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O Tabu de um Gozo

by secao_rj in Aconteceu na Seção RJ

Angela Batista

Quando nos referimos as” Contribuições a psicologia do amor” em Freud destacamos: 1 – Sobre um tipo particular de escolha de objeto no homem (1910); 2- Sobre a depreciação da vida erótica (1912); 3- O Tabu da Virgindade (1918) [1917]).

De que trata então as Contribuições a psicologia do amor em Freud? Das questões que concernem a todos nos.  Podemos afirmar que a vida amorosa freudiana é o lugar dos impasses e do mal-entendido entre os sexos de como se relacionam e se escolhem uns aos outros. É o tema da escolha de objeto. Freud introduz na problemática da vida amorosa o complexo de castração onde destaca o princípio da depreciação do homem pela mulher e a hostilidade da mulher para com o homem.

Nessas contribuições a psicologia do amor vemos o que determina o percurso do sujeito em direção ao Outro, na perspectiva do amor, do desejo e do gozo. Escolhi trabalhar a terceira contribuição “O Tabu da virgindade”. A partir de uma frase que me pareceu preciosa; “a libido freudiana tem a cor de um vazio”[i]. Vazio que coloca no centro do amor o objeto pequeno a.  Miller em seu simpósio sobre o amor, fala que essas contribuições são contribuições à doutrina do gozo.

Nessa terceira conferência, Freud se pergunta sobre o acesso ao gozo, destacando o complexo de castração e de seus impasses. A não complementariedade entre os sexos, indica diferentes formas de amar. O objeto de amor para um homem toma a forma fetichista em sua condição de objeto a. O homem reveste a mulher como o falo para apagar o horror da castração e para deseja-la. O gozo feminino se situa do lado do amor, na valorização pelas mulheres do amor em relação ao desejo.

Do deslocamento da mãe a mulher; o que se coloca nessa terceira conferencia é que a mulher é um Tabu. O tabu da virgindade que com Lacan, se situa mais além das formulas da sexuação, no gozo, sempre outro.  Talvez puséssemos perguntar se o Tabu não seria apenas em relação à mulher, mas ao gozo feminino, ao Outro gozo. Em todas as culturas há uma forma de regular o gozo, que no caso da mulher seria uma pressa em inscrever o gozo fálico para tratar o ilimitado desse Outro gozo, do qual elas nada falam.  Esse Outro gozo não está referido ao objeto, sequer ao gozo fálico, mas a S (A) barrado, impossível de simbolizar. Essa definição vai além das posições sexuadas, que não deixam de ser identificações, que não anulam as formulas da sexuação, mas que mostram um gozo ilimitado, devastador.

As condições do amor se apresentam a partir de uma renúncia pulsional onde algo do impossível se manifesta nas parcerias amorosas.  Nesse sentido o caminho de Freud chega ao Tabu, que é da ordem do não tocar, não ir além, chegando a mulher como Tabu, dado que a mulher é do pai. Freud assim parte das condições do amor e chega ao Tabu, ao tabu de um gozo. A mulher é tabu porque é difícil seu acesso aos homens. Assim como as mulheres de outra forma não suportam também os homens. Lembrando Freud, a única esperança está no segundo matrimonio. Nesse sentido há um tabu generalizado a mulher. A mulher é outra não semelhante, inclusive para si mesma, representando o lugar de “Heteros” o Outro absoluto em sua radical alteridade. Não seria esse o segredo das regras para o amor? Manter o enigma que a mulher encarna para sustentar um laço possível entre os sexos?

Nessas três contribuições Freud fala de substituições e de metáforas e metonímias do objeto de amor.  Da mãe enquanto proibida ao gozo impossível. Por isso Lacan pode dizer no Seminário sobre a ética, que das ding, o gozo primário é a mãe. No amor freudiano só há substitutos. Nada de amável, diz Miller.  A eleição introduz o objeto da satisfação enquanto perdido.  No nível do gozo como tal há a Coisa, das ding.  Se há escolha de objeto, não há relação sexual e os divinos detalhes apontam para castração, para a mulher como tabu, fazendo da sua alteridade o princípio da degradação. Cito dois exemplos que revelam os impasses do amor, do desejo e do gozo na vida amorosa de dois personagens.

Manon Lescault é o romance citado por Miller, contado pelo abade Prévost, para falar da de como o amor feminiza na figura da mulher desleal, que encarna a mulher do desejo ( a puta)    aquela mulher sempre do Outro. Manon  e seu  seu parceiro Des Grieux é uma história de amor do tipo romance rosa. A desleal Manon signo da mulher indigna, e Des Grieux representa o pato, o enganado. O amor pela diabólica que pertence a Outros. Manon revela algo de diabólico e incivilizado quando interrogamos o  “que quer uma mulher, senão gozar do amor?

A princesa de Clèves, e também uma citação no curso de Miller sobre Os Divinos detalhes. Ao se apaixonar pelo Sr. de Nemours tem depois de muitos rodeios marca um encontro com ele e ela lhe revela sua paixão.   Por causa disso, ela diz que será o primeiro e último encontro deles. Ele fica atônito e diz: Mas você me distinguiu dos outros homens. Justamente, ela lhe responde. Esse é o obstáculo. Se eu o distingui isso pode acontecer a uma outra mulher. E se isso acontece, eu serei infeliz. Ele lhe fala de sua paixão.  Ela retruca dizendo que a paixão não dura. Ela recusa conhecer a infelicidade do ciúme. Entre suas razoes para renunciar revela a principal: Por vaidade ou por gosto, todas as mulheres lhe desejam. Outras mulheres o amarão. Você me deixara.  Os homens são inconstantes e infiéis. O único homem que teria sido fiel a mim, é o Sr. de Clèves que tinha uma única razão para isso- eu não o amava. E encerra a conversa.  Assim ela prefere se exilar do amor, onde será uma única absoluta para seu amante, uma a menos para sempre[ii].

Lacan, explicita essa impossibilidade no seminário livro 18: “de um discurso que não fosse semblante” onde mostra a conjunção e disjunção entre o gozo e o semblante. O Semblante é o falo como o significante da diferença sexual.  O homem e a mulher se encontram na interseção entre dois gozos, que mostram o desencontro estrutural.  Sendo assim a terceira contribuição de Freud revela o segredo das condições de amor. Os atrativos femininos dependem de um véu, em relação ao não ter, que se torna desejo. Essas condições do amor são diversas formas de diminuir a alteridade da mulher sem faze-la desaparecer. A erótica lacaniana seria a do homem sem rodeios (ambages), um homem que não temeria a mulher, ou que a mulher não fosse um tabu. O homem sem rodeios, seria aquele capaz de fazer parceria com a mulher como Outro. Lacan inventou um real próprio á psicanalise. Um real que se alcança através da contingencia do amor. Essa contingencia demonstra a impossível harmonia do gozo que se encontrava velada pelos semblantes do amor. 1

Trago para discussão a questão sobre as condições do amor na atualidade, onde a mulher enquanto Outro radical, se desloca do Tabu que possibilita a diferença e que permite o laço entre os sexos  para o  ódio, sem velamento da diferença,  através de actings e passagens ao ato,  a partir de uma diferença que precisa ser eliminada na nossa época do empuxo ao idêntico . Byung Chul Han[iii], o filosofo coreano, diz que O trauma é o sexual, mas que o violento é o idêntico. Laurent lembra de paradoxos do individualismo democrático de massa na autossuficiência do sujeito na atualidade no gozo que não faz laço.[iv]

Gostaria que discutíssemos a partir do texto de Miller o que pode regular o gozo das relações entre os sexos, na atualidade, pensando a solidão entre os sexos e os destinos da pulsão de morte, “ expulsão do Outro do amor” no apagamento da alteridade e de suas consequências, onde o Tabu a mulher se desloca para o ódio ilimitado  em detrimento  do enigma da” cor do vazio”, do Heteros do feminino.


[i] Miller, J Alain-“ Os divinos Detalhes – 1989- Grama Ed.  Lição V – “O tabu de um gozo”.
[ii]Naveau Pierre- Os Homens, as mulheres e os semblantes- Papers Congresso Semblantes e Sinthoma VII Congresso da AMP- Paris 2010
[iii] Byung Chul Han” A Expulsão do Outro”  Ed Vozes
[iv] Laurent Eric- El Traumatismo del final de la politica de las identidades-  XVI Jornadas DA ELP 2017 Boletim

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