{"id":4485,"date":"2025-01-21T06:20:20","date_gmt":"2025-01-21T09:20:20","guid":{"rendered":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/?p=4485"},"modified":"2025-01-21T06:20:20","modified_gmt":"2025-01-21T09:20:20","slug":"os-jovens-e-o-saber-uma-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/os-jovens-e-o-saber-uma-porta\/","title":{"rendered":"Os jovens e o saber: uma porta"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: 13px;\">Nelson Matheus Silva &#8211; Participante da NPJ<\/span><br \/>\n<span style=\"font-size: 13px;\">Cartel: Nova Pol\u00edtica da Juventude &#8211; O ensino da Psican\u00e1lise e a forma\u00e7\u00e3o do analista, mais-um: S\u00e9rgio Laia AME EBP\/AMP<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-4486\" src=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_007-1024x819.png\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_007-1024x819.png 1024w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_007-300x240.png 300w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_007-768x614.png 768w, https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/litoraneo_016_007.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p>Este trabalho \u00e9 produto de um Cartel em curso intitulado <em>O ensino da Psican\u00e1lise e a forma\u00e7\u00e3o do analista<\/em>, cujos componentes s\u00e3o Paula Noquet (colega de Joinville\/NPJ), Cristiane Barreto (EBP\/MG), Claudia Santana (EBP\/SP), Sergio Laia (AME da AMP\/EBP\/MG e +1) e eu. Nosso Cartel \u00e9 vinculado \u00e0 Nova Pol\u00edtica da Juventude, formado de um modo pr\u00f3prio, eu diria que ele entra na categoria de multi-uso, uma vez que sua organiza\u00e7\u00e3o de trabalho e seus integrantes foram propostos pela Comiss\u00e3o de Garantia e pelo Conselho da Escola Brasileira de Psican\u00e1lise. O que nos uniu, mais al\u00e9m desse ponto, foi o desejo de Escola.<\/p>\n<p>A Nova Pol\u00edtica da Juventude oferta que fa\u00e7amos uma demanda; na possibilidade do bater \u00e0 porta, a obten\u00e7\u00e3o de um signo de amor. Na demanda de amor o que se vela \u00e9 o seu objeto, isto \u00e9, o saber, saber enquanto <em>suposi\u00e7\u00e3o<\/em>. Em seu <em>Semin\u00e1<\/em><em>rio 20<\/em>, Lacan diz que &#8220;aquele a quem eu suponho o saber, o amo<strong><sup>[1]<\/sup><\/strong>&#8220;. S\u00f3crates j\u00e1 havia nos ensinado que o objeto agalmatizado \u00e9 o saber. E se esse objeto p\u00f4de ser deslocado dele para Agat\u00e3o \u00e9 justo porque era o pr\u00f3prio Alcib\u00edades a agalma, era nele que estava o saber, um saber n\u00e3o sabido, um saber furado.<\/p>\n<p>A primazia da experi\u00eancia do saber sobre a teoria \u00e9 a marca do ensino de Lacan, e como tal \u00e9 o que est\u00e1 no centro de sua Escola. &#8220;A palavra Escola j\u00e1 diz muito&#8221; &#8211; escreve Colette Soler em <em>A Cause de Jacques Lacan<\/em>, uma publica\u00e7\u00e3o de 1991 &#8211; &#8220;coloca o acento sobre o ensino e o estudo, subentendida \u00e0 transfer\u00eancia que \u00e9 implicada, em refer\u00eancia \u00e0s Escolas antigas, anteriores ao corte da ci\u00eancia&#8221;. O ponto \u00e9 que a rela\u00e7\u00e3o entre o <em>saber suposto<\/em> com o <em>saber exposto<\/em>, ao mesmo tempo que interroga sobre a forma\u00e7\u00e3o do analista, estabelece uma rela\u00e7\u00e3o de gangorra entre o M\u00faltiplo e o Um, entre o que desagrega e o que agrega<sup>[2]<\/sup>.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhum <em>le dimanche de la vie<\/em><strong><em><sup>[3]<\/sup><\/em><\/strong>, como me fez concluir Queneau. A pot\u00eancia da psican\u00e1lise est\u00e1 exatamente em poder sustentar que h\u00e1 um furo no saber. <em>Expor um saber<\/em> \u00e9 dizer de uma verdade que p\u00f5e em ato o lugar do sujeito no discurso. Quando se fala, o que se p\u00f5e de manifesto \u00e9 o S(\u023a). Como para cada um se fez existir a dimens\u00e3o do furo, coloca a possibilidade de diz\u00ea-lo a partir de um efeito daquilo que se pode considerar <em>como um efeito de forma\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>\u00c9 desse modo que a Escola passa a ser um lugar de inseguran\u00e7a: ela impossibilita o estabelecimento de uma enuncia\u00e7\u00e3o <em>para todos<\/em>. \u00c9 um paradoxo, uma vez que \u00e9 nela que a <em>dessuposi\u00e7\u00e3<\/em><em>o de saber<\/em> encontra um ref\u00fagio para o mal-estar na cultura. Por essa raz\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 como conceber a Escola a n\u00e3o ser como um conjunto aberto: <em>uma prolifera\u00e7\u00e3<\/em><em>o de furos<\/em><strong><em><sup>[4]<\/sup><\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Em 1971, em seu escrito <em>Ato de Funda\u00e7\u00e3o<\/em>, Lacan dir\u00e1 que, sobre a admiss\u00e3o na Escola, que ela ter\u00e1 como condi\u00e7\u00e3o que se haja introduzido no discurso anal\u00edtico, que se &#8220;saiba que eles iniciaram essa empreitada, onde e quando&#8221;<sup>[5]<\/sup>. Em 1974, voltar\u00e1 a diz\u00ea-lo, desta vez aos italianos, que seria preciso verificar que algu\u00e9m tenha se analisado para ser admitido na Escola. \u00c9 o sintoma que est\u00e1 dado de entrada, <em>Um por Um<\/em>, sem exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As admiss\u00f5es, entretanto, deixaram de lado os<em> jovens<\/em><sup>[6]<\/sup>. E n\u00e3o haveria de ser diferente. O <em>curr\u00edculum<\/em> passou a exigir um percurso \u201cimposs\u00edvel de se cumprir antes dos 50 anos de idade\u201d<sup>[7]<\/sup>, \u00e9 o que falou Miller em sua interven\u00e7\u00e3o no ano passado e intitulada pela EOL como <em>Reinventar la Escuela<\/em>. Esta observa\u00e7\u00e3o feita por Miller n\u00e3o visaria mostrar como a Escola tomou uma dire\u00e7\u00e3o tal que fez do jovem algu\u00e9m que deveria formar-se sem contar com ela como um lugar para conduzir-se e de nela obter alguma garantia?<\/p>\n<p>Alberti<sup>[8]<\/sup> interpreta a juventude, sens\u00edvel ao discurso contempor\u00e2neo, ao situar a import\u00e2ncia dos jovens na Escola como uma <em>necessidade de discurso<\/em>, uma necessidade de que exista a psican\u00e1lise. Ela chamar\u00e1 os jovens de &#8220;uma placa sens\u00edvel&#8221;. &#8220;A Nova Pol\u00edtica da Juventude tem como objetivo recuperar o tempo perdido<sup>[9]<\/sup>&#8220;.<\/p>\n<p>A conjuga\u00e7\u00e3o da enuncia\u00e7\u00e3o com o trabalho de Escola coloca um acento no amor e no seu objeto privilegiado, o saber. Uma vez desvelado, o saber mostra-se <em>em fracasso<\/em><sup>[10]<\/sup>, n\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o o s\u00ea-lo; condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel que permite que um candidato se forme naquilo que faria tal saber advir, isto \u00e9, a ignor\u00e2ncia, uma &#8220;paix\u00e3o que deve dar sentido a toda a forma\u00e7\u00e3o anal\u00edtica&#8221;<sup>[11]<\/sup>. A paix\u00e3o pela ignor\u00e2ncia, discernida do obst\u00e1culo interno que ela pode representar para uma an\u00e1lise, coloca algu\u00e9m frente ao desejo de saber. <em>Querer saber<\/em>, ali onde antes havia um <em>n\u00e3<\/em><em>o querer saber<\/em>, marca um giro no discurso e aponta para o que pode vir a ser o emergir de um desejo como causa, a inven\u00e7\u00e3o de um <em>amor in\u00e9<\/em><em>dito<\/em>.<\/p>\n<p>O tema da abertura da Escola ao novo nos convida a olhar como o deus Jano, para dentro e para fora, para o passado e para o futuro. \u00c9 preciso, ademais, <em>&#8220;<\/em>saber acrescentar \u00e0 porta do cartel \u2014 regida pelo todo e o Mais-Um \u2014, uma outra porta ao n\u00e3o-todo, verdadeira entrada Um\u00d7Um<strong><sup>[12]<\/sup><\/strong><em>.<\/em>&#8221; S\u00e3o os signos de amor, por\u00e9m, o que j\u00e1 apontam de entrada para essa transforma\u00e7\u00e3o no discurso como tamb\u00e9m para as respostas que podem advir diante da oferta de que se demande, e s\u00e3o eles que possibilitam fazer da Escola um la\u00e7o. Uma vez que a porta se faz aberta e o porteiro convidativo, minha pergunta passa a ser sobre como fazer desejar: como fazer a Escola desej\u00e1vel aos jovens mais al\u00e9m de seu <em>desencanto<\/em>?<\/p>\n<hr \/>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[1]<\/sup> LACAN, J. (1972-73) <em>O semin\u00e1rio, livro 20: mais, ainda<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p.91.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[2]<\/sup> ANTELO, M. APUD Dias Batista, M. C. A EBP e a Mutualidade. In: <em>Correio, Revista Brasileira Internacional de Psican\u00e1lise<\/em>, N. 28. S\u00e3o Paulo: EBP, 2000, p. 2.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[3]<\/sup> SILVA, N. M. Le Dimanche de La Vie, Mon Cul. In: <em>Agente &#8211; revista de psican\u00e1lise<\/em>. Salvador: Escola Brasileira de Psican\u00e1lise, Se\u00e7\u00e3o Bahia, n. 20, set 2023.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[4]<\/sup> BRODSKY, G. Pasi\u00f3n l\u00facida. In: <em>Pasiones lacanianas.<\/em> Olivos : Grama Ediciones, 2020, p. 55.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[5]<\/sup> LACAN, J. (1971) <em>Ato de Funda\u00e7\u00e3o<\/em>. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 240.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[6]<\/sup> MILLER, J-A. Entrevista a Jacques-Alain Miller por El Caldero de la Escuela. In: <em>El Caldero de la Escuela<\/em>, N. 32, Buenos Aires: Grama, p. 3-4.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[7]<\/sup>\u00a0\u00a0 MILLER, J-A. <em>Reinventar la Escuela?: preguntas porte\u00f1as<\/em>. Olivos: Grama, 2024, p. 22.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[8]<\/sup> ALBERTI, C. Placa Sensible. In: <em>Mond\u014d<\/em>, 3a Edi\u00e7\u00e3o. \u00daltimo acesso em 10 de Maio de 2024. Link: <a href=\"https:\/\/mondodispatch.com\/es\/2023\/12\/11\/placa-sensible\/\">https:\/\/mondodispatch.com\/es\/2023\/12\/11\/placa-sensible\/<\/a><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[9]<\/sup> MILLER, J-A. <em>Reinventar la Escuela?: preguntas porte\u00f1as.<\/em> Olivos: Grama, 2024, p. 23.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[10]<\/sup> LACAN, J. Lituraterra. In: <em>Outros escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 2003, p. 17 e 18.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[11]<\/sup> LACAN, J. (1955) Variantes do tratamento-padr\u00e3o. In: <em>Escritos<\/em>. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 360.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10px;\"><sup>[12]<\/sup> ANTELO, M. <em>De Entrada: A Porta e Um Japon\u00eas<\/em>. In\u00e9dito.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nelson Matheus Silva &#8211; Participante da NPJ Cartel: Nova Pol\u00edtica da Juventude &#8211; O ensino da Psican\u00e1lise e a forma\u00e7\u00e3o do analista, mais-um: S\u00e9rgio Laia AME EBP\/AMP Este trabalho \u00e9 produto de um Cartel em curso intitulado O ensino da Psican\u00e1lise e a forma\u00e7\u00e3o do analista, cujos componentes s\u00e3o Paula Noquet (colega de Joinville\/NPJ), Cristiane&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"post_series":[],"class_list":["post-4485","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-boletim-litoraneo","entry","no-media"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4485","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4485"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4485\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4487,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4485\/revisions\/4487"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4485"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4485"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4485"},{"taxonomy":"post_series","embeddable":true,"href":"https:\/\/ebp.org.br\/nordeste\/wp-json\/wp\/v2\/post_series?post=4485"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}