegue experimentá-los de saída, senão como parasitas, corpo estranho. O processo de identificação se apoia nas marcas deixadas por esses significantes sem fazer uma unidade própria ao indivíduo, mas uma divisão própria ao sujeito. Lembrar que o coletivo é o sujeito do individual é considerar as diferentes formas de divisão que cada um experimenta ao encontrar fora de si, no coletivo a estranheza que lhe habita, que lhe concerne no mais íntimo.

Esse enunciado de Lacan, “o coletivo não é nada senão o sujeito do individual”, pode ter hoje uma força de orientação para que os coletivos, enquanto lugar de abrigo, possam acolher o exílio próprio de cada um, que faz ao mesmo tempo separação e laço.

Podemos apostar assim em coletivos dessegregativos que acolham, que convoquem, que sustentem identificações dessegregativas? Uma aposta de que a identificação dessegregativa possa se enlaçar ao sinthoma que constituí a singularidade de cada um, sua diferença absoluta.

Mas será que isso é possível sem que haja algum tipo de interpretação? Jacques-Alain Miller em sua Teoria de Turim nos diz: “Interpretar o grupo, é dissociá-lo e reenviar cada um dos membros da comunidade a sua solidão”. A solidão de seu sinthoma, o que é bem diferente do isolamento. O apoio na marca singular torna possível lidar com a sua própria estranheza e a estranheza no outro, estranheza do outro que está na raiz dos processos de segregação. E dessa forma poder extrair algo novo do paradoxo sinthoma e laço que se experimenta no coletivo.


[1] Lacan, Jacques: O tempo lógico ( 1945) in Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, pg 213.
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